Ouvir toda palavra
primeiro
com os olhos.
Descobrir
seu volume
em silêncio.
Tatear seu som
manuscrito aceso
no peito.
Só depois,
com o sentido nas mãos,
deixar verter pela boca escrita nova.
Singular,
pessoal
e transferível.
Sob a voz alta
que alcança o segredo
da fome aberta nos olhares alheios.
PREFÁCIO [ou VOX
ALTA]
***
I
A Car(t)ola
Na liturgia do samba
dançam boas novas
& antigos evangelhos.
II
A Antoine
As rosas não falam; escrevem
(a música, a si e a quem ouça).
– Vai rever as
rosas.
antoine
de saint-exupéry
TIRANDO CARTOLA
***
(Vi)
na
maré
cheia
de lua
(rio)
entre
o torpedo
e a praia
(absoluto)
o mar
é todo
alvo.
O alento heroico do
mar tem seu polo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.
cecília meireles
MIRANTE
para
Pedro Carvalho Santos
***
Nada mais amansa a ansiedade
ou disfarça a tensão do anseio
morado em teu mistério corado;
talhado na terra dos instintos a vésperas de quilates raros,
teu enigma tanto fundo sacia a ambição avoada de teu seio
como alto incandesce a vontade do veio do leito imaginado:
de chama rara, queima os ponteiros dos
olhos do tempo;
toda bem acesa, é a âncora-luz dos espasmos mais altos.
E não terás de abrir-nos os escaninhos dos olhos
para se perderem todos em contação de estrelas
ou enxergar a voz estreita do êxtase madrugado.
A foz de teus arrepios, violenta e liberta às avessas,
não se acaricia ao vislumbrar a superfície do visível
(ela melhor se delicia, deságua e brinda
sob a entrega da cega alvorada vívida
ancorada no átimo do orgasmo das liras).
DE OLHOS BEM FECHADOS
***
Nos ares de uma segunda-feira
o dia transparece, não enxerga;
Lança a asa vagarosa da tarrafa de
despertar
sobre o delta do céu rumo ao cais das
janelas.
– A aurora pinta sua luminosidade
didática
tramando refinos no tom cerzido aos
olhos.
(Como se me fosse necessário ver,
avança de luz além da íris do avião.)
Já a rede da noite, secreta descoberta,
firmara seu tom sem precisões de lume.
Delas, prefiro a que melhor cegue,
senha furta-cor na cor do invisível:
é impressão que não solta da pele,
nem mesmo depois que amanhece.
Pé ante pé, do leito,
aproxima-se um verso
para a canção de
despertar
mario quintana
DAY-AFTER
*Autor do livro de
poemas Segredaria, Cel Bentin é paulistano, nascido no fim dos anos 70.
Integrou a Antologia do 1º Prêmio Cassiano Nunes – Concurso Nacional de Poesias
(Universidade de Brasília – UnB), o flipbook Asfalto (Publicações Iara) e meia
dúzia de sites/blogs e zines. Revisa textos por ofício, como quem ouve a voz
que escreve. Gosta de teatro e cinema; prefere o cajón à poltrona. Sente que
palavra é bicho mais denso do que as gramáticas pregam e a tabela periódica
imagina. Desconfia do querer dizer: desafia e firma fé é no (se) ouvir falar
que a intimidade de quem lê ampara, provoca ou renega. Acredita em
profundidades que apontam para o alto. Mais jamais confessa (e anuncia): só
segreda.
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