Leituras de Pré-morte
Então foi mais ou menos assim:
havia as dores. Muitas, diversas. Físicas (como se as da alma já não
bastassem), mas estas eram novidade. Não se sabe ao certo quando elas começaram.
Sabe-se mais ou menos quando foi o ápice. Meses e meses adiando a fatídica
consulta, que levaria ao fatídico exame. Consulta feita. Exames adiados, até
que seu cônjuge olha pra você e diz, E aí, aquele exame? Tudo bem, vou fazer em
janeiro, você responde. Parando um pouco pra pensar melhor, você percebe que
realmente já adiou o suficiente, as dores continuam, deve ter mesmo algo de
errado.
E tinha. De muito, muito errado.
É preciso fazer aquelas coisinhas
chatas, quimio, cirurgia, mas depois disso, vida normal. Normal por quanto
tempo? Um, dois anos. Se o senhor tivesse procurado orientação antes, mas a
essa altura... (Havia sido pedido ao médico que fosse sincero, e ele foi).
Então era isso: eu tinha mais um
ano, um ano e pouco, levando uma vida normal. Depois disso, ia precisar ser
cuidado por alguém, alguém este que poderia querer adiar minha morte até o
último segundo, colocando papinha na minha boca, acabando de vez com o juízo
que muito provavelmente, a essa altura, eu já não teria mais. Antes disso,
claro, eu colocaria uma bala na cabeça. Mas antes da bala de prata que viria a
matar o lobisomem, eu tinha um tempo pra viver. E, clichê ou não clichê, iria
vivê-lo, só que do meu jeito.
Pensando que a esta altura eu já
tinha conhecido o Japão, que era o único lugar que eu realmente tinha vontade de conhecer na vida, podia morrer em paz. Mas havia ainda
outras viagens que eu não havia feito: a dos inúmeros livros que eu gostaria de
ler antes da visita à última estação. Um ano. No máximo dois, antes da bala
entrar por uma têmpora e sair pela outra ou se alojar bem no meio do cérebro,
abreviando um não merecido período de sofrimento, constrangimento e humilhação
– ainda que eu não tivesse consciência alguma, lá pelo fim.
Nunca fui o tipo de cara que não falta
a um churrasco com amigos, adora sair pra beber, festinhas, farrinhas, nada
dessas coisas que se trata no diminutivo, mas as quais se costuma pensar como
superlativas. Sempre gostei do meu canto, da minha concha, saindo pouco,
programas usualmente leves como uma brisa, de uma tranquilidade de mosteiro.
Assim, eu já sabia como iria gastar esses seiscentos e poucos dias. Restava-me
saber então: O que ler?
Fiz um cálculo rápido: se em um
ano eu geralmente conseguia ler uns 40 livros em média, apesar das inúmeras horas
de trabalho, dos afazeres-extra diários, agora que eu iria me concentrar em
viver apenas, conseguiria ler pelo menos uns sessenta, fácil.
O caminho a seguir é que era meio
difícil. Quando você não sabe quando vai morrer, mas também não há nenhuma
perspectiva pra isso, considera-se que há tempo, de modo que a vida de leitor
vai se pautando pelas vontades, pelo desejo – e se Freud dizia que a coisa que
mais ardentemente fazemos na vida é desejar, que o que mais queremos é ter
prazer – pelo menos dentro do tangível –, acabamos por respeitar essa “máxima
Freudiana”, por assim dizer.
Como sabemos, não era esse o meu
caso. Aquela musiquinha da contagem regressiva já estava na minha cabeça há
dias,
e só um tolo não saberia que quando ela terminasse de tocar seria também o meu
fim. Tempus fugit!, avisa-nos o sábio
poeta romano Virgílio, lembrando a todos (sim, pra alguns se faz necessário dar
esse toque) que o tempo voa. E essa, que é a verdade de tudo e de todos,
parecia ser a minha mais do que a de qualquer outro ser ou coisa que visse o
nascer do sol todos os dias. Muito em breve, o chão que eu pisava não mais
veria os meus rastros.
Porém, enquanto isso, nada de
cinza e sombras. O negócio era festejar, era me sentir no meio de um frevo em
Olinda! Era hora de fazer as escolhas. Primeiro, saí perguntando a amigos
queridos o que eles leriam se tivessem com os dias contados. Alguns olharam pra
mim com a sobrancelha arqueada, e literalmente diziam, Que tipo de pergunta é
essa? Ora, eu quero saber precisamente o que perguntei, é difícil assim
responder? Eu mesmo estava vendo que era, claro que era. (Quase) ninguém pensa
nisso. E quando pensam, logo lembram que têm outras coisas “mais importantes”
nas quais pensar, como o que deixariam no testamento, para quem doariam seus
cães, gatos ou calopsitas, se as contas estavam todas em dia, se o plano de
saúde cobria os gastos. Esse pessoal que pensa saber todas a lições de como se
deve viver. Outros me diziam que não era pra eu ficar pensando nisso, que
pensar no fim “dava azar”, “atraía energias negativas” e que “aí é que eu iria
mais cedo pro buraco”. Animadores, esses meus amigos. Mas eu não perdia a esportiva:
Nem pra buraco eu vou, vou virar carvão, pó, cinzas, precisa nem pagar jazigo,
e vocês jogam onde quiserem!”. Outros, ainda, com os olhos cheios d’água, se
recusavam a responder. E tinham aqueles que tentavam dar dicas de livros, como
se eu tivesse perguntado que livros de autoajuda
eu queria ler enquanto esperava O Grande Dia, também conhecido como O Dia do
Desembarque. Esqueçam, meu povo, não é nada disso!
Finalmente, alguns levaram minha
pergunta a sério: a obra completa de fulano ou de sicrano (mas e os tantos
outros bons autores?), os clássicos (a maioria era enorme, teria eu tempo?), os
infantojuvenis que eu ainda não havia lido (pra relembrar minha infância,
talvez, e esquecer que o relógio, que me fizera chegar até aqui, era também meu
inimigo?), a bíblia (fábula por fábula, prefiro os irmãos Grimm, Esopo, La Fontaine , ou um bom papo
com os amigos).
No fim das contas, tudo se volta
para o que Freud disse antes, ao dizer que o ser humano é, em sua plenitude, o
mais profundo desejo. E como exterminá-lo? Com algo que, temporariamente, possa
saciá-lo. Beber na fonte do prazer é abrir a boca diante de uma fonte
inesgotável. Quem diabos cansa do prazer? O prazer pede sempre mais prazer. Ter
os anseios saciados jamais decretará a corrente e o cadeado na porta do Túnel
dos Desejos. Au contraire. O que nos
mantém vivos não é outra coisa senão a capacidade de desejarmos sempre, o que
não significa que esses desejos sejam cada vez mais megalomaníacos. Posso
continuar desejando as mesmas coisas (de maneira diferente, ou não). Mas o
desejo não se finda em si mesmo. Que graça a vida teria se parássemos de
desejar? A depressão não seria, dentre outras coisas, a morte do desejo?
Querer, ter vontades, é tanto o que nos leva à selvageria como ao gozo. O
oposto disso seria a morte, que cairia como uma bênção.
Sabendo do tempo que se esgotava,
portanto, e querendo manter-me vivo, eu obedeceria aos meus instintos, e só.
Pegaria um livro bom de um autor que eu admiro (nenhum problema em deleitar-me
com o que me é familiar), ou um que eu quisesse descobrir (nunca é tarde,
certo?), ou ainda um dos tempos em que viver ou morrer não era uma questão, e
reencontrá-lo. Eu, afinal, não estava com pressa de encontrar todos os
autores-defuntos que amo e amei noutra vida, se é que ela existe.
Meu último desejo seria, hoje e
sempre, pedir por mais livros.

Texto perturbador e pungente. Causou em mim inúmeras e angustiantes identificações.
ResponderEliminarAs interessantes relações que irrompem entre desejo e morte foram tecidas de maneira sensivelmente impactante.
Em minha Pré-morte, eu (re)leria, sem dúvida, o máximo que pudesse da obra de Virginia Woolf.
"Que inimigo percebemos agora a avançar contra nós? É a morte. A morte é o inimigo. É contra a morte que cavalgo com minha lança erguida e meu cabelo voando atrás de mim (...). Cravo as esporas em meu cavalo. Vou lançar-me contra ti, imbatível e inflexível, ó Morte!"
[As Ondas]