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6 de fevereiro de 2014
Leituras de Pré-morte

Leituras de Pré-morte



Então foi mais ou menos assim: havia as dores. Muitas, diversas. Físicas (como se as da alma já não bastassem), mas estas eram novidade. Não se sabe ao certo quando elas começaram. Sabe-se mais ou menos quando foi o ápice. Meses e meses adiando a fatídica consulta, que levaria ao fatídico exame. Consulta feita. Exames adiados, até que seu cônjuge olha pra você e diz, E aí, aquele exame? Tudo bem, vou fazer em janeiro, você responde. Parando um pouco pra pensar melhor, você percebe que realmente já adiou o suficiente, as dores continuam, deve ter mesmo algo de errado.

E tinha. De muito, muito errado.

É preciso fazer aquelas coisinhas chatas, quimio, cirurgia, mas depois disso, vida normal. Normal por quanto tempo? Um, dois anos. Se o senhor tivesse procurado orientação antes, mas a essa altura... (Havia sido pedido ao médico que fosse sincero, e ele foi).

Então era isso: eu tinha mais um ano, um ano e pouco, levando uma vida normal. Depois disso, ia precisar ser cuidado por alguém, alguém este que poderia querer adiar minha morte até o último segundo, colocando papinha na minha boca, acabando de vez com o juízo que muito provavelmente, a essa altura, eu já não teria mais. Antes disso, claro, eu colocaria uma bala na cabeça. Mas antes da bala de prata que viria a matar o lobisomem, eu tinha um tempo pra viver. E, clichê ou não clichê, iria vivê-lo, só que do meu jeito.

Pensando que a esta altura eu já tinha conhecido o Japão, que era o único lugar que eu realmente tinha vontade de conhecer na vida, podia morrer em paz. Mas havia ainda outras viagens que eu não havia feito: a dos inúmeros livros que eu gostaria de ler antes da visita à última estação. Um ano. No máximo dois, antes da bala entrar por uma têmpora e sair pela outra ou se alojar bem no meio do cérebro, abreviando um não merecido período de sofrimento, constrangimento e humilhação – ainda que eu não tivesse consciência alguma, lá pelo fim.

Nunca fui o tipo de cara que não falta a um churrasco com amigos, adora sair pra beber, festinhas, farrinhas, nada dessas coisas que se trata no diminutivo, mas as quais se costuma pensar como superlativas. Sempre gostei do meu canto, da minha concha, saindo pouco, programas usualmente leves como uma brisa, de uma tranquilidade de mosteiro. Assim, eu já sabia como iria gastar esses seiscentos e poucos dias. Restava-me saber então: O que ler?

Fiz um cálculo rápido: se em um ano eu geralmente conseguia ler uns 40 livros em média, apesar das inúmeras horas de trabalho, dos afazeres-extra diários, agora que eu iria me concentrar em viver apenas, conseguiria ler pelo menos uns sessenta, fácil.

O caminho a seguir é que era meio difícil. Quando você não sabe quando vai morrer, mas também não há nenhuma perspectiva pra isso, considera-se que há tempo, de modo que a vida de leitor vai se pautando pelas vontades, pelo desejo – e se Freud dizia que a coisa que mais ardentemente fazemos na vida é desejar, que o que mais queremos é ter prazer – pelo menos dentro do tangível –, acabamos por respeitar essa “máxima Freudiana”, por assim dizer. 

Como sabemos, não era esse o meu caso. Aquela musiquinha da contagem regressiva já estava na minha cabeça há dias, e só um tolo não saberia que quando ela terminasse de tocar seria também o meu fim. Tempus fugit!, avisa-nos o sábio poeta romano Virgílio, lembrando a todos (sim, pra alguns se faz necessário dar esse toque) que o tempo voa. E essa, que é a verdade de tudo e de todos, parecia ser a minha mais do que a de qualquer outro ser ou coisa que visse o nascer do sol todos os dias. Muito em breve, o chão que eu pisava não mais veria os meus rastros.

Porém, enquanto isso, nada de cinza e sombras. O negócio era festejar, era me sentir no meio de um frevo em Olinda! Era hora de fazer as escolhas. Primeiro, saí perguntando a amigos queridos o que eles leriam se tivessem com os dias contados. Alguns olharam pra mim com a sobrancelha arqueada, e literalmente diziam, Que tipo de pergunta é essa? Ora, eu quero saber precisamente o que perguntei, é difícil assim responder? Eu mesmo estava vendo que era, claro que era. (Quase) ninguém pensa nisso. E quando pensam, logo lembram que têm outras coisas “mais importantes” nas quais pensar, como o que deixariam no testamento, para quem doariam seus cães, gatos ou calopsitas, se as contas estavam todas em dia, se o plano de saúde cobria os gastos. Esse pessoal que pensa saber todas a lições de como se deve viver. Outros me diziam que não era pra eu ficar pensando nisso, que pensar no fim “dava azar”, “atraía energias negativas” e que “aí é que eu iria mais cedo pro buraco”. Animadores, esses meus amigos. Mas eu não perdia a esportiva: Nem pra buraco eu vou, vou virar carvão, pó, cinzas, precisa nem pagar jazigo, e vocês jogam onde quiserem!”. Outros, ainda, com os olhos cheios d’água, se recusavam a responder. E tinham aqueles que tentavam dar dicas de livros, como se eu tivesse perguntado que livros de autoajuda eu queria ler enquanto esperava O Grande Dia, também conhecido como O Dia do Desembarque. Esqueçam, meu povo, não é nada disso!

Finalmente, alguns levaram minha pergunta a sério: a obra completa de fulano ou de sicrano (mas e os tantos outros bons autores?), os clássicos (a maioria era enorme, teria eu tempo?), os infantojuvenis que eu ainda não havia lido (pra relembrar minha infância, talvez, e esquecer que o relógio, que me fizera chegar até aqui, era também meu inimigo?), a bíblia (fábula por fábula, prefiro os irmãos Grimm, Esopo, La Fontaine, ou um bom papo com os amigos).

No fim das contas, tudo se volta para o que Freud disse antes, ao dizer que o ser humano é, em sua plenitude, o mais profundo desejo. E como exterminá-lo? Com algo que, temporariamente, possa saciá-lo. Beber na fonte do prazer é abrir a boca diante de uma fonte inesgotável. Quem diabos cansa do prazer? O prazer pede sempre mais prazer. Ter os anseios saciados jamais decretará a corrente e o cadeado na porta do Túnel dos Desejos. Au contraire. O que nos mantém vivos não é outra coisa senão a capacidade de desejarmos sempre, o que não significa que esses desejos sejam cada vez mais megalomaníacos. Posso continuar desejando as mesmas coisas (de maneira diferente, ou não). Mas o desejo não se finda em si mesmo. Que graça a vida teria se parássemos de desejar? A depressão não seria, dentre outras coisas, a morte do desejo? Querer, ter vontades, é tanto o que nos leva à selvageria como ao gozo. O oposto disso seria a morte, que cairia como uma bênção.

Sabendo do tempo que se esgotava, portanto, e querendo manter-me vivo, eu obedeceria aos meus instintos, e só. Pegaria um livro bom de um autor que eu admiro (nenhum problema em deleitar-me com o que me é familiar), ou um que eu quisesse descobrir (nunca é tarde, certo?), ou ainda um dos tempos em que viver ou morrer não era uma questão, e reencontrá-lo. Eu, afinal, não estava com pressa de encontrar todos os autores-defuntos que amo e amei noutra vida, se é que ela existe.

Meu último desejo seria, hoje e sempre, pedir por mais livros.
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4 de fevereiro de 2013
Três abismos para a morte - I, por Roberto Menezes

Três abismos para a morte - I, por Roberto Menezes






por Roberto Menezes
Nota introdutória
Aqui, agora, dou início a uma curta série de textos que buscarão no abismo da morte conhecer a profundidade do escuro. Eu mesmo pergunto-me porque tão curta se tão longa poderia ser. Um: medo do naufrágio. Dois: medo das sereias. Três: é um número que me cativa, por ser verdadeiro quando verdadeiro, mas sempre com a presença da possibilidade de mentira. Assim, sejamos breves aqui para não ficar mais longo que lá, daqui a pouco.



1.


O livro: O sol é todo o espaço, de Antonio Ramos Rosa. O poema introduz-se com o verso: “Eu canto a ausência de mim mesmo”.  Diagnosticamos, no impreciso ultrassom das palavras, recorrência em vocábulos macerados pelo redizer crítico: “eu canto”, eu sou poeta; “ausência de mim mesmo”, fragmentação do eu e consequente desaparecimento elocutório do autor. Verso carregado de uma contradição evidente: o “Eu” que de pronto inicialmente se anuncia, recusa-se a estar em seu discurso, caracterizando-se como uma presença ausente. Ora, se texto é, então existe. Mas, será que a enunciação do texto nada mais quer que ser a exclusão da mão que o escreve? Ou seria um simples reconhecer do estado de alma que se encontra sobrepujado com a obrigação de existir no mundo? Não paremos.

Ao ler “Só eu sei que essa ausência é eterna desde já / porque será sempre continuamente definitivamente”, sente-se a mistura de dois materiais caros à poesia: tempo e espaço. Em geral, quando se encontra tais segmentos retirados de noções do mundo, bem humanas, se pensa, naturalmente, em oposições binárias que dariam conta das possibilidades que eles ofereceriam: o excesso de tempo (de percepção do tempo), ocasionando a angústia em percebê-lo fugir, ou a ausência de tempo, criando-se um momento fora de todos os momentos, imortalizado em sua perene existência. Doutro e do mesmo modo, a materialização de um espaço, sendo fonte de criação e de concepção da poesia, ou a tentativa de montar uma paisagem em ruínas, onde o espaço seja apenas um vagar flutuante.
           
Seja a ausência ou a presença desses dois materiais, é relevante a tentativa de conexão com o mundo de uma maneira peculiar, em que envolva certa noção cosmogônica, com o espraiamento do ser pelos canais do mundo: “Assim eu quero que o meu espírito se torne ondas de energia e de luz / e eu me sinta terra voltada para o espaço / e consiga ter a sensação de ser espaço no espaço”. Eis, então, a maneira que o poeta escolhe para deixar de ser mesmo ainda sendo algo: tudo. Estar no espaço sendo o espaço equivale a uma fragmentação do ser elevada a uma potência desconhecida, mas eficientemente poderosa. Que tipo de morte seria esta? Cantar a ausência de si mesmo é encontrar a morte e dela fugir. É o que logo em seguida ele nomeia como “o meu desaparecimento o meu côncavo / recuo para o começo do mundo / para uma porta destinada a abrir-se numa lenta génese / para ser substância palavra túmulo do meu desejo vegetal”. Com o fim atinge-se a possibilidade de retornar ao começo do mundo, onde a palavra nada mais é que um “túmulo” carregado de desejos vegetais, não animais.
           
Temos outras pistas discursivas para tentar entender para onde vai este ser quando busca a morte como ausência, como subtração da propriedade material do homem. Nos versos “eu poderia sentir que a minha vida era a lenta descida para a morte e ainda / perder-me-ia no deserto infindável do meu ser” encontramos ressoar novamente a intensa ambiguidade do desejo exposto: viver é já uma “descida para a morte”, mas isso também inclui perder-se no “deserto infindável” que é o ser. Reparamos haver outra oposição entre o externo e o interno, ou entre a matéria e uma essência espiritual. Quando ele diz “perder-me-ia no deserto infindável do meu ser” reafirmamos que essa busca de subtração da vida é, na verdade, uma busca pelo ser, o que caracteriza a própria vida.
           
Morrer, nesse sentido, é a despersonalização da existência enquanto ser humano para tornar-se discurso, este impossibilitado de morrer. Cantar a ausência é assumir o risco de existir discursivamente, sem assinatura na capa do livro, sem troféus e referências bibliográficas. Aparentemente sem medo, o poeta incorre no ato de “morrer ainda mais e sempre”, “porque começamos a morrer logo que nascemos”.




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