Entrevista com Gustavo Faraon (Editor da Dublinense)
por Nathan Matos
NM – Gustavo, como nasceu a Dublinense?
GF
– Na verdade foi uma ideia do Rodrigo Rosp. Nós havíamos trabalhado juntos
alguns anos antes e ele foi me procurar um dia com a ideia. Foi simples assim.
NM – E o começo, foi difícil abrir
uma editora independente?
GF
– Foi difícil e é ainda hoje MUITO difícil. O que fazíamos no começo era ter
outros trabalhos paralelamente. Depois de algum tempo, conseguimos equilibrar
as coisas e nos dedicar exclusivamente à editora.
![]() |
| Gustavo Faraon |
NM – A Dublinense, em 4 anos de vida, já possui mais de 50 livros em seu
catálogo, em gêneros diversos, porém o conto é o mais valorizado, o que faz
vocês escolherem uma obra para publicação?
GF
– Não é uma ciência exata. Você nunca sabe qual o livro que vai acontecer.
Portanto não há uma resposta muito clara pra sua pergunta. Qualidade literária,
o perfil do autor e muitos outros detalhes, além de um sentimento do editor de
que o livro vale a pena - um sentimento que na maioria das vezes não é de todo
racional, é bem difícil de explicar mesmo.
NM – Muitos dos escritores
publicados pela editora são do Rio Grande do Sul, isso está relacionado, de
alguma forma, com a valorização do escritor gaúcho?
GF
– Na verdade isso é fruto de sermos gaúchos, termos começado no RS, e da
maioria dos nossos contatos serem também do estado. Então é uma coisa natural
que a maioria dos bons escritores que conhecemos sejam do Rio Grande do Sul.
Isso vai mudando à medida que vamos circulando mais, que a editora vai ficando
conhecida também em outros lugares. Não há uma preocupação quanto a origem dos
autores. Não é isso que nos importa.
NM – Como vocês percebem a
valorização das editoras independentes? Qual a importância delas, hoje, no
mercado editorial brasileiro?
GF
– O que consigo ver é uma explosão de novas pequenas editoras. Mas tenho minhas
dúvidas se todas elas são percebidas e valorizadas da mesma forma, acho que
não. A importância das pequenas, além da questão da bibliodiversidade, é que
normalmente são elas que acabam arriscando mais, tentando fazer algo diferente
ou radical ou do avesso ou de uma maneira mais louca e livre. E também é muitas
vezes através delas que novos autores conseguem se projetar.
NM – As grandes editoras, aparentemente, têm
medo de publicar autores estreantes, ficando a cargo das editoras pequenas,
como a Dublinense. Você acredita que, de alguma forma, a força que as editoras
independentes vêm criando, com a ajuda da LIBRE, pode contribuir para que as
grandes editoras mudem a sua maneira de pensar e agir?
GF
– Olha, acho que não. E não acho
que as editoras grandes têm MEDO de publicar estreantes, não seria justo dizer
isso. Eventualmente elas publicam sim. Talvez o fato seja que as grandes NÃO
PRECISAM fazer isso, não precisam apostar tanto assim, elas têm condições de
publicar autores mais tarimbados e já testados - mas nem isso é garantia de
resultado, como sabemos. Então acho natural que o funil para os estreantes em
editoras grandes seja mais apertado.
NM – A distribuição dos livros
ainda é um dos maiores empecilhos às pequenas editoras?
GF
– Sim, ainda é uma grande dificuldade. O sistema de distribuição de livros no
Brasil é bastante precário. De maneira geral, as grandes redes funcionam
razoavelmente bem, mas é um pouco difícil quebrar a desconfiança inicial deles
com uma nova editora independente, o que é algo que me parece até natural. Há
redes regionais que são mais fechadas e difíceis de lidar. Mas a verdade é que
são lançados muito mais livros em um ou dois meses do que qualquer grande
livraria poderia absorver em um ano inteiro, por isso os livreiros e
distribuidores são tão reticentes a aceitarem os lançamentos de novos editores,
algumas vezes. E a questão logística é outro desafio enorme num país com essas
dimensões.
NM – O que fez você se tornar um
editor?
GF
– Sempre gostei dos livros, mas nunca imaginei efetivamente trabalhar com eles
até surgir a oportunidade. A chance apareceu e eu a agarrei.
NM – Como tem sido a recepção dos
leitores?
GF
– Creio que bastante positiva. O mais legal é quando um leitor escreve pra
gente elogiando um livro e pedindo que encaminhemos alguma mensagem para o
autor.
NM – A Dublinense pensa em expandir
o catálogo publicando traduções de escritores latino americanos,
principalmente?
GF
– Já fazemos isso. Publicamos “A outra praia”, romance do argentino Gustavo
Nielsen vencedor do Prêmio Clarín 2010. E estamos cada vez mais atentos a
títulos interessantes de fora do país que possamos traduzir.



0 comentários:
Enviar um comentário