Poesia Não
por Junior Bellé
De onde vem a poesia contemporânea? Sei que desce o asfalto, bebe tragos demais
e tanto faz o berço como o ensejo, penso, é o que trará. Sei que está pendurada
no varal de fibra ótica balançado por vendavais de informação. Sei que está.
Aprendiz de poeta, cala a boca, pois em “Poesia É Não”, Estrela Ruiz Leminski
te convida a combinar versos, que podem ser livres, construindo poesias que
não. Perdão.
Não sou um investigador de métricas, a álgebra da poética
me escapa, mas reconheço um sincero apreço quando Estrela brinca com as rimas
de seu pai, e também com as de José Paulo Paes, como brinda a simplicidade com
uma chance. Empresto seus versos, ela edita – mas não é inédita – o mistério
que nenhuma herança literária não pode revelar. Nem sina, nem lema. Ela prefere
a plebe dos verbetes.
Este é um livro que pode te apanhar.
A cada página pesa-se o peso que Estrela dá à forma. Não se
trata de uma preocupação parnasiana, mas do que se pode ler sem palavras, do
traço que se compõe, estrutura cujo abrigo é um verbo ilegível e analfabeto.
Não reivindico originalidade em atentar à moldura e disposição da poética,
tampouco descarto o clichê como designer da contemporaneidade, mas peço que se
perca o pudor, do original, do clichê, do contemporâneo, quando estes todos se
fodam entre todos. Estrela deixa a poesia ser. Antes de qualquer coisa, que
seja.
Leia esta obra pensando no que virá, em como o tempo pode
amadurecer o fluxo natural do versejar na poetiza, pois, como escreveu Marília
Kubota
O jargão intelectual não interessa para a maioria dos
mortais. A maioria silenciosa, ao contrário do que pensam os críticos, ama a
poesia — ama ouvir canções populares, por exemplo. A maioria silenciosa ama
escrever versos, na adolescência cronológica ou tardia. E a maioria silenciosa
se envergonha de amar a poesia, quando o crítico se levanta em nome do cânone
literário e prega que é preciso ter vergonha por amar poesia e escrever
bobagens que qualquer um escreve quando o coração dispara.
Eu não sei o que é que há, poesia não é útil, mas é preciso
poetar. Por isso, é bom perceber que da Estrela os versos ainda seguem sem medo
de se mostrar. Caso busque algumas páginas de emoção, surpreenda-se com o que
vai te emocionar.

0 comentários:
Enviar um comentário