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11 de novembro de 2013
Entrevista com Gustavo Faraon (Editor da Dublinense)

Entrevista com Gustavo Faraon (Editor da Dublinense)

por Nathan Matos

Conheci a Editora Dublinense, meio que sem querer. Assim como outras editoras a Dublinense é uma editora independente, que começa a ter uma ampla divulgação entre os escritores estreantes. A Dublinense vem recheando o seu catálogo com os mais diversos gêneros, seja ele romance, poesia ou um texto mais acadêmico. Com mais de 50 livros publicados, a editora gaúcha vem recebendo ótimas críticas pelo material de qualidade que vem publicando e pela diversificação entre os seus autores, tendo publicado, por exemplo, Gustavo Nielsen, escritor argentino. Em conversa com um dos editores, Gustavo Faraon, pude saber um pouco mais sobre a Dublinense e divido aqui com vocês.

NM – Gustavo, como nasceu a Dublinense?

GF – Na verdade foi uma ideia do Rodrigo Rosp. Nós havíamos trabalhado juntos alguns anos antes e ele foi me procurar um dia com a ideia.  Foi simples assim.

NM – E o começo, foi difícil abrir uma editora independente?

GF – Foi difícil e é ainda hoje MUITO difícil. O que fazíamos no começo era ter outros trabalhos paralelamente. Depois de algum tempo, conseguimos equilibrar as coisas e nos dedicar exclusivamente à editora.

Gustavo Faraon

NM – A Dublinense, em 4 anos de vida, já possui mais de 50 livros em seu catálogo, em gêneros diversos, porém o conto é o mais valorizado, o que faz vocês escolherem uma obra para publicação?

GF – Não é uma ciência exata. Você nunca sabe qual o livro que vai acontecer. Portanto não há uma resposta muito clara pra sua pergunta. Qualidade literária, o perfil do autor e muitos outros detalhes, além de um sentimento do editor de que o livro vale a pena - um sentimento que na maioria das vezes não é de todo racional, é bem difícil de explicar mesmo.

NM – Muitos dos escritores publicados pela editora são do Rio Grande do Sul, isso está relacionado, de alguma forma, com a valorização do escritor gaúcho?

GF – Na verdade isso é fruto de sermos gaúchos, termos começado no RS, e da maioria dos nossos contatos serem também do estado. Então é uma coisa natural que a maioria dos bons escritores que conhecemos sejam do Rio Grande do Sul. Isso vai mudando à medida que vamos circulando mais, que a editora vai ficando conhecida também em outros lugares. Não há uma preocupação quanto a origem dos autores. Não é isso que nos importa.


Rodrigo Rosp

NM – Como vocês percebem a valorização das editoras independentes? Qual a importância delas, hoje, no mercado editorial brasileiro?

GF – O que consigo ver é uma explosão de novas pequenas editoras. Mas tenho minhas dúvidas se todas elas são percebidas e valorizadas da mesma forma, acho que não. A importância das pequenas, além da questão da bibliodiversidade, é que normalmente são elas que acabam arriscando mais, tentando fazer algo diferente ou radical ou do avesso ou de uma maneira mais louca e livre. E também é muitas vezes através delas que novos autores conseguem se projetar.

NM – As grandes editoras, aparentemente, têm medo de publicar autores estreantes, ficando a cargo das editoras pequenas, como a Dublinense. Você acredita que, de alguma forma, a força que as editoras independentes vêm criando, com a ajuda da LIBRE, pode contribuir para que as grandes editoras mudem a sua maneira de pensar e agir?

GF – Olha, acho que não. E não acho que as editoras grandes têm MEDO de publicar estreantes, não seria justo dizer isso. Eventualmente elas publicam sim. Talvez o fato seja que as grandes NÃO PRECISAM fazer isso, não precisam apostar tanto assim, elas têm condições de publicar autores mais tarimbados e já testados - mas nem isso é garantia de resultado, como sabemos. Então acho natural que o funil para os estreantes em editoras grandes seja mais apertado.

NM – A distribuição dos livros ainda é um dos maiores empecilhos às pequenas editoras?

GF – Sim, ainda é uma grande dificuldade. O sistema de distribuição de livros no Brasil é bastante precário. De maneira geral, as grandes redes funcionam razoavelmente bem, mas é um pouco difícil quebrar a desconfiança inicial deles com uma nova editora independente, o que é algo que me parece até natural. Há redes regionais que são mais fechadas e difíceis de lidar. Mas a verdade é que são lançados muito mais livros em um ou dois meses do que qualquer grande livraria poderia absorver em um ano inteiro, por isso os livreiros e distribuidores são tão reticentes a aceitarem os lançamentos de novos editores, algumas vezes. E a questão logística é outro desafio enorme num país com essas dimensões.

NM – O que fez você se tornar um editor?

GF – Sempre gostei dos livros, mas nunca imaginei efetivamente trabalhar com eles até surgir a oportunidade. A chance apareceu e eu a agarrei.

NM – Como tem sido a recepção dos leitores?

GF – Creio que bastante positiva. O mais legal é quando um leitor escreve pra gente elogiando um livro e pedindo que encaminhemos alguma mensagem para o autor.

NM – A Dublinense pensa em expandir o catálogo publicando traduções de escritores latino americanos, principalmente?

GF – Já fazemos isso. Publicamos “A outra praia”, romance do argentino Gustavo Nielsen vencedor do Prêmio Clarín 2010. E estamos cada vez mais atentos a títulos interessantes de fora do país que possamos traduzir.


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14 de outubro de 2013
Entrevista com Eduardo Lacerda (Editor da Patuá), por Nathan Matos

Entrevista com Eduardo Lacerda (Editor da Patuá), por Nathan Matos



Conheci a Editora Patuá vasculhando novas editoras pela internet. Percebi que o catálogo girava em torno, principalmente, da poesia. Fiquei espantado. Nunca tinha visto alguma editora dar tanta ênfase a este gênero. Timidamente enviei um e-mail para os editores e depois de um tempo o Eduardo Lacerda me respondeu. Mantivemos contato, e ele sempre se mostrou muito aberto aos assuntos da editora. Isso me surpreendeu, uma vez que é preferível esconder o que se faz para que não haja novos concorrentes.

Conversando com o Eduardo, percebi que ele achava mais importante divulgar informações e manter o diálogo aberto para novas ações em torno da Literatura do que olhar para o próprio umbigo.

Sempre me questionei até que ponto a Poesia pode “salvar” um homem. E parece que Eduardo Lacerda vive nessa relação de estar sendo salvo e que ao mesmo tempo salva esse gênero, muitas vezes, esquecido, contribuindo, também, para a salvação-publicação de autores estreantes ou não. 


A Editora Patuá, em quase 3 anos de vida, e com mais de 100 livros em seu catálogo chega, em 2013, a ser finalista em dois prêmios: o primeiro com o livro “Vário Som”, de Elisa Andrade Buzzo, no Prêmio Jabuti na categoria Poesia; o segundo com o livro “Desnorteio”, de Paula Fábrio, no Prêmio São Paulo de Literatura. Dois dos mais importantes prêmios literários do país. Isso se dá ao trabalho incansável de um homem que acredita que além da poesia é essencial beber para que se possa manter uma editora de portas abertas.



NM – Eduardo, de onde veio a ideia de criar a Patuá?

EL – A ideia (ou necessidade) de criar a Editora Patuá foi uma consequência natural de trabalhos anteriores que realizamos. A partir de 2001, quando entrei no curso de letras da USP, iniciei a edição de uma revista e de alguns eventos literários, essa revista se transformou em um jornal chamado O Casulo, que chegou a ter patrocínio da Prefeitura de São Paulo, com esse apoio foi possível a impressão de tiragens de 30 mil exemplares, com distribuição gratuita em escolas públicas, bibliotecas, centros culturais, cinemas etc. Também participei da organização da FLAP! – Festival de Literatura, que desde 2005 realiza, anualmente, encontros, debates, leituras públicas, entre outras atividades para discussão sobre literatura, edição, produção cultural, tradução.
           
Montar uma editora que pudesse reunir os autores que circulavam por essas atividades se tornou uma necessidade, mas, no início, não fazíamos ideia de como viabilizar o projeto. Passamos quase 2 anos, entre 2008 e 2010, pesquisando como montar uma editora. A Editora nasceu, como empresa, em outubro de 2010 e publicamos nosso primeiro título em fevereiro de 2011.

NM – No cenário atual, para se abrir uma editora é preciso ter coragem. Qual a importância das editoras independentes no mercado editorial brasileiro?

EL – Acredito que para abrir uma editora não é preciso ter coragem, tenho acompanhado, durante todos esses anos, a criação de dezenas de projetos e editoras. O início é trabalhoso, mas fácil, não tenho dúvidas. É preciso ter coragem para continuar durante muitos anos, depois que se descobre o tamanho dos problemas, das frustrações, decepções. Claro, quando um projeto é mais consistente, muitas coisas boas também vão acontecer, mas no início pensamos apenas que tudo será bom. Não é.

As editoras independentes atuam de diversas formas, por isso têm diversas ‘importâncias’ diferentes. Nós descobrimos jovens autores, redescobrimos autores premiados, mas que estavam sem editora, damos chances a projetos ousados, que não encontrariam nenhum apoio em editoras maiores. Mas, acredito, o maior mérito de uma editora independente é promover o encontro entre as pessoas e o encontro das pessoas com os escritores e seus livros. Tenho defendido que não acredito em uma literatura que não promova o encontro entre as pessoas.

NM – O catálogo da Patuá, em sua ampla maioria, foca a Poesia. Poucos são os editores que apostam neste gênero. O que você vê que outros não veem?

EL – Talvez eu beba mais cerveja que os outros editores! Mas, falando sério, a poesia pede um amor, uma dedicação e um desapego que muitas pessoas não estão dispostas ou interessadas. Eu tenho muita fé nos autores que publiquei ou ainda publicarei, acredito neles, na importância deles. Que não é uma importância capitalista, nem financeira. É humana. Eu publico autores que acredito.




NM – Você acredita que a poesia ainda é pouco lida pelo leitor brasileiro?

EL – É importante dizer que a poesia é pouco lida pelos leitores do mundo inteiro. E é pouco lida desde a antiguidade. No livro A arte de amar, de Ovídio, o autor já diz que a poesia não é mais uma honraria, que mesmo Homero, se vier com versos, mas sem presentes, não será bem recebido. Ele já afirma isso então há dois milênios? Sim! As pessoas têm uma tendência ao pessimismo sem conhecimento. Queremos acreditar que nossa época (e todos são assim, em todas as épocas) é decadente, é pior. Talvez para justificar fracassos pessoais.

Psicologias à parte, sou um homem de muita fé, muito otimista, mas muito realista. Temos trabalho a fazer, de formação de leitores, de distribuição de livros, de encontrar alternativas à lógica do mercado que quer excluir a grande maioria das pessoas. Se os leitores lêem pouco poesia, temos que encontrar soluções. É o que tentamos fazer todos os dias.

Na Patuá, incentivamos muito a leitura entre os nossos autores. Não cobramos pela edição e realizamos um trabalho de excelência, o mínimo que espero que um autor é que se interesse minimamente pelo trabalho do outro. Que leia, que eventualmente compre livros, que se encontrem e discutam a literatura. Isso é enriquecedor e somente esse envolvimento pode ajudar (também financeiramente) uma editora séria e honesta.

NM – Muitos comentam que a Literatura, entre as artes, anda sendo a mais esquecida. E que há muito a se fazer quanto a incentivar ações que promovam a leitura. Você concorda com isso?

EL – Todas as artes são igualmente importantes, eu defendo a Literatura por trabalhar com ela e por ter uma relação íntima. Acho que o esquecimento vem do descaso, principalmente dos próprios escritores. Recebemos uma centena de livros por mês, considerando outras editoras, maiores ou menores, são milhares de escritores espalhados pelo país. Não são leitores? Por quê?

Concordo que precisamos de ações de incentivo, mas elas devem ser coordenadas e contínuas. Trabalhei muitos anos com produção cultural e com projetos de instalação de bibliotecas públicas no interior do Estado de São Paulo, tenho experiência que ações isoladas são muito importantes, mas de curto efeito e sempre submetidas à vontades políticas. Precisamos, para aumentar o número de leitores, ações educacionais, culturais, estéticas e financeiras.

Temos mais escritores que leitores, mais editoras do que livrarias e bibliotecas. A lógica está inversa, não está? Precisamos de mais leitores do que escritores, de mais bibliotecas e livrarias do que editoras (e não quero reduzir o número delas, apenas inverter a pirâmide). Há muito o que se fazer.

NM – Quais são as maiores dificuldades enfrentadas pela Patuá?

EL – O maior problema é financeiro. Fazer livros é maravilhoso, vende-los é uma tarefa constrangedora. Ao mesmo tempo, se fosse fácil, acho que teríamos ainda mais editoras e menos leitores. A dificuldade também preserva a literatura, faz com que exista um filtro. Claro, não precisaria ser tão difícil. Precisamos de equilíbrio.

NM – Qual tem sido a recepção dos livros da Patuá junto ao público?

EL – Excelente. Posso dizer que criamos um novo padrão de qualidade para o mercado de editoras independentes. Fazemos livros com muita qualidade, tanto gráfica quanto literária. Ousamos em formatos, ilustrações, acabamentos.
Claro, conseguir leitores e reverter essa qualidade em venda de livros ainda é difícil, mas está sendo uma experiência incrível.

Além do público, estamos conseguindo alguma repercussão entre críticos e recebido alguns prêmios. Em 2012 recebemos um prêmio ProAC – Programa de Ação Cultural e este ano uma de nossas autoras está finalista do prêmio Jabuti.

NM – O que fez Eduardo Lacerda se apaixonar pela leitura?

EL – Eu sou um apaixonado pela leitura, principalmente pela poesia. Não sei quando isso começou exatamente. Minha primeira lembrança de leitura, de livro, foi uma leitura da minha mãe pra mim de um livro do Paulo Coelho. Sim, Paulo Coelho. Meus pais são pais-de-santo da Umbanda, sempre tiveram interesse por livros espíritas, esotéricos, de iniciação religiosa. Eu tenho um interesse e carinho enormes pela religião, embora, como literatura, isso não me interesse mais. E estou dizendo que apenas não me interessa, não perco meu tempo dizendo que é ruim, que é lixo. Isso é pedantismo.

NM – É fácil para você conciliar o processo de criação com a vida de editor?

EL – Se você está se referindo à criação literária, como poeta, sim, é difícil. Não sou poeta, eu escrevo alguns poemas esporadicamente. Até acho que alguns são bons. Também acho que eu vivo como poeta, na máxima do Piva, de que não existe poeta experimental sem vida experimental. Certo, nesse sentido, não sou poeta, mas vivo como poeta. E é exatamente por ser difícil conciliar que eu me permito viver como poeta e ser somente editor. A edição é uma atividade criativa também, embora eu passe a maior parte do meu tempo cuidando de burocracias. Eu faço a embalagem e a entrega nos correios de todos os livros vendidos, eu vou a meia dúzia de bancos diferentes todos os dias, faço notas fiscais, elaboro contratos, faço a divulgação dos livros, atualização do site e até a edição (risos). Mas eu gosto também disso, gosto de pensar que eu cuido dos livros em todas as etapas, exceto as ilustrações e projetos gráficos, que são criados pelo artista Leonardo Mathias, uma pessoa incrível, de talento sem igual. Temos também outros parceiros para ilustração, como a Mila Botura, que está desenvolvendo a arte de alguns de nossos livros, a Elis Nunes. 
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24 de julho de 2013
Entrevista com a Lote42

Entrevista com a Lote42



Enquanto eu ficava atento aos tweets que eram lançados ao final do ano de 2012, eis que alguém, não me lembro quem, retweeta a informação de que em breve a Lote42 nasceria. Fiquei atento, uma possível editora viria à lume e eu não podia deixar de acompanhar o nascimento e o desenvolvimento de uma nova editora. 

Ao surgir, fiquei intrigado. De onde raios teria vindo a ideia de Lote42? De acordo com os seus fundadores, o nome da editora teria algo em comum com a resposta para o sentido da vida e do universo, que Douglas Adams teria criado. E talvez a palavra lote esteja ligada ao processo de novas editoras, que a cada dia surgem, dando um ar de serem um lote "especial". A ideia era e é boa. Principalmente porque o que move a editora é o ideal de que todo suporte é válido, seja ele impresso ou não.

Em menos de um ano, a editora lança o seu terceiro livro (Manual de sobrevivência dos tímidos, de Bruno Maron) e que já chama a atenção da mídia, justamente por não ser nada "comum". E talvez a diferença da Lote42 esteja na sua produção que, de acordo com João Varella e Thiago Blumenthal (são os editores), é lenta porque eles próprios assim desejam. Um livro a cada dois meses já está de bom grado, disseram mais ou menos assim em uma outra entrevista.

Daí, eu, como apaixonado por livros e, também, pelo mercado editorial resolvi fazer uma breve entrevistas com os dois editores e é a que segue abaixo:


Vocês (João e Thiago) são formados em jornalismo. É fácil conciliar as carreiras de repórter e editor?

Thiago – Atuei pouco como repórter na redação mesmo, sempre fiquei mais com a edição. E minha formação é em Letras, com experiência em editoras e livros (editor, tradutor, revisor, preparador etc.), isso ajudou bastante.


João – Nem um pouco. É preciso cuidar bem dos horários e tentar otimizar ao máximo tudo o que você faz durante o dia. Parece que estou há anos sempre com uma sensação de esgotamento. Felizmente, o sacrifício vale a pena. Ver os livros nascendo é uma emoção inenarrável.

Como surgiu a ideia da Lote42?

Thiago – Surgiu da necessidade de ter uma editora que soubesse usar os autores da nova geração, presentes predominantemente em trabalhos na internet (blogs, tumblrs). Ninguém fazia isso. Em dezembro nos juntamos e achamos que era o momento de investir nisso.

O mercado editorial anda aquecido, principalmente quanto à criação de novas editoras. Qual o diferencial da Lote42?

João – Acho que o Thiago matou a charada na pergunta acima. Só pondero que às vezes essa coisa de diferencial pode fazer parecer que estamos em guerra com as outras editoras. Não é isso. É como dizem os jogadores de futebol quando chegam num time novo: Estamos aqui para somar.


Cecília Arbolave, Alexandra Moraes (autora de O pintinho), João Varella e Thiago Blumenthal


A linha editorial da Lote42 se preocupa com a reflexão. E que a postura da editora tem que se preocupar, principalmente, quanto a demarcar o seu papel político e social. Há uma necessidade de deixar isso evidente nos livros para os leitores?

Thiago – Sim, especialmente em tempos de pensar as novas mídias sem desconsiderar o livro impresso. Como usar ainda o livro dentro de um ambiente editorial cada vez mais online.

João – É importante pensar em livros que contribuam algo para a vida das pessoas, mas não acho que tenha de ser evidente. Quando você já põe uma placa de “livro sério para pensar”, o povo não lê. O desafio é provocar e seduzir na mesma medida.


Levando em consideração o que está escrito no site da Lote42 – “Nossos livros sempre vão além do papel” –, vocês acreditam que é viável haver uma existência pacífica do livro digital e do livro impresso?

Thiago Sem dúvida. Nossos primeiros livros provam isso. São de autores que circulavam exclusivamente no online, no eletrônico. E tiveram ampla aceitação dentro de quem gosta de ler um livro impresso, folheando as páginas.


Em menos de um ano, a editora lança o seu terceiro livro, Livro Manual de Sobrevivência dos Tímidos, do autor Bruno Maron. Qual tem sido a resposta do público em relação aos lançamentos da editora?

João – Maravilhosa. Temos notado um índice de recompra muito bom. Os comentários são sempre positivos em sua maioria. É a vantagem de se lançar poucos livros. Dá para fazer cada um deles muito bem feito.

Quais as maiores dificuldades que a Lote42 tem encontrado?

Thiago – Dificuldades de qualquer editora que acaba de começar e que é pequena: logísticas das mais variadas, isso sem contar a busca pelo espaço nas livrarias. Mas tudo tem acontecido de modo bem sucedido.

João – A luta diária é evitar repassar o custo insano da logística brasileira ao leitor.

Qual a influência da leitura na vida de vocês? Ela salva?

Thiago – Não necessariamente salva, mas ajuda a entender tudo o que a gente vive. É das leituras que a gente aprende algumas coisas que não são ditas no cotidiano.

João Sim, salva.

Pra findar, nossa breve entrevista, um livro e um autor preferido?

João – Que pergunta sacana... Se é para citar só um livro, citaria o Memorial de Maria Moura, da Rachel de Queiroz. Foi minha primeira leitura “séria” fora das obrigações escolares. Autor você vai ter que me desculpar, mas não dá para responder. Estou sofrendo demais aqui tendo de escolher um só.

Thiago – Em Busca do Tempo Perdido, do Marcel Proust.



* A entrevista foi realizada via e-mail, pelo nosso editor Nathan Matos

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3 de junho de 2013
Entrevista com Ricardo Thomé

Entrevista com Ricardo Thomé

Ricardo, você sente uma necessidade interior de escrever?

Sim, acho que todo mundo que escreve, que pinta, que compõe, todo artista, enfim, o faz por uma necessidade interior, uma vontade de expressar o inexprimível, de tentar impor alguma ordem ao nosso caos interior.

Você acredita que existe um distanciamento total entre escritor e obra?

Não. Em maior ou menor grau, de modo mais, ou menos, explícito – ou camuflado –, estamos sempre ali, naquilo que produzimos. O que não quer dizer, evidentemente, que eu compactue com todos os atos e idéias de meus personagens. Mas seja pela afirmação, ou pela negação, por uma empatia, ou pela falta dela, cada personagem representa uma faceta da minha forma de entender e de enxergar o mundo.

Fazer literatura no Brasil é complicado?

Complicadíssimo. Se você não tem um padrinho poderoso e nem participa das chamadas ‘panelinhas’, só com muita sorte você vai conseguir um lugarzinho ao sol.

Sua obra envolve poesia, dramaturgia e romance. Como é transitar entre gêneros diferentes?

Normal. São formas diferentes de você expressar aquela tal ‘necessidade interior’. Se tivesse de me definir, diria que sou um poeta que se mete a fazer ficção, vez ou outra.

Em A resposta e o vento, percebe-se que não há um personagem mais importante que outro, mas há uma ligação entre todos. Essa trama envolve paixões e solidões. Você acredita que o homem é formado, fundamentalmente, por esses dois sentimentos?

Mas a solidão é um sentimento ou uma condição¿ Ou um pouco dos dois¿ Eu acredito que, parafraseando Sartre, nós somos aquilo que fazemos do que fizeram de nós. Ou que permitimos que fizessem de nós. E isso, é claro, envolve nossas paixões, nossos medos, nossos sentimentos mais secretos.

Há, no romance, um retrato da sociedade moderna. Muitas ideias estão postas como se fossem necessárias serem discutidas. Você acredita que, de alguma forma, o seu romance leva à reflexão¿ Você escreve já com esse intuito? De marcar o leitor? De fazê-lo sentir para refletir?

Espero, sinceramente, que sim. Ficaria muito decepcionado se minha literatura fosse encarada apenas a partir do seu aspecto de entretenimento. É isto também, claro, mas se ela não suscitar no leitor alguma espécie de incômodo, de espanto, então não vale nada, é perfeitamente descartável. Mas pelo retorno que tenho recebido (e que não é muito), acho que tenho logrado êxito nesta empreitada, sim.

Nessa mesma obra, a maioria dos personagens possuem, em maior ou menor grau, questões relativas com a sexualidade. Algo que perturba certa parcela da sociedade. Você acha que o leitor brasileiro está preparado para obras que discutem de alguma maneira isso, ou não?

Olha, alguém já disse que o ser humano, consciente ou inconscientemente, pensa em sexo 70% do seu tempo e que gasta os outros 30% tentando não pensar nisso (rs). Evidentemente que a sexualidade é um prato cheio – e indispensável – a todo aquele que quiser se debruçar sobre esta coisa tão misteriosa chamada  ‘essência humana’. E, hoje, neste nosso mundo tão absolutamente multimidiático, nada mais choca, tudo é perfeitamente assimilável.

Em sua tese,você afirma que é acostumado a ver a vida por um lado homoerótico, e defende que pra escrever um bom livro sobre homossexual você tem que ser homossexual, como pra escrever sobre o drama de um negro você tem que ser negro. Ainda hoje, você defende esse pensamento?

Mas eu jamais disse isso! O que eu disse, na introdução da minha tese, é que há, dentro da indispensável compartimentação que o estudo da literatura apresenta nos dias de hoje, a idéia de que só se pode falar em literatura do negro ou em literatura de autoria feminina, sendo negro ou mulher. E isso não sou eu quem o afirma. Pelo contrário, acredito que um homem possa perfeitamente bem produzir obras excelentes sobre a mulher e sua condição, e um exemplo clássico disso é o “Madame Bovary”, de Flaubert, obra que, por sinal, eu cito na introdução da minha tese. Mas por mais pertinente que ela seja, jamais poderia ser incluída sob o rótulo de ‘literatura da mulher’, pelo simples fato de ter sido produzida por um homem.
Quanto à questão de “ver a vida por um lado homoerótico”, só posso dizer uma coisa: eu não sei deixar de ser eu! De novo, aquela impossibilidade de você não se colocar, em alguma medida, naquilo que você escreve, a tal ‘necessidade interior’ impregnando cada palavra do que escrevemos.

Quanto ao mercado editorial, acredita que as editoras estão ficando mais receptivas para novos escritores?

Sinceramente, não saberia responder. De minha parte, só sei dizer que, se você tiver grana, uma boa parcela das editoras vão naturalmente abrir suas portas para você. Quanto às grandes editoras, minha experiência é a pior possível. Acho que há um desrespeito enorme da parte delas para com nós, escritores (excluindo, é claro, os chamados ‘figurões’), uma relação de subserviência com a qual, honestamente, não tenho, e nem nunca tive, saco para compactuar.


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