Nunca é tarde pra ser
Em
cada final de capítulo senti aquele arrepio que toda obra deveria nos dar. Passando
por cinco tipos de animas diferentes – gato, cachorro, passarinho, peixinho e
gente –, Ricardo Thomé em seu A resposta
e o vento nos mostra como realizar uma escritura em que se estabelece uma
curiosidade cheia de ânsia no leitor.
Confesso
que quando tive o livro em mãos senti uma sensação de modorra, um cansaço ao
ver aquela imagem desfocada, sem saber se amanhecia ou se entardecia o dia.
Essa sensação de falta que às vezes temos e podemos ter em qualquer lugar.
Contudo,
a modorra logo se dissipou ao ler a primeira frase do livro: “O que podia ter
sido nunca é tarde para ser.” Se dissipou porque eu acreditava que o livro não
era um livro de autoajuda e que por iniciar assim poderia ter a possibilidade de
ser muito ruim ou muito bom. A resposta veio quando o vento a levou.
Quando a frase se parte, e o vento resolve levar pelos caminhos de Copacabana sua
força, poderemos notar que tudo irá se modificar para uma determinada pessoa em um certo lugar. A frase Nunca é tarde
para ser vem para desestabilizar momentaneamente a psique de quem a lê, até
mesmo, variavelmente, a do leitor. E esse desequilíbrio é que faz com que se possam
erguer os olhos, elevar a alma e caminhar, pois só caminhando, como diria
Nelson Rodrigues, é que se pode ser livre.
Teodora,
Veruska, Tião, Renato, Nestor, Lorena e Zeu são os protagonistas dessa
história. Poderia dizer que um é mais forte do que o outro, que determinado
personagem se faz mais presente do que outro pela sua forte personalidade ou
pela exótica maneira de ser, mas não. Isso não se faz necessário na obra de
Ricardo Thomé. Todos são iguais, todos possuem a sua solitária dor. E essa
solidão em que se forma no entrecruzamento dessas vidas me faz pensar se a
sociedade não é apenas um conglomerado de pessoas solitárias e incompreendidas.
Todos
são realmente solitários, e isso não vem da demonstração de sua necessidade de
se fazerem acompanhados de animais – gato, cachorro, passarinho, peixinho e
gente –, se faz porque a realidade em que vivem é a mesma que vivemos. O mundo
criado pelo escritor carioca – cheio de hipocrisia, de mentira, de
desigualdade, de preconceito – não é ligeiramente parecido com o nosso, é a
nossa representação.
Mas
o que liga todos esses homens e mulheres é apenas o fato de uma simples
resposta entrar em suas vidas e poder, com sua força, modificá-los? Talvez sim,
talvez tenha sido apenas isso: Nunca é
tarde para ser. Porém, Abel é o fio
condutor para que a narrativa nasça, para que ela se faça obra e que permeie
nossa mente com sua sedutora linguagem.
Abel
foi quem morreu dentro de um ônibus quando um negro subira para fazer seu
primeiro assalto, e que após um grito de uma velha resolveu atirar com seus
dedos trêmulos, como mais tarde confessa. Foi Abel quem fora esquecido pela
namorada gorda e acalentado por um menino doce em seu último suspiro. Foi Abel
que morreu para ser para o mundo como ‘a redenção da raça dos homens’, como diria Lorena.
É
a partir de sua morte, que de início nos é desconhecida e que aos poucos vai se
formando na mente do leitor, que podemos ficar sabendo que Abel era puro, um
efebo de olhos azuis-piscina, que era virginiano e que só quis ser alguém de
bem na vida, mas que, talvez, ainda não havia conseguido ser o que desejava ser.
Sua
morte faz com que várias outras vidas possam ser vividas. É ele o maior catalisador
para a mudança em todos os personagens ao lado da resposta que voa pelos caminhos
de Copacabana. A resposta, que os faz refletir por um instante, sempre traz à
lembrança a morte de Abel dentro do ônibus. Todos estavam lá, conectados ou
não, todos tinham a sua importância naquele momento para Abel.
Talvez,
após a leitura, alguns dirão que tudo não passa de um livro de autoajuda. As
interpretações podem ser variadas, mas singularizar a obra como tal será um ato tanto mesquinho da parte do leitor.
Não
nos iludamos em acreditar que o que há em A
resposta e o vento é simplesmente uma reflexão de que Nunca é tarde pra ser ou como as pessoas são solitárias, apesar de
isso estar presente na obra. Acreditemos que a maior dificuldade esteja em nos
vermos nesses personagens, em nos acharmos incompreendidos, em percebermos que
somos uma sociedade que não recebe de braços abertos, como uma mãe recebe seu
filho após a sua primeira caminhada, os ‘desajustados’.

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