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18 de março de 2014
Luis Maffei e a recriação de Camões

Luis Maffei e a recriação de Camões


Através da recriação literária, o poeta Luis Maffei, em seu livro Signos de Camões (Oficina Raquel, 2013), constrói o mapa astral do poeta português Luís de Camões. Partindo da incerteza do nascimento do autor d’Os Lusíadas, o autor cria um mapa astral poético para Camões em cada poema. São 12 poemas que compõe a obra, um poema para cada signo do zodíaco.

Em uma de suas entrevistas, o autor comentou que buscou a revolução poética ao compor a obra Signos de Camões. Essa revolução é obtida ao não seguir linearmente uma única compreensão estrutural em sua composição. Há versos devidamente metrificados, outros que se apropriam de versos rimados e há poemas em prosa. A diversidade estrutural e linguística é uma das bases para a gênese desse livro.


De acordo com cada signo, o poeta molda cada um dos 12 poemas do livro. Por exemplo, o signo de virgem tem por característica a organização, isso é enfatizado na estrutura do poema dedicado ao signo, que foi estritamente escrito em sextilhas, obedecendo à organização exigida pelo signo virginiano. Nos poemas do livro, Maffei brinca com as possibilidades astrológicas de cada signo, e como cada um poderia ter influenciado na escrita e vida do poeta lusitano.

O livro, antes de um exercício astrológico, envolve uma escrita de linguagem rebuscada sem se perder em neologismos. O autor do livro é um escritor que domina a arte poética e arte dos signos. É um livro que poderia estar voltado para aspirantes a astrólogos, em que talvez cada leitor possa procurar  aspectos ligados ao seu próprio signo. Após o término da leitura, podemos enxergar o poeta Camões com outros olhos.

Quando, por exemplo, li o poema correspondente ao meu signo, capricórnio, observei de imediato as mesmas características que lhe são atribuídas pelos mapas astrais: o saber lidar com o tempo e o trabalho árduo. Por instantes, devaneei sobre a possibilidade do poeta lusitano ser regido por este signo. Eis um pequeno trecho desse poema:

Tempo entanto é o que nos vela
na contenda e na porfia,
corpo aberto à calmaria,
marcador de tez singela;
virulento
condutor de pensamento
sabedor de toda meta.
Sói que enquanto me contento
não comento
torna-me ele minha paleta.



Com a argúcia de um astrólogo, Luis Maffei passa por todos os signos do zodíaco, deixando em cada um deles uma marca do que poderia ser a personalidade de Camões em cada um deles. Ler o Signos de Camões é um exercício que o leitor se propõe a imaginar, e até mesmo, recriar a figura do poeta Luis de Camões. 
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3 de junho de 2013
Entrevista com Ricardo Thomé

Entrevista com Ricardo Thomé

Ricardo, você sente uma necessidade interior de escrever?

Sim, acho que todo mundo que escreve, que pinta, que compõe, todo artista, enfim, o faz por uma necessidade interior, uma vontade de expressar o inexprimível, de tentar impor alguma ordem ao nosso caos interior.

Você acredita que existe um distanciamento total entre escritor e obra?

Não. Em maior ou menor grau, de modo mais, ou menos, explícito – ou camuflado –, estamos sempre ali, naquilo que produzimos. O que não quer dizer, evidentemente, que eu compactue com todos os atos e idéias de meus personagens. Mas seja pela afirmação, ou pela negação, por uma empatia, ou pela falta dela, cada personagem representa uma faceta da minha forma de entender e de enxergar o mundo.

Fazer literatura no Brasil é complicado?

Complicadíssimo. Se você não tem um padrinho poderoso e nem participa das chamadas ‘panelinhas’, só com muita sorte você vai conseguir um lugarzinho ao sol.

Sua obra envolve poesia, dramaturgia e romance. Como é transitar entre gêneros diferentes?

Normal. São formas diferentes de você expressar aquela tal ‘necessidade interior’. Se tivesse de me definir, diria que sou um poeta que se mete a fazer ficção, vez ou outra.

Em A resposta e o vento, percebe-se que não há um personagem mais importante que outro, mas há uma ligação entre todos. Essa trama envolve paixões e solidões. Você acredita que o homem é formado, fundamentalmente, por esses dois sentimentos?

Mas a solidão é um sentimento ou uma condição¿ Ou um pouco dos dois¿ Eu acredito que, parafraseando Sartre, nós somos aquilo que fazemos do que fizeram de nós. Ou que permitimos que fizessem de nós. E isso, é claro, envolve nossas paixões, nossos medos, nossos sentimentos mais secretos.

Há, no romance, um retrato da sociedade moderna. Muitas ideias estão postas como se fossem necessárias serem discutidas. Você acredita que, de alguma forma, o seu romance leva à reflexão¿ Você escreve já com esse intuito? De marcar o leitor? De fazê-lo sentir para refletir?

Espero, sinceramente, que sim. Ficaria muito decepcionado se minha literatura fosse encarada apenas a partir do seu aspecto de entretenimento. É isto também, claro, mas se ela não suscitar no leitor alguma espécie de incômodo, de espanto, então não vale nada, é perfeitamente descartável. Mas pelo retorno que tenho recebido (e que não é muito), acho que tenho logrado êxito nesta empreitada, sim.

Nessa mesma obra, a maioria dos personagens possuem, em maior ou menor grau, questões relativas com a sexualidade. Algo que perturba certa parcela da sociedade. Você acha que o leitor brasileiro está preparado para obras que discutem de alguma maneira isso, ou não?

Olha, alguém já disse que o ser humano, consciente ou inconscientemente, pensa em sexo 70% do seu tempo e que gasta os outros 30% tentando não pensar nisso (rs). Evidentemente que a sexualidade é um prato cheio – e indispensável – a todo aquele que quiser se debruçar sobre esta coisa tão misteriosa chamada  ‘essência humana’. E, hoje, neste nosso mundo tão absolutamente multimidiático, nada mais choca, tudo é perfeitamente assimilável.

Em sua tese,você afirma que é acostumado a ver a vida por um lado homoerótico, e defende que pra escrever um bom livro sobre homossexual você tem que ser homossexual, como pra escrever sobre o drama de um negro você tem que ser negro. Ainda hoje, você defende esse pensamento?

Mas eu jamais disse isso! O que eu disse, na introdução da minha tese, é que há, dentro da indispensável compartimentação que o estudo da literatura apresenta nos dias de hoje, a idéia de que só se pode falar em literatura do negro ou em literatura de autoria feminina, sendo negro ou mulher. E isso não sou eu quem o afirma. Pelo contrário, acredito que um homem possa perfeitamente bem produzir obras excelentes sobre a mulher e sua condição, e um exemplo clássico disso é o “Madame Bovary”, de Flaubert, obra que, por sinal, eu cito na introdução da minha tese. Mas por mais pertinente que ela seja, jamais poderia ser incluída sob o rótulo de ‘literatura da mulher’, pelo simples fato de ter sido produzida por um homem.
Quanto à questão de “ver a vida por um lado homoerótico”, só posso dizer uma coisa: eu não sei deixar de ser eu! De novo, aquela impossibilidade de você não se colocar, em alguma medida, naquilo que você escreve, a tal ‘necessidade interior’ impregnando cada palavra do que escrevemos.

Quanto ao mercado editorial, acredita que as editoras estão ficando mais receptivas para novos escritores?

Sinceramente, não saberia responder. De minha parte, só sei dizer que, se você tiver grana, uma boa parcela das editoras vão naturalmente abrir suas portas para você. Quanto às grandes editoras, minha experiência é a pior possível. Acho que há um desrespeito enorme da parte delas para com nós, escritores (excluindo, é claro, os chamados ‘figurões’), uma relação de subserviência com a qual, honestamente, não tenho, e nem nunca tive, saco para compactuar.


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29 de abril de 2013
Nunca é tarde pra ser

Nunca é tarde pra ser





Em cada final de capítulo senti aquele arrepio que toda obra deveria nos dar. Passando por cinco tipos de animas diferentes – gato, cachorro, passarinho, peixinho e gente –, Ricardo Thomé em seu A resposta e o vento nos mostra como realizar uma escritura em que se estabelece uma curiosidade cheia de ânsia no leitor.

Confesso que quando tive o livro em mãos senti uma sensação de modorra, um cansaço ao ver aquela imagem desfocada, sem saber se amanhecia ou se entardecia o dia. Essa sensação de falta que às vezes temos e podemos ter em qualquer lugar.

Contudo, a modorra logo se dissipou ao ler a primeira frase do livro: “O que podia ter sido nunca é tarde para ser.” Se dissipou porque eu acreditava que o livro não era um livro de autoajuda e que por iniciar assim poderia ter a possibilidade de ser muito ruim ou muito bom. A resposta veio quando o vento a levou.

Quando a frase se parte, e o vento resolve levar pelos caminhos de Copacabana sua força, poderemos notar que tudo irá se modificar para uma determinada pessoa em um certo lugar. A frase Nunca é tarde para ser vem para desestabilizar momentaneamente a psique de quem a lê, até mesmo, variavelmente, a do leitor. E esse desequilíbrio é que faz com que se possam erguer os olhos, elevar a alma e caminhar, pois só caminhando, como diria Nelson Rodrigues, é que se pode ser livre.

Teodora, Veruska, Tião, Renato, Nestor, Lorena e Zeu são os protagonistas dessa história. Poderia dizer que um é mais forte do que o outro, que determinado personagem se faz mais presente do que outro pela sua forte personalidade ou pela exótica maneira de ser, mas não. Isso não se faz necessário na obra de Ricardo Thomé. Todos são iguais, todos possuem a sua solitária dor. E essa solidão em que se forma no entrecruzamento dessas vidas me faz pensar se a sociedade não é apenas um conglomerado de pessoas solitárias e incompreendidas.

Todos são realmente solitários, e isso não vem da demonstração de sua necessidade de se fazerem acompanhados de animais – gato, cachorro, passarinho, peixinho e gente –, se faz porque a realidade em que vivem é a mesma que vivemos. O mundo criado pelo escritor carioca – cheio de hipocrisia, de mentira, de desigualdade, de preconceito – não é ligeiramente parecido com o nosso, é a nossa representação.

Mas o que liga todos esses homens e mulheres é apenas o fato de uma simples resposta entrar em suas vidas e poder, com sua força, modificá-los? Talvez sim, talvez tenha sido apenas isso: Nunca é tarde para ser. Porém, Abel é o fio condutor para que a narrativa nasça, para que ela se faça obra e que permeie nossa mente com sua sedutora linguagem.

Abel foi quem morreu dentro de um ônibus quando um negro subira para fazer seu primeiro assalto, e que após um grito de uma velha resolveu atirar com seus dedos trêmulos, como mais tarde confessa. Foi Abel quem fora esquecido pela namorada gorda e acalentado por um menino doce em seu último suspiro. Foi Abel que morreu para ser para o mundo como ‘a redenção da raça dos homens’, como diria Lorena.

É a partir de sua morte, que de início nos é desconhecida e que aos poucos vai se formando na mente do leitor, que podemos ficar sabendo que Abel era puro, um efebo de olhos azuis-piscina, que era virginiano e que só quis ser alguém de bem na vida, mas que, talvez, ainda não havia conseguido ser o que desejava ser.

Sua morte faz com que várias outras vidas possam ser vividas. É ele o maior catalisador para a mudança em todos os personagens ao lado da resposta que voa pelos caminhos de Copacabana. A resposta, que os faz refletir por um instante, sempre traz à lembrança a morte de Abel dentro do ônibus. Todos estavam lá, conectados ou não, todos tinham a sua importância naquele momento para Abel.

Talvez, após a leitura, alguns dirão que tudo não passa de um livro de autoajuda. As interpretações podem ser variadas, mas singularizar a obra como tal será um ato tanto mesquinho da parte do leitor.

Não nos iludamos em acreditar que o que há em A resposta e o vento é simplesmente uma reflexão de que Nunca é tarde pra ser ou como as pessoas são solitárias, apesar de isso estar presente na obra. Acreditemos que a maior dificuldade esteja em nos vermos nesses personagens, em nos acharmos incompreendidos, em percebermos que somos uma sociedade que não recebe de braços abertos, como uma mãe recebe seu filho após a sua primeira caminhada, os ‘desajustados’.
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28 de fevereiro de 2013
Octavio C e a mudança como esperança

Octavio C e a mudança como esperança



Octávio C. é um homem comum, talvez até demais. Na realidade, ser homem comum, nos dias atuais, não é algo tão simples como parece. Emitir uma opinião, ter o seu próprio pensamento, já não é o mesmo que antes. Todos são praticamente iguais e donos do saber, e ao final das contas pensam todos exclusivamente em si, ou não? Talvez tenha sido a leitura de Os 3 desejos de Octávio C. que tenha feito eu barafustar as ideias, pois ele ultrapassa os limites do esperado, das razões humana e inumana, se é que se assim pode dizer, até mesmo pelos gênios das lâmpadas.

Sim, gênios existem e não adianta ficar assustado. Não adianta buscar uma explicação para a existência deles e nem saber se eles são seres mágicos ou extraterrestres, apesar de que ficamos sabendo que eles já viajaram de galáxia em galáxia, de planeta em planeta, até que pudessem ser ‘úteis’ novamente. Você não acha que somos a única raça de todo o universo que é problemática, ou acha? Mas o que nos convém saber é que Octávio é um homem preocupado com a humanidade.

Um gênio aparece, não por vontade própria, mas por ter sido designado a aparecer especificamente para o funcionário público responsável pelos Divórcios a pedido do seu dono anterior. Opkinson, homem de nome estranho, americano, foi quem enviou uma candeia, contendo um gênio, para Octávio C., seu neto.

Diante dos questionamentos do personagem sobre por qual razão seu avô teria deixado aquele objeto de herança, o funcionário público acaba por tocar sem querer na candeia, ou seria o inconsciente trabalhando, como dirá o gênio?

– Mas eu não te chamei! Só se esfregasses a candeia!
– Não te lembras? Quando te sentaste no sofá com a candeia no colo, esfregaste-a com a mão esquerda. Podes não ter dado por isso, mas o que interessa é o gesto. Ou isso a que vocês chamam o inconsciente. Ninguém esfrega uma candeia se não tiver pelo menos um desejo a concretizar.


O gênio de Pedro Eiras é diferente. Ele não aparece ao vivo e a cores, como nas lendas ou nas histórias infantis, como irão comparar certos críticos. O gênio de Octávio C. é diferente, ele se faz distante daquela ideia de que temos do gênio da lâmpada, tanto na forma de surgir quanto à personalidade. Ao esfregar a candeia, como é chamada em Portugal, nada acontece, pois os gênios aparecem somente em sonho, devido aos problemas que tiveram com a humanidade anteriormente.

– E por que só apareces em sonho?
– É uma história complicada, ao longo dos séculos nós aparecemos a muitos donos em carne e osso, mas deu mau resultado, pensaram que nos podiam tratar como escravos, tivemos de fugir mal se cumpria o terceiro desejo... Em suma a culpa é vossa. (...) Mais vale assim, nos sonhos pelo menos fica tudo logo claro.

Mesmo assim, frente aos poderes do gênio, Octávio C. não crê no que vê, ou no que sonha. Porém, o gênio diz que cabe ao apaixonado por Anabela desejar ou não, acreditar ou não. E se preferir, pode durante as três noites seguinte não realizar pedido algum, transformando o gênio em algo inútil.
  
Desde sua aparição, o gênio tende a ler os pensamentos de Octávio e a querer a ajudá-lo. Aparenta querer realizar os maiores sonhos de seu dono, que nega a ajuda e o proíbe da leitura de seus pensamentos, mas a esse tempo o gênio da lâmpada constantemente irá lembrar a Octávio que deve pedir para ter Anabela junto a ele, pois isso é o melhor que se há de fazer.

O responsável pelos Divórcios, Octávio, não acredita ser merecedor destes três desejos e se acha na posição de utilizar esses pedidos em prol de toda a humanidade. Ele acredita que deve pedir algo para todos, algo que faça bem ao coletivo. Esse é o erro de Octávio C., ter esperança de que os seus desejos possam vir a salvar a humanidade.

O que ele não sabe é que a paz entre os homens, essa benfeitoria que tanto almeja para todos, é algo praticamente impossível. Talvez seja a época em que vivemos que nos faz acreditar que são necessárias as guerras, talvez seja a inocência que ele tinha consigo na infância que o faz pensar assim, talvez seja apenas o seu próprio jeito de ser, um pouco humano.

O livro de Pedro Eiras, escritor português que aos poucos vem ganhando espaço entre os leitores brasileiros, apresenta uma história cujo objetivo é nos fazer refletir sobre a nossa condição humana. Tal reflexão, realizada por Octávio C., não acontece de maneira ontológica ou fenomenológica como alguns leitores podem vir a acreditar. A narrativa, muito bem arquitetada, possui um ótimo senso de humor, principalmente na figura do gênio, que diz não poder se utilizar de ironias, pois os gênios não são humanos, logo, eles não conseguem dominar essa ironia.

– Eu digo sempre o que quero dizer e quero dizer sempre o que digo. Nós, os génios, não conseguimos dominar a ironia e essas figuras do discurso todas, tão ricas, da vossa linguagem. Quem nos dera! Mas não, somos terrivelmente, terrivelmente literais.
– Quando falas, não é o que parece.
– Então talvez o não-parecer seja a literalidade do meu discurso.


Essa reflexão é realizada através dos pedidos de Octávio. Eles trazem, com certeza, alguns dos questionamentos que qualquer humano já possa ter feito. Dessa forma constrói-se a relação entre os dois personagens do livro, o diálogo que se estabelece é de divergência de ideias, pois ambos utilizam-se da razão para tal fim. A partir de seus desejos, Octávio acaba por esquecer o mal que eles podem causar à humanidade, modificando os sentimentos das outras pessoas. E sentirá isso na pele, quando, após a realização de um dos seus pedidos, observará como o seu vizinho o ‘assalta’ com um garfo!

– Não me obrigue a usar isto, Sr. Octávio. Peço desculpa. Não tenho outra escolha.
Não respondi, mas lembrei-me do pudor do meu génio em suprimir os garfos. O Sr. Zebedeu agarrou no saco com a mão esquerda, continuou a empenhar o garfo com a direita, e recuou pelo meu apartamento até à porta. Acompanhei-o a uma distância segura. Não consegui sentir muito medo do garfo que o Sr. Zebedeu usava, mas não queria que se sentisse pressionado a usá-lo. Por fim, o meu vizinho chegou a porta do apartamento dele, alguém abriu por dentro sem se mostrar, ele entrou. Ainda sussurrou, a tremer:
– Acredite, Sr. Octávio, eu não sou uma pessoa má.

Difícil é acreditar na fala do Sr. Zebedeu. Acreditar que não somos maus é um pouco inocente de nossa parte. O homem só é, digamos, correto, ou tenta sê-lo, quando tem ou pode ter o que deseja a sua volta. Quando tudo que lhe é necessário desaparece, quando não há mais fundo para que possa sobreviver e existir de maneira ‘coerente’ ou harmoniosa com os outros seres humanos, nós esquecemos o quão ‘bons’ realmente somos. Esquecemo-nos das boas maneiras, da solidariedade. Talvez, seja esse um pensamento pessimista, pois há quem dirá que não somos todos iguais. Bem, eu diria que somos todos humanos, e que o pensamento incutido na obra de Pedro Eiras não deixa de ser uma parcela da verdade.

Quando o gênio da candeia realiza o terceiro pedido de Octávio C. o jornalista da televisão anuncia:

Acabo de receber várias notícias ao mesmo tempo... Em Itália, na Rússia, na Guatemala, registam-se mais casos de parricídio e incesto. A lista de vítimas destes dois crimes não para de aumentar desde a madrugada de hoje.

E após a chamada, será entrevistado um psicanalista que irá tentar representar as ações humanas em uma escala totalmente sem sentido, mas que para ele está totalmente correta. É nesse ponto em que nos encontramos, agora mesmo em nossa sociedade, mesmo sem ter havido desejos mágico, sem haver intervenções divinas.

O principal na obra de Pedro Eiras, que quase nos atinge como um asteroide XB-43, é tentar entender de que maneira os três pedidos feitos ao gênio podem representar a nossa maneira de viver. Compreender de que forma podemos tentar modificar o mundo, mas antes de tudo, modificar a nós mesmos, é o que Octávio deseja.

 O que Os 3 desejos de Octávio C. transmite é que na realidade não há salvação. O mundo já foi arruinado por vários homens, em várias épocas diferentes. A salvação, se ainda existe, está apenas na mudança, e esse é o grande problema: mudar a nós mesmos. De nada nos adiantará ser bons ou éticos nos momentos de glória ou de comunhão dos bens. O que nos sobrará serão os defeitos e as miserabilidades que possuímos quando algo catastrófico atingir a humanidade ou não nos sobrará nada como quando o XB-43, asteroide criado pelo gênio pelo desaparecimento do dinheiro e das armas de todo mundo, nos atingir.

Entendo que Pedro Eiras, com sua linguagem irônica e ao mesmo tempo séria, como nos dizeres do gênio, nos faz notar que temos uma representatividade no mundo, em todos os momentos da história. Por quê? Porque quando Octávio C. conversa com o Sr. Honório, este diz:

– A História, meu caro Octávio, é feita de diferença e repetição. Nada é absolutamente idêntico e nada é absolutamente diferente. No fundo nós somos sempre os mesmos. Dou-lhe um exemplo, só um exemplo: o medo de morrer. Acha que progredimos um milímetro que seja em relação ao medo de morrer? Não estou a falar do medo dos trovões e desses espetáculos celestes que nos aterrorizavam há uns milhares de anos. A ciência esquadrinhou o céu, enfiou a eletricidade nas nossas tomadas e, para lhe ser franco, não sei se não teremos perdido algum sentimento precioso do mistério com tanta técnica, não sei se nos desenraizámos irreversivelmente. Mas tudo isso estava escrito, de algum modo. E não pense que eu seja determinista. Fui demasiado educado no humanismo para isso. A História é repetição, sim, é previsibilidade, mas também diferença. Por isso eu tenho esperança, percebe, Octávio?

 Nós repetimos os mesmos erros e faremos tudo igual em todas as épocas.

Octávio C. realiza os seus três desejos em prol do bem coletivo, mas ele esquece que os homens não podem viver, todos, em total harmonia. Já não se pode viver sem armas ou sem tevês. As armas devem existir, senão galhos serão nossas armas, e todos nós sempre iremos inventar uma nova maneira de nos sobrepormos sobre os outros. Até o momento em que não tivermos mais medo. Até o momento em que tudo seja esquecido por conta da falta de medo. Até o momento em que até os gênios irão fugir do nosso planeta. E enquanto tudo isso acontece:

Entretanto, em Roma, o Papa apela à calma e à serenidade.

por Nathan Matos


Livro: Os três desejos de Octávio C. Pedro Eiras. Editora Oficina Raquel. 2012.

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