Entrevista com Ricardo Thomé
Ricardo,
você sente uma necessidade interior de escrever?
Sim,
acho que todo mundo que escreve, que pinta, que compõe, todo artista, enfim, o
faz por uma necessidade interior, uma vontade de expressar o inexprimível, de tentar
impor alguma ordem ao nosso caos interior.
Você acredita que existe um
distanciamento total entre escritor e obra?
Não.
Em maior ou menor grau, de modo mais, ou menos, explícito – ou camuflado –,
estamos sempre ali, naquilo que produzimos. O que não quer dizer,
evidentemente, que eu compactue com todos os atos e idéias de meus personagens.
Mas seja pela afirmação, ou pela negação, por uma empatia, ou pela falta dela,
cada personagem representa uma faceta da minha forma de entender e de enxergar o
mundo.
Fazer literatura no Brasil é
complicado?
Complicadíssimo.
Se você não tem um padrinho poderoso e nem participa das chamadas ‘panelinhas’,
só com muita sorte você vai conseguir um lugarzinho ao sol.
Sua obra envolve poesia, dramaturgia e romance.
Como é transitar entre gêneros diferentes?
Normal.
São formas diferentes de você expressar aquela tal ‘necessidade interior’. Se
tivesse de me definir, diria que sou um poeta que se mete a fazer ficção, vez
ou outra.
Em A
resposta e o vento, percebe-se que não há um personagem mais importante que
outro, mas há uma ligação entre todos. Essa trama envolve paixões e solidões. Você
acredita que o homem é formado, fundamentalmente, por esses dois sentimentos?
Mas
a solidão é um sentimento ou uma condição¿ Ou um pouco dos dois¿ Eu acredito
que, parafraseando Sartre, nós somos aquilo que fazemos do que fizeram de nós.
Ou que permitimos que fizessem de nós. E isso, é claro, envolve nossas paixões,
nossos medos, nossos sentimentos mais secretos.
Há, no romance, um retrato da sociedade
moderna. Muitas ideias estão postas como se fossem necessárias serem
discutidas. Você acredita que, de alguma forma, o seu romance leva à reflexão¿
Você escreve já com esse intuito? De marcar o leitor? De fazê-lo sentir para
refletir?
Espero, sinceramente, que sim. Ficaria muito decepcionado se minha literatura
fosse encarada apenas a partir do seu aspecto de entretenimento. É isto também,
claro, mas se ela não suscitar no leitor alguma espécie de incômodo, de
espanto, então não vale nada, é perfeitamente descartável. Mas pelo retorno que
tenho recebido (e que não é muito), acho que tenho logrado êxito nesta
empreitada, sim.
Nessa mesma obra, a maioria dos
personagens possuem, em maior ou menor grau, questões relativas com a
sexualidade. Algo que perturba certa parcela da sociedade. Você acha que o
leitor brasileiro está preparado para obras que discutem de alguma maneira isso,
ou não?
Olha,
alguém já disse que o ser humano, consciente ou inconscientemente, pensa em
sexo 70% do seu tempo e que gasta os outros 30% tentando não pensar nisso (rs).
Evidentemente que a sexualidade é um prato cheio – e indispensável – a todo
aquele que quiser se debruçar sobre esta coisa tão misteriosa chamada ‘essência humana’. E, hoje, neste nosso mundo
tão absolutamente multimidiático, nada mais choca, tudo é perfeitamente
assimilável.
Em sua tese,você afirma que é
acostumado a ver a vida por um lado homoerótico, e defende que pra escrever um
bom livro sobre homossexual você tem que ser homossexual, como pra escrever
sobre o drama de um negro você tem que ser negro. Ainda hoje, você defende esse
pensamento?
Mas eu jamais disse isso! O que eu disse, na introdução da minha tese, é
que há, dentro da indispensável compartimentação que o estudo da literatura
apresenta nos dias de hoje, a idéia de que só se pode falar em literatura do
negro ou em literatura de autoria feminina, sendo negro ou mulher. E isso não
sou eu quem o afirma. Pelo contrário, acredito que um homem possa perfeitamente
bem produzir obras excelentes sobre a mulher e sua condição, e um exemplo
clássico disso é o “Madame Bovary”, de Flaubert, obra que, por sinal, eu cito
na introdução da minha tese. Mas por mais pertinente que ela seja, jamais
poderia ser incluída sob o rótulo de ‘literatura da mulher’, pelo simples fato
de ter sido produzida por um homem.
Quanto à questão de “ver a vida por um lado homoerótico”, só posso dizer
uma coisa: eu não sei deixar de ser eu! De novo, aquela impossibilidade de você
não se colocar, em alguma medida, naquilo que você escreve, a tal ‘necessidade
interior’ impregnando cada palavra do que escrevemos.
Quanto ao mercado editorial, acredita
que as editoras estão ficando mais receptivas para novos escritores?
Sinceramente,
não saberia responder. De minha parte, só sei dizer que, se você tiver grana,
uma boa parcela das editoras vão naturalmente abrir suas portas para você.
Quanto às grandes editoras, minha experiência é a pior possível. Acho que há um
desrespeito enorme da parte delas para com nós, escritores (excluindo, é claro,
os chamados ‘figurões’), uma relação de subserviência com a qual, honestamente,
não tenho, e nem nunca tive, saco para compactuar.



