Paris-Curitiba
por Miguel Sanches Neto
O conto que abre o livro Mistérios de Curitiba (4ª. edição,
Record, 1979) atualiza uma linguagem bíblica, ou melhor, apocalíptica. Nestas
“Lamentações de Curitiba”, o sujeito do discurso se aproxima de Jeremias, que
descreve o estado deplorável de Jerusalém e da Judeia. O texto é uma queixa e
um anúncio do destino fatal de uma cidade maldita: “Teu próprio nome será um
provérbio, uma maldição, uma vergonha eterna”.
O conto relata a iminência de um juízo final
que devastará a cidade. Ao longo do texto percebemos que os verbos que definem
a situação da urbe estão no presente ou no futuro, destacando assim o que a
cidade é e o que será depois do advento. No penúltimo parágrafo, no entanto, há
um rompimento dos prognósticos para dar-se o anunciado: “A espada veio sobre
Curitiba, e Curitiba foi, não é mais”. Na verdade, a urbe se tornou passado e
esse fato salienta uma ruptura temporal que ajuda a entender o volume todo. A
Curitiba de Dalton, objeto destas histórias, passa a ser aqui a de um tempo
ido. Uma cidade que ficou esquecida num pretérito morto.
O último parágrafo do conto estende este
momento às cidades circunvizinhas. Também elas fazem parte desta Curitiba
transmunicipal que abarca outras comarcas. A imagem de uma urbe destruída pela
espada do anjo vingador tem uma correspondência nítida com outro texto do
volume: “Em busca de Curitiba perdida”. A ausência do artigo /a/, que tornaria
definido o objeto desta rememoração, mostra que se está atrás de algo que não é
bem determinado. Em ambos os contos sobressai uma cisão temporal entre a urbe
de outrora e a de agora. Desdenhando esta, o narrador concentra a sua atenção
na outra. A divisão de uma cidade em dois tempos se desmembra em sua
multiplicidade geográfica. O narrador diz: “Não viajo todas as Curitibas”
(p.86), o que equivale a conceber a cidade como manifestação de várias
realidades que caracterizariam diversas camadas urbanas.
Rompendo com a próxima, com a convencional,
com a Curitiba para turista, Dalton busca, como disse Walter Benjamim, dar “um
salto de tigre em direção ao passado”, recolocando em circulação uma imagem dos
esquecidos e dos perdedores.
É nesse sentido que devemos ler os mistérios da
vida desses habitantes do lado desprezado da história. A Curitiba misteriosa
não é a dos temas do ocultismo, mas a da realidade ocultada por uma visão
estereotipada, de fachada, que tenta vender uma falsa ideia de convivência pacífica,
paradisíaca, tal como faz o mito provinciano da “cidade sorriso”.
As histórias não são misteriosas. O enigma, se
é que existe um, está justamente nestas relações humanas marcadas por uma
ausência completa de salvação. No mundo ficcional de Trevisan não existe
redenção possível. E, ao relatar isso, de maneira tão incisiva e contundente, o
autor quer minar nosso orgulho periférico de civilizado.
Mistérios de Curitiba é o primeiro livro em que Dalton atinge
uma síntese tão acentuada. Estas histórias curtas não implicam só em uma
economia verbal, ou seja, não são apenas uma opção estilística, mas tem em mira
plasmar formalmente a própria pobreza de um mundo. O vazio dessas vidas é
captado através do vazio verbal de narrativas lacônicas.
Tal brevidade faz com que o conto se limite
com a crônica. Recordemos aqui o antigo nome de uma antologia fora de comércio: Crônicas da
Província de Curitiba, onde percebemos os ecos de Bandeira, autor
das Crônicas
da Província do Brasil. Os mistérios curitibanos são pensados
em função do deslocamento geográfico. Este volume, que dialoga com Os mistérios
de Paris, de Eugene Sue, perde o artigo definido e destaca a
periferia. Trata-se da desleitura de uma obra que nasce sob o signo da cultura
de massa, classificada por Umberto Eco como vendedor de emoções que especula
sobre a miséria humana. Livro que incorpora uma visão satânica, explorando
situações mórbidas, o horrível e o grotesco, Os Mistérios de Paris “revelam
ao leitor condições sociais iníquas que produzem, através da miséria, o crime.
Se se atenuar a miséria, se se reeducar o presidiário, se se arrancar a jovem
virtuosa ao rico sedutor, o operário honesto à prisão por dívidas, dando a
todos uma possibilidade de redenção fundada numa ajuda cristã fraternal, a sociedade
poderá melhorar. O mal é
apenas uma enfermidade social. Começado como epopeia da gatunagem, o livro
termina como epopeia do trabalhador infeliz e como manual de redenção” (Apocalípticos
e Integrados. Perspectiva, 1976, p.187). Dalton vai renegar as intenções
moralizantes e os fins comerciais que orientam Sue e escrever um livro que
coloca em cena personagens de um submundo, mas sem nenhum interesse de defender
ou acusar, nem de propor saídas para os problemas sociais.
As suas narrativas desvelam uma realidade
apertada pelos muros municipais. Seus personagens fazem parte de uma esfera
agrícola ou ocupam pequenas funções: donos de secos e molhados, secretários de
clube de futebol de bairro, entregadores, donas de casa... A diversão desta
gente é basicamente provinciana: circos, onde cachorros vadios atrapalham o
espetáculo, festas de igreja e visitas ao Passeio Público. O cenário se opõe ao
de Paris. Se no primeiro título desta coletânea, Dalton, dialogando com
Bandeira, destacava o prosaísmo da vida na província, no título definitivo a
mesma tensão é mantida a partir do deslocamento Paris-Curitiba.
Em vários contos surge o fantasma do
insulamento. Este é um dos temas caros a Trevisan, desde os tempos da Joaquim.
A ausência de vias de comunicação com o resto do mundo fica sugerida através do
comentário sobre a não existência de rio sob a Ponte Preta (em “O Rio”): “A
Ponte Preta anuncia o rio que não corre em Curitiba”, ou da odisseia imaginária
que o comerciário José faz, experimentando no bonde, as contradições entre a
imaginação e a realidade, respectivamente representadas pelos perigos de uma
viagem marítima por regiões estrangeiras e pela sua volta pacífica ao lar no
fim do expediente, ou ainda através do desejo de André que, na ausência da
mulher, quer ver o mar – desce a serra mas, depois de embebedar-se e de ser
roubado pelas meretrizes, volta a Curitiba sem contemplar a imensidão das
águas, contentando-se apenas com alguns minutos na banheira (“Homem ao mar”).
Este bloqueio geográfico corresponde ao
isolamento do próprio indivíduo numa sociedade em que o inter-relacionamento é
sempre problemático. Isto fica evidente na linguagem dos personagens. Vários
contos manifestam a dificuldade de comunicação. Dominando um vocabulário
amputado, eles expressam seu mundo e narram suas vidas de uma maneira lacônica
e repleta de lugar comum. Ao nos apresentar as histórias sob o ponto de vista
e/ou na voz desses personagens, Dalton se retira da narrativa, tornando-a um
encontro direto com a realidade omitida – embora possamos, em determinados
momentos, como no conto “Em busca de Curitiba perdida”, ouvir a voz do autor. A
dificuldade de comunicação e a expressão direta de pequenos dramas gigantescos
ficam nítidas nas narrativas em forma de carta, que aparecem com frequência em Mistérios de
Curitiba.
Sem uma linguagem própria, os personagens
escrevem como quem copia modelos de missivas. Isso faz emergir o problema de
uma mensagem postiça. Os produtos destas cartas são cômicos porque põem a nu a
cristalização de um código. Assim, em “Carta escrita no escuro”, a amada tenta
exprimir o desespero causado pela falta do amante. Ela vai à sua casa, não o
encontra e, depois de muito esperar, deixa uma carta que fala de sua aflição.
Mas tudo se revela fingimento quando a mulher, num lugar comum de
correspondência, pede para que o amante não repare na letra, pois escreve no
escuro. Ora, num momento de desespero não se pensa na beleza da caligrafia.
Isso delata o caráter convencional e, portanto, falso dessa carta de aflição.
Em “Pedro”, uma ex-amante, em apuros
financeiros, escreve ao seu protetor. Já começa copiando o modelo: “Pedro, pego
na pena com a mão trêmula, me desculpe a liberdade destas mal traçadas linhas”.
Mas, das cartas, a mais bela é a intitulada “Apelo”. O marido escreve para
pedir a volta da mulher que o abandonou. É significativo o fato de ele não
dizer que a ama, embora a carta, implicitamente, queira convencer a mulher de
que o marido está com saudade. Não é, todavia, uma mera carta de amor. Ele
confessa a sua maneira de gostar e a razão de sentir a sua falta: “Acaso é
saudade? [...] Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o
saca-rolha? Volte para casa, Senhora, por favor”. A mulher é valorizada pelo
seu serviço e isso fica sugerido pela forma de tratamento. É chamada de
“Senhora”, ou seja, é vista como a dona de casa – embora, ironicamente, lembre
o tratamento dispensado pelos poetas trovadorescos às suas amadas.
Em “Ladainha do amor” também aparece o estereótipo:
“João, em primeiro lugar desejo que estas poucas linhas vão te encontrar com
saúde e felicidade, eu vou bem graças a Deus”. Carta com uma pontuação
inadequada, com excesso de vírgulas, e uma abundância de pequenos períodos que
amalgamam assuntos, esta correspondência revela ser, no final, o pedido de um
retrato para um trabalho que una os dois novamente. O conto se torna risível
pela linguagem monocórdia e pelo atropelamento das ideias de Maria.
Personagens encenando toscamente um papel
que não se lhes ajusta, as cartas desvelam ainda a representação de um grupo
social pela linguagem. Dalton, como um bricoleur, está se valendo da
apropriação de uma linguagemkitsch, a dos correios sentimentais, para tirar dela,
usando-a com intenções satíricas, ressonâncias novas. Com cenas líricas, dramas
e linguagens recorrentes, violência narrativa (estilística e temática), ele
recicla os mistérios que jaziam em esquecimento. As conclusões a que chegou o
escritor cubano Cabrera Infante em seu romanceTrês Tristes Tigres podem
definir esta opção de Trevisan: “Penso que melhor do que a lembrança
involuntária para captar o tempo perdido é a lembrança violenta, irreprimível”.
NOTA
O texto O labirinto da solidão foi publicado primeiramente
no jornal A gazeta do povo, em 16 de junho de 1994 e
disponibilizado no site Herdando uma biblioteca, do escritor Miguel
Sanches Neto. A republicação no LiteraturaBr faz parte
de um acordo entre esses dois veículos.
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