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18 de abril de 2013
Cenas Domésticas, por Miguel Sanches Neto

Cenas Domésticas, por Miguel Sanches Neto




A obra de Dalton poderia ter como título “cenas da vida de província”. Isso fica bem claro no volume Morte na praça (1964 – 5ª. edição: Record, 1979), que fornece uma visão de acontecimentos circunscritos a uma geografia populacional interiorana. Na grande maioria destes contos encontramos um ambiente de cidadezinha ou de colônia. O que revela a importância da família, desdobrado em sua correspondente mais próxima: a cidade – vista como pequeno aglomerado de vidas que mantêm uma interdependência quase doméstica. Esse estreito parentesco entre burgo e família põe em cena a imagem da cidade como um clã, um ajuntamento de famílias que têm ancestrais (leia-se: valores) comuns.

Esta conotação vai servir como fio condutor da leitura do volume. Leitura que já pode ser desenvolvida a partir do primeiro conto, “Morte na praça”. O que me interessa nesse texto é a possibilidade de definição de um conceito particular de cidade e de suas implicações no conjunto da obra de Trevisan.

O conto começa com uma simetria entre a cidade e a praça: “A cidade orgulhava-se de sua praça, com igreja, hospital, farmácia, loja de armarinho, retratista, dois carros de aluguel e, no canteiro de rosas, o busto do herói”. A praça é o espaço em que se revela a organização da urbe. Melhor ainda, a praça é a própria cidade. É o seu comércio e a sua história, representada pela figura imponente do herói. Tal equivalência é confirmada pelo sentido metonímico da palavra praça: o de cidade.

A praça (em seu duplo sentido) que aparece no conto é um lugar organizado, em que todos têm uma convivência familiar. Esse equilíbrio corre o risco de ser rompido com a chegada de Jonas e sua mulher – uma ex-bailarina de cabaré. Jonas, que havia sido garimpeiro e jogador, trazia nas costas o assassinato de um homem. Ele e Anita são os elementos alienígenas que desestabilizam a sociabilidade. É significativo o fato de se instalarem, através da aquisição de uma farmácia, nas imediações da praça. Num primeiro momento, eles se ajustam à vida local. Mas, em função das ações clandestinas de Anita, que começa a receber amantes, o casal assume o seu verdadeiro sentido na pequena comunidade.

O marido passa a viver desiludidamente, aceitando a mulher e suas traições, agora públicas, e se revolta contra a praça, arrancando as flores, desrespeitando a igreja. Jonas morre e Anita continua recebendo visitas e enterrando os fetos abortados no fundo do beco. Estas são algumas das mortes na praça. Os fetos enterrados podem ser entendidos como referência simbólica à miséria que há nos subterrâneos do espaço social aparentemente imaculado.

Aqui tenho que retomar o que já ficou dito. A cidade é a família. Basta lembrar que “no verão os moradores sentavam-se em cadeiras de palhas na calçada”, ou seja, estabeleciam relações íntimas. A praça figura como casa, espaço comum da interioridade onde “os velhos coçavam o eczema no pé de grossas veias azuis”. Jonas e Anita solapam a tranquilidade desta vida e instalam nela um ponto podre: a farmácia acaba se transformando em cabaré. O universo fechado, restrito e provinciano, perde o seu aparente equilíbrio através do comportamento de Anita, que desencadeia a desestruturação das famílias tidas como ordeiras. Seu primeiro amante, Ernesto, casado, esquece no lugar do crime um relógio com o retrato da mulher. A instituição familiar fica assim exposta.

É em torno também da família que se desenvolve o conto “Começo de vida”, em que Juva, grávida, é violentada pelo filho de um comerciante. O marido acaba sabendo, mas não faz nada. O mesmo tema também aparece em “O velório”, que narra a atitude maternal de uma velha cafetina, sugestivamente chamada Mãezinha, que faz o enterro de uma de suas ex-meninas, Doralice, desgraçada por um amor não correspondido. O conto revela um universo cruel: as relações desta profana família são marcadas pela ingratidão. Uma ingratidão que transparece na atitude de um poeta que, mesmo durante o velório, tenta seduzir uma das meretrizes e acaba gastando em bebida o dinheiro que esta havia lhe dado para comprar flores para a falecida.

Também em “Entre homens”, relato de uma vingança (o filho vinga a morte do pai, matando um fazendeiro prepotente), o papel da família é central. Assim como em “Cenas domésticas”, conto em que Dalton narra o desentendimento de um casal, cuja relação é marcada pela tensão entre uma promessa remota de felicidade conjugal, só recordada pelo marido num momento de solidão, após a morte da mulher, e o inferno de um convívio marcado pela impiedade e pela desconfiança masculinas.
Todos os contos têm no relacionamento familiar o cerne de uma tensão dramática. Mesmo “Ismênia, moça donzela”, um conjunto de cartas breves e interesseiras (que se querem amorosas) de uma amante a um doutor casado, põe em debate a instituição casamento e seus problemas. Através das correspondências de Ismênia, vislumbramos sob uma oferta amorosa a venda do corpo, o que dá à mulher um valor de mercadoria – filiando-a ao mundo dos objetos.

Além desta preocupação comum a todos os textos, existe também um parentesco geográfico entre estes contos: a maioria deles se passa numa zona agrícola e rústica, reforçando assim a temática do livro anterior (as relações entre Curitiba e as colônias), com a novidade de trabalhar agora com outras amostragens das relações humanas.

Não vou comentar todos os textos, mas chamaria a atenção para “Iaiá, por que choras?”, narrativa que retrata o processo de enlouquecimento e decadência de uma moça de família tradicional. Ela, a “última de uma linhagem de heróis, o busto do avô na pracinha”, se casa com um barbeiro, escandalizando a cidade que ainda tinha na memória a grandeza perdida de seus antepassados. Iaiá morre esclerosada. Do passado áureo fica apenas o busto na praça, símbolo de um tempo morto.

Mas é “O filho pródigo” (adaptação de conto homônimo de André Gide), último texto do livro, que aglutina esta série de narrativas. Talvez este seja o principal relato do volume por esclarecer alguns significados que nos demais têm uma condição subterrânea.

O tema do filho pródigo não aparece aqui como uma referência irônica à tradição bíblica, tal como em alguns contos de Novelas nada exemplares. Antes, o filho pródigo era caracterizado por voltar das farras muito tarde. Agora há uma preocupação em resguardar o tom bíblico e o mecanismo da parábola (devido ao parentesco com o texto de Gide), mas sem deixar de explorar novas significações, inserindo-as dentro de um contexto específico. Esse reaproveitamento da parábola é revelado pela citação da fonte: São Lucas, XV, 11 a 32. É como se Dalton desejasse reformular o texto bíblico, a partir de Gide, dando-lhe um sentido outro, menos convencional.

No conto, todo dialogado, não se manifesta a interferência, por menor que seja, do narrador. Nem mesmo para dar pequenas informações para explicitar as vozes. Isto se torna dispensável porque o texto nos é familiar. Seguindo a estrutura da narrativa do autor francês, o relato de Trevisan se divide em quatro atos: “com o pai”, “com o irmão mais velho”, “com a mãe” e “com o irmão menor”. Em cada um deles se dá o confronto entre o aventureiro e um dos membros da família. O pai aceita o filho de volta, mas não entende a razão de tantas peregrinações e de tanto gasto para descobrir que o seu lugar é o seio da família. Ao irmão mais velho ele representa a perda de uma parte da herança. E mesmo a mãe, que foi quem mais sofreu com a ausência do filho, agora se dilacera com a possibilidade de sua volta incentivar a partida do caçula. Este, por sua vez, decidido a romper com o cordão umbilical, menospreza o irmão por ele ter voltado ao lar. Na verdade, o filho pródigo não consegue reocupar o seu lugar. Será mais estrangeiro do que em terras remotas e sofrerá a vergonha de não ser aceito como companheiro de viagem do caçula, que vai retomar a excursão pelas doces delícias da estrada.
           
Quero me deter em um trecho da discussão entre o filho pródigo e a mãe, que sintetiza as conotações do volume. Diz ele: “Mãe, se soubesses, o mundo é tão maior do que Curitiba”. Mas ela exige que ele ensine ao menor que “o mundo é Curitiba”. Aqui há uma nítida equivalência entre lar e cidade. Além de uma definição do provincianismo: o aqui é o centro do mundo.

O filho volta para morrer em casa. Este é também um dos sentidos da morte na praça. Seu medo acaba reiterando a potência da casa paterna com seus horizontes restritos. No entanto, a insubordinação do caçula acena com uma nova possibilidade de libertação. Um será o exilado no próprio lar. O outro percorrerá as estradas sem dono.

O pródigo, obedecendo à mãe, ainda tenta convencer o mais novo, dizendo-lhe que depois de ter viajado por todas as Curitibas não encontrou nada interessante. Mas o caçula responde que ele não descobriu uma – aquela que está reservada ao jovem, poderíamos completar. Este, ao ganhar o mundo, contesta a experiência do irmão, rompendo com a razão paterna e com a sua confirmação (a volta do filho arrependido).

Esta peça final revela que a antítese fundadora do livro é representada pelo contraste entre a acomodação a um destino tacanho e a liberdade, entre a pequenez da vida provinciana (que caracteriza quase todos os contos) e a necessidade de perder (ou ganhar) horizontes. Romper com os laços de família é também romper com a província. O livro, dessa forma, continua a ação profilática empreendida pelo autor na experiência iconoclasta da revista Joaquim, atribuindo à juventude o poder heroico da revolta.

Dalton está propondo uma ultrapassagem dos muros da cidade através de uma feroz crítica à acomodação (a um universo familiar) e àqueles que querem a segurança de uma morte entre os seus, de uma morte na (sua) praça. “Morrer em casa ou longe dela, qual a diferença?” – questiona o caçula.
por Miguel Sanches Neto

NOTA

O texto Cenas Domésticas foi publicado primeiramente no jornal A gazeta do povo, em 14 de julho de 1994 e disponibilizado no site Herdando uma biblioteca, do escritor Miguel Sanches NetoA republicação no LiteraturaBr faz parte de um acordo entre esses dois veículos.

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28 de março de 2013
Paris-Curitiba

Paris-Curitiba

por Miguel Sanches Neto


O conto que abre o livro Mistérios de Curitiba (4ª. edição, Record, 1979) atualiza uma linguagem bíblica, ou melhor, apocalíptica. Nestas “Lamentações de Curitiba”, o sujeito do discurso se aproxima de Jeremias, que descreve o estado deplorável de Jerusalém e da Judeia. O texto é uma queixa e um anúncio do destino fatal de uma cidade maldita: “Teu próprio nome será um provérbio, uma maldição, uma vergonha eterna”.

O conto relata a iminência de um juízo final que devastará a cidade. Ao longo do texto percebemos que os verbos que definem a situação da urbe estão no presente ou no futuro, destacando assim o que a cidade é e o que será depois do advento. No penúltimo parágrafo, no entanto, há um rompimento dos prognósticos para dar-se o anunciado: “A espada veio sobre Curitiba, e Curitiba foi, não é mais”. Na verdade, a urbe se tornou passado e esse fato salienta uma ruptura temporal que ajuda a entender o volume todo. A Curitiba de Dalton, objeto destas histórias, passa a ser aqui a de um tempo ido. Uma cidade que ficou esquecida num pretérito morto.

O último parágrafo do conto estende este momento às cidades circunvizinhas. Também elas fazem parte desta Curitiba transmunicipal que abarca outras comarcas. A imagem de uma urbe destruída pela espada do anjo vingador tem uma correspondência nítida com outro texto do volume: “Em busca de Curitiba perdida”. A ausência do artigo /a/, que tornaria definido o objeto desta rememoração, mostra que se está atrás de algo que não é bem determinado. Em ambos os contos sobressai uma cisão temporal entre a urbe de outrora e a de agora. Desdenhando esta, o narrador concentra a sua atenção na outra. A divisão de uma cidade em dois tempos se desmembra em sua multiplicidade geográfica. O narrador diz: “Não viajo todas as Curitibas” (p.86), o que equivale a conceber a cidade como manifestação de várias realidades que caracterizariam diversas camadas urbanas.

Rompendo com a próxima, com a convencional, com a Curitiba para turista, Dalton busca, como disse Walter Benjamim, dar “um salto de tigre em direção ao passado”, recolocando em circulação uma imagem dos esquecidos e dos perdedores.

É nesse sentido que devemos ler os mistérios da vida desses habitantes do lado desprezado da história. A Curitiba misteriosa não é a dos temas do ocultismo, mas a da realidade ocultada por uma visão estereotipada, de fachada, que tenta vender uma falsa ideia de convivência pacífica, paradisíaca, tal como faz o mito provinciano da “cidade sorriso”.

As histórias não são misteriosas. O enigma, se é que existe um, está justamente nestas relações humanas marcadas por uma ausência completa de salvação. No mundo ficcional de Trevisan não existe redenção possível. E, ao relatar isso, de maneira tão incisiva e contundente, o autor quer minar nosso orgulho periférico de civilizado.

Mistérios de Curitiba é o primeiro livro em que Dalton atinge uma síntese tão acentuada. Estas histórias curtas não implicam só em uma economia verbal, ou seja, não são apenas uma opção estilística, mas tem em mira plasmar formalmente a própria pobreza de um mundo. O vazio dessas vidas é captado através do vazio verbal de narrativas lacônicas.

Tal brevidade faz com que o conto se limite com a crônica. Recordemos aqui o antigo nome de uma antologia fora de comércio: Crônicas da Província de Curitiba, onde percebemos os ecos de Bandeira, autor das Crônicas da Província do Brasil. Os mistérios curitibanos são pensados em função do deslocamento geográfico. Este volume, que dialoga com Os mistérios de Paris, de Eugene Sue, perde o artigo definido e destaca a periferia. Trata-se da desleitura de uma obra que nasce sob o signo da cultura de massa, classificada por Umberto Eco como vendedor de emoções que especula sobre a miséria humana. Livro que incorpora uma visão satânica, explorando situações mórbidas, o horrível e o grotesco, Os Mistérios de Paris “revelam ao leitor condições sociais iníquas que produzem, através da miséria, o crime. Se se atenuar a miséria, se se reeducar o presidiário, se se arrancar a jovem virtuosa ao rico sedutor, o operário honesto à prisão por dívidas, dando a todos uma possibilidade de redenção fundada numa ajuda cristã fraternal, a sociedade poderá melhorar. O mal é apenas uma enfermidade social. Começado como epopeia da gatunagem, o livro termina como epopeia do trabalhador infeliz e como manual de redenção” (Apocalípticos e Integrados. Perspectiva, 1976, p.187). Dalton vai renegar as intenções moralizantes e os fins comerciais que orientam Sue e escrever um livro que coloca em cena personagens de um submundo, mas sem nenhum interesse de defender ou acusar, nem de propor saídas para os problemas sociais.

As suas narrativas desvelam uma realidade apertada pelos muros municipais. Seus personagens fazem parte de uma esfera agrícola ou ocupam pequenas funções: donos de secos e molhados, secretários de clube de futebol de bairro, entregadores, donas de casa... A diversão desta gente é basicamente provinciana: circos, onde cachorros vadios atrapalham o espetáculo, festas de igreja e visitas ao Passeio Público. O cenário se opõe ao de Paris. Se no primeiro título desta coletânea, Dalton, dialogando com Bandeira, destacava o prosaísmo da vida na província, no título definitivo a mesma tensão é mantida a partir do deslocamento Paris-Curitiba.

Em vários contos surge o fantasma do insulamento. Este é um dos temas caros a Trevisan, desde os tempos da Joaquim. A ausência de vias de comunicação com o resto do mundo fica sugerida através do comentário sobre a não existência de rio sob a Ponte Preta (em “O Rio”): “A Ponte Preta anuncia o rio que não corre em Curitiba”, ou da odisseia imaginária que o comerciário José faz, experimentando no bonde, as contradições entre a imaginação e a realidade, respectivamente representadas pelos perigos de uma viagem marítima por regiões estrangeiras e pela sua volta pacífica ao lar no fim do expediente, ou ainda através do desejo de André que, na ausência da mulher, quer ver o mar – desce a serra mas, depois de embebedar-se e de ser roubado pelas meretrizes, volta a Curitiba sem contemplar a imensidão das águas, contentando-se apenas com alguns minutos na banheira (“Homem ao mar”).

Este bloqueio geográfico corresponde ao isolamento do próprio indivíduo numa sociedade em que o inter-relacionamento é sempre problemático. Isto fica evidente na linguagem dos personagens. Vários contos manifestam a dificuldade de comunicação. Dominando um vocabulário amputado, eles expressam seu mundo e narram suas vidas de uma maneira lacônica e repleta de lugar comum. Ao nos apresentar as histórias sob o ponto de vista e/ou na voz desses personagens, Dalton se retira da narrativa, tornando-a um encontro direto com a realidade omitida – embora possamos, em determinados momentos, como no conto “Em busca de Curitiba perdida”, ouvir a voz do autor. A dificuldade de comunicação e a expressão direta de pequenos dramas gigantescos ficam nítidas nas narrativas em forma de carta, que aparecem com frequência em Mistérios de Curitiba.

Sem uma linguagem própria, os personagens escrevem como quem copia modelos de missivas. Isso faz emergir o problema de uma mensagem postiça. Os produtos destas cartas são cômicos porque põem a nu a cristalização de um código. Assim, em “Carta escrita no escuro”, a amada tenta exprimir o desespero causado pela falta do amante. Ela vai à sua casa, não o encontra e, depois de muito esperar, deixa uma carta que fala de sua aflição. Mas tudo se revela fingimento quando a mulher, num lugar comum de correspondência, pede para que o amante não repare na letra, pois escreve no escuro. Ora, num momento de desespero não se pensa na beleza da caligrafia. Isso delata o caráter convencional e, portanto, falso dessa carta de aflição.

Em “Pedro”, uma ex-amante, em apuros financeiros, escreve ao seu protetor. Já começa copiando o modelo: “Pedro, pego na pena com a mão trêmula, me desculpe a liberdade destas mal traçadas linhas”. Mas, das cartas, a mais bela é a intitulada “Apelo”. O marido escreve para pedir a volta da mulher que o abandonou. É significativo o fato de ele não dizer que a ama, embora a carta, implicitamente, queira convencer a mulher de que o marido está com saudade. Não é, todavia, uma mera carta de amor. Ele confessa a sua maneira de gostar e a razão de sentir a sua falta: “Acaso é saudade? [...] Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Volte para casa, Senhora, por favor”. A mulher é valorizada pelo seu serviço e isso fica sugerido pela forma de tratamento. É chamada de “Senhora”, ou seja, é vista como a dona de casa – embora, ironicamente, lembre o tratamento dispensado pelos poetas trovadorescos às suas amadas.


Em “Ladainha do amor” também aparece o estereótipo: “João, em primeiro lugar desejo que estas poucas linhas vão te encontrar com saúde e felicidade, eu vou bem graças a Deus”. Carta com uma pontuação inadequada, com excesso de vírgulas, e uma abundância de pequenos períodos que amalgamam assuntos, esta correspondência revela ser, no final, o pedido de um retrato para um trabalho que una os dois novamente. O conto se torna risível pela linguagem monocórdia e pelo atropelamento das ideias de Maria.

Personagens encenando toscamente um papel que não se lhes ajusta, as cartas desvelam ainda a representação de um grupo social pela linguagem. Dalton, como um bricoleur, está se valendo da apropriação de uma linguagemkitsch, a dos correios sentimentais, para tirar dela, usando-a com intenções satíricas, ressonâncias novas. Com cenas líricas, dramas e linguagens recorrentes, violência narrativa (estilística e temática), ele recicla os mistérios que jaziam em esquecimento. As conclusões a que chegou o escritor cubano Cabrera Infante em seu romanceTrês Tristes Tigres podem definir esta opção de Trevisan: “Penso que melhor do que a lembrança involuntária para captar o tempo perdido é a lembrança violenta, irreprimível”.


NOTA


O texto O labirinto da solidão foi publicado primeiramente no jornal A gazeta do povo, em 16 de junho de 1994 e disponibilizado no site Herdando uma biblioteca, do escritor Miguel Sanches NetoA republicação no LiteraturaBr faz parte de um acordo entre esses dois veículos.


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13 de março de 2013
O labirinto da solidão

O labirinto da solidão





por Miguel Sanches Neto

O primeiro livro de circulação comercial de Dalton Trevisan (Novelas nada exemplares, 1959 – 5ª., Record, 1979) reúne uma produção de duas décadas e, se marca a estreia do contista num âmbito nacional, não é, por outro lado, um livro de iniciante. O escritor já está maduro, possui um estilo pessoal, o que o faz senhor de um novo universo. Mesmo sendo o primeiro (se, como o autor, renegarmos as publicações fora do mercado), este livro o transforma numa grande revelação. A sua novidade acabou desencadeando um preconceito em relação à sua obra posterior: criticam-se os demais livros e, a cada nova publicação, as críticas se intensificam, em função de o autor continuar circulando dentro daquele universo matinal. Por isso se diz queNovelas Nada Exemplares é sua melhor obra.


Que é um grande livro, quanto a isso não há dúvida. Mas não por ter se constituído, em um momento literário saturado pela mesmice, numa renovação estilística e temática. A grandeza do volume está na construção magistral de histórias que demarcam o campo de ação deste escritor. Deixando de lado as análises estilísticas, que têm sido as mais recorrentes no estudo da obra de Dalton, quero me ater a uma leitura que persiga um sentido global para o livro. Creio ser possível estruturar meus comentários no eixo da solidão.
Se tomarmos como exemplo o conto “Pensão Nápoles”, poderemos vislumbrar um retrato bem nítido da relação entre a província e o resto do mundo. Chico é um escriturário que gasta a vida às margens do Rio Belém, passando de uma pensão a outra. Vive a esperar algum tipo de contato com a Europa. Mesmo sem ter nada que o ligue a ela, indaga ao carteiro: “Alguma carta de Nápoles?”. O seu drama é o do jovem que anseia pela vastidão do mundo e acaba ligado à estreiteza da cidade pequena. Em vez de partir, ele fica noivo e apenas muda de pensão. Levando em consideração que, na década de 1940, tempo próximo da narrativa, a Europa foi o palco de grandes acontecimentos (Segunda Guerra Mundial) que atraíram a atenção do mundo, percebe-se que Chico se dilacera com a impossibilidade de participar da História. Totalmente isolado na província, o personagem vive um drama que ultrapassa a esfera pessoal. A sua solidão é a de toda uma geração que se sente desligada dos acontecimentos. Enquanto o mundo vive traumas imensos, o jovem provinciano continua levando a vidinha comum de sempre. E é por isso que o personagem faz comparações: “– Na minha idade, já viu o que Alexandre Magno...”. Ao se contrapor a Alexandre, o Grande, Chico (o próprio nome expressa o seu anonimato) sofre com o abismo entre os dois destinos.
Cabe-lhe, ironicamente, morar na Pensão Nápoles. O desejo de partir acaba conduzindo-o a um local que é, apenas na fachada, a solução irônica para o seu problema.
No conto, a oposição entre centro e periferia se desdobra em duas outras: a grandeza de Alexandre versus a mediocridade da vida do jovem, a História (e os seus sentimentos épicos)versus a banalidade do cotidiano. A culpa é de Curitiba, que está isolada do resto do mundo. Não tem mar (ou seja, não tem vias de acesso) e sofre o insulamento sufocante simbolizado pela irrelevância do Rio Belém, que só traz doenças aos moradores.

A imigração pode servir como uma resposta para a situação desenvolvida nestas “novelas”. Sendo o Paraná, e Curitiba em especial, um lugar de colonos, com forte influência principalmente dos italianos, dos quais o autor descende, os confrontos bélicos avivam nesses personagens a vontade de participar do destino da pátria anterior. Eles se sentem amesquinhados por este deslocamento geográfico. Logo, a solidão das pessoas tem uma simetria explícita com o isolamento da periferia. (Não posso deixar de mencionar que a opção de retratar estes seres fora da História e a banalidade de suas experiências, num período caracterizado pelos grandes acontecimentos, é responsável por uma parcela do tom provocativo do livro, já expresso no próprio título).

Os personagens solitários buscam no casamento a saída para o seu drama. Mas acabam criando uma situação mais dramática ainda. Que é a do inferno conjugal. Embriaguez, pederastia, farra, traição etc. são as saídas experimentadas por esses seres que vivem a falta de qualquer perspectiva. A prisão, para uns (como João Nicolau), é apenas a institucionalização deste insulamento que todos sentem.
Outro elemento relevante para tentar caracterizar o volume é o tema do filho e do marido pródigos. As mulheres estarão sempre esperando os seus homens – primeiro o marido, depois também o filho. Eles saem para viagens diárias, aventuram-se por territórios proibidos às fêmeas, experimentam o sabor noturno da vida, mas sempre voltam. Essa fuga do teto familiar também é uma tentativa de ludibriar a solidão, que acaba fazendo com que as mulheres vivam em constante espera. Dalton vai, assim, caracterizá-las como degradadas penélopes. Esta é outra imagem central para a análise do livro. Várias mulheres gastam o seu longo tempo de espera desacompanhada fazendo toalhinhas de crochê. Gostaria de destacar, como os melhores exemplos, dois contos: “Ponto de Crochê” e “Penélope”.
Naquele, a mulher tenta unir imagens fragmentadas de sua vida tal como ela tece a toalha. Os pontos e as lembranças se misturam, num ritmo frenético de artesã experiente. Quando alguma imagem problemática surge, ela erra o ponto. Ao tentar compor uma peça, busca também um domínio sobre o seu mundo. O drama é que não pode manipular os fios do destino com a mesma segurança com que trabalha sua tecelagem. O crochê é o seu passatempo, a sua distração para não se entregar à solidão ou a pensamentos menos puros, mas não deixa de ser uma maneira de tentar dar uma forma mais articulada para a sua vida. No entanto, em última análise, ela faz crochê para esperar o novo Ulisses que, solto do mastro, se deixa seduzir por todos os cantos de sereias.
Em “Penélope”, um casal de velhos, com o amor amortecido pela rotina, é bombardeado por cartas que põem em questionamento a fidelidade da esposa. Enquanto o velho se deixa atormentar pelas cartas anônimas, que sempre trazem as mesmas duas palavras (elas não nos são reveladas, mas só podem ser corno manso), a velha tece sua toalhinha. A discórdia é criada e nossa Penélope não faz nada contra os pretendentes que só existem na imaginação do velho. Ela espera o retorno do marido, não o seu retorno físico, porque ele está sempre ao seu lado, mas o retorno do companheiro que ele fora. A mulher se mata assim que termina a sua toalhinha, representação da mortalha do texto homérico. Após o enterro, o velho volta ao lar, acompanhado pela solidão. Justificando-se, também com duas palavras, tal como nos bilhetes: “fui justo”. Uma nova carta, no entanto, foi enviada. Ele não a pega – agora, com a morte da companheira, nada pode atormentá-lo.

Para fugir deste destino passivo de Penélope, algumas mulheres enlouquecem, outras arranjam amantes ou abandonam o lar.
O relacionamento interpessoal acaba se revelando uma ilusão para os que fogem da solitude. E cada um se apega a alguma coisa para enfrentar essa condição de órfão. Como o jovem distinto (“A velha querida”) que procura uma prostituta idosa para purificar-se ao experimentar do sórdido. Os personagens buscam sempre soluções paliativas para suportar um destino inquebrantável, em que o filho repetirá o périplo paterno. As pessoas, presas a esse carrossel vertiginoso, continuarão tentando o impossível: alcançar o outro para tornar o percurso menos solitário.
Os dois únicos contos que se passam fora de Curitiba, “Noites de amor em Granada” e “O autógrafo”, explicitam que o insulamento permanece. Naquele conto, o personagem sonha voltar para casa – a viagem como saída para o seu drama mostrou-se infrutífera; ele continua sentindo, mais do que nunca, a angústia do desenraizamento, condição de um homem colocado entre duas forças contrárias, como já notara Joaquim Nabuco. Diz ele que o que nos atrai na Europa “é a atração de afinidades esquecidas, mas não apagadas, que estão em todos nós, da nossa comum origem europeia. A instabilidade a que me refiro provém de que na América falta à paisagem, à vida, ao horizonte, à arquitetura, a tudo que nos cerca, o fundo histórico, a perspectiva humana; e que na Europa nos falta a pátria, isto é, a fôrma em que cada um de nós foi vazado ao nascer. De um lado do mar sente-se a ausência do mundo; do outro, a ausência do país” (Minha formação, capítulo IV).

No outro conto, a vida no Rio de Janeiro não elimina o que o personagem traz dentro de si. Suas experiências têm sempre um caráter póstumo e ele conclui que na metrópole as pessoas,desterritorializadas, são “náufragos na solidão das ilhas”. Estabelecendo esta simetria entre personagens e a província, podemos ler a história desta na daqueles, e vice-versa. Já aqui, a cidade é a protagonista.

A utilização de nomes carregados de História (Ulisses, Penélope, Alexandre...) como símbolos da vida desses seres anistóricos nos leva a pensar este livro como uma falsa epopeia (ou como uma epopeia do cotidiano), onde não existe um personagem que catalisa a grandeza de um grupo social. Na verdade, a periferia é retratada como uma imagem desta nossa época antiépica, em que os indivíduos isolados numa existência degradada figuram como ruínas.
Dessa forma, é possível dizer que Novelas nada exemplares é uma antiepopeia, onde Curitiba é a personagem central, representando o drama de seres ilhados em vidas de horizontes restritos.


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NOTA



O texto O labirinto da solidão foi publicado primeiramente no jornal A gazeta do povo, em 16 de junho de 1994 e disponibilizado no site Herdando uma biblioteca, do escritor Miguel Sanches Neto. A republicação no LiteraturaBr faz parte de um acordo entre esses dois veículos.


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