por Miguel Sanches Neto
O primeiro livro de circulação comercial
de Dalton Trevisan (Novelas
nada exemplares, 1959 – 5ª., Record, 1979) reúne uma produção de
duas décadas e, se marca a estreia do contista num âmbito nacional, não é, por
outro lado, um livro de iniciante. O escritor já está maduro, possui um estilo
pessoal, o que o faz senhor de um novo universo. Mesmo sendo o primeiro (se,
como o autor, renegarmos as publicações fora do mercado), este livro o
transforma numa grande revelação. A sua novidade acabou desencadeando um
preconceito em relação à sua obra posterior: criticam-se os demais livros e, a
cada nova publicação, as críticas se intensificam, em função de o autor
continuar circulando dentro daquele universo matinal. Por isso se diz queNovelas Nada Exemplares é sua melhor obra.
Que
é um grande livro, quanto a isso não há dúvida. Mas não por ter se constituído,
em um momento literário saturado pela mesmice, numa renovação estilística e
temática. A grandeza do volume está na construção magistral de histórias que
demarcam o campo de ação deste escritor. Deixando de lado as análises
estilísticas, que têm sido as mais recorrentes no estudo da obra de Dalton,
quero me ater a uma leitura que persiga um sentido global para o livro. Creio
ser possível estruturar meus comentários no eixo da solidão.
Se
tomarmos como exemplo o conto “Pensão Nápoles”, poderemos vislumbrar um retrato
bem nítido da relação entre a província e o resto do mundo. Chico é um
escriturário que gasta a vida às margens do Rio Belém, passando de uma pensão a
outra. Vive a esperar algum tipo de contato com a Europa. Mesmo sem ter nada
que o ligue a ela, indaga ao carteiro: “Alguma carta de Nápoles?”. O seu drama
é o do jovem que anseia pela vastidão do mundo e acaba ligado à estreiteza da
cidade pequena. Em vez de partir, ele fica noivo e apenas muda de pensão.
Levando em consideração que, na década de 1940, tempo próximo da narrativa, a
Europa foi o palco de grandes acontecimentos (Segunda Guerra Mundial) que
atraíram a atenção do mundo, percebe-se que Chico se dilacera com a
impossibilidade de participar da História. Totalmente isolado na província, o
personagem vive um drama que ultrapassa a esfera pessoal. A sua solidão é a de
toda uma geração que se sente desligada dos acontecimentos. Enquanto o mundo
vive traumas imensos, o jovem provinciano continua levando a vidinha comum de
sempre. E é por isso que o personagem faz comparações: “– Na minha idade, já
viu o que Alexandre Magno...”. Ao se contrapor a Alexandre, o Grande, Chico (o
próprio nome expressa o seu anonimato) sofre com o abismo entre os dois
destinos.
Cabe-lhe,
ironicamente, morar na Pensão Nápoles. O desejo de partir acaba conduzindo-o a
um local que é, apenas na fachada, a solução irônica para o seu problema.
No conto, a
oposição entre centro e periferia se desdobra em duas outras: a grandeza de
Alexandre versus a mediocridade da vida do jovem, a
História (e os seus sentimentos épicos)versus a
banalidade do cotidiano. A culpa é de Curitiba, que está isolada do resto do
mundo. Não tem mar (ou seja, não tem vias de acesso) e sofre o insulamento
sufocante simbolizado pela irrelevância do Rio Belém, que só traz doenças aos
moradores.
A imigração pode servir como uma resposta
para a situação desenvolvida nestas “novelas”. Sendo o Paraná, e Curitiba em
especial, um lugar de colonos, com forte influência principalmente dos
italianos, dos quais o autor descende, os confrontos bélicos avivam nesses
personagens a vontade de participar do destino da pátria anterior. Eles se
sentem amesquinhados por este deslocamento geográfico. Logo, a solidão das
pessoas tem uma simetria explícita com o isolamento da periferia. (Não posso
deixar de mencionar que a opção de retratar estes seres fora da História e a
banalidade de suas experiências, num período caracterizado pelos grandes acontecimentos,
é responsável por uma parcela do tom provocativo do livro, já expresso no
próprio título).
Os
personagens solitários buscam no casamento a saída para o seu drama. Mas acabam
criando uma situação mais dramática ainda. Que é a do inferno conjugal.
Embriaguez, pederastia, farra, traição etc. são as saídas experimentadas por
esses seres que vivem a falta de qualquer perspectiva. A prisão, para uns (como
João Nicolau), é apenas a institucionalização deste insulamento que todos
sentem.
Outro
elemento relevante para tentar caracterizar o volume é o tema do filho e do
marido pródigos. As mulheres estarão sempre esperando os seus homens – primeiro
o marido, depois também o filho. Eles saem para viagens diárias, aventuram-se
por territórios proibidos às fêmeas, experimentam o sabor noturno da vida, mas
sempre voltam. Essa fuga do teto familiar também é uma tentativa de ludibriar a
solidão, que acaba fazendo com que as mulheres vivam em constante espera.
Dalton vai, assim, caracterizá-las como degradadas penélopes. Esta é outra
imagem central para a análise do livro. Várias mulheres gastam o seu longo
tempo de espera desacompanhada fazendo toalhinhas de crochê. Gostaria de
destacar, como os melhores exemplos, dois contos: “Ponto de Crochê” e
“Penélope”.
Naquele,
a mulher tenta unir imagens fragmentadas de sua vida tal como ela tece a
toalha. Os pontos e as lembranças se misturam, num ritmo frenético de artesã
experiente. Quando alguma imagem problemática surge, ela erra o ponto. Ao
tentar compor uma peça, busca também um domínio sobre o seu mundo. O drama é
que não pode manipular os fios do destino com a mesma segurança com que
trabalha sua tecelagem. O crochê é o seu passatempo, a sua distração para não
se entregar à solidão ou a pensamentos menos puros, mas não deixa de ser uma
maneira de tentar dar uma forma mais articulada para a sua vida. No entanto, em
última análise, ela faz crochê para esperar o novo Ulisses que, solto do
mastro, se deixa seduzir por todos os cantos de sereias.
Em “Penélope”, um
casal de velhos, com o amor amortecido pela rotina, é bombardeado por cartas
que põem em questionamento a fidelidade da esposa. Enquanto o velho se deixa
atormentar pelas cartas anônimas, que sempre trazem as mesmas duas palavras
(elas não nos são reveladas, mas só podem ser corno manso), a velha tece sua
toalhinha. A discórdia é criada e nossa Penélope não faz nada contra os
pretendentes que só existem na imaginação do velho. Ela espera o retorno do
marido, não o seu retorno físico, porque ele está sempre ao seu lado, mas o
retorno do companheiro que ele fora. A mulher se mata assim que termina a sua
toalhinha, representação da mortalha do texto homérico. Após o enterro, o velho
volta ao lar, acompanhado pela solidão. Justificando-se, também com duas
palavras, tal como nos bilhetes: “fui justo”. Uma nova carta, no entanto, foi
enviada. Ele não a pega – agora, com a morte da companheira, nada pode
atormentá-lo.
Para
fugir deste destino passivo de Penélope, algumas mulheres enlouquecem, outras
arranjam amantes ou abandonam o lar.
O
relacionamento interpessoal acaba se revelando uma ilusão para os que fogem da
solitude. E cada um se apega a alguma coisa para enfrentar essa condição de
órfão. Como o jovem distinto (“A velha querida”) que procura uma prostituta
idosa para purificar-se ao experimentar do sórdido. Os personagens buscam
sempre soluções paliativas para suportar um destino inquebrantável, em que o
filho repetirá o périplo paterno. As pessoas, presas a esse carrossel
vertiginoso, continuarão tentando o impossível: alcançar o outro para tornar o
percurso menos solitário.
Os dois únicos
contos que se passam fora de Curitiba, “Noites de amor em Granada” e “O
autógrafo”, explicitam que o insulamento permanece. Naquele conto, o personagem
sonha voltar para casa – a viagem como saída para o seu drama mostrou-se
infrutífera; ele continua sentindo, mais do que nunca, a angústia do
desenraizamento, condição de um homem colocado entre duas forças contrárias,
como já notara Joaquim Nabuco. Diz ele que o que nos atrai na Europa “é a
atração de afinidades esquecidas, mas não apagadas, que estão em todos nós, da
nossa comum origem europeia. A instabilidade a que me refiro provém de que na
América falta à paisagem, à vida, ao horizonte, à arquitetura, a tudo que nos
cerca, o fundo histórico, a perspectiva humana; e que na Europa nos falta a
pátria, isto é, a fôrma em que cada um de nós foi vazado ao nascer. De um lado
do mar sente-se a ausência do mundo; do outro, a ausência do país” (Minha formação, capítulo IV).
No outro conto, a vida no Rio de Janeiro
não elimina o que o personagem traz dentro de si. Suas experiências têm sempre
um caráter póstumo e ele conclui que na metrópole as pessoas,desterritorializadas, são
“náufragos na solidão das ilhas”. Estabelecendo esta simetria entre personagens
e a província, podemos ler a história desta na daqueles, e vice-versa. Já aqui,
a cidade é a protagonista.
A
utilização de nomes carregados de História (Ulisses, Penélope, Alexandre...)
como símbolos da vida desses seres anistóricos nos leva a pensar este livro
como uma falsa epopeia (ou como uma epopeia do cotidiano), onde não existe um
personagem que catalisa a grandeza de um grupo social. Na verdade, a periferia
é retratada como uma imagem desta nossa época antiépica, em que os indivíduos isolados
numa existência degradada figuram como ruínas.
Dessa forma, é
possível dizer que Novelas nada exemplares é uma antiepopeia, onde Curitiba é a
personagem central, representando o drama de seres ilhados em vidas de
horizontes restritos.