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6 de março de 2014
Ninguém escreve ao coronel ou a velha história das promessas por cumprir e dos galos a comer

Ninguém escreve ao coronel ou a velha história das promessas por cumprir e dos galos a comer


Acampado em torno da gigantesca mafumeira de Neerlândia, um batalhão revolucionário, composto em grande parte de adolescentes fugidos da escola, esperou durante três meses. Depois regressaram às suas casas pelos próprios meios e aí continuaram à espera. Quase sessenta anos depois, ainda o coronel esperava.

O coronel de Gabriel García Márquez ficou anos e anos à espera de uma carta que lhe traria notícias de uma pensão que nunca chegou, promessa de um governo que, entretanto, caiu. Mas o coronel esperava …

Enquanto isso, ia alimentando um galo, herança do filho falecido, que lhe haveria de render bom dinheiro em lutas. Mas o galo só comia. E o coronel alimentava …

Com uma promessa por cumprir e um galo que só comia, Ninguém Escreve ao Coronel percorre os dias de um coronel que «durante cinquenta e seis anos […] não fizera outra coisa, senão esperar.». A pensão fora prometida pela sua participação na «revolução», ao lado do mais tarde figura central, em Cem Anos de Solidão, Aureliano Buendía.

– Com quem falas – perguntou a mulher.
– Com o inglês disfarçado de tigre que apareceu no acampamento do coronel Aureliano Buendía – respondeu o coronel.

A narrativa começa em outubro, «uma das poucas coisas que chegavam», com o coronel a sentir que lhe nasciam «fungos e lírios venenosos nas tripas». E começa sem que fique dúvida alguma a respeito das dificuldades do coronel e da mulher, um ser a quem «as perturbações respiratórias obrigavam […] a perguntar afirmando»:

O coronel destapou a caixa do café e verificou que não havia mais que uma colherinha. Tirou a panela do fogão, despejou metade da água no chão de terra, e com uma faca raspou o interior da caixa para dentro da panela até se soltarem as últimas raspas de pó de café misturadas com ferrugem da lata.

 Um autor clássico como García Márquez não precisa que as suas histórias se identifiquem com os acontecimentos do presente. Elas sobrevivem só por si, em todos os tempos. Ninguém Escreve ao Coronel foi publicado pela primeira vez em 1961 e é, juntamente com toda a qualidade que o liberta da atualidade, um romance que poderia ser baseado nas notícias do jornal de hoje, o que não é motivo de alegria.



A história de Ninguém Escreve ao Coronel é simples, elegante, preocupante e, pelo que infelizmente se pode constatar, eterna. Os governantes gananciosos prometem. O povo sofrido e crente aguarda. O coronel estava na lista de espera para a atribuição da reforma mas a sua vez nunca mais chegava. A vida dele e da mulher era de miséria. O filho fora assassinado pela polícia por distribuir propaganda da oposição. O casal conseguiu algum dinheiro com a venda da máquina de costura de Agustín, o filho, que era alfaiate, e tinham esperança no galo, preparado para apostas e combates. O problema é que faltava mais de um mês para a luta.



Sem dinheiro, o coronel e a mulher discutem de que forma poderão resolver o problema. A mulher receia que o galo não ganhe a luta. O romance termina com a resposta aliviada do coronel:


– É um galo que não pode perder.

– Mas supõe que perde.

– Ainda faltam quarenta e cinco dias para começarmos a pensar nisso – replicou o coronel.

A mulher ficou desesperada.

E entretanto o que comemos – perguntou, e agarrou o coronel pelas bandas do casaco do pijama. Sacudiu-o com energia.

– Diz lá, o que vamos comer.

O coronel precisou de setenta e cinco anos – os setenta e cinco anos da sua vida, minuto a minuto – para chegar a este instante. Sentiu-se puro, explícito, invencível, no momento de responder:

– Merda!

Em Ninguém Escreve ao Coronel, de forma muito discreta, Gabriel García Márquez apresenta algum do realismo mágico que seria consagrado, alguns anos depois, em Cem Anos de Solidão. Em 1982, o colombiano receberia o Prémio Nobel da Literatura. Em 2009, García Marquez, sem dúvida um dos grandes da literatura universal, anuncia que não escreverá mais livros. 



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28 de março de 2013
Paris-Curitiba

Paris-Curitiba

por Miguel Sanches Neto


O conto que abre o livro Mistérios de Curitiba (4ª. edição, Record, 1979) atualiza uma linguagem bíblica, ou melhor, apocalíptica. Nestas “Lamentações de Curitiba”, o sujeito do discurso se aproxima de Jeremias, que descreve o estado deplorável de Jerusalém e da Judeia. O texto é uma queixa e um anúncio do destino fatal de uma cidade maldita: “Teu próprio nome será um provérbio, uma maldição, uma vergonha eterna”.

O conto relata a iminência de um juízo final que devastará a cidade. Ao longo do texto percebemos que os verbos que definem a situação da urbe estão no presente ou no futuro, destacando assim o que a cidade é e o que será depois do advento. No penúltimo parágrafo, no entanto, há um rompimento dos prognósticos para dar-se o anunciado: “A espada veio sobre Curitiba, e Curitiba foi, não é mais”. Na verdade, a urbe se tornou passado e esse fato salienta uma ruptura temporal que ajuda a entender o volume todo. A Curitiba de Dalton, objeto destas histórias, passa a ser aqui a de um tempo ido. Uma cidade que ficou esquecida num pretérito morto.

O último parágrafo do conto estende este momento às cidades circunvizinhas. Também elas fazem parte desta Curitiba transmunicipal que abarca outras comarcas. A imagem de uma urbe destruída pela espada do anjo vingador tem uma correspondência nítida com outro texto do volume: “Em busca de Curitiba perdida”. A ausência do artigo /a/, que tornaria definido o objeto desta rememoração, mostra que se está atrás de algo que não é bem determinado. Em ambos os contos sobressai uma cisão temporal entre a urbe de outrora e a de agora. Desdenhando esta, o narrador concentra a sua atenção na outra. A divisão de uma cidade em dois tempos se desmembra em sua multiplicidade geográfica. O narrador diz: “Não viajo todas as Curitibas” (p.86), o que equivale a conceber a cidade como manifestação de várias realidades que caracterizariam diversas camadas urbanas.

Rompendo com a próxima, com a convencional, com a Curitiba para turista, Dalton busca, como disse Walter Benjamim, dar “um salto de tigre em direção ao passado”, recolocando em circulação uma imagem dos esquecidos e dos perdedores.

É nesse sentido que devemos ler os mistérios da vida desses habitantes do lado desprezado da história. A Curitiba misteriosa não é a dos temas do ocultismo, mas a da realidade ocultada por uma visão estereotipada, de fachada, que tenta vender uma falsa ideia de convivência pacífica, paradisíaca, tal como faz o mito provinciano da “cidade sorriso”.

As histórias não são misteriosas. O enigma, se é que existe um, está justamente nestas relações humanas marcadas por uma ausência completa de salvação. No mundo ficcional de Trevisan não existe redenção possível. E, ao relatar isso, de maneira tão incisiva e contundente, o autor quer minar nosso orgulho periférico de civilizado.

Mistérios de Curitiba é o primeiro livro em que Dalton atinge uma síntese tão acentuada. Estas histórias curtas não implicam só em uma economia verbal, ou seja, não são apenas uma opção estilística, mas tem em mira plasmar formalmente a própria pobreza de um mundo. O vazio dessas vidas é captado através do vazio verbal de narrativas lacônicas.

Tal brevidade faz com que o conto se limite com a crônica. Recordemos aqui o antigo nome de uma antologia fora de comércio: Crônicas da Província de Curitiba, onde percebemos os ecos de Bandeira, autor das Crônicas da Província do Brasil. Os mistérios curitibanos são pensados em função do deslocamento geográfico. Este volume, que dialoga com Os mistérios de Paris, de Eugene Sue, perde o artigo definido e destaca a periferia. Trata-se da desleitura de uma obra que nasce sob o signo da cultura de massa, classificada por Umberto Eco como vendedor de emoções que especula sobre a miséria humana. Livro que incorpora uma visão satânica, explorando situações mórbidas, o horrível e o grotesco, Os Mistérios de Paris “revelam ao leitor condições sociais iníquas que produzem, através da miséria, o crime. Se se atenuar a miséria, se se reeducar o presidiário, se se arrancar a jovem virtuosa ao rico sedutor, o operário honesto à prisão por dívidas, dando a todos uma possibilidade de redenção fundada numa ajuda cristã fraternal, a sociedade poderá melhorar. O mal é apenas uma enfermidade social. Começado como epopeia da gatunagem, o livro termina como epopeia do trabalhador infeliz e como manual de redenção” (Apocalípticos e Integrados. Perspectiva, 1976, p.187). Dalton vai renegar as intenções moralizantes e os fins comerciais que orientam Sue e escrever um livro que coloca em cena personagens de um submundo, mas sem nenhum interesse de defender ou acusar, nem de propor saídas para os problemas sociais.

As suas narrativas desvelam uma realidade apertada pelos muros municipais. Seus personagens fazem parte de uma esfera agrícola ou ocupam pequenas funções: donos de secos e molhados, secretários de clube de futebol de bairro, entregadores, donas de casa... A diversão desta gente é basicamente provinciana: circos, onde cachorros vadios atrapalham o espetáculo, festas de igreja e visitas ao Passeio Público. O cenário se opõe ao de Paris. Se no primeiro título desta coletânea, Dalton, dialogando com Bandeira, destacava o prosaísmo da vida na província, no título definitivo a mesma tensão é mantida a partir do deslocamento Paris-Curitiba.

Em vários contos surge o fantasma do insulamento. Este é um dos temas caros a Trevisan, desde os tempos da Joaquim. A ausência de vias de comunicação com o resto do mundo fica sugerida através do comentário sobre a não existência de rio sob a Ponte Preta (em “O Rio”): “A Ponte Preta anuncia o rio que não corre em Curitiba”, ou da odisseia imaginária que o comerciário José faz, experimentando no bonde, as contradições entre a imaginação e a realidade, respectivamente representadas pelos perigos de uma viagem marítima por regiões estrangeiras e pela sua volta pacífica ao lar no fim do expediente, ou ainda através do desejo de André que, na ausência da mulher, quer ver o mar – desce a serra mas, depois de embebedar-se e de ser roubado pelas meretrizes, volta a Curitiba sem contemplar a imensidão das águas, contentando-se apenas com alguns minutos na banheira (“Homem ao mar”).

Este bloqueio geográfico corresponde ao isolamento do próprio indivíduo numa sociedade em que o inter-relacionamento é sempre problemático. Isto fica evidente na linguagem dos personagens. Vários contos manifestam a dificuldade de comunicação. Dominando um vocabulário amputado, eles expressam seu mundo e narram suas vidas de uma maneira lacônica e repleta de lugar comum. Ao nos apresentar as histórias sob o ponto de vista e/ou na voz desses personagens, Dalton se retira da narrativa, tornando-a um encontro direto com a realidade omitida – embora possamos, em determinados momentos, como no conto “Em busca de Curitiba perdida”, ouvir a voz do autor. A dificuldade de comunicação e a expressão direta de pequenos dramas gigantescos ficam nítidas nas narrativas em forma de carta, que aparecem com frequência em Mistérios de Curitiba.

Sem uma linguagem própria, os personagens escrevem como quem copia modelos de missivas. Isso faz emergir o problema de uma mensagem postiça. Os produtos destas cartas são cômicos porque põem a nu a cristalização de um código. Assim, em “Carta escrita no escuro”, a amada tenta exprimir o desespero causado pela falta do amante. Ela vai à sua casa, não o encontra e, depois de muito esperar, deixa uma carta que fala de sua aflição. Mas tudo se revela fingimento quando a mulher, num lugar comum de correspondência, pede para que o amante não repare na letra, pois escreve no escuro. Ora, num momento de desespero não se pensa na beleza da caligrafia. Isso delata o caráter convencional e, portanto, falso dessa carta de aflição.

Em “Pedro”, uma ex-amante, em apuros financeiros, escreve ao seu protetor. Já começa copiando o modelo: “Pedro, pego na pena com a mão trêmula, me desculpe a liberdade destas mal traçadas linhas”. Mas, das cartas, a mais bela é a intitulada “Apelo”. O marido escreve para pedir a volta da mulher que o abandonou. É significativo o fato de ele não dizer que a ama, embora a carta, implicitamente, queira convencer a mulher de que o marido está com saudade. Não é, todavia, uma mera carta de amor. Ele confessa a sua maneira de gostar e a razão de sentir a sua falta: “Acaso é saudade? [...] Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Volte para casa, Senhora, por favor”. A mulher é valorizada pelo seu serviço e isso fica sugerido pela forma de tratamento. É chamada de “Senhora”, ou seja, é vista como a dona de casa – embora, ironicamente, lembre o tratamento dispensado pelos poetas trovadorescos às suas amadas.


Em “Ladainha do amor” também aparece o estereótipo: “João, em primeiro lugar desejo que estas poucas linhas vão te encontrar com saúde e felicidade, eu vou bem graças a Deus”. Carta com uma pontuação inadequada, com excesso de vírgulas, e uma abundância de pequenos períodos que amalgamam assuntos, esta correspondência revela ser, no final, o pedido de um retrato para um trabalho que una os dois novamente. O conto se torna risível pela linguagem monocórdia e pelo atropelamento das ideias de Maria.

Personagens encenando toscamente um papel que não se lhes ajusta, as cartas desvelam ainda a representação de um grupo social pela linguagem. Dalton, como um bricoleur, está se valendo da apropriação de uma linguagemkitsch, a dos correios sentimentais, para tirar dela, usando-a com intenções satíricas, ressonâncias novas. Com cenas líricas, dramas e linguagens recorrentes, violência narrativa (estilística e temática), ele recicla os mistérios que jaziam em esquecimento. As conclusões a que chegou o escritor cubano Cabrera Infante em seu romanceTrês Tristes Tigres podem definir esta opção de Trevisan: “Penso que melhor do que a lembrança involuntária para captar o tempo perdido é a lembrança violenta, irreprimível”.


NOTA


O texto O labirinto da solidão foi publicado primeiramente no jornal A gazeta do povo, em 16 de junho de 1994 e disponibilizado no site Herdando uma biblioteca, do escritor Miguel Sanches NetoA republicação no LiteraturaBr faz parte de um acordo entre esses dois veículos.


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25 de março de 2013
Cidade-Duplex

Cidade-Duplex


por Miguel Sanches Neto

Somente cinco anos após a publicação de Novelas nada exemplares é que aparece o volume Cemitério de elefantes (1964 – 7ª. edição: Record, 1984), colocando em destaque outra tensão de grande importância para o entendimento da obra de Dalton. Se na coletânea anterior sobressai a antítese província versus metrópole, Cemitério de elefantes apresenta uma temática relacionada com a província, mas já não mais diretamente oposta à metrópole. Esta parece ser a orientação geral do livro.

Um fato pouco comentado a respeito de Dalton Trevisan é a sua ligação pessoal com o município de Colombo, terra natal do contista. Isto, enquanto elemento biográfico, é irrelevante, uma vez que, por adoção, Dalton é curitibano. Mas esta pequena curiosidade nos auxilia a entender este momento especial na consolidação de um universo ficcional que é Cemitério de elefantes. Podemos ler neste livro o inter-relacionamento de dois ambientes e, em última análise, de duas realidades. De um lado, há as histórias que se passam em um contexto rural. Os personagens são seres à margem do mundo moderno. A temática destas histórias (“O Primo”, “À margem do rio”, “Dia de matar porco”, “Caso de desquite”, “O baile”, “Ao nascer do dia”) refletem um universo fundado em valores patriarcais. É, por assim dizer, uma fotografia das redondezas de Curitiba. No polo oposto, encontramos a temática urbana – magistralmente captada em um dos contos mais famosos de Dalton: “Uma vela para Dario”, que apresenta a morte em sua degradada versão urbana. Dario passa mal, morre e é roubado sem que ninguém o ajude. Falece por falta de socorro. A multidão que se forma ao seu redor, durante as horas de agonia, é movida pela curiosidade e não pela compaixão. A Curitiba retratada aqui tem traços de cidade grande. A anulação do indivíduo e a hegemonia da multidão acabam criando um cenário caracterizado pelo anonimato. Em outros textos reencontramos este universo urbano (“Dinorá”, “A visita”, “A casa de Lili” etc.) que não constitui uma oposição total ao primeiro.

Optando por esta dupla visada, Dalton chama a atenção para a convivência de dois mundos num único espaço. Curitiba é a colônia e a cidade. Está ligada ao universo rural, sem deixar de ter traços de cidade grande. Este convívio não é pacífico nem gratuito. Mostra que uma realidade patriarcal, com seus valores e preconceitos defasados, continua presente na urbe que se moderniza.

Há em Cemitério de elefantes uma demarcação das fronteiras temáticas da Curitiba de Dalton, onde estão incluídas as adjacências com um perfil agrário e violento.

Se é correto afirmar que o livro reflete Curitiba e suas margens, não é menos exato pensar que ele exprime o mundo dos seres situados à margem da Curitiba oficial.

Daí o valor emblemático do conto “Cemitério de elefantes”. Os bêbados que vivem à beira do rio e que são alimentados pelos pescadores simbolizam a condição marginal do elenco de personagens que compõe a ficção de Trevisan. O parentesco com os elefantes estabelece uma dupla significação para os bêbados: são a imagem viva do peso, da lentidão e da falta de jeito e, ao mesmo tempo, têm a dignidade de aceitar resignadamente um destino inelutável.

Não pode ficar esquecido, devido à sua relevância dentro do livro, a oposição/identificação entre pai e filho. Em “O caçula”, o velho e seu filho se odeiam. Mas este ódio tem um fundamento: um vê no outro a sua própria imagem. Há, na verdade, um espelhamento. Ao odiar o seu filho, ele está recusando a aceitar a sua própria identidade, uma vez que o caçula, até nos mínimos atos, é uma cópia do velho. Esta negação do outro é uma tentativa de fechar os olhos para os seus próprios erros. Assim como os contrários se atraem, os idênticos se repelem. A famosa frase “todo filho é uma prova contra o pai” tem aqui uma possível explicação.

As situações degradadas encontram uma continuação nos filhos. Tal herança define a permanência atemporal de um universo defasado em relação às mudanças históricas. Os personagens vivem num tempo sem sintonia com as conquistas mais recentes da civilização. Haverá sempre um abismo criado pela permanência de valores passados.

Em “A visita”, Ema vai se encontrar com o amante acompanhada pela sua filhinha. Narra ao amante o trauma que teve por ter presenciado os amores clandestinos de sua mãe. Apesar desse sentimento, ela traz a filha que, num ato de revolta silenciosa, rói o casaco de lã. A mãe transfere à menina os mesmos traumas que tivera na infância.

Este continuísmo leva Dalton a retratar o seu campo ficcional como algo que não se altera, como o império do mesmo. Isso vai definir as opções temáticas dos livros posteriores que reiterarão as mesmas situações reveladas nesses mapeamentos iniciais. O autor optará por estudar os vários ângulos de um universo que permanece sempre idêntico.

A Curitiba de Cemitério de elefantes, com vasos comunicantes com um mundo agrário fundado em valores patriarcais, é uma cidade duplex que encarna as contradições de uma sociedade onde o primitivo mina os anseios burgueses de progresso.

No livro também aparece uma história metalinguística, que revela a condição do contista. Trata-se de “O espião”. Aqui o ficcionista é definido como alguém que busca desvelar os acontecimentos – no caso, observa um orfanato. Esta preocupação com as órfãs, seres rejeitados pela sociedade, acaba fortalecendo a unidade temática do livro. O contista se coloca na condição de espião para flagrar os fatos sem chamar a atenção, sem revelar a sua identidade. Assumindo também ele o anonimato, pode penetrar nas dobras mais recônditas e desprezadas das relações humanas.

O espião tem que se manter ao mesmo tempo ausente e presente. É essa invisibilidade que lhe dá a oportunidade de ver o que seria impossível para um observador declarado.

O conteúdo deste conto nos fornece uma resposta para a invisibilidade, tida por alguns como encenação, que Dalton tanto busca na vida real. Ao se recusar a aparecer nos jornais, a dar entrevistas, o autor não está apenas fazendo cena ou se isolando em sua timidez. Está antes de tudo defendendo o seu anonimato, condição para exercer a espionagem literária. A perda dessa invisibilidade desmascararia o espião, colocando a perder a possibilidade de captar instantâneos humanos. Disfarçado de mero transeunte, Dalton vai esquadrinhando a vida, para revelá-la potencializada em seus livros.



NOTA

O texto O labirinto da solidão foi publicado primeiramente no jornal A gazeta do povo, em 16 de junho de 1994 e disponibilizado no site Herdando uma biblioteca, do escritor Miguel Sanches NetoA republicação no LiteraturaBr faz parte de um acordo entre esses dois veículos.



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13 de março de 2013
O labirinto da solidão

O labirinto da solidão





por Miguel Sanches Neto

O primeiro livro de circulação comercial de Dalton Trevisan (Novelas nada exemplares, 1959 – 5ª., Record, 1979) reúne uma produção de duas décadas e, se marca a estreia do contista num âmbito nacional, não é, por outro lado, um livro de iniciante. O escritor já está maduro, possui um estilo pessoal, o que o faz senhor de um novo universo. Mesmo sendo o primeiro (se, como o autor, renegarmos as publicações fora do mercado), este livro o transforma numa grande revelação. A sua novidade acabou desencadeando um preconceito em relação à sua obra posterior: criticam-se os demais livros e, a cada nova publicação, as críticas se intensificam, em função de o autor continuar circulando dentro daquele universo matinal. Por isso se diz queNovelas Nada Exemplares é sua melhor obra.


Que é um grande livro, quanto a isso não há dúvida. Mas não por ter se constituído, em um momento literário saturado pela mesmice, numa renovação estilística e temática. A grandeza do volume está na construção magistral de histórias que demarcam o campo de ação deste escritor. Deixando de lado as análises estilísticas, que têm sido as mais recorrentes no estudo da obra de Dalton, quero me ater a uma leitura que persiga um sentido global para o livro. Creio ser possível estruturar meus comentários no eixo da solidão.
Se tomarmos como exemplo o conto “Pensão Nápoles”, poderemos vislumbrar um retrato bem nítido da relação entre a província e o resto do mundo. Chico é um escriturário que gasta a vida às margens do Rio Belém, passando de uma pensão a outra. Vive a esperar algum tipo de contato com a Europa. Mesmo sem ter nada que o ligue a ela, indaga ao carteiro: “Alguma carta de Nápoles?”. O seu drama é o do jovem que anseia pela vastidão do mundo e acaba ligado à estreiteza da cidade pequena. Em vez de partir, ele fica noivo e apenas muda de pensão. Levando em consideração que, na década de 1940, tempo próximo da narrativa, a Europa foi o palco de grandes acontecimentos (Segunda Guerra Mundial) que atraíram a atenção do mundo, percebe-se que Chico se dilacera com a impossibilidade de participar da História. Totalmente isolado na província, o personagem vive um drama que ultrapassa a esfera pessoal. A sua solidão é a de toda uma geração que se sente desligada dos acontecimentos. Enquanto o mundo vive traumas imensos, o jovem provinciano continua levando a vidinha comum de sempre. E é por isso que o personagem faz comparações: “– Na minha idade, já viu o que Alexandre Magno...”. Ao se contrapor a Alexandre, o Grande, Chico (o próprio nome expressa o seu anonimato) sofre com o abismo entre os dois destinos.
Cabe-lhe, ironicamente, morar na Pensão Nápoles. O desejo de partir acaba conduzindo-o a um local que é, apenas na fachada, a solução irônica para o seu problema.
No conto, a oposição entre centro e periferia se desdobra em duas outras: a grandeza de Alexandre versus a mediocridade da vida do jovem, a História (e os seus sentimentos épicos)versus a banalidade do cotidiano. A culpa é de Curitiba, que está isolada do resto do mundo. Não tem mar (ou seja, não tem vias de acesso) e sofre o insulamento sufocante simbolizado pela irrelevância do Rio Belém, que só traz doenças aos moradores.

A imigração pode servir como uma resposta para a situação desenvolvida nestas “novelas”. Sendo o Paraná, e Curitiba em especial, um lugar de colonos, com forte influência principalmente dos italianos, dos quais o autor descende, os confrontos bélicos avivam nesses personagens a vontade de participar do destino da pátria anterior. Eles se sentem amesquinhados por este deslocamento geográfico. Logo, a solidão das pessoas tem uma simetria explícita com o isolamento da periferia. (Não posso deixar de mencionar que a opção de retratar estes seres fora da História e a banalidade de suas experiências, num período caracterizado pelos grandes acontecimentos, é responsável por uma parcela do tom provocativo do livro, já expresso no próprio título).

Os personagens solitários buscam no casamento a saída para o seu drama. Mas acabam criando uma situação mais dramática ainda. Que é a do inferno conjugal. Embriaguez, pederastia, farra, traição etc. são as saídas experimentadas por esses seres que vivem a falta de qualquer perspectiva. A prisão, para uns (como João Nicolau), é apenas a institucionalização deste insulamento que todos sentem.
Outro elemento relevante para tentar caracterizar o volume é o tema do filho e do marido pródigos. As mulheres estarão sempre esperando os seus homens – primeiro o marido, depois também o filho. Eles saem para viagens diárias, aventuram-se por territórios proibidos às fêmeas, experimentam o sabor noturno da vida, mas sempre voltam. Essa fuga do teto familiar também é uma tentativa de ludibriar a solidão, que acaba fazendo com que as mulheres vivam em constante espera. Dalton vai, assim, caracterizá-las como degradadas penélopes. Esta é outra imagem central para a análise do livro. Várias mulheres gastam o seu longo tempo de espera desacompanhada fazendo toalhinhas de crochê. Gostaria de destacar, como os melhores exemplos, dois contos: “Ponto de Crochê” e “Penélope”.
Naquele, a mulher tenta unir imagens fragmentadas de sua vida tal como ela tece a toalha. Os pontos e as lembranças se misturam, num ritmo frenético de artesã experiente. Quando alguma imagem problemática surge, ela erra o ponto. Ao tentar compor uma peça, busca também um domínio sobre o seu mundo. O drama é que não pode manipular os fios do destino com a mesma segurança com que trabalha sua tecelagem. O crochê é o seu passatempo, a sua distração para não se entregar à solidão ou a pensamentos menos puros, mas não deixa de ser uma maneira de tentar dar uma forma mais articulada para a sua vida. No entanto, em última análise, ela faz crochê para esperar o novo Ulisses que, solto do mastro, se deixa seduzir por todos os cantos de sereias.
Em “Penélope”, um casal de velhos, com o amor amortecido pela rotina, é bombardeado por cartas que põem em questionamento a fidelidade da esposa. Enquanto o velho se deixa atormentar pelas cartas anônimas, que sempre trazem as mesmas duas palavras (elas não nos são reveladas, mas só podem ser corno manso), a velha tece sua toalhinha. A discórdia é criada e nossa Penélope não faz nada contra os pretendentes que só existem na imaginação do velho. Ela espera o retorno do marido, não o seu retorno físico, porque ele está sempre ao seu lado, mas o retorno do companheiro que ele fora. A mulher se mata assim que termina a sua toalhinha, representação da mortalha do texto homérico. Após o enterro, o velho volta ao lar, acompanhado pela solidão. Justificando-se, também com duas palavras, tal como nos bilhetes: “fui justo”. Uma nova carta, no entanto, foi enviada. Ele não a pega – agora, com a morte da companheira, nada pode atormentá-lo.

Para fugir deste destino passivo de Penélope, algumas mulheres enlouquecem, outras arranjam amantes ou abandonam o lar.
O relacionamento interpessoal acaba se revelando uma ilusão para os que fogem da solitude. E cada um se apega a alguma coisa para enfrentar essa condição de órfão. Como o jovem distinto (“A velha querida”) que procura uma prostituta idosa para purificar-se ao experimentar do sórdido. Os personagens buscam sempre soluções paliativas para suportar um destino inquebrantável, em que o filho repetirá o périplo paterno. As pessoas, presas a esse carrossel vertiginoso, continuarão tentando o impossível: alcançar o outro para tornar o percurso menos solitário.
Os dois únicos contos que se passam fora de Curitiba, “Noites de amor em Granada” e “O autógrafo”, explicitam que o insulamento permanece. Naquele conto, o personagem sonha voltar para casa – a viagem como saída para o seu drama mostrou-se infrutífera; ele continua sentindo, mais do que nunca, a angústia do desenraizamento, condição de um homem colocado entre duas forças contrárias, como já notara Joaquim Nabuco. Diz ele que o que nos atrai na Europa “é a atração de afinidades esquecidas, mas não apagadas, que estão em todos nós, da nossa comum origem europeia. A instabilidade a que me refiro provém de que na América falta à paisagem, à vida, ao horizonte, à arquitetura, a tudo que nos cerca, o fundo histórico, a perspectiva humana; e que na Europa nos falta a pátria, isto é, a fôrma em que cada um de nós foi vazado ao nascer. De um lado do mar sente-se a ausência do mundo; do outro, a ausência do país” (Minha formação, capítulo IV).

No outro conto, a vida no Rio de Janeiro não elimina o que o personagem traz dentro de si. Suas experiências têm sempre um caráter póstumo e ele conclui que na metrópole as pessoas,desterritorializadas, são “náufragos na solidão das ilhas”. Estabelecendo esta simetria entre personagens e a província, podemos ler a história desta na daqueles, e vice-versa. Já aqui, a cidade é a protagonista.

A utilização de nomes carregados de História (Ulisses, Penélope, Alexandre...) como símbolos da vida desses seres anistóricos nos leva a pensar este livro como uma falsa epopeia (ou como uma epopeia do cotidiano), onde não existe um personagem que catalisa a grandeza de um grupo social. Na verdade, a periferia é retratada como uma imagem desta nossa época antiépica, em que os indivíduos isolados numa existência degradada figuram como ruínas.
Dessa forma, é possível dizer que Novelas nada exemplares é uma antiepopeia, onde Curitiba é a personagem central, representando o drama de seres ilhados em vidas de horizontes restritos.


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NOTA



O texto O labirinto da solidão foi publicado primeiramente no jornal A gazeta do povo, em 16 de junho de 1994 e disponibilizado no site Herdando uma biblioteca, do escritor Miguel Sanches Neto. A republicação no LiteraturaBr faz parte de um acordo entre esses dois veículos.


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13 de agosto de 2012
Capitu Você

Capitu Você





Mais do que a preocupação (in)devida que o crítico deve ter com o autor, devemos ter, por vezes, com o leitor. Dizem os críticos mais galardoados, como o professor Marcelo Pen, do departamento de literatura comparada, da USP, que o título da obra de Trevisan, Capitu Sou Eu, se refere ao conhecido livro de Machado de Assis e à célebre frase dita por Flaubert sobre Madame Bovary: “Madame Bovary, c’est moi!”. Porém, não irei me ater a tais reflexões, que são bastante válidas, mas tentar ver até que ponto a estranheza do autor perante os contos curitibanos de Trevisan nos leva.

Apesar de serem vários os personagens de Dalton, desde a professora que duvida do aluno à amante descontrolada, desde o amoroso homem de uma única-várias mulheres até a um assassino-vítima despreocupado com o destino, podemos ver que esse caleidoscópio de contos, de personagens, que aparentemente não tem fim, parte do mesmo princípio, pelo menos a meu ver. Do princípio do ser humano ser vários enquanto um.

Capitu sou eu traz à tona diversos tipos de personagens, uns mais diferentes do que os outros, mas que ao mesmo tempo possuem em si uma emotividade exasperadora, que os faz com que ajam loucamente em diversas situações.

Tais situações envolvem, quase sempre nos contos, o julgo do sexo, do envolvimento sexual que todo ser humano possui e finge, em alguns momentos ou para algumas pessoas, não existir. Esses envolvimentos aparecem de várias formas nos contos do autor curitibano:  desde o padre que não pode se ater à mulher alguma ao travesti que envolve com carinhos o seu jovem playboy; da empregada que não queria ser violada até o prazer do orgasmo “entregue” a ela pelo seu violentador. Todas essas sujeições que o ser humano se entrega, mas que depois se culpa por ter se sentido “livre”.

Esses personagens, que ora são curitibanos e que ora são cidadãos do mundo, nos fazem perceber de que maneira um autor consegue ser universal a partir do regional. Com sua estilística um pouco “torta”, com estruturas de frases não tão agradáveis para outrem, Dalton Trevisan consegue um ótimo resultado com as multifaces do ser humano. Parece que o autor quer deixar às claras o que deixamos às escuras. Parece que tem de haver uma traição nossa conosco mesmo. Daí a minha ideia para o título do livro: Capitu Sou Eu. Apesar do romance de Machado ser sempre lembrado a partir do título do livro, e que por ventura intitula o primeiro conto do livro, quero ao menos imaginar que talvez a lembrança de Capitu seja para nos fazer pensar se nos traímos realmente, se há alguma traição em se envolver com outro e qualquer tipo de pessoa.
               

Pois como diria o Cantar de Sulamita:

como seria honesta
se você me deitou nos teus braços
abriu cada botão da blusa
sussurrando putinha no ouvido esquerdo?

Como julgar essa moça honesta, que já não é, por ter sido “corrompida até os ossos”? Mas que anteriormente, em seu cantar, implorava:

se não abrir minha blusa
violento e carinhoso
me sugar o biquinho dos seios
por certo hei de morrer

                 
Documentário sobre Dalton Trevisan

Como não concordar com Lulu, a louca, o travesti que fala sinceramente ao leitor e que diz que é: Livre, sem compromisso. (pois) Tudo é lícito para alcançar o prazer. Não se deve julgar o que cada um deseja para o livre prazer, para o livre sentir.

Fora isso, nos contos, teremos apenas o desenrolar do abismo profundo em que o ser humano pode chegar. O desespero profundo da solidão, da impossibilidade de viver, de sentir, da ingenuidade de um pai que deixa seu filho ir só ao banheiro e que logo após não consegue abrir a porta do banheiro para salvar seu filho, que acabou de se suicidar, como no conto Por que, meu filho?

Trevisan mostra, ao menos para mim como leitor, que os problemas muitas vezes ocorrem pelo não se entregar, pelo não se sentir livre. As incertezas para alcançar o que Lulu nos diz é que fazem toda a diferença entre os percursos das vidas. Sentir, se tornar “livre”, como o vadio de Sapato Branco Bico Fino não é para todos e Trevisan nos mostra isso com desvelo e manutenção das palavras.

             Será que Lulu, a louca estava certa? Será que somos todos, que somos todas Capitu?

Livro: Capitu Sou Eu. Dalton Trevisa. Rio de Janeiro: Editora Record. 2008. R$ 9,90
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