Enquanto meu pai não vem

Em criança, não tínhamos muito como
escapar de rotinas pré-determinadas pelos nossos pais, uma vez que eram eles
que ditavam as regras, do corte de cabelo à roupa que vestir e aonde ir e com
quem.
Estudávamos na mesma escola, minha irmã e
eu. Ela, um ano mais nova, saía da sua última aula e ia me esperar no portão de
saída do colégio, onde ficávamos, raramente juntos, aguardando nosso pai, que
saía do trabalho e nos pegava, geralmente uns quarenta minutos depois.
Era nesse intervalo de tempo, contudo,
que as coisas aconteciam, e foi num desses momentos que eu me lembro de ter me
apaixonado pela primeira vez.
Ela era alta, tinha um corpo curvilíneo
sem ser magro, – o tipo de corpo que eu tenderia a apreciar também em adulto,
de pessoas que tivessem onde apertar – cabelos longos e pretos, como uma índia,
e uns olhos claros que, aliados ao sorriso, seduziam mais do que o canto de uma
sereia. E eu tinha a ilusão de que ela sorria para mim, quando a via passar em
direção ao portão, indo buscar sua filha, que descobri ser uma das melhores
amigas da minha irmã. Enquanto as duas ficavam conversando às minhas costas, eu
sentava no batente do portão, pra que ela nunca deixasse de me ver, pra que eu
pudesse sorrir para ela e receber um sorriso de volta, e ir pra casa feliz,
satisfeito, e com ainda mais fome, essa coisa de bicho, incontrolável, que
aumentava vorazmente quando eu a via – eu, que naquele tempo nada entendia das
fomes do corpo.
Eu abria um sorriso e ela sempre sorria
de volta, e era assim que nosso jogo de conquista se cumpria. Até que um dia eu
a vi ao lado do marido, que parecia ser bem mais alto e forte do que eu –
portanto, meu desejo de tirá-la dele aos murros, e levá-la comigo como só nas
cavernas se fazia, liberando todo o meu primitivismo inconsequente, murchou ali
mesmo. Como eu faria para tê-la comigo, então?
Estava claro que eu não faria coisa
alguma. Tinha era que me contentar em sofrer minha paixão à distância. Estava
fadado ao padecimento de amor romântico, no auge dos meus 11 anos. Mas a fome
era insaciável, e eu continuava comendo. E por causa dela, também, continuava
ébrio de amor.
Aos poucos, foi ficando claro para a
filha que eu tinha algum tipo de paixão pela sua mãe, e até mesmo minha irmã
notou, quando certo dia disse, dentro do carro: “O Lauro está apaixonado pela
mãe da Rafaele. É um idiota, mesmo. Tu num viu que ela é casada, não?”. Na
cabeça da minha irmã, este era o grande problema, e não os mais de vinte anos
que nos separavam, o que a tornaria uma pedófila de acordo com os padrões
atuais.
Não custa lembrar que estudávamos num
colégio católico.
A amizade entre minha irmã e a filha do
alvo da minha paixão foi ficando cada vez mais sólida. Elas iam fazer trabalhos
de colégio juntas, às vezes a Rafaele dormia em nossa casa, às vezes ela dormia
lá, e eu ia vivendo minhas coisas de menino, curtindo esse samba cuja letra era
marcada pela solidão.
Um dia, minha mãe foi nos pegar, ao invés
de meu pai. Era raro, mas acontecia. E ela já chegou anunciando: “A Rafaele vai
com a gente”. Minha irmã ficou logo animada, achando que a amiga ia almoçar em
casa, conosco. Mas a mãe tratou logo de dispersar a alegria: “Não, Isabel, nós
vamos deixá-la em casa e depois vamos pra nossa”.
Eu não tinha ainda ideia do que estava por
vir, mas naquele instante fiquei amuado, porque não veria minha musa. E minha
irmã ficou igualmente calada do outro lado, porque a amiga não iria lá pra
casa. E a amiga também foi em silêncio, talvez por não saber como quebrá-lo,
talvez por ela mesma estar quebrada, depois de cair em seus abismos.
Deixamos Rafaele na casa de sua avó, e eu
perguntei à minha mãe, ansioso que estava por notícias da minha amada: “Por que
a gente teve que ir deixar a Rafaele em casa hoje?”. Fiquei sabendo que a mãe
dela tinha precisado fazer uns exames, e que isso levaria o dia todo. Mas foi
aí que tive a notícia que me fez ganhar meu dia: “E os pais dela estão se
divorciando, e por algum motivo ele não pôde ir pegá-la”. Então agora ela
poderá ser minha!, pensei de modo incoercível, até chegar em casa. Eu fazia planos, eu
queria arranjar um emprego, queria poder sustentá-la e à filha, fazê-la feliz,
já que aquele homem não conseguira, não quisera ou não pudera. Talvez amanhã,
quando ela fosse buscar a Rafaele, eu pudesse juntar coragem e ir falar com
ela, oferecer meu ombro, meu carinho, e quem sabe?
Juntei toda a minha coragem para, no dia
seguinte, não apenas sorrir pra ela, mas me levantar, apertar sua mão, e aos
poucos ir tentando puxar assunto, conversar, e adentrar no processo de sedução
máxima entre dois seres humanos: o convite para sair. Estava tudo arquitetado
na minha cabeça, só ia depender da receptividade dela aos meus planos.
Só que no dia seguinte, ela não foi. Nem
no outro. No terceiro dia, foi a Rafaele quem faltou, então eu sabia com
certeza que não veria sua mãe. Minha vontade de comer passava. Em casa, meu pai
me forçava a ingerir alguma coisa, com as velhas ameaças de que eu não teria
sucesso na escola, nem cresceria, se não me alimentasse direito. Eu pouco me
importava em passar na escola ou crescer. Que
se dane tudo!, eu pensava. E não aparecia ninguém para me dar notícias. Eu
passava o dia inteiro na escola esperando a hora da aula terminar pra ver se a
mãe da Rafaele apareceria, mas nada. Nem a própria Rafaele, nem ninguém.
Perguntei pra minha irmã, que me respondeu com um seco “parece que a mãe dela
tá doente”, e não disse mais nenhuma palavra.
Na semana seguinte, Rafaele voltou às
aulas. Esperança renovada de que a gripe da sua mãe tivesse curado e eu pudesse
colocar meu plano em
prática. Mas quem apareceu foi uma senhora baixa e
atarracada, com um olhar de quem já tinha desistido de viver. Ela chegou, fez
um gesto com a mão e Rafaele a seguiu, bichinho acuado e obediente, rumo a
algum carro que eu não via do lugar onde estava, provavelmente estacionado na
outra esquina.
E assim os dias viraram semanas e meses.
Por algum motivo, a mãe de Rafaele não vinha mais pegá-la, só a avó. Normal,
pensei, lá em casa mesmo às vezes, quando um não podia vir, por causa do
trabalho ou algum outro contratempo, quem vinha era o outro.
Perto do final do semestre, eu soube de
tudo.
Enquanto almoçávamos para ir à escola,
minha irmã caiu no choro. Um choro convulsivo e incompreensível. Será que ela
estava ficando doida?, pensei na mesma hora em que vi minha irmã soluçando
diante de um prato de comida que ela gostava. Não fazia sentido.
Não, não estava. Eu, o futuro marido, fui
o último a saber. Senti-me traído, dilacerado, acabado, mas era como se as
pessoas estivessem escondendo tudo de mim deliberadamente, numa tentativa
esdrúxula de me poupar de algo – quando, na verdade, o pouco que se sabia até
então não me era dito porque lá em casa cada qual vivia no seu próprio mundo, e
o mundo de um não se interseccionava com o do outro. Portanto, se Rafaele não
era minha amiga, eu não tinha motivo pra querer saber o que quer que se
passasse em sua vida particular. Nada me impedia, porém, de me sentir arrasado.
Minha mãe correu para acudir minha irmã
Isabel, que a esta altura já babava com a boca cheia de comida, e dizia que não
conseguia engolir o que tinha na boca, que isso e aquilo, num ataque
dramático-histérico que parecia que a mãe era a dela.
Sem nada entender, olhei para a minha
mãe, que conseguiu me explicar depois de limpar minha irmã e fazer com que ela
trocasse a camisa da uniforme para ir à escola, que a mãe da Rafaele estava com
C.A.
Eu não fazia ideia do que fosse aquilo, mas
pela situação que se criara ali, não era nada bom, nada bom. E as duas, minha
mãe e minha irmã, pareciam saber mais detalhes do que fosse esse tal de C.A., e
do destino que aguardava quem tinha esse negócio. Perguntei a ela o que aquilo
significava.
“Sua vó, Lauro, a minha mãe, morreu de
C.A. também. A avó que você mal conheceu, que lhe botou no colo e disse ‘é uma
pena que não vou vê-lo crescer’, morreu bem novinha também. E eu fico morrendo
de pena – e nessa hora ela também não se fez de rogada e seguiu o exemplo da
minha irmã, que quando viu a mãe chorar voltou a fazer o mesmo – que a Rafaele
vá ficar sem mãe tão cedo. Não é justo, meu Deus, não é justo!” – disse,
chorando.
Meu coração parou de bater por alguns
segundos. Eu estava perplexo. Depois de ver toda aquela cena, ainda ser
informado de que a mulher da minha vida morreria. Eu mal conseguia conceber
tudo aquilo. Aliás, eu não conseguia de jeito nenhum. E minha reação ao lidar
com algo que não posso compreender era aos 11, como é até hoje, parar com cara
de estupefação, para só depois do que parecem longas conjeturas, agir. Mas eu
não consegui. Naquele dia, eu tive a certeza de que jamais veria a mãe de
Rafaele novamente.
E de fato, nunca mais a vi. Soube, anos
depois, que o pai de Rafaele se divorciou dela no ápice do tratamento contra o
câncer. Sem condições de cuidar da filha e com vergonha de si mesma por ter
sido mutilada ao retirar as mamas, numa época em que reconstruí-las custava
muito dinheiro, e dinheiro esse que ela não tinha, Rafaele foi deixada com os
avós maternos, que cuidavam dela como se filha fosse, enquanto esses mesmos
avós tinham que lidar com a certeza cada vez mais premente da perda da própria
filha.
Por fim, ela morreu. Dali em diante,
Rafaele se transformou em
mulher. Ninguém passa incólume a uma perda tão precoce, e não
foi diferente com ela. Porque minha irmã ainda tinha mãe e não amadureceu tão
rapidamente, as duas seguiram caminhos distintos, assim como eu, viúvo de um
amor que não pôde ser concebido.
Cresci com a certeza de haver aprendido,
com aquele episódio, muito mais sobre o amor e a morte do que poderia aprender
se a vida tivesse me ensinado aos poucos. Aprendi outras coisas também. Eu não
conseguia entender como alguém poderia ser tão pouco humano como foi o pai de
Rafaele. Compreendi que eu jamais abandonaria um amor. E que se a vida, o amor
e a morte são todos fatores profundamente interligados, entendi também que quem
não consegue lidar com a grandiosidade desses três, só entende de coisas
desnecessárias.
Pelo sangue meu que em ti circula e pelo amor indelével e inexplicável que só um pai conhece, te parabenizo e te desejo ver feliz, pela materialização dos teus melhores sonhos.
ResponderEliminarBeijo do pai.
Que belo conto!! Parabéns e que venham outros como esse!! Parabéns, Marcola!!
ResponderEliminarMuito bom! Gostei do final sentencioso
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