"NO TERMINAL DE JEFERSON", crônica de Alex Costa para o LiteraturaBr
Hoje
o acaso me levou à Faixa de Gaza fortalezense, ao ponto de encontro de mãos que
negam centavos e dos que morrem pelas bombas invisíveis jogadas constantemente
em seus olhos, suas vidas. Cheguei naquele terminal por volta das 18:20,
encontraria uma amiga às 18:50. Por sorte andava na companhia de um livro e matei
esses trinta minutos sem problemas. Mas, neste ínterim, fui surpreendido por um
dos diálogos mais lindos que tive na vida. Ao chegar, senti vontade de tomar um
sorvete e me encaminhei, segurando o livro na mão direita, a um ponto rosa no
qual uma placa anunciava: “Casquinha – 1,50”. “Uma mista, por favor” – pedi à
atendente, que tinha sua testa brilhosa de suor, e Deus sabe desde que horas
aquela moça trabalhava naquele cubículo quente e desconfortável. Notei que, um
pouco afastado, a chupar o dedo polegar, um menino, que vestia uma blusa cinza
com a imagem de um Mickey Mouse sorrindo, me observava e olhava fixamente para
o livro que estava na minha mão, mas logo mirou no dinheiro que a atendente me
entregava – troco de vinte reais.
“Ei,
tio, me dá as mueda ai, vá lá!” – pensei em um turbilhão de coisas em fração de
dois segundos. 1) Cheirar cola? 2) Inteirar a pedra? 3) Comprar comida? Não
fazia ideia em qual alternativa deveria arriscar, mas temia ser uma das duas
primeiras. “Deixa pra próxima, beleza?” – saí de lá com o coração na mão, mas
não podia arriscar colaborar com a destruição daquele menino – que eu,
preconceituosamente, achava que estava a se destruir. Voltei ao banco onde estava
sentado antes de ir comprar aquele sorvete, já com o sorvete pela metade, e
fiquei refletindo nos olhos pidões daquele menino. Por um lado, algo me dizia
que eu havia feito o certo, por outro, poderia ter sido eu o provedor da janta
(refeição única?) daquele jovem. Dei a última dentada na casquinha e joguei o
guardanapo na lixeira ao meu lado, abri o livro na página 92.
Li
dois parágrafos de um ensaio chato e escrito somente para a exaltação do ego de
quem se achava muito conhecedor da arte do cinema, escrevendo três “achismos”
ainda no primeiro parágrafo. Fechei o livro e só então me dei conta de que eu
estava cercado por uma atmosfera propiciadora a inspirações para a escrita, uma
loca cheia de frutos do Determinismo de Taine e das exceções com as quais não
podemos justificar as (ainda) poucas mudanças sociais; inspira-me o contato com
a pele de um povo que tão injustiçado foi e ainda não recebeu indenização, que
sustenta esse país nas costas e são escrachados todos os dias por não terem o
cabelo liso. Deixemos estes comentários e indignações para um comentário
posterior, hoje me interessa contar outra história.
De
pé, com os olhos fixados em mim (há quanto tempo?), ainda chupando o dedo, o
menino das muedas (porque muedas, com U, é mais coerente) me olhava ainda com
os mesmos olhos pidões com os quais recebeu meu não. Dei um sorriso de canto de
boca para ele e o gesto foi recíproco. Ele veio caminhando em minha direção,
limpando o dedo polegar no calçãozinho azul sujo e furado. “Como é esse livro
ai?” – apontando para a capa colorida. “É um livro de ensaios sobre cinema” –
ele fez um sinal positivo com a cabeça, mas percebi que ele não fazia ideia do
que era um ensaio. “Você sabe o que é isso, ensaio?” – ele voltou a colocar o
dedo na boca e balançou a cabeça em sinal de negação. “Pois senta aqui, macho,
vou te explicar”
Descobri
que seu nome era Jeferson (com um F só, segundo o mesmo) e que não estava
estudando. Quer trabalhar na Petrobrás quando for “grande” e morar no Conjunto
Ceará (?). Tinha três irmãos e não quis dizer onde morava, respeitei.
“Antigamente” ele vendia amendoim, mas agora não vendia mais porque acabou (?).
Jeferson, depois de três minutos de conversa, disse que havia entendido o que
era um ensaio, e até me explicou quando pedi: “é quando o cara escreve pra
dizer o que tá pensando” – não foi bem isso que expliquei a ele, mas tá
valendo! “Mas, tio, tô com fome ó! Compra um salgado pra mim, vá lá!?” – pediu,
com um olho aberto e outro fechado, com meio sorriso na boca de dentes alvinhos.
“Certeza que é pra comprar salgado?” – perguntei olhando nos olhos dele, embora
já tivesse decidido a dar. “É sim, é sim! Vou comprar bem ali, ó!” – apontou
para uma lanchonete à nossa frente.
Tirei
dois reais do bolso e já ia me levantando para ir com ele comprar o salgado,
mas ele disse que eu não precisava ir, podia deixar que ele comprava sozinho,
porque ele sabia. Entreguei o dinheiro e disse que ele fosse mesmo, que eu
estava olhando dali. Ele tirou o dedinho da boca e saiu correndo com a nota de
dois reais levantada e sacudindo em euforia. De repente, Jeferson parou no meio
do caminho, olhou para trás e foi voltando com os olhos caídos. “Ei, tio, é
dois e vinte e cinco, e o homem não deixa não ó!” – sorri e tirei mais vinte e
cinco centavos do bolso e o entreguei. Novamente a carreira com a cédula azul
levantada.
Jeferson, que era menor que o balcão, chegou todo dono de si para comprar seu salgado com suco, e logo foi rodeado por outros cinco meninos do seu tamanho, e arrancou um pedaço do seu salgado para cada moleque daqueles. Como sou besta que só eu mesmo, enxuguei as duas lágrimas que caiam na minha blusa bem lavada com amaciante e passada a ferro, vendo um minúsculo salgado sendo repartido com tanta alegria entre seis Jefersons.

me apaixonei por esta crônica desde a primeira vez que li...
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