Quem os deuses amam morre jovem
A intenção
de Benjamin era renunciar a toda a interpretação manifesta, fazendo com que as
significações se impusessem apenas através da contrastada montage do
material. (...) Para coroar o anti-subjectivismo, toda a obra tinha de constar
de citações.
(Theodor W.
Adorno, «Caracterização de Walter Benjamin», 1955: 23)
Por muito
benjaminiana que esta concepção possa parecer, o editor está persuadido de que
Benjamin não tinha intenção de proceder assim. Nenhuma carta corrobora esta
afirmação e as duas notas das próprias Passagens
(...) em que Adorno se apoia dificilmente podem ser interpretadas neste
sentido.
(Rolf
Tiedemann, «Introdução» a Walter Benjamin, Paris,
Capital do Século XX. O Livro das Passagens, 1989: 12n)
Quem os deuses amam morre jovem.
(Menandro, Duplo
Engano, s/d: 114)
Morre jovem o que os Deuses amam, é um
preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos
mundos, e a arte, que em obras os finge são os sinais notáveis desse amor
divino. Não concedem os Deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para
que sejamos seus pares. Quem ama ama só o igual, porque o faz igual com amá-lo.
Como porém o homem não pode ser igual dos Deuses, pois o Destino os separou,
não corre homem nem se alteia deus pelo amor divino: estagna só deus fingido,
doente da sua ficção.
(Fernando Pessoa, «Mário de Sá-Carneiro», 1924: 227)
«Morrem jovens os que os deuses amam», dizia o poeta.
E eu pergunto: morrem velhos os que eles detestam?
(Jorge de Sena, Peregrinatio ad Loca
Infecta, 1969: 55)
Os deuses não
amam os que morrem jovens,
eclipsam-se na sua
negação inumana.
(Luís Quintais, Depois da Música, 2013: 34)
Chamaram-no os Deuses, ainda tão novo
(Fernando Pessoa / Ricardo Reis, Prosa, 2003: 146)
A verdadeira
pontualidade é morrer antes da idade.
(José Maria
Vieira Mendes, A Minha Mulher, 2007:
191)
Queríamos morrer
juntos,
no mesmo dia
e à mesma hora,
mas a morte
quere-nos aos poucos,
quere-nos da
igual maneira
como viemos ao
mundo.
Um,
por
um.
(Eduardo White, O País de Mim, 1989: 64)
Repare-se:
trazia dentro de si uma morte.
Por isso ele
morreu uma morte difícil,
a morte dele,
como todos morrem
de terem
tido uma morte deles. O mais
difícil da
vida é, medito enquanto leio,
encontrar,
sem vacilação, a minha
morte
intransmissível, pura
de ser o
menos que em mim sou.
(Luís
Adriano Carlos, O Suicida Aprendiz,
2001: 30)
Todavia a
morte é algo que é feito; como morre um homem?
Todavia
alguém ganha a sua morte, a sua própria morte, que não pertence a nenhum outro
e este jogo
é a vida.
(Yorgos
Seferis, Diário de Bordo, 1940: 89)
É um mal morrer e os deuses bem o sabem;
se assim não fora, eles próprios morreriam.
(Safo, Poemas e Fragmentos de Safo, s/d: 80)
Ninguém morre
como se chegasse
ao fim da vida
A morte é sempre um corte
extemporâneo
(António Ramos Rosa, Em Torno do Imponderável,
2012: 23)
Eu tenho para mim que os dias
do homem estão contados
por um analfabeto.
(José Miguel Silva, Serém, 24 de Março, 2011: 16)
morremos como os cães, tudo o que está vivo morre da mesma maneira, toda
a morte é uma imperfeição que nos acolhe, com o seu vagar meticuloso, perto
dela esquecemos os nomes da salvação, o de Deus, os do amor, os da ira, os
livros afastam-se e os autores escondem-se, as palavras ajudam-nos a viver,
mesmo a viver a morte, mas não a morrer
(Rui Nunes, A
Boca na Cinza, 2003: 101)
Uma pessoa que já só tem vinte e quatro horas de vida deveria ter imensas
coisas para fazer, mas eu não conseguia lembrar-me de uma única.
(Haruki Murakami, O
Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo, 1985: 326)
Agora, pelo contrário, se a minha idade continuar a prolongar-se, sei que
será necessário que sofra as consequências da velhice: ver pior, ouvir menos,
ser mais lento a aprender e mais esquecido do que aprendi. Ora, se tiver esta
percepção de que me tornarei mais fraco – continuava Sócrates – e tiver de me
censurar a mim mesmo, como é que poderei continuar a viver com gosto? Mas
talvez o deus – dizia ainda –, na sua benevolência, me esteja a facultar não só
o momento mais agradável, na minha idade, para dar por concluída a minha vida,
como também a morte mais fácil.
(Xenofonte, Apologia de Sócrates,
s/d: 102-3)
Depois
disso, nada igualou a paz e a serenidade dos seus últimos dias, tanto mais que,
por especial e extraordinária concessão do eleitor, foi o cárcere onde se
encontrava aberto de modo a permitir que os muitos amigos que tinha na cidade o
visitassem livremente de dia ou de noite.
(Heinrich von Kleist, Michael
Kohlhaas, o Rebelde, 1885: 148)
Depois, quando os companheiros
quiseram tirá-lo da cadeia às escondidas, não o consentiu, e até pareceu zombar
deles ao perguntar-lhes se conheciam algum lugar fora da Ática que não
estivesse ao alcance da morte.
(Xenofonte, Apologia de Sócrates, s/d: 109)
– Mas onde
encontraremos, Sócrates – replicou ele –, um virtuoso esconjurador de tais
medos, posto tu nos vais deixar?
– A Hélade é
grande, Cebes, e nela há muitos homens bons; e além disso, são muitas as nações
dos povos bárbaros. (...) Mas é preciso procurar também entre vós, pois talvez
não encontreis homem mais hábil para pronunciar esses esconjuros do que vós.
(Platão, Fédon, s/d: 83)
– Em
realidade portanto, os verdadeiros filósofos, Símias, exercitam-se em morrer
(Platão, Fédon, s/d: 55)
Só os imbecis, pela raiva, desejam a imortalidade.
(Heliodoro Baptista, Nos Joelhos do Silêncio, 2005: 51)
experimentei estranhas emoções ao encontrar-me ali. Não me invadiu um
sentimento de piedade como poderia naturalmente ter ao assistir à morte de um
amigo íntimo; pois ele parecia-me um homem feliz, Equécrates: feliz tanto pelo
procedimento como pelas suas palavras, indo ao encontro da morte com tanta
coragem e serenidade.
(Platão, Fédon, s/d: 32)
o próprio
Billy falava livremente da morte próxima, mas da mesma maneira como as crianças
geralmente se referem à morte, chegando a brincar aos funerais com esquife e
cortejo fúnebre.
(Herman
Melville, Billy Budd, 1891: 113)
no fundo, ninguém acredita na sua
própria morte ou, o que é a mesma coisa, no inconsciente, cada qual está
convencido da sua imortalidade.
(Sigmund
Freud, «Considerações actuais sobre a guerra e a morte», 1915: 39)
era como se
ficássemos privados de um pai e vivêssemos como órfãos o resto da nossa vida.
(Platão, Fédon, s/d: 168)
Nos meus
livros, tratava-se de ti, não fazia mais do que lastimar-me daquilo que não
podia lamentar sobre o teu peito. Era um adeus que te dizia, um adeus
intencionalmente arrastado em duração, mas que, se me era imposto por ti, se
realizava num sentido determinado por mim.
(Franz
Kafka, Carta ao Pai, 1919: 49)
Estou doente
e vou morrer; mas morro
feliz porque me vieste dizer adeus.
(Angela Carter, O Quarto dos Horrores,
1979: 69)
Ninguém chorou a sua morte; ninguém estava ao
lado, para além da figura vulgar do comissário da polícia do bairro e do
indiferente médico municipal.
(Nikolai Gogol, «Avenida Névski», 1834: 123)
Em todo o
caso, foi uma das angústias da minha vida – das angústias reais em meio de
tantas que têm sido fictícias – que Caeiro morresse sem eu estar ao pé dele.
Isto é estúpido mas humano, e é assim.
Eu estava em
Inglaterra. O próprio Ricardo Reis não estava em Lisboa; estava de volta no
Brasil. Estava o Fernando Pessoa, mas é como se não estivesse.
(Fernando
Pessoa / Álvaro de Campos, «Notas para a recordação do meu mestre Caeiro»,
1931: 46)
Equécrates Quem eram, Fédon, os que estavam
presentes?
Fédon Dos Atenienses estavam esse Apolodoro, Critóbulo e
seu pai, e também Hermógenes, Epígenes, Ésquines e Antístenes; também estava
Ctesipo, o de Peanea e Menéxeno e mais alguns atenienses. Platão, julgo que
estava doente.
(Platão, Fédon, s/d: 33)
Então todos
os discípulos O abandonaram e fugiram.
(Evangelho segundo S. Mateus, 26: 56)
João, contudo, declara ter estado
presente e ter permanecido sempre ao pé junto da cruz.
(Ernest
Renan, Vida de Jesus, 1863: 382)
Fugis de
mim? Tendes medo?
(Friedrich
Nietzsche, Assim Falava Zaratustra,
III, 1884: 240)
No momento
da morte de Edmund Husserl, em Abril de 1938, Heidegger «estava doente de
cama.» De modo chocante, no seu protocolo de desnazificação, de 1945, Heidegger
exprime remorsos por não ter enviado à viúva uma carta de condolências.
(George
Steiner, As Lições dos Mestres, 2003:
74)
E assim acaba o mundo
(T. S. Eliot, Os Homens Vazios,
1925: 41)
Vamos,
Críton, obedeçamos-lhe, e tragam o veneno, se já está preparado; se não, que o
preparem.
(Platão, Fédon, s/d: 169)
Às oito veio José Maria com
a notícia, quase sem rodeios disse-me que Celina acabava de morrer. Recordo-me
de que reparei instantaneamente na frase. Celina acabando de morrer, um pouco
como se fosse ela que tivesse decidido o momento em que isso devia acontecer.
(Julio Cortázar, Bestiário, 1951: 107)
E assim acaba o mundo
(T. S. Eliot, Os Homens Vazios,
1925: 41)
Com quanta serenidade, Equécrates, sem uma tremura, sem uma alteração, nem
na cor do rosto, nem na expressão, mas encarando o homem com o seu olhar fixo,
como costumava, perguntou:
– Diz-me, fazer uma libação desta bebida a alguma divindade, é ou não
permitido?
– Preparámos apenas, Sócrates – disse – a quantidade que cremos ser
conveniente beber.
– Compreendo, – respondeu ele – mas ao menos é permitido, e é mesmo um
dever dirigir uma prece aos deuses, para o feliz sucesso desta mudança de
residência, daqui para o Além. Esta é pois a minha prece: que assim seja!
(Platão, Fédon, s/d: 171)
eu muitas vezes pergunto a eles
ateus ou como quer que eles se chamem que vão de lavar do ranço deles primeiro
depois tocam a gemer por um padre porque estão morrendo e por que por que
porque ficam com medo do inferno por causa da má consciência deles ah sim eu
conheço eles bem quem foi a primeira pessoa no universo antes que tivesse
ninguém que fez tudo quem ah isso eles não sabem
(James
Joyce, Ulisses, 1922: 550)
E assim acaba o mundo
(T. S. Eliot, Os Homens Vazios,
1925: 41)
disse estas
palavras, as últimas que pronunciou:
– Críton,
devemos um galo a Asclépio. Paga esta dívida e não te descuides.
(Platão, Fédon, s/d: 172)
É sinistro!
Sempre gostava de saber que palavras disseram antes de acabar...
– Quem? O
Wiseman e o Wishart? Com certeza uma patacoada qualquer. É o género de conversa
que imaginamos de uma forma e depois sai de outra. Talvez o Wiseman tenha dito:
«Passa daí o gin, meu velho, que eu estou sem saber de que terra sou.» E talvez
o Wishart tenha respondido: «Oh, que raio de inferno...»
– Só isso
chega para ser sinistro.
(Robert
Louis Stevenson, No Vazio da Onda. Trio e
quarteto, 1894: 44)
E assim acaba o mundo
E assim acaba o mundo
E assim acaba o mundo
Não com uma
explosão mas com um soluço.
(T. S. Eliot, Os Homens Vazios,
1925: 41)
de cada vez
insubstituivelmente, de cada vez infinitamente, a morte
(Jacques
Derrida, Carneiros / Aríetes. O diálogo
ininterrupto: entre dois infinitos, o poema, 2003: 23)
Como morre
um homem? Estranho ninguém reflectiu nisso.
(...)
Lembrávamo-nos
de mestres anciãos que nos deixaram órfãos.
Um casal
passou a conversar:
«Fartei-me
do crepúsculo, vamos para casa
vamos para
casa acender a luz.»
(Yorgos
Seferis, Diário de Bordo, 1940: 89)
de cada vez,
e de cada vez singularmente, de cada vez insubstituivelmente, de cada vez
infinitamente, a morte é nada menos do que um fim do mundo. Não apenas um fim entre outros, um fim de alguém
ou de alguma coisa no mundo, o fim de uma vida ou de um ser vivo. A
morte não põe um termo a alguém no mundo, nem a um mundo entre outros, ela marca de cada vez, de cada vez a
desafiar a aritmética o absoluto fim do único e mesmo mundo, daquilo que cada
qual abre com um único e mesmo mundo, o fim do único mundo, o fim da totalidade
daquilo que é ou que se pode apresentar como a origem do mundo para certo e
único ser vivo
(Jacques
Derrida, Carneiros / Aríetes, 2003:
23)
Cada um é
tudo para si mesmo, porque, ao morrer, tudo morre para ele. E daí vem que cada
um cuide ser tudo para todos.
(Blaise
Pascal, Pensamentos Escolhidos, s/d:
41)
O que é o
«sentido da vida»? É uma coisa que só podemos captar nas vidas dos outros que,
por serem objecto de narração, se nos apresentam como consumadas, seladas pela
morte.
(Ítalo
Calvino, Seis Propostas para o Próximo
Milénio, 1990: 157)
Nunca
desistimos de esperar que comece a verdadeira história, porque a única história
verdadeira é, afinal de contas, a morte.
(Jonathan
Franzen, A Zona de Desconforto. Uma
história pessoal, 2006: 136)
Pedro
Eiras
Desde 2001, publicou diversas obras de
ficção (Estiletes, Os Três Desejos de Octávio C., A Cura), teatro (Antes dos
Lagartos, Um Forte Cheiro a Maçã, Uma Carta a Cassandra, Um Punhado de Terra,
Bela Dona), ensaio (Esquecer Fausto, A Lenta Volúpia de Cair, Tentações, Um
Certo Pudor Tardio), crónica (Boomerang, Substâncias Perigosas) e outros textos
mais difíceis de classificar. No Brasil publicou Os Três Desejos de Octávio C.,
Um Forte Cheiro a Maçã seguido de Uma Carta a Cassandra, e Substâncias
Perigosas. As suas peças de teatro foram encenadas e lidas em dez países. É
Professor de Literatura Portuguesa na Universidade do Porto.

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