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6 de novembro de 2014
A cura, de Pedro Eiras

A cura, de Pedro Eiras




por Ana Marques Gastão
Lisboa, Quidnovi, 2013

Freud, numa carta ao pastor Oskar Pfister (25 de Novembro de 1928), escreveu que queria proteger a psicanálise dos médicos e sacerdotes, ele que considerava o Deus monoteísta uma ilusão, assente na necessidade infantil de um pai. Desejava, por isso, e situemo-nos naquela época, entregar a análise a uma categoria de homens ainda não existente, mas aos quais deu o nome de «curas seculares da alma» que não necessitavam de ser médicos e não podiam ser sacerdotes. Em A Questão da Análise Leiga (1926), o «pai da psicanálise» afirmara-se como um defensor da prática da sua «ciência» por não-médicos, e não apenas por psiquiatras. Quanto à religião, comparava-a, em «Actos Obsessivos na Prática Religiosa» (1907), a uma neurose obsessiva. Totem e Tabu (1913) e Moisés e o Monoteísmo (1939) esclarecem-nos, por outro lado, que o psicanalista considerava a religião um «problema humano» da maior relevância.

Na verdade, Freud era um herdeiro dos pensadores das Luzes do século XVIII – e do Feuerbach de A Essência do Cristianismo –, não deixando de investigar a psicogénese das religiões. Relembre-se que, em 1910, sublinhava numa carta a Jung, então ainda seu amigo e discípulo, que a razão última da necessidade de religião seria o espinhoso «desamparo infantil» que levaria os homens a inventar «um Deus justo e uma natureza boa». As doutrinas religiosas permitiriam, pois, que o crente tomasse os seus desejos por realidades, substituindo a neurose pela ideia delirante.

            
No prefácio a O Futuro de uma Ilusão (1927), Jacques André[1]encara a religião como psicótica ou neurótica, filha do complexo paternal. Muito pouca coisa a distinguiria da alucinação: a religiosidade tenderia a restaurar, sob forma alucinatória, o narcisismo ilimitado correlativo do sentimento de impotência da criança. O pai da psicanálise havia mostrado – assimilando, sobretudo no aspecto da ordem clássica, o teatro grego, bem como as lições de Shakespeare – que só o autoconhecimento concederia ao ser humano o domínio sobre si mesmo, tendo o inconsciente, nesse processo mental, uma influência determinante, entre outros aspectos, por meio da acção dos actos falhados, dos sonhos, etc.

Escavou-se muito depois de Freud, para bem ou para mal, nesta e noutras direcções. A tradição budista – na luta pela «atenção perfeita» como meio de desvendamento da consciência – e, de outro modo, o cristianismo primitivo, praticavam, no entanto, há séculos a autoanálise na senda do combate contra a ignorância e o desejo (paixão) por ela causado. Neste caso, poderíamos definir ignorância pela tentativa repetitiva de transformação do transitório em eterno/absoluto. Estaríamos não necessariamente perante uma ausência de conhecimento, mas diante de um conhecimento falso, uma autovigilância mal dirigida.

Relembre-se a mística de introversão defendida pelos escritos gnósticos, documentos revolucionários no seu empenho pela liberdade interior. Filipe considerava a ignorância escrava e a gnose liberdade. Escreve-se, por outro lado, no Evangelho de Tomé: «O reino está dentro de vós e está fora de vós. Quando vos chegueis a conhecer a vós próprios[2], então sereis conhecidos e sabereis que vós sois os filhos do Pai vivente. Mas se não vos conhecerdes, então ficareis na pobreza e sereis a pobreza.» Algo de semelhante se anuncia, em defesa da harmonia e da elaboração espiritual e intelectual, em o Diálogo do Salvador: «A lâmpada do corpo é a mente. Enquanto o vosso interior estiver em ordem, os vossos corpos serão luminosos».

Freud havia, consumado, porém, de forma radical, a cisão entre a experiência religiosa – que identificou com uma credulidade edipiana – e a psicanálise. Somos, na verdade, de acordo com as (des)crenças de cada um, actores de um ritmo cósmico dominado pela separação: da nossa hipotética origem divina, para alguns, ou de um Outro. É por se existir enquanto ser separado que se procura a completude no reencontro simbólico com o pai e a mãe numa perenidade (ressurreição) de ordem imaginária. Eis como o pé se atreve a pousar em terrenos aparentemente opostos, pois, em ambos os casos, se deixa agir a PALAVRA, sabendo nós que os pais aparecem, segundo Deleuze e Guattari, na «superfície de registo da produção desejante» e que «a criança é um ser metafísico».[3] O inconsciente continua na realidade por explorar, do ponto de vista científico, e desconhece-se, por outro lado, quais são os mecanismos colectivos que sobre ele incidem.

O inconsciente é órfão ou tem um Deus?

Freud ou Jung? Nenhum dos dois? Ambos?

A Cura, de Pedro Eiras, dir-se-ia um romance situado nessa fronteira – fé e psicanálise – e emprega uma linguagem despretensiosa e subterraneamente erudita, veloz. Claro, inquietante, enigmático na sua tendência pensante, o enredo, de propensão acentuadamente afirmativa e não menos irónica, mesmo na polemicidade de certas sentenças, dá-nos a ver, pela mão de um ensaísta e dramaturgo argutos, a fertilidade literária que a psicanálise detém desde Freud ao colocar-nos tanto perante a dialéctica entre razão/coração, como perante o risco da criação de um Significante despótico. O discurso analítico, dito de associação livre, não é apenas intelectual, mas implicitamente afectivo. E não deixa de ser ilusório, mas de uma forma epistemológica, terapêutica, porque permite o suporte de uma viagem, a da vida.

A narrativa centra-se num fulcro de personagens principais: o narrador, psicanalista, a companheira deste, e alguém que se faz analisar pelo primeiro. Essa figura – pasme-se a ousada inverosimilhança – é o Papa. Oscilamos, neste romance, entre verdade e incerteza, pergunta e não resposta, divã e confessionário, sabendo que só a angústia e a escuta os ligam. A improbabilidade irreverente da história conduz-nos a um labirinto de interrogações perante o absurdo e a eventualidade de qualquer dos terrenos, religioso ou psicanalítico, ser totalitário. Na demanda de uma escuta (seja no divã, seja na confissão) e da procura reconstrutiva de um Eu fragmentado, ainda que parcialmente ficcional, o analisando não pede absolvição, ou se a pede, não lhe é dada, mesmo que o seu terapeuta se considere todo-poderoso. Não é disso que se trata, mas de deixar actuar a palavra verdadeira (quem sabe ilusória), individual e transindividual.

A psicanálise, por meio da representação das palavras, das coisas ou dos afectos, faz recuar o analisando a um lugar esquecido ou recalcado, obrigando-o a um caminho de lucidez e inteligibilidade. Não é uma ciência, nem uma técnica, mas usa os seus instrumentos, dir-se-ia uma experiência de amor ou, ironizando, algo parecido com a limpeza de uma chaminé, chimney sweeping, citando o terrível performer Lacan. Nesse enlace de subjectividades, que exige uma ética entre psicanalista e analisando, decorre A Cura, narrativa na qual desejo e sonho são personagens. Pelo romance passam também a pulsão de morte (que sustém o desejo de agredir, de fazer mal ou «me fazer mal») ou, nas representações psíquicas, a sexualidade recalcada (a infantil, por exemplo, em diálogo com a coisa narcísica e o desejo de extinção da líbido). Nesses domínios, também no da perversão, a arte e a literatura antecederam em muito a psicanálise.

Pedro Eiras trabalha, ainda do ponto de vista satírico, o sonho ou a sua interpretação, quase indiscreta, no diálogo entre psicanalista e analisando (o Papa) de uma forma lúdica, mostrando-nos que sonhar não é o resultado da continuidade claramente lógica ou emocional dos acontecimentos da vida, mas o resíduo de uma curiosa actividade psíquica exercida durante o sono. Ou será o sonho arquetipal (oriundo da ideia de imago), como defendeu Jung, forma de representação simbólica partilhada com a arte e a mística? A Cura faz-nos reflectir sobre a possibilidade de uma continuidade para trás, na direcção de um passado reelaborado pelo sujeito desejante numa demanda de análise. O sujeito do inconsciente descobre no divã, em diálogo com um outro, o que subsiste de ilusório na relação narcísica a partir da qual se trabalha a perda, a melancolia, o desejo. A narrativa decorre, desse ponto de vista, de modo frenético, assumindo o psicanalista um papel dogmático e mascarado em relação ao seu próprio Eu, nomeadamente na relação amorosa com a mergulhadora Rita, imersa num mar melancólico que se transforma em visão.

O relato, recheado de matéria religiosa e psicanalítica, não alheio também a um certo sado-masoquismo, contém vários graus que vão de uma agressividade entre analista e analisando, à admiração, à dúvida, à contradição, à dissimulação e à dependência. Trata-se de encontrar na sombra a luz, a coisa especular, ou melhor, uma «dramaturgia invisível», como lhe chamou Julia Kristeva, que poderíamos considerar um motor mobilizador da inteligência-corpo de dois neuróticos, neste caso com a problemática de Deus latente. Ambos os mundos são abrangidos, um deles, o do terapeuta, de forma necessariamente recolhida e, a maior parte das vezes, oculta, algo que não sucede em A Cura, estratagema decerto usado para salvação da narrativa. Nesta relação transferencial acontece o que a escritora e psicanalista reclama de «excesso aparente da palavra amorosa», de «efusão sentimental histérica» ou de «angústia catastrófica e fóbica do abandono».[4] Dir-se-ia ia, no entanto, a desordenação angustiada de uma carência de amor de um sujeito in progress, mesmo disfarçada, que conduz à demanda de análise. Pela mão da palavra interpretativa passam ligações intersubjectivas, inscrições arcaicas de um pré-sujeito, fantasmas, fantasias, que, pelo despertar da imaginação, destapam monstros e os esclarecem.

Em A Cura, a interpretação é personagem principal. Trata-se de regressar ao que esquecemos, como se afirma no romance, e de conduzir o que seremos. Curiosamente, o Papa resiste a deitar-se no divã e ambas as personagens parecem detentoras da verdade absoluta, entre outros assuntos, no que se refere ao erotismo, à sexualidade, à fé. A fala torrencial do terapeuta ajuda à dramaturgia (ou não fosse Pedro Eiras um autor de teatro), retirando-lhe, todavia, alguma verossimilhança, bem como a crueza do silêncio presente em qualquer análise. Jamais um psicanalista falaria tanto – ou então seria um mau psicanalista –, nem sentenciaria os dotes do seu saber, algo a ler como provocação irónica deliberada: «A psicanálise diz mesmo…», «a psicanálise ensina…», etc. O Papa não é, por outro lado, um ser assexuado. A transcendência pode ser parte integrante da personalidade de um analisando convicto (não por acaso o Apocalipse é citado várias vezes em sinal de revelação), como o erotismo existe nos mais belos textos da tradição mística, do Cântico dos Cânticos a Santa Teresa D’Ávila, bem como na escrita barroca a lo divino de que o teatro e a poesia de Soror Maria do Céu são um exemplo notável.

É a questão da hipotética conciliação entre fé e psicanálise, entre literatura e psicanálise, a conduzir a acção. O interdito funciona, por outro lado, como nó do problema do enredo: deseja-se a idealidade (da paixão), a paz desviada, mas o processo de autoconhecimento tem obstáculos, brechas que vêm ao de cima no enredo. O fluxo caótico da consciência dá-se bem com a ilusão, tanto no papel como no divã, sendo a melancolia uma mola de arranque para uma narrativa mental constituída no processo analítico como uma escrita, o que não significa que estejamos perante literatura.

Um escritor pode ser ou ter sido um analisando, mas jamais a escrita se define como uma forma completa[5] de psicanálise, único método a reivindicar o inconsciente e a sexualidade como os dois únicos universos da subjectividade humana. A literatura não pode ser considerada um método psicoterapêutico, embora surja, por vezes, de um processo catártico (purga ou descarga emocional): funciona sem o elemento dialógico e o lugar transferencial, sem a análise didáctica. O autor não vive dentro de uma «clínica de escuta» de supressão de resistências, nem é necessariamente um neurótico. Escreve só, sem a desmontagem possível num divã e sem Édipo como um Deus.

Nem a neurose nem a psicose são, por outro lado, meramente explicáveis por um Édipo – a psiquiatria e a neurologia evoluíram para fora do território «papá-mamã», que possui também os riscos de um totalitarismo da influência. O esquizo, como afirmam Deleuze e Guattari, faz a viagem da intensidade e em intensidade. Escrevem: «Esses homens são como Zaratustra: atravessaram sofrimentos inacreditáveis, vertigens e doenças. Têm os seus espectros e têm de reinventar todos os gestos».[6]

São domínios que parecem quase indistintos na teoria de Julia Kristeva, os da literatura/filosofia e da psicanálise, mas não o são, neste romance também não, embora a ensaísta afirme que a «verdade analítica» está mais próxima da ficção narrativa do que do discurso da fé.[7]O processo de escrita, que lida também com a perda, a separação, o limite, a fronteira entre Eu e o Outro, tem necessidade de abrir espaços até para se contradizer, como este livro o demonstra: é essa a sua liberdade, vivacidade e violência. A literatura transfigura, a psicanálise elabora, transforma. Na impossibilidade de preenchimento dos vazios e enquanto fundador de narrativas simbólico-imagéticas, o escritor dir-se-ia um excelente exemplo da recriação de um Eu sublimado, o que não deixa de ter conotações fáusticas, mas não pode ser entendido – mesmo sendo um erudito na matéria – como um sujeito em ou de análise. Na literatura, usa-se a metáfora; na psicanálise a metáfora desmonta-se, até porque amiúde o sofrimento se prende ao corpo que somatiza. Podem, contudo, completar-se, libertando o que é da arte de sempre por meio da experimentação desejante na estranheza de um Eu arcaico.

Jamais a psicanálise pode ser considerada uma mera aventura intelectual e, se por aí passa (como acontece nesta narrativa em certos momentos), é para a desfazer, já que as desordens da imaginação – que combinam sistemas de representação transversais da linguagem – vão transformar-se, no caso de estarmos perante um transfert positivo, num discurso em acto. Não se trata de uma ciência, a psicanálise, mas de um saber, que usa as regras clássicas da epistemologia científica e a que não faltam técnicas terapêuticas. Não há cura, mas emergência de um sujeito de interpretação a partir da indagação no território do desejo mediado por um analista.

A psicanálise constitui, na verdade (com a linguística e a sociologia), e na sequência da separação feita em relação a um vasto continente teológico operado depois de Descartes, uma aproximação racional ao comportamento humano e às significações enigmáticas e contraditórias que lhe são próprias. Freud arredou-a da psiquiatria porque ela engloba um domínio que pode ser considerado «irracional» ou arriscar-se a dar o salto para o «sobrenatural», se evocarmos os estudos de Jung. Cristo é, na opinião do autor de Psicologia e Alquimia, o símbolo do Eu ou vice-versa, ilustra o arquétipo do Eu. Transfert e contra-transfert estabelecem-se, portanto, neste caso, no âmbito da palavra mais do que partilhada, transmutada.

A Cura passa por aí, pelo diálogo entre o Papa e o psicanalista, ficando o leitor situado não apenas no esquematismo da vulgata analítica: complexo de Édipo, pulsão de morte, líbido, etc... Atravessa-se para o lado de lá – transcendência e literatura. Freud assinalou que esta ultrapassou, tantas vezes, a psicanálise ao tocar aquilo que Blanchot chamou de interdito impronunciável. Pedro Eiras envolve-se na tarefa árdua de tentar entender qual a relação entre a linguagem e o mundo: segue o caminho da imaginação. Imaginar é trazer a nós as coisas na sua ausência, tarefa do romancista. A imaginação poderia definir-se como uma coisa mágica que faz aparecer o que não está lá, tentando roubar a luz ao escuro, sublimando. E sublimar vem de sublime – o que demonstra a inatingível beleza e perfeição que ultrapassam o humano: dir-se-ia um mecanismo de defesa pelo qual a energia psíquica negativa se move num sentido da menor dor.

         Se formos na linha da nossa angústia, desse humor do Outono e da Terra, mórbido e paralisante, dessa «felicidade de se estar triste», como escreveu Victor Hugo, lentificamos a nossa acção, mas se usarmos a FORÇA, alterando, de algum modo, os dados da nossa experiência temporal, indo contra o fluxo escuro, dá-se a sublimação. Nesse quadro, a escrita nasce, tantas vezes após um longo processo analítico como uma verdade dinâmica que põe em contacto a história de um transfert permanente entre o domínio da patologia e o do espírito. É isso que o psicanalista deste livro, que surpreendentemente se torna monge, tentará fazer – uma autobiografia, um «exercício espiritual libertador».[8] Não por acaso o Papa-analisando, diz : «O Senhor Doutor considera que eu tenho uma neurose. Eu considero que tenho temor a Deus. Para que havia eu de curar aquilo que me alimenta?»[9]

A frase poderia ter sido escrita – em território outro – por Foucault que considerou a neurose constitutiva. Na verdade, a intensidade do relacionamento do ser humano consigo próprio, enquanto objecto de conhecimento e de criação artística e literária, foi-se tornando numa forma de construção motivada pela sua quase impossível superação. O analisando é sempre aquele que não sabe o bastante, alguém que balança na corda da impermanência e duvida, algo que o Papa, neste romance, parece, em certos momentos, recusar. Inusitadamente, há como uma inversão dos papéis. Ambas as personagens despertam para um autoconhecimento, mas digamos que o Papa se detém perante uma impossibilidade, a de não poder prosseguir a análise por estar convicto da sua fé, suspendendo o seu processo reelaborativo enquanto ser de linguagem. Talvez lhe bastasse o silêncio interior e a inserção num edifício religioso, a Igreja.

O Papa não é apenas um homem de fé, mas de religião. Decide, por isso, neurótico ou não, abandonar a análise, mas não sem ir em busca da ovelha extraviada que acaba por vestir o hábito de monge. O psicanalista, que se encontrava encerrado na sua torre intelectual e discursória, dá uma volta de 180 graus, tomando o Papa como um pai simbólico e encaminhando-se para outra «verdade». O fecho do romance determinaria, na visão de Freud, a vitória da alienação, já que este considerava haver uma similitude entre fé e obsessão neurótica, religião e neurose colectiva. Para a Igreja, seria o triunfo da fé. Essa dubiedade permite-a a literatura.

O inconsciente tem razões que a razão desconhece…





[1]Sigmund Freud, L’Avenir d’une illusion, PUF, 2004.
[2] Sublinhado meu.
[3] Gilles Deleuze e Félix Guattari, O Anti-Édipo – Capitalismo e Esquizofrenia 1, Lisboa, Assírio & Alvim, trad. de Joana Morais Varela e Manuel Maria Carrilho, 2004, p. 50-1.
[4] Julia Kristeva, Au commencement était l’amour – psychanalyse et foi, suivi de «À propos de l’athéisme de Sartre», Paris, Hachette, 1985, p. 13.
[5] Sublinhado meu.
[6] Gilles Deleuze e Félix Guattari, ibid., p. 136.
[7]Julia Kristeva, ibid., p. 35.
[8] Pedro Eiras, A Cura, Lisboa, Quidnovi, 2013, p. 227.
[9] Idem, ibid., p. 203.
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5 de janeiro de 2014
Quem os deuses amam morre jovem

Quem os deuses amam morre jovem


por Pedro Eiras*


A intenção de Benjamin era renunciar a toda a interpretação manifesta, fazendo com que as significações se impusessem apenas através da contrastada montage do material. (...) Para coroar o anti-subjectivismo, toda a obra tinha de constar de citações.
(Theodor W. Adorno, «Caracterização de Walter Benjamin», 1955: 23)
Por muito benjaminiana que esta concepção possa parecer, o editor está persuadido de que Benjamin não tinha intenção de proceder assim. Nenhuma carta corrobora esta afirmação e as duas notas das próprias Passagens (...) em que Adorno se apoia dificilmente podem ser interpretadas neste sentido.
(Rolf Tiedemann, «Introdução» a Walter Benjamin, Paris, Capital do Século XX. O Livro das Passagens, 1989: 12n)



Quem os deuses amam morre jovem.
(Menandro, Duplo Engano, s/d: 114)


Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares. Quem ama ama só o igual, porque o faz igual com amá-lo. Como porém o homem não pode ser igual dos Deuses, pois o Destino os separou, não corre homem nem se alteia deus pelo amor divino: estagna só deus fingido, doente da sua ficção.
(Fernando Pessoa, «Mário de Sá-Carneiro», 1924: 227)

«Morrem jovens os que os deuses amam», dizia o poeta.
E eu pergunto: morrem velhos os que eles detestam?
(Jorge de Sena, Peregrinatio ad Loca Infecta, 1969: 55)
Os deuses não amam os que morrem jovens,
eclipsam-se na sua negação inumana.
(Luís Quintais, Depois da Música, 2013: 34)


Chamaram-no os Deuses, ainda tão novo
(Fernando Pessoa / Ricardo Reis, Prosa, 2003: 146)
A verdadeira pontualidade é morrer antes da idade.
(José Maria Vieira Mendes, A Minha Mulher, 2007: 191)
Queríamos morrer juntos,
no mesmo dia
e à mesma hora,
mas a morte quere-nos aos poucos,
quere-nos da igual maneira
como viemos ao mundo.
Um,
por
um.
(Eduardo White, O País de Mim, 1989: 64)
Repare-se: trazia dentro de si uma morte.

Por isso ele morreu uma morte difícil,
a morte dele, como todos morrem
de terem tido uma morte deles. O mais

difícil da vida é, medito enquanto leio,
encontrar, sem vacilação, a minha
morte intransmissível, pura

de ser o menos que em mim sou.
(Luís Adriano Carlos, O Suicida Aprendiz, 2001: 30)
Todavia a morte é algo que é feito; como morre um homem?
Todavia alguém ganha a sua morte, a sua própria morte, que não pertence a nenhum outro
e este jogo é a vida.
(Yorgos Seferis, Diário de Bordo, 1940: 89)


É um mal morrer e os deuses bem o sabem;
se assim não fora, eles próprios morreriam.
(Safo, Poemas e Fragmentos de Safo, s/d: 80)

Ninguém morre
como se chegasse
ao fim da vida
A morte é sempre um corte
extemporâneo
(António Ramos Rosa, Em Torno do Imponderável, 2012: 23)
Eu tenho para mim que os dias
do homem estão contados
por um analfabeto.
(José Miguel Silva, Serém, 24 de Março, 2011: 16)
morremos como os cães, tudo o que está vivo morre da mesma maneira, toda a morte é uma imperfeição que nos acolhe, com o seu vagar meticuloso, perto dela esquecemos os nomes da salvação, o de Deus, os do amor, os da ira, os livros afastam-se e os autores escondem-se, as palavras ajudam-nos a viver, mesmo a viver a morte, mas não a morrer
(Rui Nunes, A Boca na Cinza, 2003: 101)



Uma pessoa que já só tem vinte e quatro horas de vida deveria ter imensas coisas para fazer, mas eu não conseguia lembrar-me de uma única.
(Haruki Murakami, O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo, 1985: 326)

Agora, pelo contrário, se a minha idade continuar a prolongar-se, sei que será necessário que sofra as consequências da velhice: ver pior, ouvir menos, ser mais lento a aprender e mais esquecido do que aprendi. Ora, se tiver esta percepção de que me tornarei mais fraco – continuava Sócrates – e tiver de me censurar a mim mesmo, como é que poderei continuar a viver com gosto? Mas talvez o deus – dizia ainda –, na sua benevolência, me esteja a facultar não só o momento mais agradável, na minha idade, para dar por concluída a minha vida, como também a morte mais fácil.
(Xenofonte, Apologia de Sócrates, s/d: 102-3)
Depois disso, nada igualou a paz e a serenidade dos seus últimos dias, tanto mais que, por especial e extraordinária concessão do eleitor, foi o cárcere onde se encontrava aberto de modo a permitir que os muitos amigos que tinha na cidade o visitassem livremente de dia ou de noite.
(Heinrich von Kleist, Michael Kohlhaas, o Rebelde, 1885: 148)
Depois, quando os companheiros quiseram tirá-lo da cadeia às escondidas, não o consentiu, e até pareceu zombar deles ao perguntar-lhes se conheciam algum lugar fora da Ática que não estivesse ao alcance da morte.
(Xenofonte, Apologia de Sócrates, s/d: 109)
– Mas onde encontraremos, Sócrates – replicou ele –, um virtuoso esconjurador de tais medos, posto tu nos vais deixar?
– A Hélade é grande, Cebes, e nela há muitos homens bons; e além disso, são muitas as nações dos povos bárbaros. (...) Mas é preciso procurar também entre vós, pois talvez não encontreis homem mais hábil para pronunciar esses esconjuros do que vós.
(Platão, Fédon, s/d: 83)



– Em realidade portanto, os verdadeiros filósofos, Símias, exercitam-se em morrer
(Platão, Fédon, s/d: 55)
Só os imbecis, pela raiva, desejam a imortalidade.
(Heliodoro Baptista, Nos Joelhos do Silêncio, 2005: 51)

experimentei estranhas emoções ao encontrar-me ali. Não me invadiu um sentimento de piedade como poderia naturalmente ter ao assistir à morte de um amigo íntimo; pois ele parecia-me um homem feliz, Equécrates: feliz tanto pelo procedimento como pelas suas palavras, indo ao encontro da morte com tanta coragem e serenidade.
(Platão, Fédon, s/d: 32)
o próprio Billy falava livremente da morte próxima, mas da mesma maneira como as crianças geralmente se referem à morte, chegando a brincar aos funerais com esquife e cortejo fúnebre.
(Herman Melville, Billy Budd, 1891: 113)
no fundo, ninguém acredita na sua própria morte ou, o que é a mesma coisa, no inconsciente, cada qual está convencido da sua imortalidade.
(Sigmund Freud, «Considerações actuais sobre a guerra e a morte», 1915: 39)

era como se ficássemos privados de um pai e vivêssemos como órfãos o resto da nossa vida.
(Platão, Fédon, s/d: 168)
Nos meus livros, tratava-se de ti, não fazia mais do que lastimar-me daquilo que não podia lamentar sobre o teu peito. Era um adeus que te dizia, um adeus intencionalmente arrastado em duração, mas que, se me era imposto por ti, se realizava num sentido determinado por mim.
(Franz Kafka, Carta ao Pai, 1919: 49)



Estou doente e vou morrer; mas morro feliz porque me vieste dizer adeus.
(Angela Carter, O Quarto dos Horrores, 1979: 69)

Ninguém chorou a sua morte; ninguém estava ao lado, para além da figura vulgar do comissário da polícia do bairro e do indiferente médico municipal.
(Nikolai Gogol, «Avenida Névski», 1834: 123)
Em todo o caso, foi uma das angústias da minha vida – das angústias reais em meio de tantas que têm sido fictícias – que Caeiro morresse sem eu estar ao pé dele. Isto é estúpido mas humano, e é assim.
Eu estava em Inglaterra. O próprio Ricardo Reis não estava em Lisboa; estava de volta no Brasil. Estava o Fernando Pessoa, mas é como se não estivesse.
(Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, «Notas para a recordação do meu mestre Caeiro», 1931: 46)
Equécrates Quem eram, Fédon, os que estavam presentes?
Fédon Dos Atenienses estavam esse Apolodoro, Critóbulo e seu pai, e também Hermógenes, Epígenes, Ésquines e Antístenes; também estava Ctesipo, o de Peanea e Menéxeno e mais alguns atenienses. Platão, julgo que estava doente.
(Platão, Fédon, s/d: 33)
Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram.
(Evangelho segundo S. Mateus, 26: 56)
João, contudo, declara ter estado presente e ter permanecido sempre ao pé junto da cruz.
(Ernest Renan, Vida de Jesus, 1863: 382)
Fugis de mim? Tendes medo?
(Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, III, 1884: 240)

No momento da morte de Edmund Husserl, em Abril de 1938, Heidegger «estava doente de cama.» De modo chocante, no seu protocolo de desnazificação, de 1945, Heidegger exprime remorsos por não ter enviado à viúva uma carta de condolências.
(George Steiner, As Lições dos Mestres, 2003: 74)



E assim acaba o mundo
(T. S. Eliot, Os Homens Vazios, 1925: 41)

Vamos, Críton, obedeçamos-lhe, e tragam o veneno, se já está preparado; se não, que o preparem.
(Platão, Fédon, s/d: 169)
Às oito veio José Maria com a notícia, quase sem rodeios disse-me que Celina acabava de morrer. Recordo-me de que reparei instantaneamente na frase. Celina acabando de morrer, um pouco como se fosse ela que tivesse decidido o momento em que isso devia acontecer.
(Julio Cortázar, Bestiário, 1951: 107)

E assim acaba o mundo
(T. S. Eliot, Os Homens Vazios, 1925: 41)

Com quanta serenidade, Equécrates, sem uma tremura, sem uma alteração, nem na cor do rosto, nem na expressão, mas encarando o homem com o seu olhar fixo, como costumava, perguntou:
– Diz-me, fazer uma libação desta bebida a alguma divindade, é ou não permitido?
– Preparámos apenas, Sócrates – disse – a quantidade que cremos ser conveniente beber.
– Compreendo, – respondeu ele – mas ao menos é permitido, e é mesmo um dever dirigir uma prece aos deuses, para o feliz sucesso desta mudança de residência, daqui para o Além. Esta é pois a minha prece: que assim seja!
(Platão, Fédon, s/d: 171)
eu muitas vezes pergunto a eles ateus ou como quer que eles se chamem que vão de lavar do ranço deles primeiro depois tocam a gemer por um padre porque estão morrendo e por que por que porque ficam com medo do inferno por causa da má consciência deles ah sim eu conheço eles bem quem foi a primeira pessoa no universo antes que tivesse ninguém que fez tudo quem ah isso eles não sabem
(James Joyce, Ulisses, 1922: 550)

E assim acaba o mundo
(T. S. Eliot, Os Homens Vazios, 1925: 41)

disse estas palavras, as últimas que pronunciou:
– Críton, devemos um galo a Asclépio. Paga esta dívida e não te descuides.
(Platão, Fédon, s/d: 172)
É sinistro! Sempre gostava de saber que palavras disseram antes de acabar...
– Quem? O Wiseman e o Wishart? Com certeza uma patacoada qualquer. É o género de conversa que imaginamos de uma forma e depois sai de outra. Talvez o Wiseman tenha dito: «Passa daí o gin, meu velho, que eu estou sem saber de que terra sou.» E talvez o Wishart tenha respondido: «Oh, que raio de inferno...»
– Só isso chega para ser sinistro.
(Robert Louis Stevenson, No Vazio da Onda. Trio e quarteto, 1894: 44)

E assim acaba o mundo
E assim acaba o mundo
E assim acaba o mundo
Não com uma explosão mas com um soluço.

(T. S. Eliot, Os Homens Vazios, 1925: 41)







de cada vez insubstituivelmente, de cada vez infinitamente, a morte
(Jacques Derrida, Carneiros / Aríetes. O diálogo ininterrupto: entre dois infinitos, o poema, 2003: 23)

Como morre um homem? Estranho ninguém reflectiu nisso.
(...)
Lembrávamo-nos de mestres anciãos que nos deixaram órfãos.
Um casal passou a conversar:
«Fartei-me do crepúsculo, vamos para casa
vamos para casa acender a luz.»
(Yorgos Seferis, Diário de Bordo, 1940: 89)

de cada vez, e de cada vez singularmente, de cada vez insubstituivelmente, de cada vez infinitamente, a morte é nada menos do que um fim do mundo. Não apenas um fim entre outros, um fim de alguém ou de alguma coisa no mundo, o fim de uma vida ou de um ser vivo. A morte não põe um termo a alguém no mundo, nem a um mundo entre outros, ela marca de cada vez, de cada vez a desafiar a aritmética o absoluto fim do único e mesmo mundo, daquilo que cada qual abre com um único e mesmo mundo, o fim do único mundo, o fim da totalidade daquilo que é ou que se pode apresentar como a origem do mundo para certo e único ser vivo
(Jacques Derrida, Carneiros / Aríetes, 2003: 23)
Cada um é tudo para si mesmo, porque, ao morrer, tudo morre para ele. E daí vem que cada um cuide ser tudo para todos.
(Blaise Pascal, Pensamentos Escolhidos, s/d: 41)

O que é o «sentido da vida»? É uma coisa que só podemos captar nas vidas dos outros que, por serem objecto de narração, se nos apresentam como consumadas, seladas pela morte.
(Ítalo Calvino, Seis Propostas para o Próximo Milénio, 1990: 157)
Nunca desistimos de esperar que comece a verdadeira história, porque a única história verdadeira é, afinal de contas, a morte.
(Jonathan Franzen, A Zona de Desconforto. Uma história pessoal, 2006: 136)



Pedro Eiras
Desde 2001, publicou diversas obras de ficção (Estiletes, Os Três Desejos de Octávio C., A Cura), teatro (Antes dos Lagartos, Um Forte Cheiro a Maçã, Uma Carta a Cassandra, Um Punhado de Terra, Bela Dona), ensaio (Esquecer Fausto, A Lenta Volúpia de Cair, Tentações, Um Certo Pudor Tardio), crónica (Boomerang, Substâncias Perigosas) e outros textos mais difíceis de classificar. No Brasil publicou Os Três Desejos de Octávio C., Um Forte Cheiro a Maçã seguido de Uma Carta a Cassandra, e Substâncias Perigosas. As suas peças de teatro foram encenadas e lidas em dez países. É Professor de Literatura Portuguesa na Universidade do Porto.

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