Os Demônios de Dostoiévski
A
inquestionável – ainda que imaginária – vitória de Nikolai Vsievolódovitch
Stavróguin
sobre Rodion Románovitch Raskólnikov*
A Rússia, da década de 1860, era um barril de pólvora: em 61,
o tsar Alexandre II, sob duras críticas, acabou com a servidão; em 62 o país
completou mil anos (e a consciência geral de que mudanças deveriam ser feitas
era quase palpável); em 66 o mesmo tsar foi vítima de um atentado que, por
pouco, não causou sua morte; havia focos de terrorismo, a paranoia reinava e
grupos niilistas, socialistas e anarquistas, em oposição ao regime tzarista,
surgiam a cada esquina. Foi neste caldeirão que se formou o grupo liderado por
Serguei G. Nietcháiev** (apadrinhado por Mikhail Bakunin, um teórico político e
dos anarquistas mais conhecidos da história) intitulado 'Justiça Sumária do
Povo'.
Composto
por cinco pessoas, o grupo niilista (que alardeava ser somente uma célula de
uma organização maior, com contatos internacionais) pretendia ser o estopim
para uma – de muitas sonhadas – revolução. Com visões políticas radicais, era
de se esperar que houvesse atrito entre os membros, e foi num desses
desentendimentos que o estudante I. I. Ivanóv resolveu debandar. Nietcháiev
temia que Ivanóv os denunciasse, jogando pelo ralo todo o esforço da - leia-se
fumaça e espelhos – organização. Assim, em novembro de 1869, os quatro membros
restantes assassinam Ivanóv e escondem o corpo num lago. O assassinato por
motivos puramente políticos incitou inúmeras discussões. Alguns críticos não
viram nada de mais, outros anteviram o pior. A segunda parte estava certa.
Tendo sido ele próprio membro de um grupo revolucionário (socialista) na década
de 1840, o episódio conturbado (na já completamente conturbada Rússia de então)
não passou em branco a Dostoiévski, que começou, logo no ano seguinte, a
escrever e publicar na revista Ру́сский ве́стник (Rússkii Viéstnik = O
mensageiro russo) o denso ''Os demônios'' (Бесы, Biêsi, literalmente
''Demônios''), que nasceu com a missão de ser um alerta contra a violência
praticada por idealistas que se valem de qualquer meio para um fim que talvez
não tenha mesmo um. A capacidade de Dostoiévski de sintetizar o pensamento
político e filosófico (por mais absurdo que fosse) da época é apuradíssima, como
a história não tardaria em confirmar.
O
quebra-cabeça vai sendo montado aos poucos, e as primeiras duzentas páginas,
que poderiam ser consideradas até alegres, enganam. Logo as coisas começam a
ficar pesadas, as intenções – algumas nefastas – vão clareando, os duplos
começam a se mostrar. As motivações das personagens, quando surgem, não são
fáceis de ser digeridas. Aqui o grupo se chama ''os nossos'', e é comandado por
Piotr Stiepanovitch Vierkhoviénski e, indiretamente, por Nikolai
Vsievolódovitch Stavróguin. O que pretendem é a confecção e distribuição de
alguns panfletos, onde despejariam suas diferenças idiossincráticas em relação
ao regime do tsar, na tentativa de causar um levante popular.
Quando
os revolucionários se reúnem para discutir a confecção e distribuição dos
panfletos, teorias bizarras aparecem: a de que um décimo da população deve
reinar com mão de ferro sobre os outros nove; a de que os gênios de uma
sociedade devem ser mortos já no berço, não permitindo assim que alguém se
destaque; a de que só o que é estritamente essencial conta, desde que esse
''essencial’’ se encaixe nos moldes da causa, e a causa deve ser defendida a
qualquer custo. Caos, terror, atos desmedidos de violência, tudo seria válido
(soa familiar?). Deuses-homens e Homens-deuses. Por vários momentos as palavras
que saltam à vista parecem surreais (se soubesse que uma pessoa seria
assassinada, você daria o alerta?; se o assassinato beneficiasse a causa, ainda
assim o daria?), mas logo toda a consciência de que são bem reais te atinge,
baqueia e oprime. Piotr Stiepanovitch tem tudo minuciosamente calculado, o bode
expiatório, os contatos e até um novo comandante para a nação, na figura de
Stavróguin, que após a revolução assumiria o folclórico pseudônimo de Ivan
Czariêvitch. Calcula tudo, deixando de lado o mais previsível: os imprevistos.
O terço final do romance, onde as peças se encaixam (bem ou mal) e novas vão
surgindo, executado com a maestria dostoiévskiana, levará o leitor a
sentimentos que flutuarão entre amor, ódio e o resultado da briga, a catarse. A
batalha silenciosa entre dois grandes Dostoiévski.
Nikolai
Stavróguin é a personalidade mais sombria já criada por Dostoiévski, e seu nome
suscita rumores em qualquer lugar que passe; dizem que matou alguém no
exterior, que viveu desregradamente em São Petersburgo, passando de farra em
farra e destruindo a vida de muita gente. Não estão muito longe da verdade,
como se verá mais adiante. Logo que volta à cidadezinha, é desafiado para um
duelo por Gagánov, cujo pai foi ofendido por Stavróguin quatro anos antes, numa
cena bem estranha e curiosa. O desenrolar do duelo – com os padrinhos ditando
as regras estabelecidas de comum acordo, a contagem dos passos, a distribuição
das armas, constrói uma tensão inédita até este ponto do romance (Stavróguin
ainda tenta resolver pacificamente a situação, o que só provoca mais irritação
em Gagánov). Neste momento, o Dostoiévski de ''O duplo'' e ''A aldeia de
Stepántchikovo e seus habitantes'' aflora, pois é hilária a cena em que
Stavróguin, numa atitude que é vista pelo seu oponente como zombaria, atira
para o alto, para o lado, menos na direção de um Gagánov cada vez mais fora de
si. Gagánov chega a arrancar o chapéu de Stavróguin com um tiro, e este, ao
encarar a morte com tamanha descrença, obtém a primeira vitória sobre
Raskólnikov. As razões para esta negação de Stavróguin aparecerão somente no
capítulo ''com Tíkhon'', incluído nesta edição como apêndice (originalmente
projetado para ser o capítulo VIII da segunda parte, foi censurado e não
publicado em vida do autor; certamente é o melhor capítulo da obra). Nele,
Stavróguin vai visitar o bispo Tíkhon, que se encontra recolhido num mosteiro
situado nos arredores da cidade, e faz sua famosa confissão (que nada mais é
que um dos panfletos que seria divulgado pel'os nossos', e único mostrado).
Segundo as notas da edição, o mesmo teve oito esboços, prova de que nem para
Dostoiévski ele foi fácil. E não é. Num dos momentos mais leves, Stavróguin
narra minuciosamente como estuprou a filha de sua senhoria enquanto estava em
São Petersburgo, o que leva a garota a se enforcar (acredite, isso não é nada).
O
capítulo é um dos mais impressionantes e escancarados retratos de uma
consciência que tortura a si mesma pela própria inexistência já sangrados da
pena de qualquer escritor, e um dos finais mais marcantes da literatura (não
sai barato). Trecho:
– Até na forma da mais grandiosa
confissão sempre há algo ridículo. Oh, não acredite naquilo que o senhor não
vence! – exclamou num átimo – até esta forma (apontou para as folhas) acabará
vencendo desde que o senhor aceite sinceramente uma bofetada e uma cusparada na
cara. A mais ignominiosa das cruzes sempre acabou se tornando uma grande glória
e uma grande força quando a humildade da façanha era sincera. É até possível
que o senhor já seja consolado em vida!... – Quer dizer que o senhor vê o
ridículo apenas na forma, no estilo? – insistiu Stavróguin. – E na essência. A
fealdade mata – murmurou Tíkhon, baixando a vista. – O quê? A fealdade? A
fealdade de quê? - Do crime. Há crimes verdadeiramente feios. Nos crimes, sejam
eles quais forem, quanto mais sangue, quanto mais horror houver mais
imponentes, mais pitorescos, por assim dizer, serão; no entanto, há crimes
vergonhosos, ignominiosos, contrários a qualquer horror, por assim dizer,
deselegantes até demais... Tíkhon não concluiu. – Quer dizer – pegou a deixa
Stavróguin – que o senhor acha muito cômica a figura que fiz ao beijar a perna
de uma mocinha suja... e tudo o que falei a respeito do meu temperamento e...
bem, tudo o mais... compreendo. Eu o compreendo muito. E o senhor se desespera
por minha causa justamente porque a coisa é feia, nojenta, não, não é que seja
nojenta, mas é vergonhosa, ridícula, e o senhor acha que isso é o que mais
provavelmente não conseguirei suportar? (p. 683, tradução de Paulo Bezerra).
Portanto
temos a segunda – e mais impressionante – vitória sobre Raskólnikov. A edição da 34 é, como sempre, acima da média;
fonte maravilhosa, ótima gramatura, as páginas têm uma cor linda, a capa é das
melhores que já vi. As ilustrações de Cláudio Mubarac (que assina a capa)
seguem uma ordem curiosa: em conformidade com o andamento do romance, as
primeiras não passam de traços que insinuam ser parte de algo maior, então vão
se aglomerando, para mais adiante se materializar nas caveiras dos
''demônios''. Caem como uma luva para o clima sombrio do romance. A tradução de
Paulo Bezerra (que fecha a tradução, assim, dos quatro maiores romances de
Dostoiévski: Crime e castigo, Os demônios, O idiota e Os irmãos Karamázov),
direta do russo, mais uma vez é um trabalho digno de palmas. As pesquisas da
tradutora Denise Bottman, do blog 'não gosto de plágio', mostram que o livro
teve ao menos três edições antes desta: em 1943, com o título errado de ''Os
possessos'', traduzido do francês; em 1951, também do francês, já com o título
correto ''Os demônios''; em 1963, traduzido do inglês e também ''Os demônios'',
numa coleção (muito bonita) em quatro volumes da obra quase completa de
Dostoiévski. link aqui: http://migre.me/hlGpB
Dostoiévski
sai do romance-limite para nos presentear com o romance-profecia, que não é
fácil, é cacofônico, claustrofóbico, intenso. Sublime.
*
Raskólnikov possui uma carta na manga, e se usada, nosso velho amigo Ródia tem
chances na briga.
**
em 1994, o sul-africano J. M. Coetzee lançou um livro chamado ''The master of
Petersburg'', editado no Brasil pela Best Seller e Companhia das Letras (mas
fora de catálogo), no qual apresenta o seguinte argumento: Dostoiévski volta da
Alemanha às pressas por conta da morte de um parente, para descobrir que nem
tudo está bem contado naquela história. Ao investigar o caso, Dostoiévski, que
à época estava escrevendo ''Os Demônios'', se encontra com o já famoso
anarquista Serguei G. Nietcháiev em pessoa. Essa reunião mudará os rumos do
romance, e talvez até da história. Até onde vai a ficção a que se depara o
fato?


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