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27 de janeiro de 2014
Os Demônios de Dostoiévski

Os Demônios de Dostoiévski



A inquestionável – ainda que imaginária – vitória de Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin 
sobre Rodion Románovitch Raskólnikov*

A Rússia, da década de 1860, era um barril de pólvora: em 61, o tsar Alexandre II, sob duras críticas, acabou com a servidão; em 62 o país completou mil anos (e a consciência geral de que mudanças deveriam ser feitas era quase palpável); em 66 o mesmo tsar foi vítima de um atentado que, por pouco, não causou sua morte; havia focos de terrorismo, a paranoia reinava e grupos niilistas, socialistas e anarquistas, em oposição ao regime tzarista, surgiam a cada esquina. Foi neste caldeirão que se formou o grupo liderado por Serguei G. Nietcháiev** (apadrinhado por Mikhail Bakunin, um teórico político e dos anarquistas mais conhecidos da história) intitulado 'Justiça Sumária do Povo'.

Composto por cinco pessoas, o grupo niilista (que alardeava ser somente uma célula de uma organização maior, com contatos internacionais) pretendia ser o estopim para uma – de muitas sonhadas – revolução. Com visões políticas radicais, era de se esperar que houvesse atrito entre os membros, e foi num desses desentendimentos que o estudante I. I. Ivanóv resolveu debandar. Nietcháiev temia que Ivanóv os denunciasse, jogando pelo ralo todo o esforço da - leia-se fumaça e espelhos – organização. Assim, em novembro de 1869, os quatro membros restantes assassinam Ivanóv e escondem o corpo num lago. O assassinato por motivos puramente políticos incitou inúmeras discussões. Alguns críticos não viram nada de mais, outros anteviram o pior. A segunda parte estava certa. Tendo sido ele próprio membro de um grupo revolucionário (socialista) na década de 1840, o episódio conturbado (na já completamente conturbada Rússia de então) não passou em branco a Dostoiévski, que começou, logo no ano seguinte, a escrever e publicar na revista Ру́сский ве́стник (Rússkii Viéstnik = O mensageiro russo) o denso ''Os demônios'' (Бесы, Biêsi, literalmente ''Demônios''), que nasceu com a missão de ser um alerta contra a violência praticada por idealistas que se valem de qualquer meio para um fim que talvez não tenha mesmo um. A capacidade de Dostoiévski de sintetizar o pensamento político e filosófico (por mais absurdo que fosse) da época é apuradíssima, como a história não tardaria em confirmar.

O quebra-cabeça vai sendo montado aos poucos, e as primeiras duzentas páginas, que poderiam ser consideradas até alegres, enganam. Logo as coisas começam a ficar pesadas, as intenções – algumas nefastas – vão clareando, os duplos começam a se mostrar. As motivações das personagens, quando surgem, não são fáceis de ser digeridas. Aqui o grupo se chama ''os nossos'', e é comandado por Piotr Stiepanovitch Vierkhoviénski e, indiretamente, por Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin. O que pretendem é a confecção e distribuição de alguns panfletos, onde despejariam suas diferenças idiossincráticas em relação ao regime do tsar, na tentativa de causar um levante popular.

Quando os revolucionários se reúnem para discutir a confecção e distribuição dos panfletos, teorias bizarras aparecem: a de que um décimo da população deve reinar com mão de ferro sobre os outros nove; a de que os gênios de uma sociedade devem ser mortos já no berço, não permitindo assim que alguém se destaque; a de que só o que é estritamente essencial conta, desde que esse ''essencial’’ se encaixe nos moldes da causa, e a causa deve ser defendida a qualquer custo. Caos, terror, atos desmedidos de violência, tudo seria válido (soa familiar?). Deuses-homens e Homens-deuses. Por vários momentos as palavras que saltam à vista parecem surreais (se soubesse que uma pessoa seria assassinada, você daria o alerta?; se o assassinato beneficiasse a causa, ainda assim o daria?), mas logo toda a consciência de que são bem reais te atinge, baqueia e oprime. Piotr Stiepanovitch tem tudo minuciosamente calculado, o bode expiatório, os contatos e até um novo comandante para a nação, na figura de Stavróguin, que após a revolução assumiria o folclórico pseudônimo de Ivan Czariêvitch. Calcula tudo, deixando de lado o mais previsível: os imprevistos. O terço final do romance, onde as peças se encaixam (bem ou mal) e novas vão surgindo, executado com a maestria dostoiévskiana, levará o leitor a sentimentos que flutuarão entre amor, ódio e o resultado da briga, a catarse. A batalha silenciosa entre dois grandes Dostoiévski.

Nikolai Stavróguin é a personalidade mais sombria já criada por Dostoiévski, e seu nome suscita rumores em qualquer lugar que passe; dizem que matou alguém no exterior, que viveu desregradamente em São Petersburgo, passando de farra em farra e destruindo a vida de muita gente. Não estão muito longe da verdade, como se verá mais adiante. Logo que volta à cidadezinha, é desafiado para um duelo por Gagánov, cujo pai foi ofendido por Stavróguin quatro anos antes, numa cena bem estranha e curiosa. O desenrolar do duelo – com os padrinhos ditando as regras estabelecidas de comum acordo, a contagem dos passos, a distribuição das armas, constrói uma tensão inédita até este ponto do romance (Stavróguin ainda tenta resolver pacificamente a situação, o que só provoca mais irritação em Gagánov). Neste momento, o Dostoiévski de ''O duplo'' e ''A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes'' aflora, pois é hilária a cena em que Stavróguin, numa atitude que é vista pelo seu oponente como zombaria, atira para o alto, para o lado, menos na direção de um Gagánov cada vez mais fora de si. Gagánov chega a arrancar o chapéu de Stavróguin com um tiro, e este, ao encarar a morte com tamanha descrença, obtém a primeira vitória sobre Raskólnikov. As razões para esta negação de Stavróguin aparecerão somente no capítulo ''com Tíkhon'', incluído nesta edição como apêndice (originalmente projetado para ser o capítulo VIII da segunda parte, foi censurado e não publicado em vida do autor; certamente é o melhor capítulo da obra). Nele, Stavróguin vai visitar o bispo Tíkhon, que se encontra recolhido num mosteiro situado nos arredores da cidade, e faz sua famosa confissão (que nada mais é que um dos panfletos que seria divulgado pel'os nossos', e único mostrado). Segundo as notas da edição, o mesmo teve oito esboços, prova de que nem para Dostoiévski ele foi fácil. E não é. Num dos momentos mais leves, Stavróguin narra minuciosamente como estuprou a filha de sua senhoria enquanto estava em São Petersburgo, o que leva a garota a se enforcar (acredite, isso não é nada).

O capítulo é um dos mais impressionantes e escancarados retratos de uma consciência que tortura a si mesma pela própria inexistência já sangrados da pena de qualquer escritor, e um dos finais mais marcantes da literatura (não sai barato). Trecho:

– Até na forma da mais grandiosa confissão sempre há algo ridículo. Oh, não acredite naquilo que o senhor não vence! – exclamou num átimo – até esta forma (apontou para as folhas) acabará vencendo desde que o senhor aceite sinceramente uma bofetada e uma cusparada na cara. A mais ignominiosa das cruzes sempre acabou se tornando uma grande glória e uma grande força quando a humildade da façanha era sincera. É até possível que o senhor já seja consolado em vida!... – Quer dizer que o senhor vê o ridículo apenas na forma, no estilo? – insistiu Stavróguin. – E na essência. A fealdade mata – murmurou Tíkhon, baixando a vista. – O quê? A fealdade? A fealdade de quê? - Do crime. Há crimes verdadeiramente feios. Nos crimes, sejam eles quais forem, quanto mais sangue, quanto mais horror houver mais imponentes, mais pitorescos, por assim dizer, serão; no entanto, há crimes vergonhosos, ignominiosos, contrários a qualquer horror, por assim dizer, deselegantes até demais... Tíkhon não concluiu. – Quer dizer – pegou a deixa Stavróguin – que o senhor acha muito cômica a figura que fiz ao beijar a perna de uma mocinha suja... e tudo o que falei a respeito do meu temperamento e... bem, tudo o mais... compreendo. Eu o compreendo muito. E o senhor se desespera por minha causa justamente porque a coisa é feia, nojenta, não, não é que seja nojenta, mas é vergonhosa, ridícula, e o senhor acha que isso é o que mais provavelmente não conseguirei suportar? (p. 683, tradução de Paulo Bezerra).

Portanto temos a segunda – e mais impressionante – vitória sobre Raskólnikov.  A edição da 34 é, como sempre, acima da média; fonte maravilhosa, ótima gramatura, as páginas têm uma cor linda, a capa é das melhores que já vi. As ilustrações de Cláudio Mubarac (que assina a capa) seguem uma ordem curiosa: em conformidade com o andamento do romance, as primeiras não passam de traços que insinuam ser parte de algo maior, então vão se aglomerando, para mais adiante se materializar nas caveiras dos ''demônios''. Caem como uma luva para o clima sombrio do romance. A tradução de Paulo Bezerra (que fecha a tradução, assim, dos quatro maiores romances de Dostoiévski: Crime e castigo, Os demônios, O idiota e Os irmãos Karamázov), direta do russo, mais uma vez é um trabalho digno de palmas. As pesquisas da tradutora Denise Bottman, do blog 'não gosto de plágio', mostram que o livro teve ao menos três edições antes desta: em 1943, com o título errado de ''Os possessos'', traduzido do francês; em 1951, também do francês, já com o título correto ''Os demônios''; em 1963, traduzido do inglês e também ''Os demônios'', numa coleção (muito bonita) em quatro volumes da obra quase completa de Dostoiévski. link aqui: http://migre.me/hlGpB

Dostoiévski sai do romance-limite para nos presentear com o romance-profecia, que não é fácil, é cacofônico, claustrofóbico, intenso. Sublime.

* Raskólnikov possui uma carta na manga, e se usada, nosso velho amigo Ródia tem chances na briga.

** em 1994, o sul-africano J. M. Coetzee lançou um livro chamado ''The master of Petersburg'', editado no Brasil pela Best Seller e Companhia das Letras (mas fora de catálogo), no qual apresenta o seguinte argumento: Dostoiévski volta da Alemanha às pressas por conta da morte de um parente, para descobrir que nem tudo está bem contado naquela história. Ao investigar o caso, Dostoiévski, que à época estava escrevendo ''Os Demônios'', se encontra com o já famoso anarquista Serguei G. Nietcháiev em pessoa. Essa reunião mudará os rumos do romance, e talvez até da história. Até onde vai a ficção a que se depara o fato?
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31 de agosto de 2012
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em busca de um caminho inédito qualquer


Quando iniciei no mundo da Literatura mal sabia eu quem era Dostoiévski. No início não passava de um nome difícil de pronunciar, mas depois, vendo-o aparecer sempre nas sugestões de alguns livros e nas introduções realizadas nos livros de Graciliano Ramos por Otto Carpeaux, deixei-me levar por aquele nome difícil de dizer.

A primeira leitura que fiz de Dostoiévski foi a de Crime e Castigo, livro que pretendo reler. Após esse vieram vários outros. Talvez, entre os leitores do russo, o livro mais conhecido e que possui uma enorme contribuição para o entendimento de todos os homens-personagens de Dostoiévski seja Memórias do subsolo ou Homem do subterrâneo (cito esses dois nomes, pois são dois nomes válidos e corretos para essa obra, de acordo com alguns tradutores). Esse homem do subterrâneo nada mais do que o pilar fundamental da obra de Dostoiévski.

A partir de um artigo escrito por Fátima Bianchi¹, tomamos nota que o próprio autor, a respeito disso, em suas notas de 1880-1881 diz:

Chamam-me de psicólogonão é verdade, sou apenas realista no sentido mais elevado, ou seja, retrato todas as profundezas da alma humana.

O realismo, do qual trata o autor, é o realismo provindo da chamada “Escola Natural”, que se iniciou com a obra de Gogol, O capote (ainda leremos e publicaremos acerca). A estética dessa “escola” tentava exprimir os sentimentos do homem comum, todas as suas ambições e limitações.

Gente Pobre, primeiro livro publicado pelo autor de Crime e Castigo, é incluído, por alguns escritores, nessa mesma orientação da qual fez parte Gogol. Porém, se atentarmos para a leitura do livro, e tendo buscado algumas informações sobre a “Escola Natural”, poderemos perceber que há sim uma diferença entre a estética que tentava mostrar as limitações do homem comum e o “caminho inédito” que Dostoiévski queria tomar, como nos informa a própria Fátima Bianchi.
               
Nesse livro existe a correspondência entre Makar Diévuchkin, funcionário público, ocupando o nono cargo na escola do funcionalismo público, atua como copista de documento, e uma jovem chamada Varvara Alieksiêievna, que entendemos trabalhar como bordadeira.
               
A troca de cartas faz parte do dia a dia pobre dos dois personagens. A linguagem é simples, totalmente como a linguagem de uma Gente Pobre, ou de um homem comum da época em que viveu o criador de Raskolnikov. Através delas sabemos que há uma relação mais afetuosa entre os dois, que em determinados momentos é questionada pelos moradores de ambas as pensões.
               
Como tem de ser, ambos sofrem da falta do dinheiro. Makar deixa de comprar novas vestes, novos sapatos ou botões para mimar a doce Varvara, que em alguns momentos ralha com seu amigo fiel por gastar todo o seu dinheiro com ela. Porém, o que vemos é a pequena bordadeira criticando seu amigo em uma carta, e na seguinte ela pede sua ajuda, um pouco que seja. Demonstrando-nos assim que existia uma dependência do copista para a sobrevivência dela.

O funcionário público chega a dever a dona da pensão e não tem mais um tostão sequer para trocar as solas dos sapatos e acho que todos já o olham de esguelha, por não se portar como um “homem decente”. Diévuchkin vai atrás de um agiota, e outro e outro, e nada consegue. Suas roupas já não são mais apresentáveis. Até o momento em que, preocupado com a subsistência, erra a cópia de um documento muito importante para a Excelência. É, então, chamado à sala do seu superior e teme tudo: os olhares, os gestos, os falares. Treme. Até que um botão, que mal amarrada com uma linha já velha e gasta, cai de seu capote e perambula, perante o olhar silencioso de todos, até o pé de sua Excelência. Todos explicam que ele é um bom funcionário, quando questionados pelo superior, que o ordenado é o bastante para que ele se mantivesse limpo e “digno”. Todos saem e tremendo o copista fica a sós com seu superior. Sem saber o que fazer e como fazer, mete-lhe à mão cem rublos para que compre roupas novas e botas novas, é tudo o que ele pode fazer.
               
Daí então há uma virada na vida dos dois “amantes”. Dos cem rublos, Makar dá uma parte para sua amiga fiel, compra roupas novas e se sente um novo homem. Todos os olhares já se dissiparam, e, acha ele, que tudo era invenção da sua cabeça. Os letrados de sua pensão não ralhavam mais, as brincadeiras, que ora temia, já não era mais brincadeiras e sim elogios. É ele um novo homem.

Vê-se a perdição em que se encontra tal personagem. Sua vida, que gira em torno da vida da pequena bordadeira, já não é como antes. Os raios de sol que encontrava no campo, como é dito no início do livro, transformaram-se em poças de lama e em céu escuro e nebuloso. Sua vida é o mal tempo, o mal estar da Petersburgo de Dostoiévski.

É incrível perceber no personagem Makar Diévuchkin o processo inicial até se chegar ao personagem principal de Memórias do Subsolo. Há momentos em que o copista questiona a tudo e a todos, trazendo às claras várias opiniões verdadeira e que não são ditas ou eram ditas, como por exemplo:

Mas o principal, minha querida, é que não é por mim que me aflijo, nem é por mim que sofro; por mim tanto faz, mesmo que tivesse de andar num frio de rachar sem capote e sem botas, eu aguentaria, suportaria tudo, para mim é indiferente; sou um homem simples, sem importância – mas o que vão dizer os outros? O que vão dizer os meus detratores, essas más-línguas todas, quando aparecer sem capote? Pois é para os outros que vestimos capote, e mesmo as botas, talvez seja para eles que as calçamos. As botas nesse caso, minha filha, meu benzinho, são-me necessárias para manter a honra e o bom nome; com as botas furadas, perde-se tanto um quanto o outro – acredite, minha filha, acredite na minha experiência de muitos anos; ouça a mim, um velho que conhece o mundo e as pessoas, e não a esses escrevinhadores e rabiscadores quaisquer. (p.118)

São pensamentos como esse, que a meu ver, fazem com que Dostoiévski, e tomo aqui a liberdade de afirmar algo que outros discordaram, estava sim “em busca de um caminho inédito qualquer”. Talvez não soubesse até onde iria chegar, talvez a busca, iniciada por Gente Pobre, e que o fez ficar conhecido na Rússia da noite para o dia, do homem pelo homem que fez com o escritor Russo fosse lido e reconhecido pela crítica mundial e por estudiosos de outras áreas. A busca que propôs esse homem russo foi a busca por algo que muitos perdem ou se cansam, por ser algo quase que incompreensível para o próprio homem.

A busca realizada pelo copista é nebulosa para ele mesmo. Não sabe que caminho seguir, e como agir, apesar de ocorrer momentos em que num pensamento crítico destitui uma parcela da sociedade. Ele só sabe que é um ignorante, e talvez seja essa a falta do entendimento para consigo, diz ele:

E agora me pergunto, minha filha, como foi que eu, Deus me perdoe, pude viver até agora de maneira tão estúpida? O que estava fazendo? De que mato venho eu? Pois não sei mesmo nada, minha filha, não sei nada de nada! absolutamente nada! Digo-lhe sem malícia, Várienka – eu sou um homem sem estudo; li pouco até hoje, li muito pouco, quase nada, aliás; li Retrato de um homem, uma obra inteligente; li O menino que tocava várias músicas em campainhas e “Os grous deÍbico” – e isso é tudo, nunca li mais nada. (p.87)

E esse pouco estudo também vem a ser uma preocupação pela pobre Várienka, que quando moça fora levada pelo pai a um internato para estudar e aprender francês, pois assim, acreditava seu pai, poderia ter uma vida melhor, mais digna. E essa falta de entendimento é vista nos dois personagens, quando ambos tratam da leitura ou da escrita ou dos homens letrados que apareceram e que possuem em suas vidas. Parece-nos que essa pobre gente tem a percepção necessária para ampliar o saber e melhorar a vida, mas isso apenas não basta, pois a vida, como disse o funcionário Makar tem de ser vivida para os outros.
               
A literatura é uma coisa boa, Várienka, muito boa; disso me inteirei anteontem através deles. É algo profundo! É algo que edifica e fortaleza o coração das pessoas, e há muito mais coisa, ainda escrita, sobre tudo isso num livro lá que eles têm. Muito bem escrito! A literatura é um quadro, ou seja, em certo sentido um quadro e um espelho; é a expressão da paixão, uma crítica tão fina, um ensinamento edificante e um documento. Isso tudo eu fui pegando em companhia deles. (p.74)

e

Tinha cinco prateleira compridas de livros pregadas nas paredes. Em cima da mesa e das cadeiras havia papéis. Livros e papéis! Ocorreu-me um pensamento estranho e, ao mesmo tempo, um sentimento desagradável de despeito se apoderou de mim. Pareceu-me que minha amizade e meu coração amoroso eram muito pouco para ele. Ele era culto, enquanto eu era uma estúpida que não sabia nada, não havia lido nada, um livro sequer... Olhei então com inveja para as prateleiras compridas, abarrotadas de livros. Um despeito, uma angústia e uma espécie de raiva tomaram conta de mim. Desejei, e ali mesmo tomei a decisão de ler os seus livros, todos, do primeiro ao último, e o mais rápido possível. (p.48)

Apesar do que fora dito, a Literatura tem um papel importante entre as cartas redigidas entre os dois amigos amantes. O estilo de sua escrita, que tanto busca, do início ao fim do livro, talvez seja uma forma de representar a busca incessante da melhoria de sua vida. A melhoria do homem que olha para si e reconhece a futilidade e a inutilidade em que vive.

 ou Pobre gente, como admitem os tradutores é realmente um livro a ser lido. Não somente por ser o primeiro livro de Dostoiévski, e ter sido o livro que o trouxe às claras da sociedade russa e da crítica da época, mas por ser a representação do homem russo que buscava algo em sua vida, um objetivo. Homem esse, que se trazido para os dias atuais, ainda pode ser encontrado perdido, debandado por toda a parte.


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