Minha culpa, minha máxima culpa?
Tendo começado minha relação com os livros muito cedo, igualmente cedo compreendi que eu teria muito mais livros pra ler do que eu teria de vida. Mas não foi sempre assim. Acompanhe.
Na primeira metade dos anos 80, quando aprendi de fato a ler, eu não tinha muito a fazer, a não ser aguardar pacientemente que me dessem livros.
Mas na outra metade da mesma década, surgiu um negócio libertador chamado mesada. E foi mais ou menos assim que a coisa toda começou. Juntava o dinheiro da mesada mais o dinheiro para merenda (não é à toa que eu sou rechonchudo. Poupava o dinheiro da merenda e chegava em casa devorando tudo o que via pela frente. Deu no que deu, décadas depois) e, no intervalo de tempo entre o término da última aula e o tempo que meu pai levava para ir me pegar, eu corria numa livraria que tinha na rua ao lado e comprava um livro cuja capa ou título me chamassem a atenção.
Assim como foi a realidade de muitos, minha vida de leitor se divide entre antes e depois da série Vaga-lume (e da mesada, claro).
Mas logo os livros da série já não me bastavam. Comecei a ler de tudo, tudo mesmo. Lia de Sidney Sheldon a Albert Camus, sendo que lendo o primeiro eu entendia tudo, o segundo eu pensava que entendia, quando muito. E ficava me achando muito inteligentão por estar lendo um autor cuja obra de alguma forma me tocava, mas que eu não alcançava. Pelo menos não como viria a alcançar anos depois (Se é que eu entendi mesmo...).
Acontece que lá pelos quatorze anos e, já tendo, se não lido, pelo menos ouvido falar em tantas obras, tive uma epifania, na qual me veio a seguinte pergunta: como eu vou dar conta dos inúmeros clássicos que existem no mundo mais as obras contemporâneas formidáveis lançadas ano após ano numa única existência?
(Antes que apareça algum espírita aqui pra me dizer que a gente volta em outra vida etc. etc. etc., com todo respeito: isso pra mim teria alguma serventia se, na encarnação seguinte, eu lembrasse quais livros já havia lido na vida anterior. Ou se pelo menos a gente trouxesse uma listinha na fralda, ao sair da maternidade. Não valeria grande coisa, mas pelo menos eu teria a opção de reler para lembrar o que acontecia – e como aquela trama específica teria me tocado –, ou se iria em frente, lendo mais coisas e aumentando minha lista de livros a não ler quando viesse de novo).
Evidentemente que, antes de eu poder responder a minha própria pergunta (resposta rápida: não há como dar conta de tudo o que existe para ser lido e chama a atenção dos seus instintos, necessidade e desejos, meu caro! Contente-se com o que der para fazer, passar bem), a angústia já estava instaurada: e se eu não estiver gostando de um determinado livro, posso desistir da leitura sem culpa?
Se a resposta for sim, quais os critérios que posso utilizar? O número de páginas? (de repente o livro é volumoso demais e eu gastaria muito tempo lendo-o, quando poderia estar lendo algo menor e melhor). Uma trama aparentemente sem graça? (neste caso, será que o problema não é comigo, eu que não estou entendendo o diacho do livro e... será que não valeria a pena insistir, só por mais umas vinte paginazinhas? Vai que melhora?!) Personagens pouco cativantes? (Mas vai que a trama compensa! Além do mais, que mania de querer se identificar com os personagens, hein? Freud explica...) O livro é curto demais e, se tão curto já me faz ter vontade de parar, é porque talvez seja um livro sem futuro mesmo... (mas e o que dizer de O Estrangeiro? E de A paixão segundo G. H.?).
Não, eu não podia abandonar um livro. Todo argumento geraria um contra-argumento, e eu ficaria debatendo comigo mesmo ad eternum e perderia o tempo que poderia estar lendo e a vida urge. Toda a minha culpa católica se assomava naquele instante. Perdão, Deus, eu abandonei um livro e reconheço isso. Mea culpa.
Nem adianta mencionar aqui os argumentos caso a resposta fosse não, não se pode abandonar um livro com a leitura em andamento. Nem mesmo nos tempos em que a leitura era obrigatória, porque a turma inteira iria fazer uma prova baseada nele. Claro que sempre tinha aqueles que liam (como eu, para não me sentir culpado), os que liam o resumo e aqueles que colavam a resposta do colega na prova porque, obviamente, não perderiam tempo lendo aquela porcaria passada pelo professor de língua portuguesa (se para não se sentirem culpados depois por abandonarem o livro, ou se porque tinham outras preferências, como jogar futebol com os colegas ou passar a tarde pendurado ao telefone com aquele coleguinha gente boa, jamais saberei, embora desconfie da resposta). O fato é que existia um grande Deus punitivo que me levaria certeiramente à presença do capeta em pessoa, por assim dizer, caso eu ficasse parando as leituras.
Até que um dia, a gente cansa de ficar rezando o missal domingo após domingo. E foi justamente aí a segunda libertação: quando o leitor passa a frequentar a igreja do Diabo. Sim, porque é nela, e somente nela, que o leitor se livra da culpa e, se quiser, vai direto para a libertinagem. É nessa igreja onde o espírito não sente mais a limitação do corpo (quem foi mesmo que disse que a grande frustração humana é ser limitado por um corpo físico?), e trafega pelos caminhos que bem desejar, não apenas largando livros na página 32, 112 ou 377, mas fazendo questão de deixar claro para todos os seus contatos do Facebook (afinal, vivemos nessa pós-modernidade líquida, e para que serve isso tudo senão, pelo menos para isso?). É apenas quando atingimos o desejo por anos reprimido de jogarmos um livro para o outro lado da sala, que atingimos o orgasmo múltiplo enquanto leitor.
Stephen King diz que devemos dar algo em torno de uma hora de leitura – ou algo assim – a um livro. Se ele não te fizer querer ir adiante após essa primeira hora, então é porque é hora de dispensá-lo. King, toca aqui!
A vida é curta demais para ficar nesse autoflagelamento de levar um livro até o fim porque não se gosta de abandonar uma obra. Eu é que não vou desperdiçar meu tempo lendo algo que não me agrega nada. E quantas vezes simplesmente não é a hora de ler aquele livro que você se propõe a ler? Ou porque você não está bem por dentro para fazê-lo, ou porque você não tem repertório pra aquele tipo de leitura naquele momento, ou porque o livro é ruim, mesmo? Para cada grande autor, há pelo menos uns quarenta e nove pernósticos.
Como descobrir os grandes autores?
Ah, essa resposta é fácil: jogando fora o que quer que não valha a pena. E quem sabe a medida disso? Você. Seus acordos consigo mesmo/a, sua troca com outras pessoas que também leem. A vida, enquanto seres leitores ou seres humanos, deveria ser bem mais simples do que nós a fazemos ser.
Mas "minha culpa, minha máxima culpa"? Uma ova!
Na primeira metade dos anos 80, quando aprendi de fato a ler, eu não tinha muito a fazer, a não ser aguardar pacientemente que me dessem livros.
Mas na outra metade da mesma década, surgiu um negócio libertador chamado mesada. E foi mais ou menos assim que a coisa toda começou. Juntava o dinheiro da mesada mais o dinheiro para merenda (não é à toa que eu sou rechonchudo. Poupava o dinheiro da merenda e chegava em casa devorando tudo o que via pela frente. Deu no que deu, décadas depois) e, no intervalo de tempo entre o término da última aula e o tempo que meu pai levava para ir me pegar, eu corria numa livraria que tinha na rua ao lado e comprava um livro cuja capa ou título me chamassem a atenção.
Assim como foi a realidade de muitos, minha vida de leitor se divide entre antes e depois da série Vaga-lume (e da mesada, claro).
Mas logo os livros da série já não me bastavam. Comecei a ler de tudo, tudo mesmo. Lia de Sidney Sheldon a Albert Camus, sendo que lendo o primeiro eu entendia tudo, o segundo eu pensava que entendia, quando muito. E ficava me achando muito inteligentão por estar lendo um autor cuja obra de alguma forma me tocava, mas que eu não alcançava. Pelo menos não como viria a alcançar anos depois (Se é que eu entendi mesmo...).
Acontece que lá pelos quatorze anos e, já tendo, se não lido, pelo menos ouvido falar em tantas obras, tive uma epifania, na qual me veio a seguinte pergunta: como eu vou dar conta dos inúmeros clássicos que existem no mundo mais as obras contemporâneas formidáveis lançadas ano após ano numa única existência?
(Antes que apareça algum espírita aqui pra me dizer que a gente volta em outra vida etc. etc. etc., com todo respeito: isso pra mim teria alguma serventia se, na encarnação seguinte, eu lembrasse quais livros já havia lido na vida anterior. Ou se pelo menos a gente trouxesse uma listinha na fralda, ao sair da maternidade. Não valeria grande coisa, mas pelo menos eu teria a opção de reler para lembrar o que acontecia – e como aquela trama específica teria me tocado –, ou se iria em frente, lendo mais coisas e aumentando minha lista de livros a não ler quando viesse de novo).
Evidentemente que, antes de eu poder responder a minha própria pergunta (resposta rápida: não há como dar conta de tudo o que existe para ser lido e chama a atenção dos seus instintos, necessidade e desejos, meu caro! Contente-se com o que der para fazer, passar bem), a angústia já estava instaurada: e se eu não estiver gostando de um determinado livro, posso desistir da leitura sem culpa?
Se a resposta for sim, quais os critérios que posso utilizar? O número de páginas? (de repente o livro é volumoso demais e eu gastaria muito tempo lendo-o, quando poderia estar lendo algo menor e melhor). Uma trama aparentemente sem graça? (neste caso, será que o problema não é comigo, eu que não estou entendendo o diacho do livro e... será que não valeria a pena insistir, só por mais umas vinte paginazinhas? Vai que melhora?!) Personagens pouco cativantes? (Mas vai que a trama compensa! Além do mais, que mania de querer se identificar com os personagens, hein? Freud explica...) O livro é curto demais e, se tão curto já me faz ter vontade de parar, é porque talvez seja um livro sem futuro mesmo... (mas e o que dizer de O Estrangeiro? E de A paixão segundo G. H.?).Não, eu não podia abandonar um livro. Todo argumento geraria um contra-argumento, e eu ficaria debatendo comigo mesmo ad eternum e perderia o tempo que poderia estar lendo e a vida urge. Toda a minha culpa católica se assomava naquele instante. Perdão, Deus, eu abandonei um livro e reconheço isso. Mea culpa.
Nem adianta mencionar aqui os argumentos caso a resposta fosse não, não se pode abandonar um livro com a leitura em andamento. Nem mesmo nos tempos em que a leitura era obrigatória, porque a turma inteira iria fazer uma prova baseada nele. Claro que sempre tinha aqueles que liam (como eu, para não me sentir culpado), os que liam o resumo e aqueles que colavam a resposta do colega na prova porque, obviamente, não perderiam tempo lendo aquela porcaria passada pelo professor de língua portuguesa (se para não se sentirem culpados depois por abandonarem o livro, ou se porque tinham outras preferências, como jogar futebol com os colegas ou passar a tarde pendurado ao telefone com aquele coleguinha gente boa, jamais saberei, embora desconfie da resposta). O fato é que existia um grande Deus punitivo que me levaria certeiramente à presença do capeta em pessoa, por assim dizer, caso eu ficasse parando as leituras.
Até que um dia, a gente cansa de ficar rezando o missal domingo após domingo. E foi justamente aí a segunda libertação: quando o leitor passa a frequentar a igreja do Diabo. Sim, porque é nela, e somente nela, que o leitor se livra da culpa e, se quiser, vai direto para a libertinagem. É nessa igreja onde o espírito não sente mais a limitação do corpo (quem foi mesmo que disse que a grande frustração humana é ser limitado por um corpo físico?), e trafega pelos caminhos que bem desejar, não apenas largando livros na página 32, 112 ou 377, mas fazendo questão de deixar claro para todos os seus contatos do Facebook (afinal, vivemos nessa pós-modernidade líquida, e para que serve isso tudo senão, pelo menos para isso?). É apenas quando atingimos o desejo por anos reprimido de jogarmos um livro para o outro lado da sala, que atingimos o orgasmo múltiplo enquanto leitor.
Stephen King diz que devemos dar algo em torno de uma hora de leitura – ou algo assim – a um livro. Se ele não te fizer querer ir adiante após essa primeira hora, então é porque é hora de dispensá-lo. King, toca aqui!
A vida é curta demais para ficar nesse autoflagelamento de levar um livro até o fim porque não se gosta de abandonar uma obra. Eu é que não vou desperdiçar meu tempo lendo algo que não me agrega nada. E quantas vezes simplesmente não é a hora de ler aquele livro que você se propõe a ler? Ou porque você não está bem por dentro para fazê-lo, ou porque você não tem repertório pra aquele tipo de leitura naquele momento, ou porque o livro é ruim, mesmo? Para cada grande autor, há pelo menos uns quarenta e nove pernósticos. Como descobrir os grandes autores?
Ah, essa resposta é fácil: jogando fora o que quer que não valha a pena. E quem sabe a medida disso? Você. Seus acordos consigo mesmo/a, sua troca com outras pessoas que também leem. A vida, enquanto seres leitores ou seres humanos, deveria ser bem mais simples do que nós a fazemos ser.
Mas "minha culpa, minha máxima culpa"? Uma ova!

É muito difícil pra mim conseguir deixar um livro de lado... rs
ResponderEliminarAbandonei alguns livros.. vou para o inferno! kkkkkkk
ResponderEliminar-brinks! :p
Dentre as incontáveis possibilidades que a experiência da leitura pode me oferecer, a dúvida sobre abandonar ou não um livro é algo que me ocorre com razoável frequência. Entretanto, na maioria das vezes, prossigo com a leitura até o fim, por mais que a obra seja terrivelmente ruim. Geralmente, o que me mantém motivado não é o medo de ser arremessado ao encontro de Satanás, mas, sim, a esperança de que, no desenrolar da leitura, a situação - até então crítica - pode se modificar. Poucos foram os livros que eu deixei de lado e, quando o fiz (e isso já faz algum tempo), foi por incontornável preguiça ou porque era obra de leitura obrigatória para o famigerado vestibular.
ResponderEliminarAdorei o texto! :)