Mais liberdade, menos palavras
por Junior Bellé
Pense num fio fino. Mas fino como
uma linha. Uma linha de seda. Uma linha de seda do terno do Burroghs. Pense num
fio fino. Um fino queimando. A queimada é de brasa, relâmpago em campo seco,
elétrico e difuso. O que você encontrará no “Letra Livre”, lançado pela Oitava
Rima, em dezembro de 2013, terceiro livro de Paulo César de Carvalho, é mais ou
menos essa eletricidade esfumaçada. É isso que você lerá nele. Cantará com ele.
“meu pó
não é
de arroz
minha bala
não é
de caramelo
não deixo
ponta
pra depois
meu chá
é de cogumelo” (meu ácido é doce / para
william burroughs – página 92)
Como nos livros anteriores, “Toque
de Letra” (Nhambiquara, 2010) e “Letra na Clave é Sol” (Nhambiquara, 2012), as
poesias de Carvalho não espetam as linhas imaginárias da página. Ao menos não
na horizontal, orientação natural de uma linha padrão. Mas apenas o essencial
aqui é padrão. Por isso, o poeta verticaliza o verso e
a leitura. As linhas verticalizadas tomam de assalto o latifúndio onde estão as
terras brancas alinhadas à esquerda. Ali decretam, pela terceira vez – ou
talvez decrete Carvalho – a fronteira entre a
poesia e a letra de uma canção. “A poesia dele é muito musical, as rimas são
inesperadas e surpreendentes. O ritmo já está sugerido no poema, é só sair
cantando. Eu tenho vontade de fazer música dos poemas dele assim que leio”,
escreve na contracapa do livro, o cantor, compositor e guitarrista Danilo
Moraes.
Danilo, que tem incontáveis
parcerias não gravadas com Carvalho, além de “Antioperário Sem Patrão” (confira aqui),
já devidamente registrada, é um dos três compositores a quem o livro é
dedicado: “aos parceiros: viagem através do espelho / para bruno roberti,
danilo moraes & thiago galego, meu triunvirato criativo, minha santíssima
trindade da canção.” Bruno Roberti lançou há pouco seu primeiro disco “Lar” (confira aqui),
que leva três composições em parceria com Carvalho, entre elas “Descarada”, com
participação de Seu Jorge. Em janeiro, Thiago Galego grava seu primeiro disco,
no estúdio Traquitana, nele, ao menos quatro músicas são parceiras com o poeta.
Algumas das prévias de “Seu Par”, “Fim da Linha”, “Ou muda ou mudo” e “Vou
vagar meu bem” estão disponíveis para audição. (confira aqui).
Foi Galego quem musicou aquela
que, entre todas suas parcerias musicais, é minha favorita. Está lá, na página
82, é dedicada à Amália Rodrigues e Dona Ivone
Lara, e chama-se “Nau Frágil”.
“não adianta
enxaguar
nem toda
água do mar
vai lavar
tanta mágoa
de tanto amar
este pranto
não vai dar
pra enxaguar
esta dor
não vai passar
depois
de tanto
navegar
naufragar
no desamor
sem tábua
pra me salvar”
Carvalho é vocalista e letrista
d'Os Babilaques e do PCC & a Contrabanda, além de parcerias com uma infinidade
de outros compositores de destaque, como Tatá Aeroplano, Pélico, Juliano Gauche
Julia Valiengo, Gustavo Galo e Carlos Zimbher. Ainda assim, a musicalidade não
é a única característica partilhada por “Letra Livre” com seus antecessores,
também profundamente influenciado pelos longos,
e cada vez mais frequente, voos pelas bandas das
claves, das melodias, dos solos de guitarra, do batuque do pandeiro.
Ele levou realmente a sério quando
Leminski profetizou que através das canções sua poesia teria uma aventura de
massa. A outra característica
partilhada é a transversalidade das dedicatórias, ou melhor, dos
objetivos-motivos, sentidos-significados, das desimportâncias e
imprescindibilidades das dedicatórias. Com exceção do capítulo “Anagrama – Temático” –, que é exclusivo para suas parceiras com Felipe
Chacon – com quem também tem parceiragens
musicais –, e do capítulo “Perfume de Haicais”,
todas as demais poesias dos outros sete
capítulos são dedicadas a alguém: das Mulheres de Chico a Décio Pignatari, da
Rainha de Paus a Neymar, de Aristóletes e Chacal a Angela Rô Rô, ninguém
escapa. E como escrito, o papel desta
dedicatória na poesia é sempre um mistério a se embrenhar. Sem lanterna. Só com
a brasa acesa.
“Se Leminski é o rei do trocadilho, Carvalho é o príncipe”,
resmungou o vencedor do Jabuti, Reynaldo Bessa, durante o lançamento do “Letra
Livre”, na Casa das Rosas, em dezembro passado. Parece exagero. Não é. Leia
este livro, veja a velocidade das associações, surpreenda-se com a quantidade
delas que você é capaz de perder numa leitura rápida e despretensiosa. A
poética de Carvalho é melódica, e muito de sua melodia é construída através de
associações semióticas, de jogos de palavras e sentidos, de fonemas cuja fônica
é a ponte entre os significados, ritmos e rimas. Perca-se.
“você faz que é
descolada
mas não descola da tevê
quer parecer pirada
mas é só pra aparecer
finge que é viajada
mas só viaja em dvd
nunca caiu na estrada
nunca pagou pra ver
sempre queima na largada
não tem perna pra correr
nunca deu uma fumada
nunca bateu um padê
você não passa da entrada
entra só na matinê
nunca curtiu a madrugada
nunca viu amanhecer
não saca a jogada
não saiu do abc
você tá noutra parada
é fissurada em beyoncé
pode perder uma balada
mas não perde um bbb” (dvdbbb / para pedro
bial – página 53)

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