Resenhas Entrevistas Contos Poemas Crônicas Ensaios
5 de novembro de 2012

Sobre Noite e Dia ou A primeira vez que (re)li Virginia Woolf





por Rebeca Xavier

Quando ouvi falar em Virginia Woolf pela primeira vez, não passava de uma recém-adulta, saída do Ensino Médio e enviada diretamente para a Universidade. Não conhecia nada da vida e, descobri, nada da Literatura. Foi em um desses momentos de troca de informações, em que alguns falam e outros se resignam ao seu pouco conhecimento (essa seria eu), que ouvi falar em Mrs. Dalloway e na narrativa “sem meio e sem fim” de V.W..

Não foi, no entanto, esse o primeiro livro que li dela, comecei por Um teto todo seu, que me encantou desde a primeira página, quando, interpelada logo de início por um “Mas, dirão vocês, nós lhe pedimos que falasse sobre as mulheres e a ficção — o que tem isso a ver com um teto todo seu?”, atolei-me em pensamentos ora meus, ora da autora... a partir desse momento, tornei-me leitora sacramentada, passei ao famoso Mrs. Dalloway, depois Flush: memórias de um cão, O quarto de Jacob, A viagem e, agora, Noite e Dia – o segundo livro publicado por ela, escrito em 1917.


Algo nessa escritora me cativara desde a primeira frase. E, com Noite e Dia, a cada nova página, eu redescobria a autora de Um teto todo seu. Conhecia dela, agora, um viés dedicado dolorosamente à linearidade e, quase, por alguns instantes, achei estar lendo uma espécie de Jane Austen – o que, confesso, me doeu a alma: quisesse eu ler J.A., buscaria um J.A....

As personagens me foram apresentadas uma a uma e os cenários, num primeiro momento, montados de maneira clara, no entanto passageira. Eu fui inserida na vida de Katharine Hilbery muito cautelosamente e não apenas lançada no seu dia, como havia sido meu primeiro contato com Clarissa Dalloway e suas flores. Não precisei deduzir a importância de cada novo personagem, como fosse penetra numa festa; cada um deles me foi apresentado de maneira minuciosa ao longo dos primeiros capítulos.

Aos mais importantes, como Ralph Denham (um advogado romântico – embora negasse essa característica – que possui uma gralha como animal de estimação e idealiza Katharine todos os dias) todo um capítulo foi dedicado; a outros, foram emprestados parágrafos extensos.

Era uma tarde de domingo em outubro e, como muitas jovens damas da sua classe, Katharine Hilbery servia o chá. Talvez uma quinta parte de sua mente estivesse ocupada nisso; o restante saltava por cima da frágil barreira de dia que se interpunha entre a manhã de segunda-feira e esse ameno momento, e brincava com as coisas que a gente faz espontânea e normalmente no curso do dia. (p. 11)


No entanto, ainda que a linearidade do romance, buscada sofregamente em cada parágrafo e em cada capítulo, parecesse estranha a mim, havia, nas sucessões de acontecimentos, o mesmo tom experimentalista que eu encontrara antes. Afinal, Katharine não apenas servia o chá, mas com boa parte de sua mente “saltava por cima da frágil barreira de dia”.

Não era, afinal, Jane Austen que eu lia; era Virginia que eu relia, uma não inteiramente diferente da que eu conhecera, embora mais tranquila. Incrível que, mesmo quando se propunha à clareza da relação causa-consequência, ela não permitia que seus personagens fossem apenas fruto dessa relação.

Por muitos parágrafos eles se entregam a pensamentos e a conjecturas sobre o atual estado de sua vida: Katharine lança-se por vários capítulos à dúvida quanto ao casamento com Rodney; Ralph nem por um momento deixa de imaginar seu futuro e seu presente e de tomar decisões eternas após sérias catarses; Mary divide-se entre a objetividade em que vivia por opção, o seu amor nunca correspondido pelo amigo Ralph e o trabalho, mas, mesmo assim, se perdia em pequenos prazeres.

[...] Se um único exemplo pode servir para formar uma teoria, então cabe dizer que os minutos entre nove e vinte e cinco e nove e trinta da manhã tinham um encanto particular para Mary Datchet. Ela os passava numa disposição invejável; seu contentamento era quase sem mistura. Alto no ar, como seu apartamento ficava, alguns raios de sol o tocavam, mesmo em novembro. E batendo direto na cortina, cadeira e tapete, pintavam três brilhantes listras de verde, anil e púrpura, nas quais o olho se demorava com um prazer que dava calor físico ao corpo.
[...]
Todo dia, ao postar-se de pasta na mão à porta do quarto para um último olhar a ver se tudo estava em ordem antes de sair, dizia consigo mesma que estava muito contente de ter de deixar tudo aquilo; pois ficar sentada ali o dia todo, no gozo do lazer, teria sido intolerável. (p. 96 e 97)


As personagens lançadas nessa narrativa se mostram tipos incomuns para a literatura de fatos, no entanto, perfeitamente palpáveis para o mundo real. Não há como não criar uma identificação quase dolorosa com a nossa própria realidade, ainda que guardadas determinadas proporções. Virginia acaba se utilizando da pretensa linearidade para narrar a não-linearidade da vida humana. A sucessão de fatos, quando deveria ser o foco narrativo, torna-se apenas uma desculpa para dizer, meu Deus, como somos levados pelos dias e pelas noites, que se seguem sem pedir nenhum tipo de permissão.

Durante a leitura, acompanhando a dificuldade que Mrs. Hilbery tinha de se concentrar e de finalmente concluir a biografia do pai, um famoso poeta – Mrs. Hilbery poderia perfeitamente sobreviver sozinha no mundo, fora o mundo o que ele não é. (pp. 55 e 56) –; os esforços de Katharine em continuar estudando Matemática às escondidas numa família e numa sociedade de literatos; a garra de Mary em lutar pelos seus ideais políticos e contra seus sentimentos; a poesia mal acabada de William Rodney; os sonhos de Ralph...


... acompanhando a lida diária de cada uma das personagens e o transcorrer do tempo, indiferente a todos eles... era como se um besourinho me falasse ao ouvido todas as coisas que havia no mundo e que eu não conseguia ver, devido ao meu tamanho, devido à minha inquietude, devido ao meu Eu – sempre cheio de trabalhos e textos e ocupações e dias e noites.

E o enredo? Pouco importa, perdeu-se numa noite de sono e num dia de trabalho.










  • Comentário via Blogspot
  • Comentário via Facebook
Copyright © 2012 LiteraturaBr All Right Reserved
Designed by Bravo WebDesign | CBTblogger