Sobre Noite e Dia ou A primeira vez que (re)li Virginia Woolf
por Rebeca Xavier
Quando ouvi falar em Virginia Woolf pela primeira vez, não passava de
uma recém-adulta, saída do Ensino Médio e enviada diretamente para a
Universidade. Não conhecia nada da vida e, descobri, nada da Literatura. Foi em
um desses momentos de troca de informações, em que alguns falam e outros se
resignam ao seu pouco conhecimento (essa seria eu), que ouvi falar em Mrs. Dalloway e na narrativa “sem meio e
sem fim” de V.W..
Não foi, no entanto, esse o primeiro livro que li dela, comecei por Um teto todo seu, que me encantou desde
a primeira página, quando, interpelada logo de início por um “Mas, dirão vocês, nós lhe pedimos que
falasse sobre as mulheres e a ficção — o que tem isso a ver com um teto todo
seu?”, atolei-me em pensamentos ora meus, ora da autora... a partir desse
momento, tornei-me leitora sacramentada, passei ao famoso Mrs. Dalloway, depois Flush:
memórias de um cão, O quarto de Jacob,
A viagem e, agora, Noite e Dia – o segundo livro publicado
por ela, escrito em 1917.
Algo nessa escritora me cativara desde a primeira frase. E, com Noite e Dia, a cada nova página, eu
redescobria a autora de Um teto todo seu.
Conhecia dela, agora, um viés dedicado dolorosamente à linearidade e, quase,
por alguns instantes, achei estar lendo uma espécie de Jane Austen – o que,
confesso, me doeu a alma: quisesse eu ler J.A., buscaria um J.A....
As personagens me foram apresentadas uma a uma e os cenários, num
primeiro momento, montados de maneira clara, no entanto passageira. Eu fui
inserida na vida de Katharine Hilbery muito cautelosamente e não apenas lançada
no seu dia, como havia sido meu primeiro contato com Clarissa Dalloway e suas
flores. Não precisei deduzir a importância de cada novo personagem, como fosse
penetra numa festa; cada um deles me foi apresentado de maneira minuciosa ao longo
dos primeiros capítulos.
Aos mais importantes, como Ralph Denham (um advogado romântico –
embora negasse essa característica – que possui uma gralha como animal de
estimação e idealiza Katharine todos os dias) todo um capítulo foi dedicado; a
outros, foram emprestados parágrafos extensos.
Era
uma tarde de domingo em outubro e, como muitas jovens damas da sua classe,
Katharine Hilbery servia o chá. Talvez uma quinta parte de sua mente estivesse
ocupada nisso; o restante saltava por cima da frágil barreira de dia que se
interpunha entre a manhã de segunda-feira e esse ameno momento, e brincava com
as coisas que a gente faz espontânea e normalmente no curso do dia. (p. 11)
No entanto, ainda que a linearidade do romance, buscada sofregamente
em cada parágrafo e em cada capítulo, parecesse estranha a mim, havia, nas
sucessões de acontecimentos, o mesmo tom experimentalista que eu encontrara
antes. Afinal, Katharine não apenas servia o chá, mas com boa parte de sua
mente “saltava por cima da frágil barreira
de dia”.
Não era, afinal, Jane Austen que eu lia; era Virginia que eu relia,
uma não inteiramente diferente da que eu conhecera, embora mais tranquila.
Incrível que, mesmo quando se propunha à clareza da relação causa-consequência,
ela não permitia que seus personagens fossem apenas fruto dessa relação.
Por muitos parágrafos eles se entregam a pensamentos e a conjecturas
sobre o atual estado de sua vida: Katharine lança-se por vários capítulos à
dúvida quanto ao casamento com Rodney; Ralph nem por um momento deixa de
imaginar seu futuro e seu presente e de tomar decisões eternas após sérias
catarses; Mary divide-se entre a objetividade em que vivia por opção, o seu
amor nunca correspondido pelo amigo Ralph e o trabalho, mas, mesmo assim, se
perdia em pequenos prazeres.
[...]
Se um único exemplo pode servir para formar uma teoria, então cabe dizer que os
minutos entre nove e vinte e cinco e nove e trinta da manhã tinham um encanto
particular para Mary Datchet. Ela os passava numa disposição invejável; seu
contentamento era quase sem mistura. Alto no ar, como seu apartamento ficava,
alguns raios de sol o tocavam, mesmo em novembro. E batendo direto na cortina,
cadeira e tapete, pintavam três brilhantes listras de verde, anil e púrpura,
nas quais o olho se demorava com um prazer que dava calor físico ao corpo.
[...]
Todo
dia, ao postar-se de pasta na mão à porta do quarto para um último olhar a ver
se tudo estava em ordem antes de sair, dizia consigo mesma que estava muito
contente de ter de deixar tudo aquilo; pois ficar sentada ali o dia todo, no
gozo do lazer, teria sido intolerável. (p.
96 e 97)
As personagens lançadas nessa narrativa se mostram tipos incomuns para
a literatura de fatos, no entanto, perfeitamente palpáveis para o mundo real.
Não há como não criar uma identificação quase dolorosa com a nossa própria
realidade, ainda que guardadas determinadas proporções. Virginia acaba se
utilizando da pretensa linearidade para narrar a não-linearidade da vida
humana. A sucessão de fatos, quando deveria ser o foco narrativo, torna-se
apenas uma desculpa para dizer, meu Deus, como somos levados pelos dias e pelas
noites, que se seguem sem pedir nenhum tipo de permissão.
Durante a leitura, acompanhando a dificuldade que Mrs. Hilbery tinha
de se concentrar e de finalmente concluir a biografia do pai, um famoso poeta –
Mrs. Hilbery poderia perfeitamente
sobreviver sozinha no mundo, fora o mundo o que ele não é. (pp. 55 e 56) –;
os esforços de Katharine em continuar estudando Matemática às escondidas numa
família e numa sociedade de literatos; a garra de Mary em lutar pelos seus
ideais políticos e contra seus sentimentos; a poesia mal acabada de William Rodney;
os sonhos de Ralph...
... acompanhando a lida diária de cada uma das personagens e o transcorrer do tempo, indiferente a todos eles... era como se um besourinho me falasse ao ouvido todas as coisas que havia no mundo e que eu não conseguia ver, devido ao meu tamanho, devido à minha inquietude, devido ao meu Eu – sempre cheio de trabalhos e textos e ocupações e dias e noites.
E o enredo? Pouco importa, perdeu-se numa noite de sono e num dia de
trabalho.



