A intimidade do amor
Foi
numa tarde de domingo, que, sobre uma mesa, em um café, um amigo me presenteou
com o livro de Hanif Kureishi. Eu não tinha, ainda, uma amizade tão profunda
com ele, até que o nosso primeiro encontro, para falar de literatura, ao som
dos carros que passavam na avenida ao lado, pudessem nos deixar mais íntimos
ainda com a Intimidade que ele acabava de proporcionar, com o
livro e com seus pensamentos.
Numa
conversa onde os autores brasileiros e o mercado editorial se fizeram
presentes, ele me apresentou o livro amarelado, dizendo-me que, até onde ele
sabia, o livro estava esgotado. E essa palavra, esgotado, é sempre um prazer
para os meus ouvidos e sentidos aguçados de leitor que sou. Junto a ele veio
outro livro de um americano, premiado. Até suspeitei que meu amigo quisera
começar nossa amizade “forçando” os escritores de origem ‘inglesas’, digamos
assim, para contribuir em minha formação.
Pois
bem, passei o olhar, brevemente, como nos é costumeiro e o levei até a mesa
coberta de livros, em minha casa, que por vezes me proporciona um
descontentamento por me fazer perceber que há uma grande limitação para lermos
tudo que gostamos em vida. Antes de o sono me vencer, li apenas o primeiro
parágrafo do livro de Kureishi e percebi que sua escrita tinha algo a me
proporcionar, de bom, pensei.
Sendo
daqueles livros em que se começa a ler e não se quer mais soltar, fui
deliciando a cada dia, durante uma semana, poucas páginas da Intimidade do autor para poder dar fim a sua
história de amor, solidão e, talvez, de desespero.
Desespero
porque acredito que Kuresihi envolve, em sua narrativa, aquele homem que está
sempre em busca de uma felicidade que, talvez, nunca o complete. Essa busca
pelos prazeres antigos, que temos na juventude, e que, com o aparecimento da
idade avançada – a velhice –, fica a nos rondar para que sejamos “sujos” ou
simplesmente inocentes.
"Depois
de uma idade apenas algumas pessoas,
em certas circunstancias,
podem
amar umas às outras."
Parece
que é nisso que o narrador do livro quer que acreditemos, e, convenhamos, é
nisso que muitos de nós acreditam.
A
realidade é que o roteirista, aclamado e conhecido por muitos, vive uma vida em
depressão. Na medida em que envelhece tenta manter a sua coragem em ‘fugir’ de
casa. Tenta manter porque a coragem já está nele, apenas demora em levar a cabo
o que pretende, pois fica a pensar e pesar sobre tudo o que pode acontecer com Susan,
sua mulher, que está sempre a lhe virar as costas na cama, e com seus dois
filhos. E isso não passa da insegurança que é tentar ser o que não é ou talvez
de ser o que sempre quis ser, mas que acabou se deixando ser podado pelo
casamento e suas regras:
"A
gente comete erros, se extravia, se distrai. Se o sujeito é capaz de ver seu
avançar tortuoso como uma espécie de experimento, sem que deseje uma segurança
impossível – nada de interessante acontece na falta de ousadia –, chega a uma
espécie de tranquilidade."
Mas
essa tranquilidade não vem, porque a intimidade de quem conta a história está
exposta para amigos e amantes. Esse equilíbrio parece não existir,
principalmente, como disse, quando se preocupa com seus filhos e sua formação.
Quando compara a vida que teve em infância com seu pai, que abandonou sua mãe,
a si próprio:
"Sei
o quanto a figura do pai é necessária aos meninos. Eu segurava na mão de meu
pai enquanto ele passeava pelas livrarias, subindo escadas e apanhando livros
empoeirados na ponta dos pés. “Vamos... vamos embora”, eu dizia."
Mesmo
que essa harmonia não exista no narrador, pelo menos não acredito nisso, pois
não vejo um homem centrado para ser feliz com sua amante que é muito mais nova
ou na busca pelos seus desejos de querer fazer o que quer, sem ter ninguém,
como Susan, lhe podando os feitos, acredito, de fato, que ele deseja mudar,
porém o medo e essa insegurança que traz consigo, há tempos, seja um dos
elementos fundamentais para entender a Intimidade do nosso personagem:
"O
que me intriga, mais do que qualquer outra coisa? O fato de por tanto tempo,
pelos últimos dez anos, ter lutado contra as mesmas questões e obsessões, com
as mesmas respostas boçais e inúteis, sem que isso me faça num um pouco mais
sábio, sem nenhum alívio da necessidade de saber, como um rato numa roda. Como
posso ir além disso? Estou indo embora. Interromper é romper, é irromper. Isso
já é alguma coisa."
Para
ele, preocupar-se com essa situação a qual ele mesmo se proporcionou é “alguma
coisa”. Mas esse “alguma coisa” nos deixa angustiados e compreensíveis ao seu
temperamento, que ora o incita e ora o acalma. Ele não sabe como ir além, não
sabe por onde começar, mesmo questionando amigos e pedindo ajuda aos que já
conseguiram divórcios e amantes, às escondidas, para viver sem mais lamúrias,
mesmo assim, ele não sabe como proceder, não sabe como irromper. E toda a sua
dor o faz duvidar de todos, até mesmo de si:
"Devemos
tratar os outros como se fossem seres reais. Mas, são mesmo?"
Mas
essa dúvida há de parar, porque o que deseja, no final de tudo, é simplesmente
amar. É isso que o autor de Intimidade mostra que o seu narrador quer: amar.
Não indefinidamente, sem pensar nas razões que o levem a tal. Não amar
simplesmente por amar. Não amar como se não houvesse mais nada além disso. Mas
amar alguém que esteja “à sua disposição”, alguém que queira viver sem esforço,
sem esforçar-se para manter uma relação que só leva à depressão da mente e da
vida.
Pode-nos
parecer clichê acreditar que o que Kureishi quer nos passar é simplesmente que
devemos ter mais amor entre nós ou que viver sem amor algum é como se não
estivéssemos a viver. Mas, eu me pergunto, e se isso for verdade? E se for
realmente essa busca a qual devemos nos ater em nossas vidas, ao invés de
estarmos como seres controlados pela força trabalhadora que nós mesmos nos
impusemos? Afinal:
"Não
admira que todo mundo queira isso – como se já tivessem conhecido um amor assim
e mal conseguissem se recordar, sentindo-se porém impelidos a busca-lo, como se
fosse a única coisa pela qual valesse a pena viver. Sem amor, a maior parte da
vida permanece oculta. Nada é tão fascinante quanto o amor, desgraçadamente."















