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13 de agosto de 2012

Capitu Você





Mais do que a preocupação (in)devida que o crítico deve ter com o autor, devemos ter, por vezes, com o leitor. Dizem os críticos mais galardoados, como o professor Marcelo Pen, do departamento de literatura comparada, da USP, que o título da obra de Trevisan, Capitu Sou Eu, se refere ao conhecido livro de Machado de Assis e à célebre frase dita por Flaubert sobre Madame Bovary: “Madame Bovary, c’est moi!”. Porém, não irei me ater a tais reflexões, que são bastante válidas, mas tentar ver até que ponto a estranheza do autor perante os contos curitibanos de Trevisan nos leva.

Apesar de serem vários os personagens de Dalton, desde a professora que duvida do aluno à amante descontrolada, desde o amoroso homem de uma única-várias mulheres até a um assassino-vítima despreocupado com o destino, podemos ver que esse caleidoscópio de contos, de personagens, que aparentemente não tem fim, parte do mesmo princípio, pelo menos a meu ver. Do princípio do ser humano ser vários enquanto um.

Capitu sou eu traz à tona diversos tipos de personagens, uns mais diferentes do que os outros, mas que ao mesmo tempo possuem em si uma emotividade exasperadora, que os faz com que ajam loucamente em diversas situações.

Tais situações envolvem, quase sempre nos contos, o julgo do sexo, do envolvimento sexual que todo ser humano possui e finge, em alguns momentos ou para algumas pessoas, não existir. Esses envolvimentos aparecem de várias formas nos contos do autor curitibano:  desde o padre que não pode se ater à mulher alguma ao travesti que envolve com carinhos o seu jovem playboy; da empregada que não queria ser violada até o prazer do orgasmo “entregue” a ela pelo seu violentador. Todas essas sujeições que o ser humano se entrega, mas que depois se culpa por ter se sentido “livre”.

Esses personagens, que ora são curitibanos e que ora são cidadãos do mundo, nos fazem perceber de que maneira um autor consegue ser universal a partir do regional. Com sua estilística um pouco “torta”, com estruturas de frases não tão agradáveis para outrem, Dalton Trevisan consegue um ótimo resultado com as multifaces do ser humano. Parece que o autor quer deixar às claras o que deixamos às escuras. Parece que tem de haver uma traição nossa conosco mesmo. Daí a minha ideia para o título do livro: Capitu Sou Eu. Apesar do romance de Machado ser sempre lembrado a partir do título do livro, e que por ventura intitula o primeiro conto do livro, quero ao menos imaginar que talvez a lembrança de Capitu seja para nos fazer pensar se nos traímos realmente, se há alguma traição em se envolver com outro e qualquer tipo de pessoa.
               

Pois como diria o Cantar de Sulamita:

como seria honesta
se você me deitou nos teus braços
abriu cada botão da blusa
sussurrando putinha no ouvido esquerdo?

Como julgar essa moça honesta, que já não é, por ter sido “corrompida até os ossos”? Mas que anteriormente, em seu cantar, implorava:

se não abrir minha blusa
violento e carinhoso
me sugar o biquinho dos seios
por certo hei de morrer

                 
Documentário sobre Dalton Trevisan

Como não concordar com Lulu, a louca, o travesti que fala sinceramente ao leitor e que diz que é: Livre, sem compromisso. (pois) Tudo é lícito para alcançar o prazer. Não se deve julgar o que cada um deseja para o livre prazer, para o livre sentir.

Fora isso, nos contos, teremos apenas o desenrolar do abismo profundo em que o ser humano pode chegar. O desespero profundo da solidão, da impossibilidade de viver, de sentir, da ingenuidade de um pai que deixa seu filho ir só ao banheiro e que logo após não consegue abrir a porta do banheiro para salvar seu filho, que acabou de se suicidar, como no conto Por que, meu filho?

Trevisan mostra, ao menos para mim como leitor, que os problemas muitas vezes ocorrem pelo não se entregar, pelo não se sentir livre. As incertezas para alcançar o que Lulu nos diz é que fazem toda a diferença entre os percursos das vidas. Sentir, se tornar “livre”, como o vadio de Sapato Branco Bico Fino não é para todos e Trevisan nos mostra isso com desvelo e manutenção das palavras.

             Será que Lulu, a louca estava certa? Será que somos todos, que somos todas Capitu?

Livro: Capitu Sou Eu. Dalton Trevisa. Rio de Janeiro: Editora Record. 2008. R$ 9,90
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3 comentários:

  1. Já havia visto esse livro nas livrarias mas nunca o adquiri, fiquei estimulado agora para logo logo comprar e começar a lê-lo. Interesso-me bastante por histórias em que há, sugestivamente ou explicitamente, a presença de Eros.
    Recentemente foi lançado no Brasil o primeiro livro de uma série erótica de sucesso nos EUA, intitulada Cinquenta tons de cinza, estou curioso para lê-lo, você já ouviu falar Nathan?

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  2. Tu é viciado em Eros hein Sergio. :D
    Cara, ouvi falar sim. Quem andou falando para mim foi a minha namorada. Ela tá até querendo adquirir. :D
    Fiquei sabendo que por esses dias saiu a tradução, não foi?

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  3. Só do primeiro livro, já está a venda nas livrarias.

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