D.R.* ao celular
Há lugares
em que se vê claramente estampada aquela figurinha proibindo o uso do celular.
Teatro, cinema, posto de gasolina. Nem pensar em ligar na igreja ou num
velório, tremenda falta de educação. Mas há lugares em que ele deveria ser
recolhido na portaria, evitaria muito problema.
Dizem que ele veio pra aproximar as
pessoas, mas eu tenho minhas dúvidas. O celular toca nas horas mais
inapropriadas e nos lugares mais inconvenientes. O usuário que nunca foi
flagrado pelo celular que atire a primeira pedra.
A mulher entrou no banheiro com o
marido. Que fique claro, ele estava do outro lado da linha telefônica. Ela
havia levantado rapidamente da cama redonda onde ficara o “outro”, tinha dito
para o marido que iria ao cinema. Como uma boa mulherzinha, havia dito hora e
local do cinema. Ele trabalhava por horas e não tinha tempo para averiguar, ela
pensava. E justificava para si mesma a traição como um desleixo dele. Falta de
atenção, de alguém para conversar, enfim, tudo o que só um amante pode dar a
você...
– Oi, amorzinho, tá tudo bem? (...)
É, isso mesmo, ainda estou no shopping. (...) Acabei de sair da sala de cinema.
(...) O filme não é muito bom, não, falta uma certa continuidade e... (...) Ah...
que horas eu vou pra casa? Nossa, amor, quanto controle, né? (...) Ahn? (...)
Amor, tá cortando a ligação, o sinal tá horrível...
Desligou o telefone com a cara mais
assustada que nunca havia imaginado fazer. Abriu a porta e falou para o amante:
– Meu marido disse que tá aqui na
saída do motel!!!
E ele, covarde e medroso como todo
adolescente despreparado para a vida:
– Eu vou sair correndo. Se minha
mãe sabe disso!!! Ela me mata!!!
– Mata nós dois, querido, esqueceu
que ela é minha melhor amiga... mas e meu marido, o que eu faço?!
– O mesmo que eu quando minha mãe
descobre que arrombei a lata de leite condensado: nega tudo!! E tem mais eu... fui!!!
– e saiu correndo com as calças por
fechar, a cueca de surfista aparecendo...
O celular tocando de novo... do
assento do banheiro onde permaneceu desde o início da conversa, ela atendeu.
Estava paralisada de medo, mas estava começando a enxergar uma luz no fim do
túnel....
– Oi, amorzinho (...) Não, não fui
eu que desliguei, foi você (...) Ah, não foi (...) Então, caiu, meu amor (...)
Aqui no shopping o sinal é horrível (...) Claro que eu estou no shopping, amor
(...) Não tem barulho? É que eu estou no banheiro (...) O filme... como é o nome
do filme que eu vim assistir? Amor, que insegurança besta (...) Eu não minto
pra você, aliás eu nunca menti (...) Ok, amor, desculpa te interromper, pode
falar (...) Ai, amor era um nome em inglês, você sabe que eu nunca aprendi
inglês, você pergunta só pra me humilhar (...) Não, amor, eu não estou ganhando
tempo, nem mudando de assunto (...) Você me enche de pergunta e vou ficando
nervosa (...) Você está na saída do
motel, que motel, meu amorzinho? (...) Esse motel em que eu estou? (...) Mas eu
não estou em motel nenhum, amor, para de pensar besteira (...) Você viu uma
mensagem no meu celular? Que mensagem, amor? Ai, amor, isso está ficando
ridículo!! Olha, se você continuar desconfiando de mim isso não vai ter um
final feliz, vou acabar achando que é você quem está me traindo (...) Amor, eu
não estou virando o jogo (...) Ok, amor, e com quem eu estaria num motel? (...)
Com o filho da Elzinha? Amor, ela é minha melhor amiga (...) Você viu a
mensagem, ligou pro número e foi ela quem atendeu? Ah, vai ver ela está tendo
um caso também (...) “Também”? Eu não disse “também”, amor (...) Ah, você tá
gravando a ligação (...) Bom, então quer saber? Eu estou tendo um caso sim, com
o filho da Elzinha sim, mas ela não sabe e se você contar nunca mais eu falo
com você. Estou num motel sim, aquele que eu sempre pedi pra você me trazer e
se você está na saída dele vai me ver sair daqui a pouco, quando eu pagar a
conta com o SEU cartão de crédito (...) Por que eu fiz isso? Porque você me
abandona pra viajar a trabalho, nunca me leva, não me deu os filhos que
prometeu, aliás nem quer ouvir falar deles (...) Não, a culpa não é só sua, é
minha também, pois eu deixei de me dedicar a mim mesma e passei a viver só a
sua vida, os seus problemas, as suas vontades e as suas necessidades. Esqueci
completamente que antes de você eu tinha uma vida profissional e pessoal. Estou
completamente desnorteada, mas é culpa minha mesmo, você nunca me pediu nada
disso. E agora eu vou desligar e você vai entrar aqui no quarto que eu estou
pra gente discutir a nossa relação e ver se ainda sobra alguma coisa depois
disso tudo (...) Amor, você está chorando? Oh, amor, não faz isso não (...) Vem
logo pra cá, amor, eu também te amo e é o 512.
*: Discutir a Relação, aquela cosia
chata que adoramos fazer e eles detestam... bom, nem sempre é assim...

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