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8 de maio de 2014

O livro mais recente de um autor tem que ser o melhor?


Em 2010, a escritora portuguesa Inês Pedrosa lançava seu romance Os Íntimos e, por conta disso, concedeu várias entrevistas. Numa delas, perguntaram-na o que ela conseguia analisar que havia mudado em sua escrita desde a publicação de Fazes-me falta, romance de 2002. A autora respondeu:

Na realidade, no Brasil se tem passado uma relação um pouco embaraçosa para um escritor. Eu apareci no Brasil com o livro que eu tinha publicado naquela época e depois começaram a publicar meus livros anteriores. Claro que um escritor prefere que comecem a publicar pelo primeiro porque, em princípio, se não pensasse que vai evoluindo deixava de ser escritor. Nós temos sempre essa ideia de que vamos crescendo a cada livro. Eu não tenho tanto essa ideia porque, infelizmente – meio na brincadeira, mas meio a sério – depois de ter publicado A eternidade e o desejo, que é o romance que publiquei cronologicamente depois do Fazes-me falta, há pessoas que dizem, depois de ler esse livro: “Gostei muito, mas o Fazes-me falta que é o livro...”

Gosto (muito) da Inês Pedrosa. Acho-a uma das vozes mais plurais da atual literatura lusa. Ela não apenas escreve de uma maneira poética – ela sabe fazê-lo, e bem. Seus personagens, sempre construídos de maneira profunda, dão-nos a dimensão da humanidade, e suas tramas, que sempre incluem o amor e a quebra do ideal desse amor no que concerne àquilo que nos torna quem somos, são sempre amplas, arejadas e mantêm uma dinâmica que enfeixa tudo e todos em conclusões densas e gratificantes.

Mas ela me pareceu “a cara” do ressentimento. E eu consigo entendê-la. É mesmo bem natural que alguém que ganha a vida escrevendo, imagine que seus escritos devam seguir numa parábola ascendente, nem poderia ser diferente, afinal. Se a sua pretensão não é ser um James Patterson ou uma Sylvia Day (aliás, que sobrenome apropriado), que não visam outra coisa a não ser suas contas bancárias, é compreensivo querer que, após dois, três, quatro ou mais anos trabalhando em um romance (ou livro de contos, crônicas, o que seja), seu autor deseje que aquela obra seja melhor do que a de anos atrás.

Pergunto-me, entretanto, o quanto disso também não é uma pressão da parte dos outros. Já que vivemos num mundo onde o normal é nos cobrarmos ensandecidamente – como se não bastassem nossos colegas, amigos, pais, cônjuges, vizinhos e por vezes até o cachorro – parece meio “errado” não querer sempre escrever melhor, quase como sinônimo do seu ser melhor. No fim das contas, um pouco da nossa ambição na vida passa por querermos sair dela melhores do que quando aqui chegamos. Nisso não diferem, por exemplo, as bandas que não topam uma reunião depois de não sei quantos anos paradas. Não me refiro aqui àquelas bandas que, se juntar todo mundo novamente num palco, o mais provável é que eles se matem uns aos outros, ou bandas que o fazem única e exclusivamente pela grana – não é desses. E quanto a isso, os escritores parecem ter mais pudor. Refiro-me àqueles que têm medo das comparações. Alguns deles não topam porque sabem que a mídia e o público vão massacrá-los. Seja porque não possuem mais a voz que um dia tiveram, ou porque já não se tem mais a mesma habilidade com certos instrumentos, o certo é que eles não voltam e ponto final.

Para um escritor, retornar é sempre o que se espera deles. Espera-se que sua voz (silenciosa, mas que pode ressoar em todos os cantos do mundo) esteja mais límpida e clara. Podem se passar muitos anos de um livro para o outro, mas se o escritor tiver algo a dizer, ele voltará a dizê-lo. Claro que o mesmo vale para bons cantores – desde que não temam a comparação.

E é o temor pela comparação que me fez questionar. Parece a mim que na pós-modernidade vivemos numa época em que tudo parece nos pressionar. Deixamos de ter as obrigações bíblicas do “crescei e multiplicai”, quando essa frase só era entendida como virar adulto e ter filhos (hoje em dia, inclusive, se vive cada vez menos a “ditadura” do “ter que ter” filhos, assim como a do próprio casamento, e optamos por outras modalidades de união a dois, que pode nem ser sob o mesmo teto e não ter que se pisar numa igreja), para termos a obrigação de produzirmos em massa. Estamos cada vez mais automatizados, e essa constante no nosso dia a dia, além de nos exaurir, tira a essência do que somos: seres capazes de florescer na destreza do ato criador, de observamos o mundo ao redor, de fazermos uma leitura menos visceral e mais orgânica do que representa para nós o estar no mundo.

A capacidade de sentirmos o de-dentro de cada coisa ou pessoa vem sendo substituída pela objetividade, pela impaciência e intolerância – e as consequências disso tudo. Está cada vez mais atual o alienista Simão Bacamarte de Machado de Assis, que apontava o dedo para quem ele julgava ser louco, mandando prender em sua Casa Verde, quando, na realidade, o louco só podia ser ele próprio. Julgamos os outros com a rapidez do pensamento, e esquecemos que as verdades são múltiplas, e dependem de variantes e variáveis.

Assim, por que a cobrança auto-imposta? Por que esperar tanto de si próprio? A mim, parece que é algo como esperar que o filho mais novo seja mais bem-sucedido que o filho anterior: é impossível predizer, e lançar um filho ao mundo não depende unicamente de si. Da mesma maneira, nem um livro. Posso escrever uma grande obra e publicá-la, e daqui a três anos publicar outra que me tomou esses mil e tantos dias para criá-la e, nesse período, ter passado por turbulências e mudanças que sem dúvida terão afetado o processo criativo da obra que agora vem a lume.

É bom pensar que se vai evoluindo quanto às próprias obras? Claro que é. Mas deixar de ser escritor por não sentir que se evolui é um pouco dramático. E Inês Pedrosa não é a única. Já vi inúmeros autores responderem, quando lhe fazem a paupérrima pergunta, “qual dos seus livros você prefere?”, dar como resposta a desgastada frase “a mais recente”. Poucos escapam desse clichê. Uns fazem uns enxertos com umas firulas, tentam explicar o porquê, mas é só. No fim das contas, defendem essa ideia um bocado tosca de quem, na verdade, não quer se comprometer e acabar incorrendo no risco de fulminar as vendas da obra mais recente.

Um autor tem que ter o compromisso de ser o melhor possível naquele momento. E só. Mais do que isso é tentar brincar de Deus para além da criação literária, uma vez que ninguém consegue ser senhor de si o suficiente para ter a certeza de que se superou. Evidentemente, entra aí o ego, além das próprias limitações de cada escritor. Além do mais, só o tempo irá determinar o que vai e o que fica de cada autor. Perguntem a qualquer leitor qual a primeira peça de Shakespeare de que se lembra, qual a primeira obra de Machado de Assis que lhes ocorre, qual o primeiro livro de Guimarães Rosa que vem à mente? Na ordem, as respostas mais prováveis serão Romeu e Julieta, Dom Casmurro e Grande sertão: veredas. Isso significa que as outras peças de Shakespeare não são tão boas? E o que dizer do Machado de Assis contista, será ele menos digno de nota do que seu romance cultuado? Isso sem falar nos seus outros romances famosos... E quanto ao Rosa, Primeiras Estórias, Sagarana e Tutaméia são livros “menores” do que aquele que é considerado seu magnum opus?

Tudo isso é arbitrário, essa é que é a verdade! Nossas escolhas literárias favoritas, aquilo que elegemos como nosso cânone pessoal, passa por uma série de fatores, que é a essência de tudo aquilo que nos compõe ao longo das nossas vivências. Não somos como o vinho, que passa por processos pré-determinados para se chegar a um sabor melhor, mais refinado e sofisticado.

Nossa substância é a vida, não há razão plausível para um autor cobrar tanto de si (ou nós cobrarmos deles ou de nós mesmos ao escrevermos nossas vidas perante o mundo). O que se faz hoje é o tangível. O que determina o amanhã, ou o nunca, é o tempo.



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4 comentários:

  1. Lendo me lembrei do exemplo do Saramago, que foi evoluindo ao longo de sua escrita. E se não fosse essa evolução é muito provável que ele nem teria ganho os prêmios que ganhou.

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    1. Sem dúvida, Léo Prudencio. E acho que todos, independente de sermos escritores, temos mesmo que buscar sermos melhores. Agora, não acho que a gente deva exigir isso dos escritores como se fosse sina. Evolução é bom, é louvável e deve ser uma meta, mas nunca uma obrigação.

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  2. "Tudo isso é arbitrário, essa é que é a verdade! Nossas escolhas literárias favoritas, aquilo que elegemos como nosso cânone pessoal, passa por uma série de fatores, que é a essência de tudo aquilo que nos compõe ao longo das nossas vivências."

    Concordo.

    E evoluir não implica necessariamente em produzir algo que é - arbitrariamente - rotulado como melhor para todo mundo.

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  3. "Não somos como o vinho, que passa por processos pré-determinados para se chegar a um sabor melhor, mais refinado e sofisticado".

    Genial. Registrado. Me engula como sou aqui e agora. Sem processo de reconhecimento

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