Voltei no dia seguinte
Ao invés de trabalhar gosto de ficar bebendo ou indo até a biblioteca
para ler jornais de graça. Como naquele dia estava sem grana para beber, fui à
biblioteca. E dessa vez havia uma nova atendente. Algumas tatuagens de bom
gosto. Piercing estrategicamente entre as narinas e um lenço no cabelo com
pimentas estampadas me fizeram ficar obcecado. Ela também tinha um cara de
obcecada. Todo mundo é obcecado por algo, alguns apenas não descobriram ainda
suas obsessões. A minha era a moça da biblioteca.
Achei que ela tinha jeito de gostar de
Dostoiévski. Chamei-a para me ajudar a localizar o escritor nas prateleiras.
Então eu tive a confirmação de que ela gostava do cara.
– É foda pra caralho esse russo. – Falou.
– Pois é, eu estou procurando Recordações da Casa dos Mortos. –
Comentei, disfarçando minha obsessão.
– Ah, é que o último que levou esse livro não devolveu mais. Sumiu.
Mas eu tenho ele. Posso te emprestar.
Sim, ela se
ofereceu para me emprestar o livro que ela provavelmente havia lido muitas
vezes enquanto estava deitada sozinha em sua cama com os cabelos desgrenhados.
Voltei no dia
seguinte para pegar o livro e levei um Tolstói em troca. Ela não estava. Havia
um velho semimorto no lugar. Disse que a minha obsessão tinha sido demitida
porque a pegaram se drogando no banheiro.
Sentei-me e
fiquei lendo os jornais do dia.

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