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8 de setembro de 2014
SUA NOVA COLEÇÃO DE DISCOS

SUA NOVA COLEÇÃO DE DISCOS


Ela entrou em casa eufórica. Sorria de nervosa. Estava realmente excitadíssima. Logo percebi que havia dado tudo certo, e que ela havia conseguido.

- Então, me conta como foi? – perguntei.

Ela escorregou na poltrona e com o olhar no vazio, aquele meio delirante, começou a contar como foi a experiência. Confessou sentir um pouco de medo quando a vítima soltou um gemido abafado e a encarou no fundo dos olhos.

- Nossa, aquele filha da puta me olhou como quem estivesse prometendo se vingar. Me assustei e afundei mais a faca. Desviei os olhos e soltei o corpo no chão. Só então pude voltar a respirar normalmente.

Sentei ao seu lado e a abracei. Disse que da próxima vez seria mais fácil. Que era como um vício. Ela começou a sussurrar no meu ouvido que sabia disso. Me encarou. E não sei de onde ela tirou uma faca e colocou com vontade na minha barriga. Cai no chão e fiquei ali respirando com dificuldade. A visão ficou embaçada mas consegui ver o vulto dela pegando a grana que a gente escondia.

Quando ouvi ela subindo as escadas meu desespero foi ao limite. Ela não podia fazer aquilo. Eu deveria ter escondido a coleção em algum lugar que só eu soubesse.

Tentava me levantar quando ela voltou e me empurrou com o pé de volta para o chão. Então percebi em suas mãos a caixa com a língua dos Rolling Stones estampada. Era onde eu guardava todos os vinis da banda. Todos. Alguns autografados pelo Keith Richards e edições limitadas. Não havia limites para sua loucura.

Ela levantou um pouco seu vestido e montou em cima de mim. Debruçou-se sobre meu peito e disse que eu não precisaria mais daqueles discos. Levantou-se e pisou na faca.


Ainda consegui ver ela ajeitando seu vestido e saindo pela porta rebolando e carregando sua nova coleção de discos.



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25 de julho de 2014
SENTIMENTOS À FLOR DA PELE

SENTIMENTOS À FLOR DA PELE


- O seu problema é ficar planejando demais as coisas. Faça mais e pense menos.

- E o seu problema é não planejar nada.

- Existem situações que dispensam planejamento. É só seguir o instinto.

- Tipo?

- Porra, assim de supetão não me vem nenhum exemplo em mente?

- Supetão?

(...)

- De qualquer forma eu prefiro planejar e fazer as coisas com racionalidade.

- Esse é o problema da raça humana. Estão cada vez mais usando apenas a racionalidade e deixando as emoções se perderem. Muito em breve seremos um bando de zumbis sem sentimentos.

- Tudo bem, Seu Sentimental, vamos tomar mais uma?

- Viu? Pra que perguntar? Apenas peça mais uma.

Pediram outra cerveja e o garçom falou que estava fechando o bar.
O homem levantou-se, puxou uma arma e obrigou o garçom a trazer a cerveja.

- Esse é seu exemplo de sentimentalismo?

Esticou-se na cadeira, guardou a arma na cintura e acendeu um charuto.

- Ao se recusar a trazer a cerveja ele mexeu com meus sentimentos. Logo, eu reagi a isso. Sacou? Está tudo aqui, querida (tocou com o dedo o peito de sua mulher). Tá tudo aqui, ó.

Olharam-se e compartilharam um silêncio de cumplicidade.



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9 de junho de 2014
A mágica sempre acontece

A mágica sempre acontece



Eu estava procurando algo interessante para fazer, então comecei a beber e esperei. Isso sempre funciona. É só ter um pouco de paciência que a mágica acontece.

Então essa mulher entrou no bar chorando e sentou junto à minha mesa sem nem pedir licença.

- O que foi? – perguntei.
- Ai, desculpa, moço – falou secando as lágrimas tentando se acalmar.

Chamei o garçom e pedi uma dose para a dona. Ela estava olhando para a rua. Como se estivesse se escondendo. Bebemos. Ela secou seu copo de uma vez , acendeu um cigarro e pareceu se tranquilizar.

- Você me ajuda se eu pedir um favor?

Eu demorei em responder. Então ela puxou muitas notas de cem e perguntou novamente. Sequei meu copo e pedi mais duas doses de whisky para nós e perguntei como eu poderia ajudar.

- Preciso que mate meu marido.

Eu nunca fui uma pessoa de negar favor aos outros. O ser humano precisa ajudar o seu próximo para encontrar-se consigo mesmo.

- Assim... hoje? – Perguntei tentando disfarçar um ar de tranquilidade de um verdadeiro matador.
- Eu ligo para ele e peço para me encontrar. Aí você aparece. Tipo um assalto, sei lá. Ah, vai com isso.

Ela me entregou uma pistola. Acho que era uma 9mm. Tinha visto igual em um filme.

Quando cheguei no local os dois estavam discutindo dentro de um carro. Apareci falando para os dois descerem e sumirem dali ou eu iria acabar com a raça deles. E funcionou, igual nos filmes.

Como eu imaginava, as muitas notas de cem estavam ali. Peguei, fui comprar algumas bebidas e voltei para casa aprender a mexer naquela arma treinando em frente ao espelho no melhor estilo Robert De Niro.



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12 de maio de 2014
ANTISSOCIAL

ANTISSOCIAL


Vi aquela mulher no ônibus lendo um livro sobre como conquistar amigos. Perguntava-me o quão solitária deveria ser uma pessoa para ler algo desse tipo. Um manual para cativar pessoas? Isso que eu chamo de falta de personalidade. E não era feia, não. Eu mesmo faria amizade com ela bem rápido. Se ela não fosse alguém que lesse um livro sobre como fazer amigos. Devia ser uma daquelas pessoas chatas e pragmáticas, com ideologias hipócritas que sentem medo de expressar suas opiniões para poderem ser aceitas.

A senhora ao seu lado levantou-se e eu sentei em seu lugar.

– Bom dia. – Falou a garota que estava aprendendo a fazer amigos.

É estranho receber um bom-dia de um estranho, assim, de repente.

– Bom dia. – Devolvi.

Com certeza era algo que ela aprendera no livro. Certo que era uma lição. Por isso aquele bom-dia. Mas para mostrar que qualquer tipo de teoria era pura conversa, eu não demonstrei qualquer simpatia. Dei meu bom-dia sem olhar para ela. Eu não ia entrar no seu joguinho, pensei, meio paranoico.

Ela retirou dois bombons da bolsa e me ofereceu um. Com certeza se utilizando de alguma outra lição de seu manualzinho.

A verdade é que aceitei. E estava bom. Era de rum. Então ela começou a puxar conversa sobre os bombons e sobre rum, e logo falava sobre o frio, o que me levou a comentar sobre vinhos, e que me levou a chegar à conclusão de que eu estava sendo pego.

Ao me despedir, anotei seu número para fazer com que ela acreditasse que tivesse conquistado um amigo. Quando desci joguei fora o seu telefone e me senti um vitorioso. Cheguei em casa, liguei o som e fiquei sozinho bebendo um vinho. Começou a chover. Fechei as janelas. Se pensavam que conquistariam minha amizade lendo medíocres manuais estavam muito enganados. Quem precisaria de um livrinho para fazer amigos, afinal?



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24 de abril de 2014
Voltei no dia seguinte

Voltei no dia seguinte


Ao invés de trabalhar gosto de ficar bebendo ou indo até a biblioteca para ler jornais de graça. Como naquele dia estava sem grana para beber, fui à biblioteca. E dessa vez havia uma nova atendente. Algumas tatuagens de bom gosto. Piercing estrategicamente entre as narinas e um lenço no cabelo com pimentas estampadas me fizeram ficar obcecado. Ela também tinha um cara de obcecada. Todo mundo é obcecado por algo, alguns apenas não descobriram ainda suas obsessões. A minha era a moça da biblioteca.

Achei que ela tinha jeito de gostar de Dostoiévski. Chamei-a para me ajudar a localizar o escritor nas prateleiras. Então eu tive a confirmação de que ela gostava do cara.

– É foda pra caralho esse russo. – Falou.

Pois é, eu estou procurando Recordações da Casa dos Mortos. – Comentei, disfarçando minha obsessão.

Ah, é que o último que levou esse livro não devolveu mais. Sumiu. Mas eu tenho ele. Posso te emprestar.

Sim, ela se ofereceu para me emprestar o livro que ela provavelmente havia lido muitas vezes enquanto estava deitada sozinha em sua cama com os cabelos desgrenhados.

Voltei no dia seguinte para pegar o livro e levei um Tolstói em troca. Ela não estava. Havia um velho semimorto no lugar. Disse que a minha obsessão tinha sido demitida porque a pegaram se drogando no banheiro.


Sentei-me e fiquei lendo os jornais do dia.



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12 de março de 2014
O melhor bar da cidade, Conto de Eduardo Stelmack

O melhor bar da cidade, Conto de Eduardo Stelmack


Eu só pensava em uma boa bebida, uma bela música e uma bela mulher. Enquanto isso eu dirigia aquele maldito táxi, com aquelas pessoas falando demais. Ou não falando nada – o que também era um saco. Na maioria das vezes eram reclamações. Pois é isso que nós fazemos de melhor. Reclamar. E dos outros. Afinal, somos sempre os superiores. Evito reclamar, exceto da minha profissão, justamente por só ouvir lamentações baratas. Peguei meu último passageiro. Bêbado.

- Me leva até o Cuba.


Eu adorava ir no Cuba. Era o melhor bar da cidade. Quando eu tinha banda tocávamos toda semana por algumas cervejas.


- Ainda servem o CubaHell? – perguntei. Era o melhor trago do mundo.


- Servem. Tu conhece o lance?


Contei sobre minhas idas ao Cuba, os porres, as mulheres. Quando chegamos ao local já éramos amigos e desci junto com o cara. O bar estava perfeito. Um lugar do caralho.

Meu passageiro me apresentou para algumas pessoas. Entre elas uma morena com as olheiras mais lindas que já vi. Sempre achei bonito nas pessoas detalhes que para os outros podem parecer defeitos.

Depois de alguns CubaHells levei a moça para casa. Não cobrei a corrida. Ela me convidou para entrar. Colocou um disco dos Stones e abriu uma garrafa de vinho. E não reclamamos por nenhum minuto.
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24 de fevereiro de 2014
O dia em que o diabo soprou no meu cangote

O dia em que o diabo soprou no meu cangote



- Leve isso para aquela senhora, por favor.

O garçom foi lá entregar o bilhete. Ficou gesticulando e apontando para mim. Eu sorri. Ela sorriu. Me aproximei.

- Tudo bem?

- Tudo. Criativo você.

- Tentei me esforçar. Você mora por aqui? - Perguntei.

- Moro aqui na rua de trás.

Eu já conhecia a dona. Ela era a viúva do velho Matias, o “Nariz”. Foi encontrado morto no quarto de um motel. Overdose de cocaína. O dinheiro ficou. E quem o guardava estava se embebedando comigo. Fomos para sua casa.

Enquanto ela tomava banho eu me servia com o Jack Daniel's do falecido. Depois de vinte minutos ela apareceu com uma espingarda nas mãos apontada para mim.

- Calma aí, baby. - Disse eu.

- Acha que eu não sei quem você é? Aquela puta que matou meu marido no motel é sua namoradinha.

Ela engatilhou a porra de cano duplo. Senti o diabo soprando no meu cangote. Terminei o meu Jack e fechei os olhos


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21 de janeiro de 2014
Baita profissional (Conto)

Baita profissional (Conto)


Fui me encontrar com a tal mulher. A pessoa que organizou nosso encontro me explicou tudo e disse que eu deveria ser discreto, pois as chances de estarmos sendo vigiados eram grandes. Cheguei ao local. Ela estava de óculos escuros sentada na última mesa do bar. Visivelmente ansiosa. Incrível como as pessoas conseguem chamar atenção justamente quando precisam fazer o contrário.

- Com licença.

Ela apenas fez um sinal positivo com a cabeça. Era interessante a moça. Eu ficaria com ela sem dúvida. Parecia meio louca. Já estava alta. Seu cabelo era bem escuro, não muito longo, meio desalinhado propositalmente. Como se recém tivesse acordado. Mas trato é trato e eu não poderia colocar tudo a perder. Tinha que deixar de lado qualquer sentimento que pudesse estragar o combinado.

- Trouxe o dinheiro? – Ela perguntou.

- Está no carro. Vamos lá.

Abri o bagageiro. A vi sorrir pela primeira vez e decidi que precisava acabar logo com aquilo. Eu estava me apaixonando no trabalho novamente. Quando ela se curvou para examinar as malas atirei bem na nuca. Joguei-a para dentro e fui pegar uma cerveja para ir tomando no caminho de volta.
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7 de janeiro de 2014
Poderíamos ser como Bonnie & Clyde

Poderíamos ser como Bonnie & Clyde


por Eduardo Sterlmack*

Entrei no carro e apareceu essa mulher com uma beleza desconcertante. Puxou a arma e anunciou o assalto. Eu acabara de me apaixonar. Levaria um tiro dela e morreria com seus suculentos lábios de Scarlett Johansson estampados em minha retina.

– Quer uma carona? – perguntei. 

Ela engatilhou. Olhei no fundo daqueles olhos gigantes e decidi que faria o que ela quisesse. Desde que eu fosse levado de refém. Ou poderíamos ser como Bonnie & Clyde.

– Eu te levo. Entra aí.                                                         

Ela tentou não demonstrar, mas ficou sem jeito. Era uma novata. Enfim entrou e vi seu vestido subir em câmera lenta ao sentar no banco do carona.

– Dirija até a Constantino Alberto Ribeiro e não me olha!

Eu não era nenhum especialista em foras da lei, mas percebi que ela agia por conta própria. Só não sabia a razão. Talvez quando a gente se casasse ela me contasse. Um dia.
Como assim não olhar, pensei. Eu queria fazer sexo com ela com a arma apontada para minha cabeça se fosse necessário. Precisava revelar meu amor por ela.

– Eu te amo.

Silêncio.

– Dirija isso.

Sim, ela estava ficando balançada. Não entendo os assaltantes, mas entendo as mulheres. E ela não fugiria de mim.


– Tu conhece Bonnie & Clyde?


*Eduardo Stelmack é gaúcho de Porto Alegre, acadêmico de Comunicação Social e autor do blog de minicontos TodoConto Conta Tudo, além de admirador das banalidades que constroem o cotidiano.
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19 de dezembro de 2013
Conversação (Conto)

Conversação (Conto)



por Eduardo Stelmack*


– Tu já parou para observar essas pessoas indo de um lado para o outro? Parecem que estão nervosas. Ansiosas. Mas é uma ansiedade que nem elas sabem o motivo. Na verdade, acho que estão todos meio loucos. Se matam para conseguir preencher seus interesses individuais, que, após preenchidos, dão lugar a outros. E mais outros. E assim vão alimentando seus egos insaciáveis. Para quê? Gente louca. Bando de Loucos. Isso que tenho a dizer. Ah, vai dizer que não é? Tá bem, então você é o Senhor Normal... haha. Eu? Você me vê cercado por esse bando de anormais, por acaso?

O dono do bar se aproximou.

– Com licença, mas não há ninguém aqui com o senhor. E já estamos fechando. Sua conta.
  
O homem olhou para a cadeira vazia ao seu lado e sussurrou alguma coisa. Pagou o garçom e retirou-se.


* é gaúcho de Porto Alegre, acadêmico de Comunicação Social e autor do blog de minicontos Todo ContoConta Tudo
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5 de dezembro de 2013
Só é preciso algumas doses de influência (Conto)

Só é preciso algumas doses de influência (Conto)

the lonesome giant  - graham franciose
por Eduardo Stelmack

Ele estava com a barba por fazer há semanas.
- Por que não corta essa barba?
- Acho que nós precisamos nos desapegar desse mundinho que estamos habituados, saca?
- Não saco. O que é isso?
- Um ukulele – respondeu. – E começou a dedilhar o instrumento com os olhos fechados.

Ela ficou observando aquilo por alguns segundos como se estivesse enxergando algo estranho.
- Eu conheci outro cara, SACA?
- O amor é assim, deve ser compartilhado.

Ela suspirou irritada e foi até a geladeira pegar uma cerveja. Quando voltou ele estava completamente pelado no sofá.

- Que porra é essa?
- Isto é a natureza. Você não saca a natureza?

Ela estava sentindo aquela vergonha alheia. Aquela que sentimos quando vemos algum imbecil fazendo algo imbecil. Afinal, ele sempre odiou toda aquela postura ativista-hippie-sustentável-amo-todo-mundo. Até ler uma reportagem onde afirmavam que isso era uma tendência. Esse era o fato que ela não engolia. Saber que ele não era aquilo.

Ficou mamando sua cerveja esticada no sofá, refletindo sobre o quanto as pessoas são influenciáveis. 
Acabou a bebida e arrumou suas coisas.
- Tchau, pra ti. Enfia esse uku... enfia esse troço na bunda.

Saiu batendo a porta.

Ele deitou-se no chão. Pegou o instrumento e o encarou com um olhar meio duvidoso.



Sorte que ela já havia indo embora.


* é gaúcho de Porto Alegre, acadêmico de Comunicação Social e autor do blog de minicontos Todo ContoConta Tudo.
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31 de outubro de 2013
Grande ocasião (Conto)

Grande ocasião (Conto)

always looking back, he missed what was right infront of him by Graham Fraciose
por Eduardo Stelmack

Há muito tempo ela não fazia aquilo. Até comprou um vestido especialmente para a ocasião. Mas estava nervosa e insegura com sua aparência. Perguntava-se se ele não iria brochar ao ver sua pele envelhecida e mal tratada pelo tempo. Tomou mais uma taça de vinho – também comprado especialmente para ocasião – e foi em frente ao espelho, ansiosa. Olhou-se. Ajeitou os seios que iam quase até a barriga. Imaginou quem teria desejo de acariciá-los. Caminhou até a janela. Ele estava atrasado. Ela estava com medo. Lembrou-se dos tempos em que era elegante e “exalava sexo”, como costumavam dizer os garotos da rua. E algumas garotas também. Ela era o terror. Esboçou um sorriso e sentiu-se um pouco mais relaxada. Um pouco mais bêbada.

Nada dele aparecer. Pensou em ligar, mas sentiu que poderia deixar transparecer sua insegurança. Depois daquela idade não cairia bem. Abriu outra garrafa. Esta não era para a ocasião. Talvez para uma próxima. Mas que próxima? Se nem a primeira houve, pensou ela, deitada no sofá e debochando de si mesma.

Ligou para ele algumas vezes. Nada.

Levantou-se cambaleando e foi para sua cama que havia sido preparada para a ocasião e dormiu.




Eduardo Stelmack é gaúcho de Porto Alegre, acadêmico de Comunicação Social e autor do blog de minicontos TodoConto Conta Tudo, além de admirador das banalidades que constroem o cotidiano.
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