Vário som, de Elisa Andrade Buzzo
Li, pela segunda vez, o livro de Elisa Andrade Buzzo por esses dias e novamente eu
não sabia se poderia escrever sobre ele. Quando da primeira vez, em frente ao
computador, não consegui passar das duas primeiras linhas. Porque, para a minha
infelicidade, fui ler o posfácio antes de pensar mais sobre o livro. Não
costumo fazer isso, porque é fato que em mim as impressões dos outros ficam. E
fiquei a querer dissipar a ideia dos labirintos que Andréa Catrópa escreveu.
Percebi também que os poemas, a maioria, que ela havia apontado, eu já havia
separado para comentar no que seria a resenha sobre o Vário som. E talvez por isso, divagando, fiquei à deriva, esperando
o vento que não vinha, a inspiração que não vinha, para resenhar um dos
melhores livros de poesia que li ano passado, talvez o melhor entre os autores estreantes.
Quando
comecei a ler, perdi-me, um pouco, entre os versos que se quebravam diante da
leitura mental. Mas aos poucos peguei o fôlego dos poemas e pus a pontuar o que
não existia para poder compreender um pouco melhor os poemas e me sentir pronto para a entrega da cavalgada que
traziam-me os poemas:
“(...) entregas
tudo o que
tens diante do
mistério insone de um olho
na
escuridão"
E é cavalgando que aos poucos me
aprofundo na minha perda. De repente se está a ver os muros de uma cidade que
se constrói entre os lençóis que estão entre as nossas pernas e tudo, até
então, é permeado de amor. Como não poderia ser?
"da boate no cais
só
me restam as frequências
mais duras o
cheiro de urina e o álcool que se
destila isso
porque são as notas mais graves
que sobem a
conversa aguda se dissipa penso
em descer e
pertencer a este outro mundo sub-
terrâneo e os
lençóis me enlaçam as pernas
chego a sentir o
gosto de bebida inundando a
cama até que
amanhece no pesadelo dos meus
desejos tal
simplicidade musical embala o
sono esse grito
infantil e trágico de que é feito
o
amor"
E daí, entre saber o que é e o
que não é, faz-se os entrecruzamentos arredios que levam, talvez, para os
fadados labirintos que se constroem em nosso imaginário quando estamos presos à
solidão, quando estamos aptos a não nos encontrar tão facilmente, mesmo que ao
nosso redor todos gritem por nós:
"no cruzamento do
mundo
existe
um rumor
metálico
esteiras paralelepípedos gastos fios
nervos bólidos
espaciais o contato raivoso
entre o trilho e
o eléctrico despojos é lá que
alguma coisa se
parte enquanto outra toma
corpo
que daí nasça a flor a náusea o novo
E enquanto isso a cidade vai
vivendo como se tudo continuasse como antes
meus vizinhos do
quarto andar
colocaram
cadeiras na
varanda abro a janela com
remelas de onde
se vê uma paisagem colorida
de prédios um
sino um céu de brigadeiro
trinta graus a
praça do município resplandece
e o verão ainda
nem deu as caras meu contato
com o mundo é
mais terra a terra fito os cascais
do
trottoir"
Parece que a cidade não sente a
dor, o vário som que se dissipa apaga as solidões.
"e existe algum
problema
em
não fazer algo mas
de longe
imaginá-lo como a premeditar o ato
esta música que
vem da praça de são paulo é
tocada
e cantada por alguém"
E
o que mais se necessita à alma desse eu-lírico ter algo que o mantenha firme,
que entre “raviólis de requeijão sumo de limão” haja também leituras que tentem
nos salvar ao invés de nos afogar como sophia de mello breyner, fernando pessoa
ou camilo pessanha. Mas é fato que o tombo pressentido esteja rente ao chão
para que seja possível deixar a ausência de lado, para que as palavras junto
aos alimentos sejam a corda da salvação:
"preciso de
conteúdo
sólido chão
evidente tombo pressentido crumble
aux pommes
camões mascarpone para driblar o
esgar da
ausência e não deitá-los fora que ve-
nham em torrente
os alimentos as palavras e os
tormentos"
Parece-me que aos poucos a poeta
foi construindo uma teia de retalhos da lembrança, onde tudo que vivenciou fora
destacado entremeios a dispersão das palavras e dos momentos vividos.
"mesmo é como se
aprendessem a
ser outros e já não pudessem
ser
mais ninguém
tenho
dificuldades de comunicação
então
preciso
de gente que
fale e de preferência que não fale
do meu mundo
desgastado preciso de gente que
me faça abrir a
boca de tanto que gosto de vê-la
falar nos
entredentes de outros fatos complica-
dos e ardentes
do jogo de perguntas e respostas
nascente assim
eu diga que preciso de outros
mundos
que estes tomem corpo e me sustentem
aqui neste lugar de vário som de
tudo se é capaz"

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