O Silêncio Branco, livro de José Alcides Pinto
O primeiro poema do livro intitulado Eu desintegra a alma do poeta Alcides Pinto. O poeta de alma “íntegra e inviolável” e “sombra de lua”, essa e outras definições o poeta utiliza para nomear o seu eu interior:
Eu sou eu.
Íntegro e inviolável dentro
de mim mesmo.
O que não se
descobre. Anônimo sob
minha
própria espinha.
(...)
Eu sou eu. O
retrato destituído de vida.
O
gesto estático.
O que está no
limiar e afogado no abismo.
O que anda
vestido e nu, sendo louco e poeta.
Eu sou eu e
sozinho. Diverso sobre mim
e
sob eu mesmo.
(...)
Outro poema que merece destaque são os
versos Sem se deter. Neste poema o
místico e a loucura, características essências na obra de Alcides Pinto, formam
a voz motora do eu-lírico. O poeta lança perguntas e as responde negando o que
foi perguntado. Mais adiante o poeta cearense com a agucidade de um surrealismo
formula o lindo conjunto de poemas Tatuagem:
1.
O peixe
tatuado
no quadril da
mulher
não é o peixe
do rio
é mais
fotografia
de fóssil de
peixe.
2.
É uma maneira
do peixe
viver fora
d’água:
preservada a
memória
catalogado em
arquivo.
3.
É um peixe
diferente
(cicatriz
queimada)
na tela da
pele
incisão
bordada
4.
É mais do que
peixe
(estampa de
Doré)
plástica
moldura
do mar.
(...)
Esse poema é subdividido em oito partes,
cada uma descrevendo de maneira alucinante uma tatuagem no quadril de uma
mulher inominada. É um poema cercado pela loucura, pelo místico da escrita e
visão poética de Alcides Pinto. Outro poema que se assemelha a essa temática mística
é poema A moça que faz tricô, mais um
poema com subdivisões, cinco, que descrevem a simples ação de tricotar, porém a
percepção filosófica do ser e não-ser casa com o poema fazendo dele uma das
obras-primas do poeta. Destaco também os poemas que seguem nessa mesma linha de
pensamento, sendo eles O homem de
cachimbo; Notícia pela internet e
Pôster. O poema Réquiem filosofa sobre o ser, sobre a existência, a brevidade da
vida, os gestos simples. A força desse poema Réquiem é passada pelas imagens descritas pelo poeta:
Eu sou uma
capela cheia de andorinhas mortas
Um altar
destruído.
(...)
Meu corpo,
partido em banda, daria uma canoa
Um caixão
mortuário, uma guitarra.
(...)
O poeta cearense constrói imagens que
muitas vezes falam por ele, essa característica é fundamental para ser um poeta
de qualidade, as imagens, a linguagem a boa distribuição de temas, essas
características fazem de José Alcides Pinto uma referência na Literatura
Cearense, não seria exagero dizer que os novos poetas devem por obrigação antes
de compor versos ler a obra do poeta de São Francisco do Estreito. O livro Silêncio Branco é formulado por poemas
que merecem a qualificação de obras-primas. Não é a toa que é o meu preferido
do poeta cearense. Infelizmente esse e outros livros do autor sumiram das prateleiras de livrarias. Para aquisição de livros de José Alcides Pinto é necessário recorrermos a sebos. Registro ainda o meu desejo de que novas edições de livros do poeta cearense sejam publicadas. Há ainda outras colocações a se fazer sobre o livro, mas o
meu objetivo nesse ensaio foi apenas aguçar a curiosidade leitora para este
livro, tendo feito isso, fico satisfeito.

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