Tutaméia: a despedida de João Guimarães Rosa
O livro Tutaméia - Terceiras estórias foi publicado originalmente em 1967, poucos meses antes do escritor mineiro falecer. O livro foi esboçado sumariamente
para conter contos curtos e que fossem acessíveis à publicação em revistas. É o
livro que formula os contos mais curtos da obra de Guimarães Rosa. O título Tutaméia, segundo Paulo Rónai
(prefaciador da edição em estudo) “no
Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa encontramos tuta-e-meia
definida por mestre Aurélio como ninhada, quase nada, preço vil, pouco dinheiro.”
Estaria Guimarães dando pouca importância ao livro? Depois de ler o livro
inúmeras vezes, acredito que esse significado é válido porque a obra só terá o
seu valor para os que compreendem e tem paciência para enfrentar, isso mesmo, enfrentar os contos. Digo isso porque é necessário mais de uma leitura para
apreensão dos contos, a linguagem como já se espera de uma obra Roseana é
resultado da mesclagem da fala erudita com a popular, é dessa mesclagem
muitas vezes a dificuldade de muitos leitores iniciantes em Guimarães Rosa.
Os temas que Guimarães utiliza em seus livros: o sertão, o místico,
o folclórico, o experimentalismo linguístico e o regionalismo social,
consolidam-se nessa obra. E se não houvessem esses temas citadas, dificilmente associaríamos o livro ao seu autor João Guimarães Rosa. Esses temas fazem do autor, um nome singular na nossa literatura brasileira. O autor
mineiro sem dúvidas é um dos mais criativos e vanguardistas de nossa era. Mas
voltemos ao livro em questão.
Tutaméia recebe o subtítulo Terceiras estórias, porém até o
momento o autor só havia publicado a coletânea Primeiras Estórias, há um salto então. E as Segundas Estórias?
Talvez se questione o leitor. O tempo não foi favorável para Guimarães. Fica
então um eterno ponto de interrogação do que poderia ser as Segundas Estórias. Tutaméia possui uma característica
interessante, o livro possui dois sumários, sendo no primeiro apresentando Tutaméia (terceiras estórias), no final do livro o título do sumário é posto
em revés: Terceiras Estórias (tutaméia).
O autor e suas brincadeiras, um leitor desatento não perceberia isso. Outro
ponto curioso dos sumários é a ordem dos contos, eles são apresentados em ordem
alfabética, porém há uma interrupção alfabética na letra J, o conto “João
Porém, o criador de perus”, colocando-se em seguida a letra G: “Grande Gedeão”
e a letra R: “Reminisção”, de maneira a inserir na seqüência alfabética “JGR”,
iniciais de João Guimarães Rosa! O livro é composto por quatro prefácios. Sendo
que cada prefácio são postos no bojo do livro, intercalando leitura e reflexão.
Nesses prefácios, Guimarães dialoga com o leitor sob a voz de um pseudo-autor.
Paulo Rónai afirma que os contos do
livro são “romances em potencial comprimidos ao máximo”. Os contos deste livro são de
uma beleza descritiva-imaginativa. A leitura dessas Terceiras Estórias requer uma atenção
redobrada por parte do leitor, é necessário releituras e mais releituras, é um
livro enigma escrito para quem gosta de leituras humorísticas e que produzam
pontos de interrogação. Alias o humor de Guimarães é bastante presente nesse
livro, não que nos outros ele não se faça presente é que neste último a
estilística do autor apresentam-se de maneira mais madura. Grande Sertão: Veredas é apontado como uma grande obra, disso não
discordo, mas Tutaméia também merece
esse título, pois nele o autor demonstra a grande arte do conto de maneira
magistral, é um livro que requer uma dupla atenção.
Como não poderia deixar de faltar, o
autor intercala em seu discurso a filosofia e aventura da vida. O reaproveitamento de provérbios populares também somam a escrita do livro. Eis alguns
trechos interessantes:
“... tudo, para mim, é viagem de
volta...”
“... a vida não fica quieta...”
“... o pior cego é o que quer ver...”
“... amava-a com toda a fraqueza de seu
coração...”
“... Deus é curvo e lento...”
“... felicidade se acha é só em horinhas
de descuido...”
“... porque amar não é verbo; é luz
lembrada...”
“... todo fim é exato...”
Concluo afirmando que o livro é
viciante, embora seja considerado por muitos como o mais complicado da obra
Roseana. Os temas desenvolvidos ao longo dos quarenta contos de Tutaméia nos apresentam um sertão
místico, um sertão-universo, um sertão que não cabe em linhas, que não é captado
facilmente em páginas, um sertão que só Guimarães Rosa consegue descrever.
Infelizmente, como eu havia dito no inicio, o tempo não permitiu que João
Guimarães Rosa continuasse o seu projeto ousado de reinvenção e desconstrução
literária. A leitura de Tutaméia
nunca termina no ponto final.

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