Dúvidas enquanto espera ou À sua espera, de Carla Mühlhaus
“Não se pode estar
imerso no presente para entendê-lo”
Sou daqueles leitores
que o santo do livro tem que bater com o meu santo, ou seja, a capa é capaz de
me deixar com vontade de folheá-lo mais do que os que não possuem um
acabamento. Sou aficionado por capa e pelo objeto livro e por isso essa minha
doença. O leitor não me julgue, pois, mesmo achando horrível o exterior de um
livro, folheio qualquer um que me cai nas mãos.
Quando, pelo correio,
chegou a minha casa um livro azulado que trazia, na capa, uma cegonha negra
carregando (ou não) uma trouxa, que continha, talvez, um bebê, fiquei um pouco
triste. Admito. Pensei que a trama, tendo em vista que era um romance, seria
envolta de uma criança ou talvez sobre o nascimento de alguém, isso não me
alegrou muito. Porém, como eu disse, folheio e leio sempre os livros que me
chegam. Alguns ficam de lado, como já comentei em outros textos, pelo tempo,
pela capa, pelos versos. Mas não era o caso desse livro, que já de início me
mandava sair da imersão do presente para poder entendê-lo.
Apesar da cegonha com
sua trouxa remeter ao nascimento ou a vinda de uma possível criatura, o assunto
do livro não é isso, vai além, talvez até demais, sobre o que eu havia
imaginado sobre o livro de Carla Mühlhaus, intitulado À sua espera.
Tomando a ideia da
frase que abre esse texto, teremos que nos desprender do presente. Tentemos,
então, nos imaginar no futuro que ainda não existe e que sempre criamos às
avessas. Imaginemo-nos, por exemplo, como uma “senhora” de trinta e cinco anos
que possui consigo uma dúvida quase existencial: ter ou não ter um filho, eis a
questão. É importante, mesmo que homens, imaginarmo-nos, a partir de agora como
mulher. Se a partir da primeira página do livro de Carla o leitor não se puser
como mulher, acredito que não poderá entender o motivo do livro (se é que ele
existe).
É esse, assim
entendo, o mote para o livro de Carla, que aos poucos demonstra como é ser uma
mulher, aos trinta e cinco anos, com uma dúvida cruel sobre ter ou não um
filho. Quase como uma hipocondríaca da vida, ela corre atrás dos problemas que
poderão advir da escolha de ter filhos e que ainda não existem. Uma luta
psicológica se inicia antes mesmo de todo e qualquer processo acerca do
nascimento existir. E aí é que mora o perigo.
A narrativa, que ora
é tida por um narrador a distância, que sabe o que acontecia e o que pensava a
jornalista, que considero ser a própria mulher em questão que nos conta o que
aconteceu consigo, consegue construir inúmeras imagens do seu cotidiano que vão
surgindo, aos poucos, juntas às suas dúvidas tecnocientíficas, religiosas e
filosóficas. Já no início do livro, o narrador expõe o seu problema quanto ao
pensamento humano, que anda atrasado tendo em vista tanta tecnologia solta no
mundo:
“Também houve quem dissesse que vivemos uma época de
indiferença em relação ao pensamento. É que a velocidade da revolução
tecnocientífica é tão grande que o pensamento simplesmente não consegue
acompanhar as transformações. Isso é o que sempre digo quando querem me
empurrar uma novidade tecnológica. Quando finalmente consigo ler o manual e
aprender as funções básicas do novo e milagroso
aparelho-feito-para-facilitar-a-vida, ele já está obsoleto há tempos. Então
sobra o problema do descarte, de onde jogar fora bateria. E ninguém diz como
varrer os neurônios que vão caindo pela casa. Eles ficam lá, grudados no
rodapé, pedindo um aspirador de ultima geração, daqueles que desintegram os
ácaros e de brinde esterilizam sua aura. Custam cinco mil reais, podem ser
pagos em dez prestações e você ainda concorre a uma expedição antropológica.”
Um bebê não pode ser
devolvido ou jogado fora. Ele deve ir contra tudo que acontece ao nosso redor.
A velocidade da tecnologia aqui aparece como um dos fatores que afastam os
seres humanos não só das suas relações afetivas, mas de se pensar enquanto responsável
por outra criatura. Como se fosse imprescindível termos em casa um micro-ondas,
um lava-louça ou qualquer outra coisa que faça algo por nós ante a uma criança
que pode nos fazer presentes nesse mundo, onde o importante é
correr contra o tempo e não viver.
Porém, como dirá a
narradora: “A vontade é livre mesmo que você não a identifique”. Não
somos obrigados a coadunarmos contudo que nos sugere o mercado ou a sociedade.
Podemos viver como desejamos, mas, antes de tudo, existe a pressão sociológica
que aparece, principalmente, na sua forma religiosa.
São esses os
questionamentos que vão se desenrolando por todo o romance, dando voltas em
assuntos filosóficos que nos levam quase a “uma viagem filosófica ao centro do
útero”. Essa viagem, portanto, nos levará ao final do livro, que mesmo cheio de
certezas ainda conterá, adivinhem, dúvidas. E esse paradoxo, fica cada vez mais
explícito quando vamos, finalmente, percebendo o quão difícil é ter um filho:
![]() |
| Carlas Muhlhaus |
“O que mais a apavorava, no
entanto, era o tamanho do seu paradoxo. Apesar de todas essas questões, não
tinha mais dúvidas de que realmente queria ter um filho. E quando pensava nisso
tinha uma vontade quase irresistível de se internar por conta própria. Aí sim
não ofereceria nenhuma resistência. Soltaria os braços, relaxaria o corpo e
entraria leve e lânguida numa camisa de força branca e limpa. Abriria a boca
cordata e engoliria, muito obediente, todos os comprimidos a ela endereçados.
Dormiria profundamente como um bebê.”
Como notamos, se não
havia mais dúvidas porque desejar se internar? Porque não se decidir frente aos
problemas que viriam com o nascimento de um filho? O leitor pode acreditar que
o livro seja feito para mulheres, até mesmo porque eu pedi, no início desse
texto, que se colocasse como mulher. Talvez até o seja, mas acredito que a
Literatura não tem sexo e por isso digo que esse livro é para que possamos
entender por quais algumas dificuldades existenciais a mulher passa quando
deseja ter um filho. O que Mühlhaus quer levantar em seu texto não é apenas o
desejo de ser mãe ou o desejo de “se tornar mulher”, como se tudo isso fosse
apenas as mil maravilhas. Mas deixar claro que ter um filho não é tão fácil
como imagina a sociedade, como os homens imaginam que seja. Não é apenas a
transformação no corpo que as incomoda (algo que nem é tocado na obra), mas que
o psicológico, o ato reflexivo sobre isso é o que acaba por deteriorar uma
mulher sobre ter ou não ter um filho e que muitas vezes a mulher, não
aguentando a pressão envolvida pelas esferas tocadas aqui, vê-se na obrigação
de ter um filho. Daí, a velha, que não conseguia acompanhar os pensamentos de
Foucault e de alguns outros, que queria se internar mesmo quando possuía
certeza do que fazer, que ao ouvir o marido dizendo que estava tudo bem ou a
terapeuta “forçando” que ao ter o filho nos braços tudo mudaria, punha a se imaginar
nos textos filosóficos que havia estudado, trazia consigo, agora, a sua própria
filosofia em construção, e que tinha por base o pensar para poder entender um
pouco sobre a sua dorida experiência e pensar, concluiu, não é era nada
simples:
“Sêneca ainda não
ouvira falar de Heidegger, mas já sabia que pensar é algo violento antes de ser
algo libertador”.


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