A vida em um nível autêntico
por Madjer
de Souza Pontes
O
relato de Zeno Cosini é um autêntico caminho de introspecção que ele toma para
fazer um balanço sobre a sua vida: a incompetência no comportamento, o fracasso
nos sentimentos, o labirinto das relações familiares, ou de qualquer outra
natureza. Zeno Cosini, de Trieste (norte da Itália), já no fim da vida, bem
sucedido nos negócios, escava gradativamente os fatos e as impressões com uma
memória implacável e descreve todas as fragilidades, omissões e desvios por
qual passou em sua vida de bon
vivant.
A
“missão impossível” de largar o fumo, o ciúme quase doentio, o fingimento
frente às relações comerciais, o casamento com a mulher indesejada e a
infidelidade conjugal com uma aspirante inapta à artista, levam Zeno a
apresentar e, de certa forma, a ponderar acerca dessas relações tão impregnadas
de incompetência. A proporção, digamos, dos “pecados” de Zeno é a mesma dos
ilimitados ideais que o alimentam. Porém, esses castelos entram em derrocada a
cada nova página desnudada de sua vida.
A
linha da incompetência é uma das balizas da obra do romancista italiano Ítalo
Svevo (1861-1928). Essa incompetência não é simplesmente a incapacidade de
realizar um trabalho ou resolver uma ou outra problemática que surge na vida
dos personagens de seu romance A
Consciência de Zeno (1923), é
uma incompetência num sentido amplo, uma instabilidade e insegurança que
permanentemente estão presentes nas resoluções e relações entre seus
personagens, todavia isso não limita as linhas da espécie de diário que Zeno
escreve, e nos possibilita um contato autêntico e profundo com as vidas que nos
são apresentadas.
Imediatamente
aclamado por autores do porte do romancista James Joyce, que, na verdade, era
um grande admirador dos trabalhos de Svevo, e do poeta Eugenio Montale,
considerado o mais expressivo representante italiano da poesia hermética, o
romance de Svevo inverte conceitos estabilizados a respeito da loucura e da
sanidade, do fracasso e do sucesso, ao mesmo tempo em que expõe satiricamente
os ideais da classe burguesa da primeira metade do século XX, pondo ao ridículo
a moral e os valores de uma sociedade que entrava em decadência.
Da
publicação na Itália em 1923, pouco depois da Primeira Grande Guerra e sem
grande repercussão, A
Consciência de Zeno ganhou
proporção suficiente para fazer parte dos grandes romances universais. Põe-nos
de frente a um painel humano dos mais valorosos, no qual se conjugam cenas da
vida cotidiana com suas relações mais ínfimas com questões de amplo alcance
cultural, científico e filosófico, mormente ao destaque para a psicanálise de
Freud, que, aliás, foi lido e traduzido por Svevo.
Ítalo
Svevo, pseudônimo de Ettore Schmitz, nascido em 1861, em Trieste (cidade
italiana que, à época, pertencia ao Império Austro-Húngaro). Em 1880, por conta
de problemas financeiros, vê-se obrigado a largar os estudos em relações
comerciais para efetivar-se como bancário. Seus dois primeiros trabalhos
referentes à literatura – Uma
Vida (1892) e Senilidade (1898) – passam despercebidos do
grande público. A descoberta da obra de Freud tem importante destaque em sua
vida e sobre a sua ficção. Em 1928, trabalhava na continuação da sua maior obra
(A Consciência de Zeno) quando sofreu um fatal acidente de carro na
Itália. Ainda é autor de Uma
Farsa Bem-Sucedida (1928) e A Novela do Bom Velho e da Bela
Mocinha (1930), publicados
postumamente.
A
Consciência de Zeno é divida
em oito capítulos:
1.
Prefácio: o interessante deste pequeno prefácio é por ser “escrito” pelo
“médico de quem às vezes se fala” no decorrer do romance, isto é, é como se o
próprio romance tivesse o aval de um especialista em psicanálise, que nos dá a
conhecer a vida de seu paciente: Zeno Cosini;
2.
Preâmbulo: onde são narrados os primeiros “passos” da caminhada
introspectiva de Zeno, como se ele acordasse consigo para principiar a
empreitada:
O
doutor recomendou-me que não me obstinasse em perscrutar longe demais. Os fatos
recentes são igualmente preciosos, sobretudo as imagens e os sonhos da noite
anterior. Mas é preciso estabelecer uma certa ordem para poder começar ab ovo. Mal deixei o consultório
do médico [...], corri a comprar um compêndio de psicanálise e li-o no intuito
de facilitar-me a tarefa [...].
3. O fumo: neste capítulo são
apresentados os primeiros anos da vida de Zeno, informações sobre a história de
sua família e, a partir desse capítulo principia-se a apresentação dos vícios
do protagonista, e o fumo foi um dos vícios mais obstinados de se enjeitar,
relatado com uma ironia que leva à comicidade:
-
E nada de fumar, está ouvindo?
Fui
invadido por enorme inquietude. Pensei: “Já que me faz mal, nunca mais hei de
fumar, mas antes disso quero fazê-lo pela última vez”. Acendi um cigarro e logo
me senti relevado da inquietude [...].
[...]
“Hoje,
2 de fevereiro de 1886, deixo de estudar leis para me dedicar à química. Último
cigarro”!
Tratava-se
de um último cigarro muito importante. Recordo todas as esperanças que o
acompanharam [...].
[...]
Creio
que o cigarro, quando se trata do último, revela muito mais sabor. Os outros
têm, sem dúvida, seu gosto especial, porém menos intenso. O último deriva seu
sabor do sentimento de vitória sobre nós mesmos e da esperança de um futuro de
força e de saúde. Os outros têm a sua importância porque, acendendo-os,
afirmamos nossa liberdade e o futuro de força e de saúde permanece, embora um pouco
mais distanciado.
4.
A morte de meu pai: neste capítulo é relatada a história e a intensa
relação de Zeno com seu pai, talvez o único personagem que o protagonista
admira e parece o completar em um sentido mais amplo, sentido esse que se
intensifica e nos comove por conta de sua morte. Também são relatadas algumas
notícias a respeito de sua mãe, que parece servir somente como pretexto para
que o protagonista nos convença da importância de seu pai em sua vida.
Minha
mãe faleceu quando eu não tinha ainda quinze anos [...].
Já
a morte de meu pai foi uma grande e verdadeira catástrofe. O paraíso deixou de
existir e eu, aos trinta anos, era um homem desiludido. Morto também!
Ocorreu-me pela primeira vez que a parte mais importante e decisiva de minha vida
ficava irremediavelmente para trás. Minha dor não era exclusivamente egoísta,
como se poderia depreender destas palavras. Ao contrário! Chorava por ele e por
mim, e por mim apenas porque ele havia morrido.
5.
A história de meu casamento: o ponto máximo do romance! Onde são desnudados
todos os valores morais e as intrigas familiares de uma (a)típica família
europeia do pós-Primeira Guerra. Zeno apaixona-se pela filha de um comerciante,
seu sócio, e um tipo de mestre/conselheiro. A belíssima Ada, “com seus olhos
sérios numa face que chegava a ser azulada de tão nívea, emoldurada por uma
espessa cabeleira, encaracolada, embora disposta com graça e rigor”, esse
fascinante objeto de seu desejo é a paixão que marcará, a partir do
conhecimento de Ada, a postura algo fingida, algo invejosa, algo ciumenta de
Zeno. Acaba, dentre as quatro filhas do Sr. Malfenti, por assumir matrimônio
com Augusta, a estrábica. “Defeito” esse que se ressaltava constantemente ao
olhar de Zeno, que, mais por um sentimento de amor-próprio, do que
verdadeiramente por um sentimento profundo ou de admiração, teve que casar-se
com Augusta, talvez por assegurar a oportunidade de sempre contemplar Ada,
talvez por ambicionar insuflar em Ada um ciúme que, ao olhar de Zeno, o
compensaria do amor não correspondido.
6.
A mulher e a amante: da leitura do romance, esperamos algo referente à
infidelidade, principalmente pelo desejo de felicidade que Zeno cultiva e cuja
satisfação se mostra, ao final, inatingível. Esse desejo de felicidade é o
infatigável desejo de satisfação do amor-próprio de Zeno – ele conhece Carla
Greco por intermédio de um seu benfeitor. A futura amante do Sr. Cosini é uma
“pobre moça que já vinha sendo subvencionada por mim [Zeno] juntamente com
outros”, uma aspirante à cantora, que, em uma sucessão de pequenas tragédias,
nos mostra sua inaptidão para realizar seus sonhos: incompetência? Essas
pequenas tragédias são costuradas pelas linhas que Zeno vai traçando em seu
relato, fios que são ora pungentemente dramáticos, ora indiferentemente
simplórios. A jovem tenta a todo o momento recompensar os seus benfeitores com
uma postura que a torna quase caricatural:
[...]
Sua voz tinha uma suavidade especial quando falava e, com uma afetação que
acabou por se tornar natural, comprazia-se em estender as sílabas como se
quisesse acariciar os sons que conseguia produzir [...].
Durante
a visita, a Srta. Carla sorriu sem parar, talvez imaginando ter assim
conseguido estereotipar na face o sinal da gratidão. Era um sorriso forçado, o
verdadeiro aspecto da gratidão [...].
E
quando a pobre moça tenta mostrar seus “dons” que, pelo menos, esforçava-se
para afiná-los, a possibilidade do sucesso e a incidência da derrota plasmam
num mesmo instante a asperidão de seu destino:
Cantou
“A Minha Bandeira”. De meu macio sofá acompanhava o seu canto. Tinha um ardente
desejo de admirá-la. Como seria bom descobri-la dotada de talento! Ao
contrário, tive a surpresa de ouvir que sua voz, quando cantava, perdia toda a
musicalidade. O esforço adulterava-a. Carla também não sabia tocar e seu
acompanhamento estropiado tornava mais pobre ainda a pobre música. Julguei que
estivesse diante de uma escolar e analisei se pelo menos o volume de voz era
razoável. Era até abundante! Na estreiteza do ambiente meus tímpanos sofriam.
Pensei, para poder continuar a encorajá-la, que era apenas uma questão de
escola errada.
7.
História de uma sociedade comercial: falcatruas, desvios, omissões,
hipocrisia, inveja, fingimento, cinismo, imposturas, indiferença, fragilidades,
traições, laivos de um sentimentalismo que tenta convencer mas que acaba por
desmentir a possibilidade de salvação. Esse capítulo é carregado de todos (se
não mais!) esses temas e, mais uma vez, Ítalo Svevo parece criar um canal em
convergência a seu grande núcleo: a incompetência. Mas nessa incompetência,
prismática ao ponto de nos criar certa vertigem, podemos observar um nível
profundo da vida dos personagens: o seu sócio Guido, casado com Ada – sim! O
fascinante objeto de desejo de Zeno – é um desses tipinhos que tenta nos
convencer com uma postura amigável, mas propagandista de primeira linha. Se
vende através de seu discurso, tentando agradar a torto e a direito, todavia
acaba por cair na malha fina da hipocrisia e, digamos, mascara-se com o
“fingimento saudável” – saudável? Sim. Pelo menos pra ele. É quase cômico em
alguns momentos observarmos as transações que são feitas no escritório da firma
que abrem, como quando adquirem 60 toneladas de sulfato de cobre pensando terem
realizado uma transação vantajosa... O sulfato seria, no futuro, uma das
grandes dores de cabeça de Guido.
É
também nesse capítulo que adentramos em níveis mais profundos das relações da
família Cosini e Malfenti. A doença de Ada (por conta da traição de Guido? Por
descobrir-se amada por anos e anos por Zeno?); os diálogos de Zeno e Augusta
que beiram ao discernimento, mas acabam por se tornarem superficiais; a
tentativa de Zeno de salvar, num ato heroico, mas que constantemente
dispendioso, o torna quase um anti-herói; as agruras comercias que levaram
Guido quase a falência, enfim, um grande painel da vida burguesa do
pós-Primeira Guerra é costurado pelas linhas de Zeno que mesclam os desvios e
as imposturas – das menores as maiores – de uma típica sociedade que entrava em
decadência.
8.
Psicanálise: o último capítulo é o arremate de Zeno. Neste momento, depois
de revisitar toda a sua história, parece tomar consciência dos fatos e
analisa-os implacavelmente com uma apreensão tão reflexiva, que nos incomoda
por sua racionalidade. Ficamos desconfiados frente à conclusão quase filosófica
de Zeno. Curado? Mas o que seria a cura para um louco em sua razão? E a razão
assegura alguma cura? E a loucura também não carrega em seu bojo seu próprio
antídoto? O que sabemos é que a vida de Zeno “foi mais bela do que a dos assim
chamados sãos”. E num tom quase científico?/quase filosófico?/ quase
profético?! Zeno e a loucura e a razão e os vícios e as enfermidades e os
artefatos e os desvios e os artifícios e a hipocrisia e a incompetência que nos
faz entrar em contato com um nível autêntico, é, na verdade, a enfermidade que
negamos com nossa confiante e presumível segurança de homens sãos.
O
homem, porém, este animal de óculos, ao contrário, inventa artefatos alheios ao
seu corpo, e se há nobreza e valor em quem os inventa, quase sempre falta a
quem os usa. Os artefatos se compram, se vendem, se roubam e o homem se torna
cada vez mais astuto e fraco. Compreende-se mesmo que sua astúcia cresça na
proporção de sua fraqueza. Suas primeiras máquinas pareciam prolongamentos de
seu braço e só podiam ser eficazes em função de sua própria força, mas, hoje, o
artefato já não guarda nenhuma relação com seus membros. E é o artefato que
cria a moléstia por abandonar a lei que foi a criadora de tudo o que há na
Terra. A lei do mais forte desapareceu e perdemos a seleção salutar.
Precisávamos de algo melhor do que a psicanálise: sob a alei do possuidor do maior
número de artefatos é que prosperam as doenças e os enfermos.
Talvez
por meio de uma catástrofe inaudita, provocada pelos artefatos, havermos de
retornar à saúde. Quando os gases venenosos já não bastarem, um homem feito
como todos os outros, no segredo de uma câmara qualquer neste mundo, inventará
um explosível incomparável, diante do qual os explosivos de hoje serão
considerados brincadeiras inócuas. E um outro homem, também feito da mesma
forma que os outros, mas um pouco mais insano que os demais, roubará esse
explosivo e penetrará até o centro da Terra para pô-lo no ponto em que seu
efeito possa ser o máximo. Haverá uma explosão enorme que ninguém ouvirá, e a
Terra, retornando à sua forma original e nebulosa, errará pelos céus, livre dos
parasitos e das enfermidades.
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