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5 de novembro de 2014
Poemas de Léo Prudêncio

Poemas de Léo Prudêncio

Pintura a óleo de Badida Campos


após ler: sobre heróis e tumbas. de ernesto sabato

1.

é que por acaso
nascem as paixões

(e como corrói por dentro,
silenciosamente, como um câncer)

aquilo que chamas
- paixão, amor ou atração
ainda irá te levar
(cada vez mais)
para o fundo da fossa

2.

há no subterrâneo
ou em praças populares
partículas visíveis de mim

mas

feche a porta ao entrar
no meu ressinto
fique à vontade
o país não é nosso
mas a casa é minha

somos feitos
a partir
de pequenos segredos
e de minúsculos silêncios

3.

te amo tanto
que me torno cinzas
e lembranças
será eterno
-nosso amor-
enquanto as cinzas
de meu corpo
voarem


haicais

*
não é o monte everest
é um pé de siriguela
com formigas nele
*
eu sou esses passos
cansados e rasteiros que
ficaram na praia
*
solitário no galho
de árvore, o passarinho

admira o fim do dia


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4 de novembro de 2014
Estado de off

Estado de off



Meus olhos são porta-aviões perdidos no caos do oceano

Minha mente quer abarcar o mundo e sofre
Não aguenta
Não espera
Desespera
Não sinto nada a não ser a falta

E estou off

Desliguei-me para aguentar a sobrevida
Cortei os pulsos da ilusão
Assim ela não mais brandirá sua espada na minha direção

Fugi para auto-caverna
Estou em recesso do mundo
Das pessoas

As pessoas me cansam
Saturam
Encharcam

Vazei os tanques de combustível dos meus olhos
Esvaziei o oceano
Drenei-o para dentro de mim a fim de completar meu estado de off

Guardo-me
Promovo minha autoextinção
Estou off

Resta apenas a fadiga.



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21 de outubro de 2014
4 poemas de Stefanni Marion

4 poemas de Stefanni Marion


por Stefanni Marion

inventário

obstruo
os dias a dedicar-me
num auspicioso levantamento.

discos da kate nash
cadarços coloridos
bonsai de árvore da felicidade

caixas de chás marroquinos
selfies no espelho do elevador
seu telefone no ímã de geladeira.

você já não me surpreende
como quando me embebedava
com suas vodcas coloridas.

inescrupuloso vômito
instabilidade ininterrupta
indecisões imprecisas.

colocarei tudo em caixas,
é tempo de despedidas.
baby, eu não permitirei

que você volte.



pombas eletrocutadas



respiros são lares,
ardências amoniacais.
na pleura veemente e lilás,
sinto cheiro podre de morte.

há uma janela, dela vejo
pombas mortas pombas
eletrocutadas pombas
eletrocutadas, mortas
pelo fio desencapado
do poste na rua de baixo.

são tantos corpos
endurecidos em desalinho,
elas apodrecem na via
um esquadrão de micróbios
invadindo as lentas horas.

elas agora dormem
não sentem fome
não sentem dor
não sabem do risco.

nos dias que ficam
tudo é farelo, desalento.



blue boy


todos os vincos dos lençóis
mandei para a lavanderia.
meu olhar é blues agora
minhas costelas um subúrbio
ensandecido no breu da noite.

algumas pessoas são melhores
no abstrato, fora dele
são sem cor.

minha mão é canção
tudo que eu toco
se torna obsceno, mas
a dor foi o destino final.

algumas pessoas são melhores
nas estampas, fora delas
são minimalistas.

sweetie, não sonhe e volte
a tocar minha campainha
você me deixou enfurecido
não me faça rasgar sua goela
com meus dentes lascivos.



ancoradouro


é uma luz que acena
um braço distante
do outro lado da baía.

o amor da minha vida cultiva silêncios
enfeita o jardim, planeja festas e não as realiza.

tem uma cobiçosa cartola feita à mão
e uns tantos dramas e desejos guardados
em pequenas caixas de algodões envelhecidos.

não sabe ser prático
quando me visita usa máscaras
e nem sempre o reconheço.

um dia
o afeto chegou ao ancoradouro,
seduzido, de súbito mergulhou entre meus dedos.



Stefanni Marion é autor dos livros Temporário (Patuá, 2012) e Inventário (Patuá, 2014). Participou de antologias, teve poema em italiano musicado e poemas em catalão publicados na Espanha. No projeto Arte na Balada, expôs seus escritos com batom vermelho nos vidros do banheiro de uma casa noturna paulistana. É um dos organizadores e editores da antologia É que os Hussardos Chegam Hoje (Patuá, 2014), entre diversos outros pormenores planetários do universo literário.
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4 poemas de Joana Alencastro

4 poemas de Joana Alencastro



por Joana Alencastro



OURIVES


Quem já foi dono de tesouro
quanto mais toca em latão
mais reconhece o que é de ouro.

*

PASSATEMPO

Permita-me a errata
Nós não matamos o tempo
É o tempo que nos mata.

*

DESEJO


Seu desejo é uma ordem
Meu desejo é uma desordem
Meus olhos assopram           
E minhas palavras mordem.

*

FORTALEZA


Tu ergues em tua face indecifrável
Portentosa e impenetrável fortaleza
Teu olhar, muralha inquebrantável
A resguardar tua delicadeza

Abre os portões, escancara em teu semblante
Essa alma que suplica liberdade
Não tardes mais, que o efêmero instante
É a nossa única eternidade.


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17 de outubro de 2014
no image

4 poemas de Thaís Falleiros


retirado de: http://migre.me/mk2k0

por Thaís Falleiros

Livre no céu
O passarinho voa
Mal sabe ele a vida boa
Que leva lá no ar
Asas aqui em baixo
São coisas raras
Só têm aqueles
Que sabem sonhar!

______________________________

A vida é um voo
E só voa alto e bonito
Aquele que se doa
Se livra das mágoas
Das raivas pesadas
Dos egos feridos
Dos pesos antigos
E perdoa!
__________________________

“Bicho do mato”

Saudade é bicho do mato
Que morde doído
Que agarra apertado
Que arranca pedaço
Se alimenta de coração.
Saudade é bicho ligeiro
Sagaz e traiçoeiro
Se esconde no canteiro
E sem pestanejo
Ataca de supetão.
Saudade é bicho raivoso
Sempre anda sozinho
Assalta nosso ninho
Prefere andar a noite
E paquera a solidão.

________________________

Já fui lago, poça d´água
Vapor, pingo de torneira
Já sonhei ser mar, oceano
E viajar pelo mundo inteiro
Rio que dá vida aos campos
Sacia a sede dos rebanhos
Já fui enchente e até tsunami.
Mas nunca fui geleira
Pois os sentimentos aquecem
Transformam-me com tempo.
Hoje sou cachoeira!
Deixo-me levar pelo encanto
Dos pássaros e de seus cantos
Das paisagens, da natureza
Faço espuma, brinco, levanto poeira
Mas procuro ser sinfonia
Para aqueles que perto de mim
Permanecem e não me deixam.
Não quero mais a calmaria
Nem tão pouco as tempestades
Quero passar de maneira suave


E deixar saudade!
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8 de outubro de 2014
"A Cartomante" é o primeiro poema de Alex Costa para o LiteraturaBr

"A Cartomante" é o primeiro poema de Alex Costa para o LiteraturaBr






















Quando ontem me olharam e disseram
Que o mundo hoje findar-se-ia,
Ri na cara daquela pobre infeliz
Sem saber que sina triste eu teria.

Cheguei em casa. Bati na porta. Ninguém abriu.
Dei a volta para entrar pelos fundos, logo pensei:
“que milagre, o Rex ainda não latiu!”
Mas eles estavam em casa - D. Nice me garantiu.

A porta entreaberta, as roupas estendidas no varal,
A casa em fúnebre silêncio - estranhei;
Rex deitado ao lado do fogão, um osso
Que não terminou de roer. Chamei:

- Berenice, cadê você, minha nega?
E o pesar do silêncio no ar. Corri avexado à sala,
E quando fui à cortina levantar,
Foi como um tiro: três corpos sem vida,

Um mar de sangue e a Morte, toda faceira, deitada no sofá. 







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30 de setembro de 2014
2 poemas de Cristiano Rufino

2 poemas de Cristiano Rufino


por Cristiano Rufino
sexo folclórico

meus
esforços hercúleos
de malícia
obtusa
ardem mais que mercúrio
quando
encosta em medusa?

pelo sonho de ícaro
te ofereço um narciso
oh
dengosa
sereia
por teu corpo suplico
e enfrento odisseia

espalhados estamos
como numa aquarela
são gemidos estranhos
ou
onomatopeias?

és minha linda
isabella
em coito comigo
abafando os gritos
do
matinta pereira


carta aos terráqueos 2014

dedos impuros
agarrando, inseguros
soberbas apostas
em cima do muro
chupando piroca

desatento, repreendo
terra louca e depravada
vento corre em tormento
me embriago com veneno
esperando a alvorada

lunáticos terráqueos
sabem tudo e sabem nada
quase sempre obsessos
num contínuo retrocesso
alcançando tal "sucesso"
na base da porrada

a coisa aqui tá braba
é hora da debandada
componho uma canção
e parto em retirada
sem muita inspiração

para a próxima jornada...



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23 de setembro de 2014
Poema de Eduardo Ariede

Poema de Eduardo Ariede



por Eduardo Ariede

Odeio o verão e seus dias ensolarados.

Caminho pela cidade e toda sombra projeta seu contorno.
Os sons que as folhas emitem com o sopro do vento ecoam o seu nome.
O Sol escaldante refletido nas lajotas da rua lembra seu sorriso.

O suor que escorre da minha testa tem seu perfume.
O sorvete que tanto refresca tem gosto do seu corpo.
Respirar se torna a mais difícil das tarefas.

Nunca aceitei sua partida sem data para voltar.
Esse maldito hiato que só você quis.
Essa sensação de copo meio vazio que nunca me vai embora.

Essa sede de você, que nunca termina, nesse verão maldito.

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22 de setembro de 2014
A literatura e a dívida.

A literatura e a dívida.



PARTE – ME

Os americanos comeram a bolacha Maria. Os americanos comeram toda a bodega do seu Antoim. Os americanos vieram e comeram metros e metros de ferro enfiados no chão das minas gerais. Os americanos comeram o O2 da Amazônia. Os americanos comeram a caderneta liberdade onde eu depositara o meu money. 

PARTE – TI

Depois que inventaram a bomba atômica o medo nunca mais foi o mesmo.
Depois que inventaram a gordura hidrogenada as doenças vasculares nunca mais foram as mesmas.
Depois que inventaram Hollywood o tédio nunca mais foi o mesmo.
Depois que inventaram a Apple Adão e Eva nunca mais foram os mesmos.

PARTE –SE

Conta a história que certo dia um certo homem em certo lugar do mundo fez um mecanismo de ferro e tinta imprimindo em larga escala os livros da bíblia sagrada.
Desse modo as ideias de deus puderam matar no mundo todo.
Conta a história que os escribas faliram e seus braços imprestáveis até hoje estão  pedindo moedas na entrada do metrô de Tókio.
Depois surgiu o rádio.
Depois surgiu a televisão.
Depois surgiu a internet .
Depois surgiu a banda larga.
Depois surgiu a computação nas nuvens.
Depois surgiu... O que surgiu?

PARTE – FIM

Na França, depois do Luís XV, ninguém mais quis perder a cabeça por isso lá os indesejados são convidados a se retirarem.
Por isso eles querem dar um pé na bunda da Amazon.
Porém, eles inventaram o Carrefour e faliu a bodega do seu Antoim.


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9 de setembro de 2014
PEDRA DE NINGUÉM, poema de Dom Jorge

PEDRA DE NINGUÉM, poema de Dom Jorge



 por Dom Jorge

Pétala de rua no asfalto pousada:

chega-te,
criança.

Põe ao sol as sandálias de vidro
que a terra em que estás é santa.

Criança,
cobre-te mais deste sonho de rocha
- há muito chegas-te tarde
e sequer havia sobrado leite e mel -
A vida cresce
por cifras verdes de fome
mas não é culpa dos deuses.
Criança, apaga-te
com as lâmpadas da cidade pétrea

- sonhas -

e põe tua esperança
neste travesseiro de pedra

antes que dissolvido
no canto longínquo das bombas.


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