Sumi-ê, livro de estreia de Nydia Bonetti
O sumiê é
uma técnica de pintura japonesa do sec. XIV. Essa técnica possui influência
ideológica do budismo, em que a essência deve ser buscada através pelo interior
do ser. Na introdução do livro de Nydia Bonetti, lemos:
No Sumi-ê,
a expressão livre surge através da cor da tinta negra dos movimentos do pincel,
sob a inspiração do momento e não admite retoques. Há sempre uma profunda
ligação desta arte com a natureza.
A ligação
poética do livro com os elementos da natureza, além de singela, é bastante
presente. O traçado simples e rápido de Nydia Bonetti, em seu livro de estreia,
faz jus ao título Sumi-ê, editado
pela Editora Patuá (2013).
No livro, a
transitoriedade da vida humana é constatada em vários poemas, em especial no
poema abaixo, pois se nota que embora a vida seja curta, haverá sempre a
persistência da contínua existência, como também de manter a esperança sempre:
tronco
retorcido
em securas
restam
folhas
miúdas
num cacho
único
flores rosas
pendem
e
denunciam: - a vida
resiste
A poeta
utiliza-se da natureza como metáfora em sua poética. Ela encadeia semelhanças
de atos humanos com a natureza, percorrendo temas como a solidão, o
envelhecimento, a compaixão e a esperança. Nydia extrai da contemplação da
natureza os elementos temáticos de sua poética.
quero estar
só – me deixem
como aquela
temporã
no galho
mais alto
As imagens
pinceladas por Nydia trazem reflexões, que lembram as pinturas sumiês. O título
do livro foi bem escolhido, pois as temáticas dessa arte japonesa de pintura
percorrem por toda a obra. Os poemas do livro não são longos, são suaves e breves.
Mas a brevidade de seus poemas causa variados devaneios sobre o mundo que o
cerca. Por isso a necessidade de seus poemas curtos dominarem a página em
branco, daí a necessidade do silêncio e da contemplação para o aprofundamento
da leitura. Os poemas não seguem pontuação e nem são nomeados. O ritmo da
leitura quem o faz é o próprio leitor, que participa da obra ao
dar-lhe ritmo poético. A atual poesia não deve seguir rigidamente os
tratados poéticos para a versificação, o traçado do lápis de Nydia é o
guia-motor da sequência versificada. O poema inicial nos dá a pista para
entender mais um pouco o livro:
Onde a
montanha encontra a água
Nasce a flor
A água,
fonte da vida, é a fonte inspiradora da poeta. A flor, filha sensível da terra,
nada mais é do que o poema em si. Trocando em miúdos: a vida é a inspiração
para o poema. A essência da vida, ou a busca dessa essência é outro elemento
importante para a construção poética de Nydia Bonetti. O cuidado ao trabalhar
certos temas, como as reflexões sobre o tempo, são pertinentes em seus poemas.
A autora faz essas reflexões com o mesmo cuidado e precisão de um pintor de
telas:
Árvore
velha – a tua solidão sem asas
Me comove
A mesma
comoção com o passar do tempo ocorre no poema da página seguinte:
No velho
troco
O que
parece ser flor – é fungo triste
Lágrima
antiga
O
tempo não é apenas algo corrosivo, desgastante e destruidor. Ele é tematizado
com elemento de aprendizado. É importante sempre voltarmos ao conceito da
pintura sumiê, pois essa arte japonesa é ponto crucial para entender a obra.
Nessa arte japonesa, a concisão, o simbólico e a expressão do instante, são
fundamentais, como também em vários poemas do livro de Nydia, em especial os
poemas apresentados acima que tematizam a efeito do tempo. O poema abaixo
transcrito é outro exemplo de um recorte simbólico e conciso:
o
vento
so
pra
da minha mão
a
folha de papel
o
vento
só
veio
me dizer
que
ninguém está
só
Costumo
dizer que os bons poetas são aqueles que conseguem construir perfeitas imagens
na mente do leitor. Até porque as imagens descritas em poemas são essenciais
para traduzir o indizível. E são essas construções imagéticas que Nydia
“desenha” em seu livro, que transborda o Sumi-ê com belas pinturas poéticas. A escrita
é simples, porém a simplicidade das imagens e das palavras colocam os poemas em
uma elevação universal. A poeta nos lembra através de seus recortes poéticos,
que poesia se faz com elementos simples e palpáveis. O palpável é descrito nas
flores, nos galhos das árvores, nos pássaros e nos jardins. Este livro foi
escrito por uma alma sensível e deve ser lido com esse mesmo olhar e
perspectiva. O livro Sumi-ê é ainda mais, um convite para que se
contemple a vida com outros olhos, com o olhar simples e singelo que ela nos
exige:
A
calma do lago, a calma da flor na brisa
A
calma de olhar a vida
Sem
pressa


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