Re/flexão de gênero
por Fred Caju
Dentro de mim tem um caminhão de gente, “todas elas juntas num só ser”.
Caso toda essa turma fosse igual, eu não seria plural. Tudo que eu fui, ainda é
o que sou. Todas as possibilidades do vir a ser, também. É simples e não é.
Quando escrevo sem determinar o gênero do narrador para poemas ou textos
de amor, por exemplo, às vezes as pessoas caem numa ingenuidade simplicista:
homem falando para mulher. Quem garante isso, afinal? Só porque assino com nome
masculino?
É preciso desligar o automático e ficar sempre alerta. Aliás, é preciso
saber que não tem essa de automático ou natural, vivemos num mundo
ardilosamente construído por conservadores. Entre dois pontos sempre
haverá uma infinitude de possibilidades. É preciso ter cuidado com os
reducionismos.
Quando vejo alguém cantando uma música flexionando o gênero da letra,
por exemplo, me encho de vergonha alheia. Acredito que a constante prestação de
contas a essa sociedade careta deve amedrontar as pessoas que não querem ver
sua sexualidade questionada.
Escolho o gênero nos poemas por uma opção política, raramente por
impulso. Quando oculto ou neutralizo o gênero é para ampliar as
possibilidades da leitura, para que qualquer ser humano se transponha ao texto.
Ou ainda, qualquer ser com vida, fiquei sabendo que os golfinhos tão vindo com
tudo por aí.
.jpg)
0 comentários:
Enviar um comentário