Poemas de Patrícia Lino
por Patrícia Lino*
WHAT GOES AROUND COMES AROUND (POEMA ESCRITO AO SOM DE STRING QUARTET N. 2 – PARTE IV – DE MARC MELLITS)
Sei que estive na tua cozinha quando
trago a língua queimada do café
Não quero que julgues que o bebo devagar de
mais
mas é devagar que desempenho todas as coisas
ler lavar a loiça terminar o jantar agarrar-te
a mão e achá-la pequena como quem descobre o
corpo
das árvores assim que despontam num descampado.
Sei também que te disse que a minha alegria ao
ver-te
se assemelha à das crianças acenando aos pais
no parque perto de um cavalo de ferro
saltitante
escorregão qual assento alado a física de um
baloiço
e me perguntaste não mais sobre a minha alegria
mas sobre a das crianças e eu te respondi
bebido
o café que a ação das crianças não existe
caso não seja vista, e é assim connosco:
queimo a língua e tenho de comunicar-to
nem que para isso afaste os dentes e ta aponte
Pois quanta graça há na língua posta para fora
que de tão clássica, no início era tensa
e ao amaciar-se ("chegar à vida", "trazer a vida
para dentro do poema", vide a de Gilberto
Mendonça Teles) guarda o princípio no fim?
Pois quanta graça há na língua posta para fora
que de tão clássica, no início era tensa
e ao amaciar-se ("chegar à vida", "trazer a vida
para dentro do poema", vide a de Gilberto
Mendonça Teles) guarda o princípio no fim?
As palavras das crianças não valem caso não
sejam
escutadas e no entanto não há quem como a
criança
tire para fora de si mesmo um universo do
tamanho
do universo de todos. Não sei amar-te senão
assim
e, agora, que faço com esta língua, queimada
vinda
da tua cozinha, enrolada no teu café? Sei que
te disse
que reuníamos todas as condições para um
retrato
particular: eu de cabeça pousada no teu peito
tu de mãos guardando a minha cabeça vertida
e a falta de um gato que viesse intrometer-se
entre os nossos colos. Sei que vim para fora de
tua
casa quando o cheiro da rua não se sobrepõe ao
cheiro
que tem a tua nuca. Soubesse eu guardar-te nos
olhos
como a esta fraqueza no estômago. Bach
nos headphones,
uma senhora que diz a outra que o vizinho lhe
sujou o tapete
novíssimo e adolescentes preparando-se para as
difíceis
escolhas do Carnaval. Mas Carnaval é entrar no
quarto onde
não estás, ter para mim que não te vejo há dois
séculos
e que me doem os lábios por isso. Justamente
por isso.
Apenas por isso, como se no quarto houvesse um
cão
para mos morder. E nem sequer há. Sempre
preferi peixes.
O que resta é voltar. Sei que te disse que
voltava
Não te zangues se me atrasar. Tenho o hábito de
rezar
ao começo do teu bairro. Não sei porém para
quem reze
se olhe para cima se olhe para baixo; talvez se
fechasse
os olhos ver-te-ia suspensa como a um santo.
Mas ia lá
eu amar um santo. Consola-me esta prece
indizível.
Saio depois para fora do elevador como se
tombasse.
Essa gigantesca cambalhota.
Não me importa a localização do teu prédio
nem
quanto a tua porta pese. Que música – que
música –
é a que toca no hall? String Quartet n. 2 (Part IV)?
A que cheira a sopa no fogão? Com que
livros
adormeceste ontem? Leste os “Três Mal Amados”
como te pedi que fizesses? Não me importa.
A casa é o desenho geométrico onde
repousares
a cabeça. A circunferência que demarca o
espaço
de dentro onde repousas a tua cabeça, e o
espaço
de fora onde eu espero que a tua cabeça acorde.
§
BILHETE À MODA DE ANA C.
Entrego-te um bilhete e rezo para que
nunca tenhas lido Ana Cristina Cesar.
I just can't
write about us making love
and when the
poem disappear we disappear too:
"Minha filha. Não é estigmatismo. Juro.
Não vejo o poema. Ou melhor vejo-o
indefinido com o auxílio dos meus óculos.
Quantos bons poemas se suicidaram
por uma mulher?
Enfio a carapuça.
E canto."
Se te dissesse que estou para morrer não tarda
caso soubesse dançar como dançam os suicidas
and believe
me they dance like everybody
se colhesse talvez as flores a pousares na minha nuca
tu me respondesses com outro bilhete.
Mas não disse. Não dancei. Nem colhi.
A falta tremenda do bilhete não resultou
do roubo sonoro de Ana C. detetado por ti
ou de um vírus no teu e-mail. Tomava chá
quando percebi isto. O bilhete nunca chegou.
A falta tremenda do bilhete.
No tea for two.
§
Olho constrangida o rosto improvável do poema
É tarde e não há como escrever sobre as tuas ancas
As tuas mãos terminam no meu peito
E a dúvida mora no quarto onde não sei se te beijo
ou se cavo um pomar entre os teus joelhos
Que a linha curva do meu colo seja
o limite do espaço onde vens para cair
*Patrícia Lino, 1990, é licenciada em Línguas, Literaturas e Culturas pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes pela mesma instituição. É organizadora e colaboradora de várias iniciativas culturais. Vive e trabalha no Porto.



0 comentários:
Enviar um comentário