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25 de abril de 2014
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Poema de Patrícia Lino

RELATO DESESPERADO DE CARLOS ANTÓNIO EM DEZ PARTES

I

Posta a cabeça no céu, sem roupa
o que te dizia de olhos abertos
no meio do alcatrão tão feio
como a flor de Carlos mais feio
ainda que a náusea

– Tudo o que planto é de um amor urgente

O que depois te dizia de cabelos soltos
posta a cabeça no teu ombro, sem roupa
no meio do quarto ao som de Joy
Division por entre o ventre e o baixo

– Amo-te fora e dentro da casa

II

Depois das nuvens
àquela hora da cidade
o que havia de mais pós-punk
eram as tuas calcinhas rosa
no alto do canapé

– Como assim
preferes New Order?

III

Por quantas estações amei
a tua blusa no estendal
o álcool da tua saliva
nos meus dentes irregulares
e as beatas nos sapatos
antecipando manhãs inteiras
de testa no teu peito nervoso

– Que vontade de morrer na tua cabeça
– Queres ser minha namorada?

IV

A possibilidade de escrever
sobre porquinhos-da-índia
foi barrada pela morte do hamster
da minha namorada
além de que a minha namorada era tudo
menos um porquinho-da-índia
Assim tive que escolher
ou a minha namorada
ou a tradição literária

“E ainda se dizia um poeta menor!”
“Não foi” – “Foi” – “Não foi”

Escolhi a minha namorada
1. Porque a minha namorada dançava melhor
(Smoke gets into your eyes, Fred Astaire, etc)
2. Porque a dor da tradição não é nada
perto da dor de coração
Qualquer palerma sabe isso

V

Esqueci-me não queria mas esqueci-me
de como eram as tuas ancas
que canção me deste em outubro
que poema te li em novembro
não sei se te lembras
da tarde nos jardins onde não te toquei
de como não sabia escrever-te em hexâmetro
dactílico e de que forma se abriam os teus olhos
quando à palma da tua mão eu ajustava os meus dedos

Quantas vezes dirás o meu nome se o dizes
com que jeito em que tom

Pedes coca-cola ou ice tea
com que dedo chamas o garçom

Em quais cigarros me queres agora
se deitei o meu nome à tua boca
e estou ainda à espera que o digas

Porque eriçámos os cabelos dos deuses
ao carregarmos a grande tontura das ideias
na saúde e na doença
de espada e alfinete
em alegrias e vendavais
por cima de terras e pais

VI

Enorme era a vocação que tinham os nossos olhos
para tropeçar na intimidade dos astros
como se no Génesis repara
os homens não nomeassem mais as coisas
por estarem demasiado ocupados a vislumbrá-las

….............................................................................
….............................................................................

Freude trinken all Wesen            Alegria bebem-na todos os Seres
An der Brüsten der Natur           Do peito da Natureza,
Alle Guten alle Bösen                Bons e Maus,
Folgen ihrer Rosenspur              Seguem o seu traço de Rosas

….............................................................................
….............................................................................

VII

Enquanto eu lia Platão
a minha namorada preferia Simone de Beauvoir
e se eu tentasse falar sobre la force des cho...
a minha namorada beauvoava para outra divisão

Ou riscava
as minhas edições Gallimard

VIII

A costura do teu vestido
na curva do limoeiro dava ao gato o pretexto
com que esqueci as aves, a mãe e o prato

– Este é o hábito do gume cristalizado
Escuta:

IX

The angry lady in the library
is the same angry lady in my house
is she breaking my heart for fun?
so why she does sleep with her lips on mine?

Tentei formar uma banda
com o Carlos, o Manuel e a Teresa
        A worried man quartet
mas a minha namorada não gostava
de jazz


E riscava
as minhas edições Gallimard

X

Tu-es-un-poulet
tu-es-un-poulet

(Escrito a capitais, p. 49, Deleuze
vermelho, canto superior direito
como quem diz quase como quem diz
sou eu a cortar-te a cabeça
e tu a continuares a levar-me nos pés)

Carlos António
Tu-es-un-poulet
tu-es-un-poulet
Carlos António

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14 de março de 2014
Poemas de Patrícia Lino

Poemas de Patrícia Lino

por Patrícia Lino*

WHAT GOES AROUND COMES AROUND (POEMA ESCRITO AO SOM DE STRING QUARTET N. 2 – PARTE IV – DE MARC MELLITS)

Sei que estive na tua cozinha quando 
trago a língua queimada do café
Não quero que julgues que o bebo devagar de mais
mas é devagar que desempenho todas as coisas
ler lavar a loiça terminar o jantar agarrar-te
a mão e achá-la pequena como quem descobre o corpo
das árvores assim que despontam num descampado.
Sei também que te disse que a minha alegria ao ver-te
se assemelha à das crianças acenando aos pais
no parque perto de um cavalo de ferro saltitante
escorregão qual assento alado a física de um baloiço
e me perguntaste não mais sobre a minha alegria
mas sobre a das crianças e eu te respondi bebido 
o café que a ação das crianças não existe
caso não seja vista, e é assim connosco:
queimo a língua e tenho de comunicar-to
nem que para isso afaste os dentes e ta aponte
Pois quanta graça há na língua posta para fora
que de tão clássica, no início era tensa
e ao amaciar-se ("chegar à vida", "trazer a vida
para dentro do poema", vide a de Gilberto
Mendonça Teles) guarda o princípio no fim?

As palavras das crianças não valem caso não sejam 
escutadas e no entanto não há quem como a criança
tire para fora de si mesmo um universo do tamanho
do universo de todos. Não sei amar-te senão assim
e, agora, que faço com esta língua, queimada vinda 
da tua cozinha, enrolada no teu café? Sei que te disse
que reuníamos todas as condições para um retrato
particular: eu de cabeça pousada no teu peito
tu de mãos guardando a minha cabeça vertida
e a falta de um gato que viesse intrometer-se
entre os nossos colos. Sei que vim para fora de tua 
casa quando o cheiro da rua não se sobrepõe ao cheiro
que tem a tua nuca. Soubesse eu guardar-te nos olhos
como a esta fraqueza no estômago. Bach nos headphones,
uma senhora que diz a outra que o vizinho lhe sujou o tapete 
novíssimo e adolescentes preparando-se para as difíceis 
escolhas do Carnaval. Mas Carnaval é entrar no quarto onde 
não estás, ter para mim que não te vejo há dois séculos 
e que me doem os lábios por isso. Justamente por isso. 
Apenas por isso, como se no quarto houvesse um cão 
para mos morder. E nem sequer há. Sempre preferi peixes.

O que resta é voltar. Sei que te disse que voltava
Não te zangues se me atrasar. Tenho o hábito de rezar
ao começo do teu bairro. Não sei porém para quem reze
se olhe para cima se olhe para baixo; talvez se fechasse
os olhos ver-te-ia suspensa como a um santo. Mas ia lá
eu amar um santo. Consola-me esta prece indizível. 
Saio depois para fora do elevador como se tombasse. 
Essa gigantesca cambalhota. 
Não me importa a localização do teu prédio nem 
quanto a tua porta pese. Que música – que música –
é a que toca no hall? String Quartet n. 2 (Part IV)? 
A que cheira a sopa no fogão? Com que livros 
adormeceste ontem? Leste os “Três Mal Amados”
como te pedi que fizesses? Não me importa.
A casa é o desenho geométrico onde repousares 
a cabeça. A circunferência que demarca o espaço 
de dentro onde repousas a tua cabeça, e o espaço 
de fora onde eu espero que a tua cabeça acorde.


§


BILHETE À MODA DE ANA C.

Entrego-te um bilhete e rezo para que
nunca tenhas lido Ana Cristina Cesar.
I just can't write about us making love
and when the poem disappear we disappear too:

"Minha filha. Não é estigmatismo. Juro.
Não vejo o poema. Ou melhor vejo-o
indefinido com o auxílio dos meus óculos.

Quantos bons poemas se suicidaram
por uma mulher?

Enfio a carapuça.
E canto."

Se te dissesse que estou para morrer não tarda
caso soubesse dançar como dançam os suicidas
and believe me they dance like everybody
se colhesse talvez as flores a pousares na minha nuca
tu me respondesses com outro bilhete.
Mas não disse. Não dancei. Nem colhi.

A falta tremenda do bilhete não resultou
do roubo sonoro de Ana C. detetado por ti
ou de um vírus no teu e-mail. Tomava chá
quando percebi isto. O bilhete nunca chegou.
A falta tremenda do bilhete.

No tea for two.

§



Olho constrangida o rosto improvável do poema
É tarde e não há como escrever sobre as tuas ancas


  




As tuas mãos terminam no meu peito
E a dúvida mora no quarto onde não sei se te beijo
ou se cavo um pomar entre os teus joelhos




Que a linha curva do meu colo seja
o limite do espaço onde vens para cair



*Patrícia Lino, 1990, é licenciada em Línguas, Literaturas e Culturas pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes pela mesma instituição. É organizadora e colaboradora de várias iniciativas culturais. Vive e trabalha no Porto.

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