Um livro desmontável, por Miguel Sanches Neto
Diz a lenda que o vampiro é um
morto que sai de seu túmulo para sugar o sangue dos vivos. Tendo em vista o
livro O Vampiro de Curitiba (1965 – 11ª. edição, 1991), seria
correto pensar que o túmulo é a solidão e o sangue, o fugaz orgasmo. A danação
deste vampiro é de ordem erótica. Em Nosferatu, Herzog doa ao ato
de sugar uma conotação sexual explícita. É a sedução de Lucy Harker que prende
e aniquila o vampiro. Nosso conde Nelsinho não tem um estatuto aterrorizador
como os seus parentes e está vinculado a uma imagem patética. Funciona, antes
de mais nada, como uma paródia da imagem do Vampiro veiculada pelo cinema.
Trata-se da desconstrução de um mito da cultura de massa através da apropriação
e deformação de atributos.
O livro abre com uma espécie de profissão de
fé, em que o herói revela a sua maldição: é obcecado pelas fêmeas. As mulheres
são a sua danação: “Elas fizeram o que sou”. Este primeiro texto é uma
caracterização do herói, uma poética do vampirismo em Dalton Trevisan. Abrindo
um livro que se quer como novela, esta primeira parte funciona como uma
apresentação do herói. Não há descrições detalhadas do personagem, nem a
revelação, em terceira pessoa, de sua personalidade. É o próprio conde, vagando
pelas ruas de Curitiba, enlouquecido pelas mulheres, que se revela ao revelar
sua tara. Diríamos que é este discurso fixo que compõe o seu caráter.
Depois da apresentação, iniciam-se as
aventuras (ou desventuras) do nosso conde. A primeira delas (“Incidente na
loja”) se estrutura em uma sequência de perseguição e assalto. O herói, em
horário de almoço, segue uma empregadinha do comércio, invade a loja onde ela
trabalha sozinha e comete o ato. Nesse momento inicial, ele é o devorador. Vive
um papel ativo de sujeito que, sem piedade, ataca a vítima e foge.
Temos, como imagem invertida deste episódio
inaugurador da trajetória do protagonista, o último texto, que fecha o livro
com uma imagem oposta do conde. No desenrolar das estórias, percebe-se o quanto
ele é atormentado pelo desejo insaciável. Este desejo é sua prisão perpétua e a
maldição que recai sobre ele, pois, como diz, não espera nem na velhice o
sossego. O derradeiro relato, “Noite da paixão”, põe em cena o encontro, numa
sexta-feira santa, com a última das prostitutas. A história dialoga com o próprio
evento bíblico da crucificação de Cristo. Nelsinho encontra na igreja uma
meretriz, a quem chama de Madalena, e com ela vai a um hotelzinho. Toda a
relação acontece dentro de um ritual religioso, onde há passagens como as
seguintes: “Terei de beber, ó Senhor, deste cálice” e “Tome e coma, eis o meu
corpo”, diz ele, respectivamente, quando percebe que a mulher é banguela e
quando resolve se entregar a ela.
Ao descobrir a hediondez da prostituta, o
herói se sente em perigo e tenta recuar, mas já é tarde. Agora terá que ir até
o fim. É ela, numa inversão de papéis, que tenta morder (ainda lhe restam os
caninos) o pescoço do vampiro. Depois de relutar um pouco, diante da situação
incontornável, ele se deixa crucificar sob o corpo fétido. A esponja de fel que
recebe é o beijo longo na boca, consumação do ato sacrificial: “Em cheio a
ventosa obscena, ó esponja imunda de vinagre e fel. Está consumado” (p.106).
Devorado, Nelsinho passa de sujeito a objeto,
dizendo: “Fui inocente, meu pai” (p.107). O percurso do herói vai de ativo a
passivo, de carrasco a vítima, de devorador a devorado, de perseguidor a
perseguido. Esta trajetória que une dois pontos de uma relação tem muitas
implicações na personalidade do protagonista.
A imagem do vampiro se funda na necessidade do
outro. Ele só pode viver graças à sua vítima. No fundo, há uma dependência bem
acentuada, que caracteriza Nelsinho como um “doente da paixão”. Seu apetite
sexual é insaciável e o obriga a viver em constante sobressalto. Dalton
constrói uma figura que transita por dois papéis, uma espécie de
violentador-violentado. Tal duplicidade instaura no texto um clima de comédia,
e o vampiro se torna a imagem de um fantasma que é, a um só tempo, instrumento
de uma cultura falocrática e vítima dela. Sem o seu poder de vilão, de figura
do mal, como geralmente é visto o tarado, o nosso conde, que traz a fragilidade
até no nome (o diminutivo não é gratuito), não consegue ocupar o seu lugar. É
revelador o episódio em que, depois de transar na cama do pai, Nelsinho diz: “Poxa,
sou mais homem do que meu pai” (p.61). Exercer a masculinidade máxima,
transcendendo a potência paterna, é o desejo deste dócil taradinho, entregue à
sua pantomima de vampiro decaído.
Atormentado pela paixão carnal, pois fora
programado somente para ela, o herói se dilacera com a sua necessidade de caçar
o outro. Sua vida é esta busca constante: “Por que são precisos dois, ó meu
Deus, para fazer o amor?”. Só lhe resta culpar o outro por sua perdição. Esta
dependência é o seu grande tormento. Além de devorar a vítima e ser devorado
por ela, há ainda um estágio mais dramático desse processo, a autodevoração. O
desejo incandescente devora as entranhas de Nelsinho. Em última instância, ele
é apenas uma vítima querendo desempenhar um papel ativo que já não lhe cabe.
Dessa forma, o novo vampiro é uma figura que
perdeu o seu foro de malignidade e que vive, entre nós, acorrentado a um
destino implacável. Estamos muito mais predispostos a amá-lo do que a odiá-lo.
Assim como o Fantasma de Canterville (de Oscar Wilde), este vampiro é um
monstro que já não nos assusta, apenas causa comoção. Sem descanso, sem poder
dormir, este vivente de uma Curitiba mítica continuará a sua eterna ronda.
O drama de Nelsinho é ser um sujeito
fragmentado, à procura de uma outra parte não encontrável. Num nível paralelo a
este existe a problemática da definição de um tipo de forma que desemboca numa
outra camada de significação do texto. O Vampiro de Curitiba é apresentado como novela. E pode ser
lido como tal porque existe a continuidade de certo comportamento em relação à
busca do outro. No entanto, não podemos ignorar que este volume é um livro
desmontável. Cada unidade tem autonomia em relação às outras. As ações não
ultrapassam as fronteiras que as separam. Apenas o herói e sua tara servem como
elementos aglutinadores destas narrativas. O livro permite, pois, a
desmontagem. Ou, dizendo de uma maneira mais direta, ele se deixa ler como um
livro de contos.
Logo, é possível concluir que a fragmentação
textual se correlaciona com a própria fragmentação do sujeito. Cada história
reitera, na impossibilidade de transcendência de seus eventos, a própria
carência de completude do sujeito vampírico, que não consegue encontrar um
outro que o salve. As histórias não têm continuidade na novela assim como as
relações de Nelsinho são momentâneas. Sua condição insaciável de vampiro vem da
impossibilidade de um encontro duradouro. Se ele vive a busca interminável do
outro, isso significa, numa leitura espelhada, que ele foge do outro, pois não
se liga a ninguém. Neste caso, amar o outro como um sujeito seria matar o
vampiro.
O volume guarda outra possibilidade de
interpretação que não pode continuar ignorada. O herói é sua tara. E
vice-versa. Nelsinho aparece como menor envolvido num caso de violação, como
jovem atrás da professora primária no Rio, como advogado sedutor, como pequeno
e explorado funcionário etc. Em “Encontro com Elisa”, o conde está numa outra
cidade, provavelmente próxima da capital. Estas várias aparições do vampiro não
se dão em ordem cronológica, o que reforça a condição fragmentada do volume.
Numa leitura ingênua, tomaríamos isso como um mero embaralhar aleatório dos
episódios de uma vida. Mas, numa obra-prima (e este é incontestavelmente o caso
do livro em questão) nada é gratuito, mesmo que não tenha sido fruto das
intenções do autor. O acaso também faz a obra, enchendo de significados
virtuais as entrelinhas. É neste sítio que o crítico deve cavar.
A pergunta que se impõe é: por que Dalton evitou
a linearidade? Ou: um nome e uma tara podem constituir um indivíduo
particularizado? O que proponho é que tomemos o vampiro não como um EU
singular, mas como um atributo, como uma persona que representa uma coletividade.
Nelsinho seria vários, funcionando como protótipo do tarado de província que
professa valores defasados. Suas ações não são só suas e o nome aqui é um
rótulo que busca abarcar um tipo. Os nomes na ficção de Trevisan são sempre
máscaras vazias ajustáveis a várias faces. Há uma pista disso na poética que
serve como introdução: “No fundo de cada filho de família dorme um vampiro”
(p.10). Entidade transpessoal, o conde Nelsinho tem um parentesco com o
Fantasma de Canterville que, símbolo de uma sociedade antiquada (a Europa do
tempo de Wilde), já não consegue mais assustar a família americana (oriunda de
um universo moderno) que adquire a mansão assombrada. O vampiro caracteriza um
tipo ultrapassado que, diante de nossos olhos, só pode ser risível e enternecedor.
Por
Miguel
Sanches Neto
NOTA
O texto Um livro desmontável foi publicado primeiramente no jornal A gazeta do povo, em 28 de julho de 1994 e disponibilizado no site Herdando uma biblioteca, do escritor Miguel Sanches Neto. A republicação no LiteraturaBr faz parte de um acordo entre esses dois veículos.

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