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19 de novembro de 2012

Cem anos de dor e sofrimento, por Sergio Filho




            por Sérgio Filho

Em todo esse ano de 2012 a Paraíba comemora o centenário da mais singular obra poética da literatura brasileira: o livro de poemas Eu, de Augusto dos Anjos. Lançado com esse título em 1912 e a ele somado um adendo em edições posteriores passou-se a intitular-se Eu e outras poesias. Porém, algumas editoras, como a Editora Armazém da Cultura, preferem publicar a obra do autor paraibano com o seu nome inicial. A poesia que encontramos no Eu é uma transfiguração estética do perfil biográfico de Augusto.

O poeta Augusto veio ao mundo já dentro de uma atmosfera de decadência, como ele mesmo diz em um de seus versos mais famosos: “Sofro, desde a epigênesis da infância.” Seu pai, Alexandre dos Anjos, era dono de engenho no período de declínio desse modo de produção. E é com seu genitor, homem dado à intelectualidade, que o futuro poeta tomaria gosto pela arte literária, filosofia e latim.

Tanto seu pai quanto sua mãe, Córdula dos Anjos, eram conservadores. Consta que certa vez Augusto apaixonara-se por uma moça pobre, chamada Maria, que dele engravidou. Sabendo do ocorrido, os pais, repressores, ordenaram matar a inocente mulher juntamente com a criança que nasceria. Esse episódio marcou profundamente a visão do poeta sobre a vida, passou a ver a dor e o sofrimento como fatores essenciais para viver:

“Dor, saúde dos seres que se fanam, / Riqueza da alma, psíquico tesouro, (...) / És suprema! Os meus átomos se ufanam de pertencer-te oh! Dor, ancoradouro dos desgraçados, sol do cérebro, (...) / Minha maior ventura é estar de posse / de tuas claridades absolutas!”

O incidente com Maria está em forma de alegoria no soneto A árvore da serra, no qual Augusto dialoga com seu pai, que determina cortarem a tal árvore, pois: “– As árvores, meu filho, não têm alma!”, ao que o interlocutor clementemente pede “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”, “Esta árvore, meu pai, possui minha’lma...”. Como no poema, Augusto “triste se abraçou com o tronco /E nunca mais se levantou da terra!”, deixando morta também a semente da qual geraria sua descendência.


Porém, em 1910, o poeta casa-se com Éster Fialho, com quem teve três filhos, o primeiro, natimorto, em 1911; em 1912, nasce glória, a quem dedica o Eu; e no ano seguinte nasce Guilherme. Mas o “efeito Maria” deixaria fortes sequelas em Augusto a ponto de dizer que jamais voltaria a “amar mulher alguma”.

Como em A árvore da serra, o poema O morcego permite interpretações alegóricas quando associado a um possível caso de incesto que o poeta haveria estabelecido com a irmã Francisca dos Anjos, a Iaiá triste e solitária da família. Dessa relação incestuosa Augusto teria sofrido a implacável e inevitável cobrança de sua consciência: “A Consciência Humana é este morcego!/Por mais que a gente faça, à noite, ele entra/Imperceptivelmente em nosso quarto!”.

Desde os tempos do Liceu paraibano que Augusto dos Anjos era visto pelos demais como um ser desafortunado, sobre isso escreve seu o amigo Órris Soares: “Foi magro meu desventurado amigo, de magreza esquálida – faces reentrantes, olhos fundos, olheiras violáceas e testa descalvada. A boca fazia a catadura crescer de sofrimento, por contraste do olhar doente de tristura, e nos lábios uma crispação de demônio torturado”.

“A que escola se filiou?”, pergunta Órris Soares. A poesia de Augusto dos Anjos é na verdade um caleidoscópio estético; muitos são os estudiosos que se debruçam sobre a obra do paraibano, e munidos de argumentos exegéticos enquadram-no nesta ou naquela escola literária. As leituras de sua lírica vão desde o Barroco ao Pré-modernismo.


Na época do lançamento do Eu, foram poucos os críticos a reconhecerem a envergadura que os poemas da obra alcançariam. Gilberto Amado foi um dos que conseguiu visionar a poética do paraibano: “Começa um movimento de imitação a um rapaz histérico de extraordinário talento misantropo, Augusto dos Anjos.” Já o “príncipe dos poetas”, Olavo Bilac, enojado pela estética de Augusto, felicitou-se quando da morte deste.

Não apenas a imagem de Augusto como poeta maior orgulha todo o povo paraibano, mas seus versos, que mesclam o erudito da poesia simbolista e o popular da variedade linguística da região, são declamados tanto por acadêmicos quanto pela gente simples e profunda conhecedora da lírica anjosiana.

Mesmo execrado pelos parnasianos e ignorado pelos modernistas de 22, a lírica lúgubre de dos Anjos sobreviveu com fôlego total a toda e qualquer opressão literária.

O pobre Augusto dos Anjos viveu enfermo da alma e morreu com pneumonia aos 30 anos, em 12 de novembro de 1914 na cidade de Leopoldina, em Minas Gerais. Lá descansa embaixo do Tamarindo, plantado da semente do mesmo e generoso Tamarindo que por anos acolheu as bilhões de vezes que o poeta chorou.




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1 comentários:

  1. fiz uma poesia com o nome: a fome e o amor. como forma de homenagear esse genial escritor
    é simplória mas o que vale é a intenção, postei em 12 de novembro aniversário de seu nascimento, o que eu mais gosto em Augusto é a liberdade de estilo em seus poemas não se prendia a nada, a escolas, a estilos... talvez por isso o nome do livro seja eu
    fiel somente a si mesmo

    visite o blog: http://poesiatuttifrutti.blogspot.com.br/

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