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17 de fevereiro de 2014
O som no cinema: imagens que vibram

O som no cinema: imagens que vibram


por Romário Nunes*

A música suplementa a atmosfera cinematográfica desde os primeiros filmes. Nas apresentações no cinématographe Lumière, o som de piano acompanhava as projeções ao vivo, desempenhando assim, um ritmo. Talvez por isso, muitos contestem a noção de Cinema Mudo, já que o som sempre permaneceu junto às imagens, fortalecendo a dramaticidade das cenas. 

A invenção do telefone sem fio por Landell de Moura em 1904, contribuiu para muitos cientistas pensarem na possibilidade de unir em definitivo as imagens fabricadas aos sons produzidos. Mas mesmo antes do telefone, o Fonógrafo, aparelho que Thomas Edison desenvolveu em 1878 para gravar e reproduzir o som, já alçava voos a fim de captar e emitir sensações através das ondas sonoras. Posteriormente, Edison elabora outra máquina, o Kinetoscope, que tinha a função de sincronizar as imagens da câmera ao som do Fonógrafo.

Com o Kinetoscope, Edison pôde fixar o som à película, que mesmo com uma má qualidade, foi determinante para prover os filmes de diálogos. Portanto, o cinema proporcionou o elemento sonoro em relação ao dispositivo imagético, condicionando o espectador a direcionar não somente sua visão, mas também sua audição para a tela.

Para entendermos o porquê da vontade de obter filmes sonoros, temos como exemplo o filme Berlin: sinfonia de uma cidade (1927). Este filme de Walther Ruttmann, apesar de gravado de forma silenciosa, é emblemático para pensarmos a composição sonora na máquina cinematográfica. As imagens mostram o acordar e o anoitecer da cidade de Berlin, contudo, o tom do filme é outro quando assistido acompanhado de uma partitura musical. A dramaticidade causada pelo dispositivo de áudio desloca o espectador do acento para a tela, envolvendo-o com as imagens de forma mais intensa.

Ruttmann experimentava o uso do som de várias formas. Em 1930, lança uma produção totalmente sonora, ou seja, sem imagens. Intitulado Fim de semana, esta produção aponta para a forma narrativa que o som pode gerar. A gravação surpreende pela linha narrativa e, mesmo sem ver o que se passa, nos coloca como espectadores de acontecimentos que se postam de forma sucessiva.

Outro marco na história do cinema sonoro foi o filme The jazz singer (1927) de Alan Crosland. Este musical surpreendeu a todos pela introdução de pequenas falas ao longo da narrativa. Para sua exibição, foi utilizado um sistema de sonorização através do Vitaphone, outro aparelho que sincronizava com mais qualidade a projeção a um disco que dispunha da trilha sonora. Este filme foi primordial para consolidar de vez a presença do áudio em sincronia com a imagem.

 2001: uma odisseia no espaço (1968), de Stanley Kubrick, contribui para refletirmos sobre a concepção do som na imagem. O filme se inicia com uma sinfonia com o plano da tela escuro. Kubrick introduz um tempo em que o som impera, e cria novas possibilidades com relação ao uso da trilha sonora, incorporando assim, outro sistema de narrar através do que captamos com nossos ouvidos na sala de cinema.

A matéria sonora cria ambientes, espaços outros, que revigoram uma narrativa cinematográfica. Hoje, a forma audiovisual ganhou força, e move-se com grande movimento, reverberando em outras linguagens como a videoinstalação, determinando para novas construções artísticas que, de certa forma, dialogam com o cinema. A junção do som à imagem trouxe possibilidades diversas à narrativa cinematográfica, e como uma arte híbrida, o cinema soube usar este elemento e incorporá-lo de modo significativo. 



*Graduado em letras/inglês pela Universidade Estadual do Ceará, têm experiência no ensino de língua inglesa em cursos de idiomas. Atualmente é mestrando em Literatura Comparada do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Ceará, e é estudante do curso de realização em audiovisual da escola Vila das Artes na cidade de Fortaleza – CE. 


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3 de fevereiro de 2014
Um toque de pecado: além da violência e da moral

Um toque de pecado: além da violência e da moral



por Luciana Sousa

Coberta de orvalho
a aldeia faz-me lembrar
um cemitério
Ryuta IIda (1920)

Tomate no asfalto. Um crime prenuncia outro crime. De quem é a culpa? Na velha e nova China de Mao, parece imperar a lei do Oeste: progresso e corrupção. Sob o imperativo da ordem, forja-se um crescimento desigual que em nada difere do mundo ocidental capitalista. Há luto e castigo. A verdade, em maior ou menor grau, não vem das notícias de jornal ou da Internet; antes, ela vem da arte, em toda sua pujante ancestralidade.

Assim é Um toque de pecado (China, 2013), do diretor Jia Zhang-Ke, vencedor do prêmio de melhor roteiro em Cannes, 2013. No filme, homens e mulheres comuns são levados a tomar atitudes extremas (salvo o primeiro personagem que abre a história e reaparece na segunda narrativa), motivados pelo senso de justiça. Valendo-se de uma técnica já conhecida na Antiguidade como estrutura em anel, as histórias se conectam por temas comuns, ainda que lhes sejam dados tratamentos distintos. A primeira e a última, por exemplo, trazem cenas de reconhecimento de seus protagonistas pela via do espetáculo cênico.

A composição, em cada história, lembra o teatro kabuki[1], dada a maquiagem carregada e os atos dançados, cantados e narrados. Nas duas situações, os atores do espetáculo tradicional representam na vila onde vivem os operários de uma mina. A fala deles expressa exatamente o que, naquele momento, aqueles personagens da primeira e da última história precisam ouvir.

Em uma das representações, o ator diz: “O juiz pode mudar de opinião, mas você sabe de quem é a culpa.” A personagem em questão assiste a um julgamento fictício e está fugindo (ou pensa estar) de um passado que a condena: o primeiro crime foi relacionar-se com um homem casado durante anos, a certa altura ele propõe que ambos vivam juntos e a convida para seguir com ele para outra cidade. Na sala de embarque, é detectado um objeto suspeito na bagagem dele: um canivete, segundo ele, para cortar frutas. Ela decide ficar e pede o canivete, para que ele embarque sem mais problemas.


Depois de levar uma surra da esposa, que descobre seu envolvimento com o marido, vai tentar vida nova junto da mãe em outro povoado, onde vê a notícia de que o trem no qual deixou de embarcar sofreu um grave acidente, deixando vários mortos, entre eles, possivelmente, seu amante. De volta ao antigo emprego, comete o segundo crime: matar um cliente no local de trabalho, após ser insistentemente humilhada e ofendida. A cena evoca clássicos do cinema chinês, tanto pelos movimentos de câmera, quanto pelo já demonstrado derramamento de sangue.  No hotel de pernoite, que é também casa de massagem e sauna, onde ela trabalha, todos têm um preço, e quem se recusa está sujeito a pagar um valor ainda mais alto. Ela se dispõe. Valendo-se do canivete que livrou sua vida de um acidente fatal, desfere os golpes que levam à morte o homem que a ofendeu com a cor do dinheiro. Mas é outra a cor que ela traz nas mãos... 

Para além do sangue que por vezes espirra da tela, há beleza e notas de delicadeza em cada uma das quatro histórias. Em outra referência clássica, além do papel de parede da abertura, que reproduz uma pintura tradicional chinesa (séc. XVII/XVIII, circa), o simbolismo animal é uma constante e delineia algumas sequências: um cavalo é fustigado até cair, mas será, aos olhos de um espectador catártico, devidamente vingado; o tigre da manta encobre o rifle do homem que fará justiça com as próprias mãos; o touro repousa no gorro do assaltante que se entedia na própria vila e sente prazer em atirar; os bois e búfalos que seguem para o abate numa carroceria e outros que pastam na estrada com seu olhar lânguido e sem pressa; os peixes-palhaço, guardados num saco com água, são devolvidos para o rio ou represa; a serpente que cruza o caminho da mulher que mata com arma branca, antes acolhida por uma linda jovem guardiã de serpentes. Só o jovem que devolve para as águas os peixes aprisionados, ao lado da namorada e colega de trabalho, mãe de uma filha pequena, atenta contra a própria vida. Não disposto a arcar com o “mal” praticado a outro colega de trabalho em emprego anterior – o jovem teve o dedo cortado por distração durante o expediente, sendo aquele apontado como o responsável – vai tentar a sorte em outras vilas, conhecendo a fachada de figurões chineses e estrangeiros que vão buscar prazer ao lado de belas e jovens acompanhantes, entre elas a jovem que guardava os peixes e se apresenta budista. Ele acaba voltando para o trabalho massivo e massificante em outra fábrica, até ser ameaçado por aquele a quem, por acidente, causou um sofrimento e, por fraqueza, acabou reagindo contra si mesmo. Num ato supremo de negação, renuncia a própria vida, pondo fim ao sofrimento e ao sofredor. 



Só há sofrimento, não
         há sofredor.
Não há agente, só há
                            o ato.
O Nirvana é, mas não
Aquele ou aquela que o
                           procura.
O caminho existe, mas
não aquele ou aquela que
nele anda.
(Visuddhi Magga, 16)

Tanta beleza e tanto horror. Séculos de uma rica tradição gravada na arte mural, marcial, na porcelana, na argila, na música, na poesia, na xilogravura, na medicina, na religião, na filosofia. No entanto, com Nietzsche podemos dizer: “Quanto sangue e quanto horror há no fundo de todas as ‘coisas boas’!...” (2009:47). O que parece bom para alguns, sob um custo, muitas vezes, inestimável, provoca o mal-estar e a desconfiança de outros. Reclama-se a palavra empenhada, promessas não cumpridas, sonhos desfeitos. Exige-se reparação. A tensão máxima dessas forças é traduzida na primeira narrativa, a do minerador furioso que se revolta contra a corrupção dos líderes do seu povoado. Ele só queria justiça. Em nome dela foi espancado e dispensado do emprego. Antes, tentara pelas vias legais, propusera o diálogo, mas acabou se tornando uma pedra no sapato. Ameaçado, teve de engolir a seco sua reclamação. Quiseram comprar seu silêncio. Um dia não pôde mais, até explodir num banho de sangue anunciado nas primeiras cenas do filme: uma carga de tomates maduros espalhada no asfalto. O gigante tombou; em sua queda, maximizou-se a violência, sob as mais distintas formas, como retrata o diretor chinês. 

Encerrando esta breve reflexão que não se pretende (e está longe de sê-lo) uma crítica cinematográfica, retomamos a questão inicial aqui levantada: de quem é a culpa? A resposta, mais uma vez, é sinalizada por Nietzsche. Ele alude, em Genealogia da moral: uma polêmica[2], à mais antiga e primordial relação pessoal para explicar a origem do sentimento de culpa, da obrigação pessoal: a relação entre comprador e vendedor, credor e devedor. Segundo ele, é possível situar aí “o primeiro impulso do orgulho humano” e a suposta primazia perante os outros animais. Por isso funciona, e bem, o totemismo no filme aqui comentado. No parágrafo 8 da já referida Segunda Dissertação, o filósofo acrescenta:

O homem [Mensch, em alemão] designava-se como “ser que mede valores, valora e mede, como o “animal avaliador”. Comprar e vender, juntamente com seu aparato tecnológico, são mais velhos inclusive do que os começos de qualquer forma de organização social ou aliança: foi apenas a partir da forma mais rudimentar de direito pessoal que o germinante sentimento de troca, contrato, débito [Schuld], direito, obrigação, compensação, foi transposto para os mais toscos e incipientes complexos sociais ( em sua relação com complexos semelhantes), simultaneamente ao hábito de comprar, medir, calcular um poder e outro. O olho estava posicionado nessa perspectiva, e com a rude coerência peculiar ao pensamento da mais antiga humanidade, pensamento difícil de mover-se, mas inexorável no caminho escolhido, logo se chegou à grande generalização: “cada coisa tem seu preço; tudo pode ser pago” – o mais velho e ingênuo cânon moral da justiça, o começo de toda “bondade”, toda “equidade”, toda “boa vontade”, toda “objetividade” que existe  na terra. Nesse primeiro estágio, justiça é a boa vontade, entre homens de poder aproximadamente igual, de acomodar-se entre si, de “entender-se” mediante um compromisso – e, com relação aos de menor poder, forçá-los a um compromisso entre si. (2009:54-55)

É o que nos parece fazer cada um dos quatro personagens de quatro províncias da China contemporânea. Cada um, a sua maneira, assume um caráter, e um totem, escrevendo, de um jeito diverso, o próprio destino. 


[1] Gênero japonês do século XVII
[2] NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução, notas e posfácio Paulo César de Souza. – São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 


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28 de janeiro de 2014
Das boot

Das boot



O filme se inicia.

O som de um sonar submarino apita... é o som da derrota alemã.

“La Rochelle, França. Outono de 1941. A alardeada frota de submarinos alemães com a qual Hitler esperava vencer a Inglaterra começa a sofrer seus primeiros revezes. Os cargueiros ingleses agora avançam pelo Atlântico com contratorpedeiros-escolta mais fortes e eficientes causando muitas baixas nos submarinos alemães. Todavia, o Alto Comando alemão envia mais e mais submarino com tripulações cada vez mais jovens do porto da França. A Alemanha perde a batalha pelo controle do Atlântico. 40.000 marinheiros alemães serviram na II Guerra Mundial. 30.000 não retornaram”.

Nos instantes iniciais, somos informados sobre o desfecho do filme, contudo, não se trata da previsibilidade da narrativa que devemos nos ater, mas sim como um capitão de um submarino U-96 comandou sua tripulação em confronto com os ingleses na Batalha do Atlântico do Norte, durante a Segunda Guerra Mundial, em 1941, sobrevivendo psicologicamente pouco a pouco.

Um filme para poucos, Das Boot é extremamente longo e não aborda especificamente a guerra com bombas, granadas, tiros, decapitações, cidades devastadas, corpos jogados ao chão e gritos de socorro. Em Das Boot, a paciência e o estado consciente da tripulação são primordiais, pois a luta pela sobrevivência é em uma guerra psicológica. Os gritos ouvidos são outros: permissão pra passar, permissão pra subir, abram os tanques, lançar torpedo, fechem as portas, submergir rápido, ALAAAARM.

Atualmente, Das Boot é ainda referência para os amantes do cinema, assim, acredito ser pertinente descrever algumas características crucias do filme para entender o porquê de tal fenômeno. Primeiramente, o ambiente em que foi filmado: um submarino. O diretor Wolfgang Petersen (Troia, 2004) preocupou-se rigorosamente sobre como seriam as filmagens. Tendo em suas mãos dois submarinos 100% originais, utilizou um deles para cenas externas e outro para cenas internas, no estúdio. Logo, percebe-se o grande trabalho de toda a equipe que foi filmar dentro de um submarino real, um local onde seria quase impossível ser filmado. Imagine só as proezas que o diretor de fotografia, Jost Vacano, deve ter feito para filmar em tal espaço. Um ambiente que para nós se torna, em vários momentos, claustrofóbico, agoniante, nauseante e até mesmo entediante. Percebemos também como houve a preocupação com a movimentação das câmeras, como a tripulação se movia de um lado para o outro, lentamente, para que fosse possível transformar tal experiência tão real como se estivéssemos assistindo a um documentário sobre submarinos.

O correspondente de guerra Tenente Werner talvez seja a tentativa de representar ao público, em um mundo não experienciado, um novo ambiente que estamos prestes a conhecer. Suas expressões, seus pensamentos e suas anotações talvez sejam o reflexo da nossa surpresa acerca desse estilo de vida sujo, úmido e claustrofóbico.

O refeitório dos oficiais é tão apertado que um membro da tripulação deve dizer: “permissão pra passar, senhor”, enquanto um deles se levanta para que o acesso seja possível. Apenas um banheiro sujo e apertado para 50 homens. Um dormitório para 12 suboficiais tem que ser alternado entre turnos; “Quando o cara volta, dorme com o fedor do outro”, diz um dos oficiais ao apresentar o submarino para o correspondente. Desta forma, o privilégio de uma cama própria será apenas para nós e o tenente Werner.

Não se pode deixar de comentar a presença de cenas tediosas que são mostradas, no entanto, sem perder seu real significado, que seria a triste realidade em que eles se encontram. Como em uma cena em que um dos tripulantes escreve cartas e cartas para sua noiva mesmo sabendo que nada conspira a seu favor na situação em que ele se encontra.


Wolfgang de alguma forma soube como diminuir a tensão com cenas cômicas; enquanto a tripulação se diverte comendo e dançando, um oficial entra no dormitório aos gritos: “PAREM COM ESSE BARULHO”, nos dando uma sensação de tensão e na expectativa que irá dizer algo de ruim, o mesmo diz: “Tenho más notícias... Nosso time está perdendo... 5 x 0... sem chances de ir para as finais”, fazendo com que os marinheiros se revoltem. Tal cena tem o poder de demonstrar como ainda é possível se encontrar fora da inútil guerra que os rodeiam e como a condição humana vai além do simples fato de querer matar inimigos e conseguir ficar vivo. Provavelmente, essa poderia ter sido a última notícia boa de suas vidas.

Possivelmente, uma das cenas mais marcantes do filme é o momento em que o submarino afunda após uma sequência de bombardeio e, como consequência disso, uma inundação que começa a preencher e apavorar a tripulação. Drama e tensão. No entanto, no submarino havia um indivíduo que em qualquer circunstância se encontraria calmo, esse era o Capitão Lehmann, o qual se preocupava apenas em gritar: “Quero relatório dos danos, eu quero relatórios”, enquanto toda tripulação com água entre os joelhos corria loucamente de um lado para outro para consertar tudo que estava danificado.

Talvez a principal característica à qual o diretor refletiu e soube trabalhar de forma brilhante foi não se prender a questões nacionalistas. Diferente de outros diretores, não buscou demonstrar a superioridade e patriotismo de seu país. Não buscou demonstrar vitórias conquistadas ou heroísmo nos respectivos personagens. Podemos ver em diversas situações como seus soldados não foram consumidos pelo fanatismo nazista ou até mesmo afirmar que não são, pois o fanatismo de raça superior mostrada em outros filmes por parte dos nazistas não é tão vigoroso aqui. Como em uma cena em que o capitão ao mandar um de seus oficiais por um disco inglês diz: “um simples disco não vai fazer de você um inglês”, fazendo com que todos ao redor riam. O reconhecimento da superioridade dos ingleses é visto em diversos momentos no filme quando alguém diz que o inimigo pode vencê-los a qualquer hora.

Por sua longa duração e seu grande sucesso na época, três versões foram lançadas. Em 1981, foi lançada nos cinemas sua primeira versão de 149 minutos. Em 1985, foi exibido na TV alemã em forma de minissérie dividida em seis partes, com um total de 293 minutos; existem também informações de que essa versão foi dividida em três partes de 100 minutos cada. Em 1996, o diretor remontou o material no que ficou conhecido como a “Versão do Diretor”, de 209 minutos.

Curiosidade
Hans-Joaquim Krug, o então primeiro oficial do submarino U-219, e Heinrich Lehmann-Willenbrock, capitão do U-96 real, prestaram consultoria para a elaboração do filme.

Premiações
Recebeu seis indicações ao Oscar de 1983, nas categorias:
Melhor direção (Wolfgang Petersen); Melhor fotografia (Jost Vacano); Melhor Edição de Som (Mike Le Mare); Melhor Montagem (Hannes Nikel); Melhor Mixagem de Som (Milan Bor, Trevor Pyke e Mike Le Mare) e Melhor Roteiro Adaptado (Wolfgang Petersen), mas não venceu em nenhuma.

Elenco:
Jürgen Prochnow – Cap. Lt. Henrich Lehmann-Willenbrock
Herbert Grönemeyer – Lt. Werner – Correspondente
Klaus Wennemann – Chefe Engenheiro

Erwin Leder - Johann
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13 de janeiro de 2014
O alvorecer do cinema

O alvorecer do cinema


O cinema surgiu no fim do século XIX sem grandes pretensões. Os principais inventores da película, os irmãos Lumière, foram os primeiros franceses a criar uma máquina que pudesse captar a imagem em movimento. Procurados por um ilusionista chamado George Méliès, os irmãos disseram que o cinematógrafo era uma máquina de cunho científico, e que não poderiam comercializar o equipamento.

No entanto, a magia do cinema causou espanto e curiosidade para quem teve a oportunidade de ver um curto filme, em que foi mostrada a chegada de um trem em uma estação. Os boatos que se seguiram é que a plateia que acompanhou a projeção imaginou que aquele trem seria de verdade. Logo, um imaginário fantástico se criou em torno do cinema.

O ilusionista George Méliès foi quem utilizou bastante o cinema para representar seus truques de mágica. Depois que ele conheceu a invenção dos Lumière, apropriou-se da máquina cinematográfica para desenvolver experiências de cortes, criando os primeiros efeitos especiais. Nos filmes de Méliès, a ficção reinventa os paradigmas do cinema, pois os filmes poderiam servir não apenas para registrar um período histórico de determinada sociedade, mas contar uma narrativa, incluindo elementos diversos que dariam uma nova roupagem ao cinema.

A narrativa cinematográfica aos poucos foi ganhando legitimidade, e em um período de pouco mais de uma década, vários cineastas surgiram na Inglaterra e nos Estados Unidos, que aperfeiçoaram esta nova ferramenta artística. O estadunidense David W. Griffith foi quem observou que a imagem em movimento, para ganhar status de arte, deveria reproduzir um formato mais linear e narrativo, logo, Griffith utilizou as técnicas do texto literário de Charles Dickens para introduzir filmes que contassem uma história através de um enredo similar à literatura. Com o sucesso de seus filmes, dentre os quais se destaca O nascimento de uma nação (1910), o cinema empreendeu grande evolução nos anos seguintes.

Em 2014, o cinema completará 119 anos de história. Aquela invenção oriunda da sociedade da belle-époque revigorou-se ao longo do século de sua existência e, hoje, faz parte do imaginário de cinéfilos em todo o mundo. Os primeiros filmes foram os primeiros ensaios que apresentaram a dimensão de uma arte híbrida, inventiva e surpreendente. O cinema reproduziu e reproduz durante toda a sua história, ideologias, sentidos, e construções de diferentes sociedades, e como tudo que se faz pela mão do homem, é capaz de conscientizar ou manipular a nossa imaginação.



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21 de outubro de 2013
O terceiro homem, o escritor pobre, e a Guerra Fria

O terceiro homem, o escritor pobre, e a Guerra Fria


O Terceiro Homem
 é um filme dirigido por Carol Reed, com Orson Welles e Joseph Cotten nos principais papéis. Estreado em 1949, foi produzido por Alexander Korda.

Korda convidou o autor inglês Graham Greene para criar um argumento para um filme. O argumento foi criado, o escritor aceitou a colaboração de outros intervenientes na película, como a do diretor Carol Reed ou a do ator Orson Welles, e o filme foi um sucesso. O livro surge depois do filme. No prefácio da obra, o escritor inglês nascido em 1904 explica parte do processo criativo:

Suponho que a maior parte dos romancistas traz nas suas cabeças ou blocos de apontamentos as primeiras ideias para histórias que nunca chegam a ser escritas. Por vezes lembramo-nos delas passados muitos anos e pensamos com pesar que deveriam ter sido boas, num tempo agora morto. Há anos, nas costas de um sobrescrito, escrevi um parágrafo de abertura: “Despedira-me de Harry havia uma semana quando o seu caixão foi descido no solo gelado de fevereiro, e foi portanto com incredulidade que […]”

Quem estava incrédulo era Rollo Martins. Mas, para saber a razão dessa incredulidade, o leitor deste artigo deverá ler o livro, ou ver o filme! Se fizer ambos, descobrirá alguns pormenores que não coincidem. Mas personagens principais, história, espírito e mensagem são os mesmos.

O enredo desenvolve-se na Áustria, após a Segunda Guerra Mundial, numa «lúgubre e destruída cidade de Viena dividida em zonas pelas Quatro Potências: a zona russa, a britânica, a americana e a francesa».

Rollo Martins é um cidadão britânico que chega à capital austríaca a convite do seu amigo de longa data Harry Lime. Mas logo lhe anunciam a morte do antigo companheiro de escola, atropelado por um automóvel. Ainda a tempo do funeral, Rollo Martins despede-se de Lime com emoção e lágrimas. Depois de ouvir a história do acidente, Martins resolve iniciar uma investigação por conta própria. Não está convencido da veracidade da história que lhe contam e que, entre outros pormenores, implicam a presença de dois homens no local do atropelamento. E tem razão para as suas desconfianças. Cedo descobre que havia um terceiro homem.

Narrado por Calloway, um polícia da Scotland Yard a quem Martins diz que os polícias «são vigaristas ou estúpidos», O Terceiro Homem é um romance policial que não choca leitores habituais, nem desilude quem se inicia no prazer da leitura.

O romance é construído sobre uma linha de que muito pouco se afasta. Martins tenta a todo o custo descobrir quem é o terceiro homem presente no atropelamento e provar que em lugar de acidente há crime. Uma das poucas ocasiões em que o autor conduz Rollo Martins para outros ambientes, mas mesmo assim com um sequestro e muito suspense, resulta num momento verdadeiramente hilariante, quase que num intervalo para descontração, com uma cena de humor que, como muitas outras em diversas situações, explora o mal-entendido, a parecença, a confusão. É preciso que se diga que «a ocupação habitual de Rollo Martins era escrever westerns baratos, que assinava com o nome de Buck Dexter». A partir do apelido com que assina os seus livros, Dexter, Rollo Martins começa por assegurar uma semana de alojamento e comida. O seu interlocutor, Crabbin, pensa que se trata de Benjamim Dexter. Mais tarde, Rollo Martins é obrigado a comparecer numa conferência em que às questões colocadas responde com uma aparente arrogância, que mais não é do que a face visível da sua ignorância.

A primeira pergunta escapou a Martins, mas felizmente Crabbin respondeu satisfatoriamente. Uma mulher de chapéu castanho com um pedaço de pele à volta da garganta perguntou com interesse apaixonado:
 Posso perguntar a Mr. Dexter se ele está ocupado com outra obra?

 Oh, sim, sim …

 Posso saber o título?

 O Terceiro Homem  disse Martins, ganhando nova confiança por ter vencido aquele obstáculo.

 Mr. Dexter, pode dizer-nos qual foi o autor que mais o influenciou?

Martins, sem pensar, disse:
 Grey.  referia-se, claro, ao autor de Cavaleiros da Saga Vermelha, e ficou satisfeito por verificar que a sua resposta tinha provocado a satisfação geral, exceto para um velho austríaco, que perguntou:

 Grey. Qual Grey? Não conheço.

Martins sentia-se agora seguro e disse:
 Zane Grey… Não conheço outro.

A colónia inglesa riu à socapa e Crabbin correu em auxílio dos austríacos.
 Isto é uma brincadeira de Mr.Dexter. Ele referia-se ao poeta Gray […]

−  E chama-se Zane Grey?

 Essa foi a brincadeira de Mr. Dexter. Zane Grey escreveu aquilo que chamamos westerns […]

 E James Joyce, onde colocaria James Joyce, Mr. Dexter?

 Que quer dizer com «colocaria»? Não quero colocar ninguém em lugar nenhum  respondeu Martins. […] agora tinha a impressão injusta de que o estavam a gozar. Zane Grey era um dos seus heróis, e raios o levassem se ia aturar mais disparates.

 Quer dizer que o colocaria entre os grandes?

 Se querem saber nunca ouvi falar dele. Que é que ele escreveu?

Não se apercebeu de que estava a causar uma enorme impressão. Só um grande escritor poderia mostrar-se tão arrogante e original.

Depois de assinar os livros de Benjamim Dexter, Rollo Martins prossegue a sua saga na tentativa de encontrar os culpados pelo estranho acidente que teria vitimado o seu amigo Harry Lime.

Rollo Martins estava numa Viena que, por aqueles tempos, era uma cidade com algumas carências e propícia a traficantes. As negociatas proliferavam. Se algumas não interferiam na saúde da população, já outras eram mantidas por gente criminosa completamente indiferente a valores tão sagrados como a vida. Como consequência da sua investigação, Martins descobriu que o tráfico de penicilina trouxe os grandes especuladores criminosos que «viram ali muito dinheiro».


A guerra e a paz (se se pode chamar paz) tinham feito surgir um grande número de negócios escuros, mas nenhum tão obscuro e vil como este. Os traficantes do mercado negro de géneros alimentares, pelo menos, forneciam alimentos e o mesmo se aplicava a todos os outros traficantes que forneciam artigos a preços extravagantes. Mas o mercado negro da penicilina era um caso muito diferente. A penicilina na Áustria era fornecida só aos hospitais militares; nem os médicos civis, nem mesmo os hospitais civis, conseguiam obtê-la por meios legais. A princípio, esta traficância era inofensiva. A penicilina era roubada por militares e vendida a preços muito altos a médicos austríacos […]. Poder-se-ia dizer que esta era uma forma de distribuição, embora injusta, porque só beneficiava os doentes ricos, mas já a distribuição original também não era justa.

Numa segunda fase, surgiram os grandes especuladores e os ladrões passaram a estar sob a sua alçada.

A terceira parte começou quando os organizadores decidiram que os lucros não eram suficientes. Não seria sempre impossível conseguir legitimamente a penicilina; eles queriam dinheiro mais rapidamente e em maior quantidade enquanto isso era possível. Começaram a misturar a penicilina com água colorida, e, quando a penicilina era em pó, misturavam-na com pó ou areia. […]
E a utilização de areia numa ferida que requer penicilina, bem, não é lá muito saudável. Já muitos homens perderam pernas e braços dessa maneira  e também as vidas. Mas talvez o mais horrível seja visitar o hospital para crianças. Compraram alguma desta penicilina para usar contra a meningite. Algumas crianças morreram e outras enlouqueceram.

Rollo Martins estava agora mais embrenhado do que nunca nas suas pesquisas para desvendar o mistério. Tinha agora quase a certeza de que o desaparecimento de Harry Lime, que «ocupava uma posição importante numa organização de assistência social», estaria ligado ao tráfico de penicilina. E não se enganou. Martins veio a descobrir a surpreendente identidade do terceiro homem.

Pelo meio, a namorada de Harry Lime, Anna Schmidt, é levada pela Patrulha Internacional, numa cena rocambolesca que mistura agentes das quatro potências.

Subiram as escadas e o russo tentou abrir a porta de Anna. Estava bem trancada, mas ele abriu-a com o ombro, sem dar à ocupante oportunidade para a abrir. Anna estava na cama […].
Há um pouco de comédia nestas situações quando não se está envolvido. […] O russo recusou-se a sair do quarto enquanto Anna se vestia; o inglês recusou-se a ficar lá; o americano não quis deixar uma rapariga desprotegida com um soldado russo, e o francês, bem, o francês, penso que o francês achou tudo divertido. Conseguem imaginar a cena? O russo a cumprir o seu dever, observando constantemente a rapariga sem um olhar de interesse sexual; o americano, cavalheirescamente virado de costas, mas consciente […] de cada movimento; o francês a fumar o seu cigarro e a observar com ar divertidamente desprendido a rapariga que se vestia frente ao espelho do guarda-fato; e o inglês estava especado à entrada sem saber o que fazer a seguir.

Rollo Martins acaba por se encontrar com o tão esperado terceiro homem. O encontro tem lugar num «arruinado parque de diversões». O terceiro homem «soube gratificar a mulher encarregada da Roda, de maneira que ficassem com um carro só para eles». Lá em cima, o leitor de O Terceiro Homem verá o Danúbio e as desgraças de quem reduz seres humanos a pequenos pontos sem rosto.

O Terceiro Homem termina com Rollo Martins a caminhar lado a lado com Anna Schmidt, com uma última nota de humor, que recorda a confusão que o nome Dexter originou, e, na última frase, com um desabafo.

Acho que ele não trocou com ela uma única palavra: era como o fim de uma história, exceto que antes de se afastarem da minha vista a mão dela pousava no braço dele, que é como geralmente começa uma história.

Ele era um pobre observador de personalidades, mas tinha cá um jeito para westerns […]! E Crabbin? Oh, Crabbin ainda está a discutir com a embaixada britânica sobre as despesas de Dexter. Eles dizem que não podem autorizar pagamentos simultâneos em Estocolmo e Viena. Pobre Crabbin. E, pensando bem, pobres de nós!



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