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30 de setembro de 2014
CARTA A JULIO CORTÁZAR

CARTA A JULIO CORTÁZAR




por Marco Aqueiva
98% extrato cortaziano(*)

Mestre, naquela época, não sei se já lhe disse, aconteceu-me de um coelho insultar-me os antepassados e descendência quando enfiei a mão no bolso para pegar as chaves e indignei-me porque saiu um espelho, precisamente esse instrumento que me traz aqui nesta Casa das Rosas hoje, 25 de setembro de 2014, ao soarem 19 horas. Que seja pouco mais ou menos a certeza dos acontecimentos, junto a essas batidas artificiais do tempo, entre a extrema certeza da razão e a esperança precária que damos à imaginação é que lhe falo agora.

Sim, naquela época, final dos anos oitenta, imerso nos sonhos amplos da adolescência, de algum modo, mal intuía que o mundo pode viver muito bem sem literatura e que poderia viver melhor ainda sem o ser humano. Sim, sem saber quem nos curaria do fogo surdo, do fogo sem cor que corre, saindo dos metros quadrados que ocupamos diariamente, desde o asfalto pegajoso que se chama mundo pela manhã até o ar falto do fim de tarde imundo, saturado de sangue dócil ainda que insubmisso, sem meio tijolo, tijolos inteiros empilhando uma satisfação canina, de que tudo esteja em seu lugar, a mesma mulher ao lado, os mesmos sapatos e o mesmo sabor da mesma pasta de dentes, a mesma tristeza de quem aperta entre os dedos uma colherinha e sente seu latejar metálico.

Naquela época, sim, saiu-me um coelhinho da garganta, insultando-me as certezas, como a da própria existência de si mesmo coelhinho branco, carregando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar em seu latejar infrene que se estende metálico entre o hábito que se vai enchendo de si mesmo quando ainda mal percebemos que estamos numa ordem fechada e sem saída e esse novo pedaço frágil e precário de nós mesmos que se chama acaso e é limite de outra coisa que só se conhece a partir do sonho e se manifesta numa manhã de primavera, como a deste dia, quando deslizamos entre o asco da notícia do telejornal  e uma outra ordem, acaso tímida, sugerida, que se desenha junto a um trevo macio, envolve-o desde o focinho e então ergue as orelhas, olha-nos fundo como se se desprendesse o horizonte do vasto oceano. Céus, duas orelhas em riste, plantadas e madurando por um tempo, seja lá um mês seja até um take, uma tomada mínima de perspectiva, nesga para o outro lado, horizonte. Até que o coelhinho branco é descoberto pela piscicultura e revela-se com toda a verdade um corpinho rosado, translúcido, de hábitos aquáticos, que é a larva conhecida como axolote. E esta mesma larva, fantasma ou máscara é cultivada por uma estranha família que vê neles axolotes os tigres de que carecem.

Pousam os tigres agora. Ouçam! Ouvido na coxa. Zeus. Dioniso. Arimã imbolando Putin-Obama-Israel-Isis. Ovidio entre a mais estreita identificação de Yin e Yang.




Entre o Yin e o Yang, quantos eones? Do sim ao não, quantos haverá? Tudo é escritura, ou seja, fábula. Mas para que nos serve a verdade que tranquiliza o honesto proprietário? A nossa verdade possível tem de ser invenção, ou seja, literatura, pintura, escultura, agricultura, piscicultura, todas as turas deste mundo. Os valores, turas, a santidade, uma tura, a sociedade, uma tura, o amor, pura tura, a beleza, tura das turas. Num dos seus livros, Morelli fala do napolitano que passou anos sentado à porta de sua casa, olhando um parafuso no chão. De noite, pegava-o e guardava-o debaixo do colchão. O parafuso foi primeiro uma simples piada, uma gozação, uma irritação comunal, reunião de vizinhos, sinal de violação dos direitos cívicos e, finalmente, um encolher de ombros, a paz, o parafuso foi a paz, ninguém podia passar pela rua sem olhar de soslaio para o parafuso e sentir que ele era a paz. O cara morreu de uma síncope e o parafuso desapareceu assim que os vizinhos chegaram. Um deles o guardou, talvez o olhe em segredo e o estude por todos os lados, voltando a guardá-lo e indo para a fábrica, sentindo algo que não compreende, uma obscura reprovação. Só se acalma quando tira o parafuso do seu esconderijo e o olha, fica olhando até ouvir passos e ser obrigado a escondê-lo rapidamente. Morelli pensava que o parafuso devia ser outra coisa, um deus ou algo assim. Solução demasiadamente fácil. Talvez o erro tenha sido aceitar que esse objeto fosse um parafuso, tão somente por ter a forma de um parafuso. Picasso pega um automóvel de brinquedo e o converte no queixo de um cinocéfalo. É bem possível que o napolitano fosse um idiota, mas também pode ter sido o inventor de um mundo. Do parafuso a um olho, de um olho a uma estrela... Por que entregar-se ao Grande Costume? É possível escolher a tura, a invenção, ou seja, o parafuso ou o automóvel de brinquedo. 


[1] Este texto que foi costurado, sintagma a sintagma, a partir de citações apropriadas de textos de Julio Cortázar foi lido na Quinta Poética (69a edição), na Casa das Rosas, em 25 de setembro, com curadoria  de Paulo Ortiz. Carta a Julio Cortázar é uma das intervenções previstas no projeto “Nos próprios pelos”,  contemplado pelo ProAC 2013 – Criação Literária-Prosa.
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3 de julho de 2014
Poetizando São Paulo, o universo dos saraus ( Por Isadora Vitti )

Poetizando São Paulo, o universo dos saraus ( Por Isadora Vitti )

Já disse Charles Bukowski que um bom poema pode fazer uma mente despedaçada voar. E não foi só ele. Fernando Pessoa, Machado de Assis, Clarice Lispector… São vários os escritores que escreveram sobre a arte e a satisfação de fazer poesia. Mesmo assim, às vezes ela parece distante, presente apenas em livros antigos ou em ares bucólicos, como os de Alberto Caeiro. Poesia na caótica e turbulenta São Paulo? Impossível! Para desmitificar esse pensamento geral e provar que a cidade é muito mais poética do que se pode imaginar, o Blog da Jota visitou 4 saraus de poesia. É hora de tirar aquele seu poema empoeirado da gaveta!

Casa do Poeta Lampião de Gás
O sarau Casa do Poeta Lampião de Gás é o mais antigo de São Paulo. Foto: Isadora Vitti
 O Sarau da Casa do Poeta Lampião de Gás” é o mais antigo de São Paulo e um dos primeiros da América Latina. Foi criado em 1948, pela poetisa paulistana Colombina, mais conhecida como a “Poeta do Amor”. No começo as reuniões eram em sua própria casa, mas ao longo desses 66 anos de existência o sarau já mudou várias vezes de local. Atualmente ocorre no 2º andar da Associação Paulista de Imprensa(API), na Liberdade. O lugar é pequeno, mas bem confortável. A parede cheia de quadros e o piano no canto da sala contribuem para criar um ambiente bonito e acolhedor. Três a quatro integrantes compõem a mesa e chamam um a um os poetas, fazendo uma breve apresentação sobre eles. Há pouquíssimos jovens, o clima é descontraído e todos se conhecem pelo nome. Há espaço para versos de outros escritores, música e cantoria. Até os que nunca declamaram um poema são convidados a perder o medo e participar. As poesias em sua maioria falam de amor, saudade, infância, sobre Colombina e a Casa do Poeta. Mas qualquer tema é bem vindo. Até Neymar e aCopa do Mundo foram alvos de rimas! E se tiver esquecido os poemas, você pode recitar os do Jornal Fanal, o mais antigo jornal de poesia das Américas. Ele é publicado mensalmente pela Casa, e além de fotos e calendário dos aniversariantes do mês, contém também vários poemas para o caso de dar aquele “branco”.Onde: Rua Álvares Machado, 22- Liberdade Quando: Todas as 1ª e 3ª terças do mês

Sarau do Burro
No Sarau do Burro os jovens sentam em roda como em uma conversa. Foto: Divulgação

Em uma famosa galeria da Vila Madalena, vários jovens se reúnem para declamar poesia. É o Sarau do Burro, fundado em 2009 e maestrado pelo poeta Daniel Minchoni. Os jovens recitam sentados no chão, em roda, como em uma conversa. Um tema emenda o outro e não há problema em errar o verso ou esquecer a estrofe. O clima é animado, todos os jovens eufóricos com a poesia. Há vários poemas de engajamento politico e social, que trazem à tona as diversas mazelas da sociedade, como racismo e desigualdade social, mas também outros temas como amor, sexo e casamento. Tudo bem variado e imprevisível, depende de onde o diálogo poético levar. Onde: Rua Harmonia, nº 95- Vila Madalena. Galeria A7MA Quando: Primeira terça do mês, às 20hs.

Casa das Rosas
A Casa das Rosas possui tipos de recitais e saraus para todos os públicos. Foto: Isadora Vitti

E não tem como falar de poesia sem falar na Casa das Rosas. A Casa das Rosas foi inaugurada como espaço de arte e cultura em 1991, com o nome de “Mansão Casa das Rosas- Galeria Estadual de Arte”. Somente em 2004, modificou-se para “Espaço Haroldo Campo de Poesia e Literatura”. Ao longo de sua jornada poética, ela cada vez mais se diversifica: “O público é bastante variado”-diz o supervisor cultural da Casa, Daniel Moreira- “Recebemos cerca de 10 mil pessoas por mês, 60% nos finais de semana. Mas os números variam muito de acordo com o evento”. Para abranger todos os públicos, a Casa têm diferentes tipos de recitais e saraus. Os recitais são fechados e as pessoas que se apresentarão são definidas previamente. No recital “O que é poesia?”, que acontece mensalmente, um convidado bate papo sobre sua relação com a poesia. Em maio o convidado foi Sérgio Vaz, um dos curadores da Cooperifa. Os saraus são abertos e qualquer um pode se inscrever. A Casa também organiza saraus infantis e para o público mais jovem, misturando rock, rap, tudo bem diversificado. Porém, 3 são fixos. Dentre eles está o “A plenos pulmões”, que acontece mensalmente com a curadoria de Marcos Pezão, e engloba todos os tipos de público. Além disse, ele também contempla aliteratura periférica, que vêm crescendo e expandindo cada vez mais o movimento poético. “Atualmente há cerca de 100 saraus por mês na cidade”, diz Daniel. Além dos espetáculos, a Casa também ofereceexposições variadas sobre poesia e cultura, palestras e oficinas.

Sarau do Binho
No Sarau do Binho não valorizam apenas a contemplação da poesia, mas a reflexão e a ação a partir dela. Foto: Divulgação

Por último, um dos saraus mais conhecidos da cidade de São Paulo. Até 2012, ele acontecia no Bar do Binho, no Campo Limpo, até que a prefeitura fechou o estabelecimento por falta de alvará de funcionamento e impôs uma multa de R$8.000 O caso teve grande repercussão e para sanar as dívidas e dar continuidade ao sarau, foi criado um projeto no Catarse, que recebeu apoio e mobilização coletiva, conseguindo o dinheiro necessário para pagar a multa. O Sarau do Binho é um importante meio de contestação social, não só por mostrar a força e riqueza dos movimentos culturais da periferia, mas também como forma de reivindicação- a poesia pela luta e pela mudança. É como disse Binho em entrevista para o blog Balaio Cultural, em 2012: “O sarau também pedeações. Não é só poesia pela contemplação. A nossa poesia pede um reflexão mas pede também uma ação a partir daí.” Juntamente com outros saraus periféricos como o Cooperifa, Sarau da Brasa e Elo da Corrente, o Sarau do Binho marcou presença na 40ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, que aconteceu de 24 de abril a 12 de maio. Ao todo, foram 16 coletivos e mais de 100 que se apresentaram no stand reservado aos brasileiros. Atualmente o sarau acontece no Espaço Clariô de Teatro, em Taboão da Serra e também em bibliotecas e praças públicas da cidade.

Poema em exposição na Casa das Rosas. Foto: Isadora Vitti
E se existe amor em SP, isso a gente não sabe. Mas, poesia? Essa com certeza existe! E ai, já pegou o seu bloquinho?

Isadora Vitti vittidora@95@gmail.com



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