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13 de agosto de 2014
Pequena nota de leitura sobre: Arcanos Maiores e a Valsa Leve – Alessandra Bessa

Pequena nota de leitura sobre: Arcanos Maiores e a Valsa Leve – Alessandra Bessa



A estreia literária de Alessandra Bessa se deu com a publicação do livro Arcanos maiores e a Valsa Leve (Penalux, 2014). Conheço a poeta há alguns anos e sempre acompanhei a produção poética dela, percebi ainda cedo a inclinação da autora em ser uma captadora de sentidos, como assim? A poesia de Alessandra se dá a partir do sentir do mundo. Em todo a obra percebe-se um eu-lírico que me propõe a traduzir o sentimento de mundo em sua escrita: a dor, o amor, o desentendimento, a fé, a falta de fé, o medo, dentro outros sentimentos.

Essa captação se dá também a partir do tarô. Os Arcanos Maiores de Alessandra, são referência explícita às cartas de tarô. Cada Arcano representa uma personalidade, ou, característica humana. Ao todo são 21 arcanos. Para cada um, Alessandra compôs um poema-arcano, como podemos perceber na nota explicativa que a autora coloca no início de seu livro:

Caro leitor, aqui tu encontraras poesias esparsas, fragmentadas, geradas em diversos momentos. É preciso que compreendas um pouco do mistério: os Arcanos Maiores, no tarô, constituem um conjunto esotérico que nos liga a um coletivo simbólico. Todos nós estamos imersos na inconsciência desses signos, assim afirmam os místicos. Mas em uma Valsa Leve, como uma música singela e terna, tudo se condensa, tudo é distraído e feito para existir como completo desnudamento, um fervoroso espanto que por sua vez canta todos os momentos de maneira consciente e inconsciente: a vida.

O livro não foi premeditado para intertextualizar com as cartas, mas após a feitura dos poemas, a autora percebeu que havia uma ligação de sua poética com a temática das cartas. Ao lermos o livro de Alessandra, notamos a rica pesquisa que a poeta fez com relação ao tarô, como também notados a habilidade poética, da mesma, ao retratar o contexto do misticismo em sua obra de estreia.

A segunda parte da obra intitula-se A Valsa Leve. Nessa seção percebemos influencia de poetas modernos, como Florbela Espanca, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. A temática desta seção é a vida, com suas angustias e vitórias. Em A Valsa Leve notamos uma sequência de poemas que trabalham com a metalinguagem: A literatura, Lago e Poetas. O livro finda com um convite:

E esse meu signo de libra que só sabe gostar de amor...
comunica ao meu ascendente em sagitário que me faz assim meio que intransigente e demente
um gostar de dizer sempre tudo ao mundo de verdade que quer somente a verdade

[ com o escorpião se avizinhando do meu sentir topa com a lua distraidamente em câncer] sou: só dor e saudade...

(dá-me então um pouco do teu signo e misturemos os nossos arcanos maiores também)


A confessionalidade dos poemas de Alessandra nos fazem um convite a confissão, dessas escritas em cartas e publicadas em jornais. Doar um pouco de si a leitura desta obra, faz-se necessário. Após a leitura, recomendo embaralhar os poemas-arcanos e reler a partir da ótica do instante.


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26 de junho de 2014
“sim" e “não” de Alessandra Bessa: Arcanos Maiores e a Valsa Leve

“sim" e “não” de Alessandra Bessa: Arcanos Maiores e a Valsa Leve

por O Poeta de Meia-Tigela  

Uma massa de gente
Se nega
Te nega
Nega a muitos
Nega o outro constantemente E o fraco diz “sim” a essa negação
E inferioriza-se em um “não”

(VIII — A Justiça)




(I) ARCANOS LEVES  


Os arcanos maiores destacam-se no conjunto das cartas do Tarô: cada um se constitui como súmula de uma vivênciaexperiência universal, cada um a condensação de um mundo mítico próprio, de alta simbologia e, como tal, inesgotável: pois sinalizaindica, não define nem explica.   

Disse-me Alessandra Bessa que não fora premeditado o encontro de seu livro com o Tarô; que somente após o aparecer dos poemas quedara claro o aceno para a correspondência entre os versos e as cartas. Melhor assim, porque mais forte a certeza de que não pretendera a autora apreender os arquétipos: estes que se revelaram (mantendo, no entanto, sempre algo do seu véu) à poeta.  Por isso seus poemas tangenciam sem que pretendam explicitar a relação com o baralho. E, no entanto, tal relação pode ser desvelada, tão logo nos ponhamos a pensar esse acordo oculto de sentidos: apresentarei apenas um exemplo, deixando a cargo do leitor a procura das pistas restantes. Tomemos o poema XIII, que começa assim: “Dormir para sempre, não se pode./ Afirmação que me tira o sono/ E dentro dessa insônia-sono/ Eu busco qualquer lugar que diga que eu possa/ Ao menos deixar de lado tudo isso”. O arcano correspondente ao número 13 no Tarô de Marselha e alguns outros (no Tarô Cigano temos O Esqueleto e a Gadanha e no egípcio A Imortalidade) — é A Morte. O tema é apenas aflorado pelos versos: digamos que chegamos a ele, mas não partimos dele. E assim no tocante aos demais. Eis, pois, o intento principal de Alessandra Bessa: antes aludir e mencionar que decodificar, dimensionar, dirimir o segredo, o mistério dos arquétipos.
  
Esse mistério perpassa, porém, todo o livro (inclusive a segunda metade, a da Valsa Leve). Cede vigor à poética de Alessandra. Cirze, compõe seus versos. Versos densos, doloridos, muitas vezes ferinos, cortantes, nascidos contudo a partir da valsante leveza de quem não se quer guardada na terra, mas grito lançado no ar.  

E o grito de Alessandra Bessa, como de todo poeta, é de “sim” e de “não”.   
  
(II) A REVOLTA  
  
“Que é um homem revoltado? Um homem que diz não. Mas, se ele recusa, não renuncia: é também um homem que diz sim, desde o seu primeiro movimento” (Albert Camus, O Homem Revoltado). A revolta é reativa. É um ato de voltar-se — não “para”; mais propriamente, “para-contra”. O revoltado volta-se para aquilo que o leva a mover-se, aquilo que o direciona, não a fim de que o encontro se dê como fusão, sim para que do encontro exploda a difusão do “não”. O revoltado vai ao encontro do objeto que repudia, vai em direção a este, razão de seu mover-se, de seu volverse; contudo, o faz em função de que que o atrator seja negado, o faz com vistas à dissolvição do que o move, o faz com o intento de destruição do motor-atrator: o revoltado quer ir em direção — não para ser absolvido por aquilo que o chama, sim para desfazer a causa do chamamento. A revolta é reação, é um contra e um ir paraem direção ao que a leva a ser o que é: “não”. 

O poeta, à medida que sua sensibilidade se vê afrontada por um estado de coisas que lhe é contrário, um estado de coisas que lhe diz “não”; o poeta revolta-se e diz “não” a esse “não”. O poeta diz “sim” a tudo que se volta para-contra esse estado de coisas: eis por que, se o que o poeta vê à volta é a negação da sensibilidade, sua reação é a de dizer “sim” a esta e “não” àquela negação. O “não” do poeta é um “sim” à poesia. Se o estado de coisas não é um estado de coisas de poesia, o estado do poeta é a revolta.  
            
A poesia de Alessandra Bessa é, em parte, esse “não”. Vemo-lo ao longo de Os Arcanos Maiores e A Valsa Leve. Um “não” que se diz enquanto recusa, enquanto fazer frente, enquanto confronto, enfrentamento: como nos poemas VIII, IX, XI, correspondentes às lâminas A Justiça, O Eremita e A Força. E ainda o poema XIV (A Temperança):  
  
Limpar é saber-se sujo limpar é saber-se pobre de tudo  
(...)  
quanto mais sujo e doloroso for o percurso tu estarás perto
da verdade já que não é o disfarce dos homens que mostra quem tu és  
  
Mas esse “não” nem sempre se mostra através do “embate”, do “instante bombástico” (Ímpeto, A Valsa Leve); também se evidencia (ou silencia) pelo voltar-se para-contra como recolhimento, sentimento de desamparo, de isolamento, despertencimento. A poeta que se revolta e diz “não”, oscila entre o duelo e a salvaguarda, entre o combate e a meia-volta-volver, o resguardo de si: “Tudo permanece tão dentro de mim/ Que não se manifesta/ Fica dando facadas/ Em meu espírito” (XX — O Juízo Final ou O Julgamento). Oscila entre a colisão e a oclusão, o ocultar-se ante o outro:   
  
Vocês não entendem  
Os meus sumiços  
(...)  
Vocês compreendem tudo errado  
Nada pode me fazer ser vista  
Inteiramente  
Ficar despida   
  
(Sumir, A Valsa Leve 
  
Talvez seja o ato de contração, de concentração, algo necessário a fim de que o “não” possa transformar-se na explicitude do “sim”; o “não” como desafio possa tornar-se o “sim” do lúdico, do bailarínico, do amoroso. Sim? Vejamos.  
  
(III) O AMOR E A POESIA  
  
A solidão do poeta não será antes, anseio ferido de solidariedade? Não será seu desejo a ultrapassagem do estar-só, a soli(t)ariedade que se quer solidária? Não saberá o poeta que sua solitude é, pelo menos, solitude de poeta e, assim, de muitos? Dos muitos que também recusam aquela recusa à sensibilidade? Dos muitos que dizem “não” ao derredor e “sim” a si mesmos? É então que Alessandra Bessa inicia o reconhe(si)mento desse si em outrem, no si de todos que se reconhecem na poeSIa.  

O amor pode resultar “em ilusão e talvez mais nada” (XII — O Enforcado), pode ser divisão e “vazio rio abaixo do poema” (VI — O Enamorado ou Os Amantes), porém pode igualmente ser esse princípio de identidade pelo qual o insulamento do poeta abrese à palavra alheia, como o faz aos versos de Mario de Sá-Carneiro ou à sentença de Blanchot (“não podemos viver em um mundo fechado”). Se o amor-a-dois é tantas vezes insatisfatório, frustrante, dorido, o amor-a-tantos do verso, do poema, subverte o “não” e afirma aquele “sim”, o “sim” do Sumo Sacerdote, do Hierofante (V):  

E diz o Hierofante  
Que a fonte é uma  
Fome de tudo  
E principalmente de  
Amor  
  
(IV) A POESIA E O AMOR  
  
O próprio arcano-poeta e sua poesia aparecem como o “sim” maior deste livro. Contra o estado de coisas avesso à sensibilidade poética, que fazer? Dizer “não” a esse avesso, virar as dobras daquilo a que o “não” diz “não”, transmutá-las no “sim” que se quer dizer, no “sim” que se quer ser. Esse “sim” é o amor enquanto amordito, é o ser poeta, é a poesia. A poesia, esse lago  
  
tão imenso que se perde 
tardes de longas datas o céu tão azul
da insensatez da embriaguez  
do nada que se faz  
  
(Lago, A Valsa Leve)  
  
Se a poesia é um sentir-se avesso ao insensível estado de coisas, o é porque não pode materializar-se, tornar-se, ela mesma, coisa. Permanecerá no reino da inefabilidade, do intangível, do inapreensível de todo: “em um lugar a mais/ além... tão além que não tem toque/ nem forma e pertencer(dor)” (novamente, Sumir).                
Emerge, assim, certa angústia do impalpável; uma aflição perante a condição intátil da poesia, a reforçar a sensação de desarraigamento, desenraizamento da própria poetisa. Que retorna, por consequência, à insulação da qual pretendera (?) sair: “A poesia se torna o que ela é/ e eu, a poeta, fico só/ sempre ficarei só nesse imenso mundo” (A Poesia, A Valsa Leve).    
          
Logo, tudo o que da poesia de Alessandra Bessa aqui foi dito, deve igualmente ser percebido, sentido, como tentativa-mera de alcançar o que a poeta afinal reconhece como incapturável. Na verdade o “não” e o “sim” de Alessandra são mais dinâmicos e deslocados, mais difíceis de apreender porque justamente espontâneos em seu surg(ir) e desapare(ser). Entremesclam-se, continuamente.  
          
O “não” da poeta, sua revolta, é um “sim” àquilo que ela mesma é, seu verso, sua poesia, reverso de um mundo-coisa, mundo-cifra; o “não” de Alessandra Zelinda é uma volta àquilo que ela, Alessandra, é: amor em sim e não, amor em sinal, signo, sinalização. Arcano Leve.  
  
*  
  
(dá-me então um pouco do teu signo e misturaremos os nossos Arcanos Maiores também)








(PEQUENA NOTA: Esse texto é o posfacio da obra Arcanos Maiores e a Valsa Leve, de Alessandra Bessa, natural de Fortaleza e professora universitária. Sobre o posfaciador, O Poeta de Meia-tigela, compõe-se a seguinte biografia: Nasceu em Fortaleza no ano de 1974. Participou da Antologia Massanova - Poesia Contemporânea Brasileira e publicou os livros Memorial Bárbara de Alencar e Concerto Nº1unico em Mim Menor para Palavra e Orquestra. Poema)
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28 de maio de 2014
Em busca da palavra do mundo

Em busca da palavra do mundo

por Alessandra Bessa

“Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:

mudo convite:

tenho uma vida branca
e limpa à minha espera.”
Ana Cristina Cesar

Uma folha em branco. Um lugar. E cada ser um mundo desfeito. E cada mundo uma morte. E cada morte um lugar que se torna um vazio que pede uma nova busca.

As palavras que se fazem frases e frases que se tornam textos. Textos que "desembocam” em uma outra vida.

Uma vida escrita no universo dos dedos sedentos. Já que o amor da poeta é um desespero. É a dança sutil que dispara “tiros absurdos" são tiros que querem alcançar o absurdo infinito de tudo....  Esta tenta sentir que, em algum lugar, poderá existir um alguém mais atraente, mais do que a sua solidão e é quando se dá conta que a solidão é perfeita. É quando se dá conta que a solidão mostra-se mais perfeita do que o amor.

Já dizia Fernando Pessoa “Boa é a vida, mas melhor é o vinho.
O amor é bom, mas é melhor o sono.

Ela esquece. Ela dorme. Ela lê. Ela experimenta as sensações mais diversas com a dor que a faz ser poeta. Ela veste-se de múltiplas identidades. Ela finge e até se engana. Mas não sabe disfarçar sua insatisfação com a necessidade de um amor que anseia

Com essa incompreensão a poeta almeja "rasgar" a linha de conforto da humanidade; com questionamentos existenciais e filosóficos, dos quais ela é a própria filosofia e completa um pouco a filosofia do mundo. Desta maneira, reconhece a escrita como um lugar primordial. A compreensão do mundo sob a ótica da literatura, que é para ela a única liberdade.

A morte como um excesso de vida... E a poeta sente uma atração irresistível pela morte...O vazio contido nas coisas "derrama" sobre ela uma efusão de pensamentos [caóticos]. Talvez de tão lúcidos vivem no infinito. Ela "brinca" com o infinito e com a incoerência, e com a loucura, e com a negação, e com a dor. [Um labirinto desmensurado.]. Ela é um labirinto desmensurado de palavras, sentimentos, lamentos, amores, dores... formas... vazio... vazio...  

Talvez, queira fazer amor com o mundo.  Depois sente " asco" e cospe na cara do mundo com nojo! Já que o mundo não soube lhe satisfazer.

A música que vive no ser da poeta é triste. Mas, como toda música triste, é intensa e bela. Consciente e inconsciente do que é, ela escreve... Como uma necessidade e como um ser que é aglutinado ao ato da escrita. Condenado a escrita... Condenado a dor... Condenada a ser uma entidade-texto no mundo concreto.

E vai se apresentando em linhas poéticas. Um pouco de si em letras. Um pouco de si no vazio das letras. Um pouco de si nas pessoas. Um pouco de si no escuro das coisas exatas e inexatas. Um pouco de si nos códigos linguísticos. Que não representam nada apenas miniaturas de um novo mundo-texto que não é ela.

Mas que se torna um alguém que fala alguma linguagem desconhecida. Desconhecida até mesmo dela: a poeta que escreve o desconhecido. Porque a vida nunca foi dado a ser algo para o conhecer. Porque a vida, mesmo a vida criada pela poeta, não pode ser conhecida. A poesia existe, a poeta existe, existe a dor, existe a vontade, existe o amor, existe o caos... No entanto, nunca conheceremos o “grito” dessas cores. [Cores de Almodóvar].

O grito emitido é ensurdecedor. E o universo não se apercebe. Não podemos escutá-los. Ela, a poeta sente e tenta dizer e desabrocha em sua intensidade: um sentir e um criar. Um alguém chamado poema. Que não é ela e não é ninguém. É um poema. Apenas e unicamente um poema. Que como um ser, que como uma entidade é dado a labirintos e complexidades, das quais resvalam entre as substancias da vida e da incompreensão.
   


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