4 POEMAS DE Anderson Lucarezi
por Anderson Lucarezi
4 poemas inéditos do próximo livro "Constelário"
*
sequer o céu é
sincero:
a estrela que cintila
não é a estrela que
cintila,
por visto que, na real,
imagem antiga.
o escuro que anoitece
não é o escuro que
anoitece,
por visto que, de onde
vem,
já se fez brilho.
iria, eu, de volta,
fosse aceito,
a um céu do presente
em que uma estrela
extrapolasse
ser mera brasa
enganosa:
talvez, quem dera,
farol
(posto que agora é
lanterna traseira)
de um carro-tempo
mais-que-perfeito.
*
olhos ao céu do fim
de tarde,
preso no trânsito da
metrópole,
vária, a primeira
estrela que vejo,
(alguém – talvez
também cansado do despertador –
me olhará de algum planeta à sua órbita?)
do sumo do próprio
nome daquilo que vejo
(o constelário de
signos apátridas é minha língua)
germina isso que se
aventura além do filtro,
furando as nuvens,
rompendo o púrpura
numa beleza que esse
idioma não dá conta,
que só a raiz
possibilita: desiderium.
*
peixes inertes à
lâmina d’água,
palafitas à vista sob
cheiro intratável,
o da consciência das
cidades:
o rio Tietê, o
Yangtze, o Reno,
o Newtown, o Ganges,
o Congo,
também o Marilao e o
Citarum:
artérias à espera de
angioplastia,
à espera, como os
cabelos verdes,
arrancados pelo gado,
pela soja,
pelo contrabando de
troncos,
pelo projeto
progressista, que,
no pecado Capital da
gula de Gargântua,
diz não poder parar:
dita flor que, se
for, só se do Jardim Gramacho,
no que aviões furam a
cúpula de nuvens,
calota poluída sob a
qual,
ruído,
gases de automóveis ascendem,
paradigma para os
graus centígrados:
escalpelado de seus
polos, o planeta,
nave abafada, a nos
cobrar o óbulo.
*
sextante e astrolábio
à mão,
os navegantes das
caravelas
na intenção das
terras distantes,
indicadas pelo céu estrelado:
toda uma geometria,
compassos e
esquadros,
a abóbada celeste
dividida,
esquadrias e
quadrantes
pra firmar a
confiança
no oceano oscilante.
olha! – dizem – terra
à vista!
semear açúcar,
algodão,
(este lugar ainda vai
se tornar
um imenso canavial!
um imenso algodoal!)
extrair minérios,
construir impérios,
ano após ano,
erigir a civilização,
cujo intento maior:
lucrar.
das nações surgidas
por cá,
uma, que fez a
América
em cima das guerras,
pensou: por que não
alcançar
aqueles pontos
cintilantes,
que antes serviam de
guia
aos argonautas?
se fez, a partir de
então,
do Cabo Canaveral
trampolim pro espaço
sideral.
satélites,elites me
espreitam,
será que já parcelam
a passagem
(vinte milhões de
dólares)
pra subir a
seiscentos quilômetros,
orbitar na estação
internacional,
inaugurar um nicho de
mercado,
acenar pra rede
social
e, se der, trazer
como souvenir
um cinturão de
asteróides
pra noiva da vez,
trinta anos mais jovem?
o canto humano
(anglo-saxônico)
já está across the universe,
mas há sons vindo de
outras galáxias,
sons orquestrados,
música!
serão companheiros de
incógnita?
ou apenas o ruído de
fundo
(fruído por ouvidos cruéis,
tal criança frente
formigas em marcha)
de uma caixa de
música
da qual a Terra é
mero strass?
Autor do livro de poemas Réquiem, Anderson Lucarezi nasceu em São Paulo em 1987. Passou 14 anos sob educação religiosa que desembocou na descrença. Em 2007, ingressou na Universidade de São Paulo, onde está terminando a graduação em Letras. Trabalha como professor de Ensino Médio e como pesquisador na área de literatura. Interessa-se, também, por tradução, principalmente de poesia norte-americana. Tem alguns poemas publicados na antologia do III Festival de Literatura da Letras / USP. Lança, agora, Réquiem, livro que contém textos datados do período entre 2006 e 2012 e que, em sua primeira versão, foi vencedor, na categoria texto, do Projeto Nascente USP 2011.

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