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19 de maio de 2014

2 poemas de Matheus José Mineiro


por Matheus José Mineiro

Estilete

a silaba tônica da palavra rotina
é estilete que raspa qualquer  língua.
quando delicadamente no seu estiletar
arranca uma pelanca do peito
e abre um fiorde que se estende até o crânio,
saco do mamanguá
delicadamente aberto neste estiletar.
de-li-ca-da-mente
qual estilete
este
que massageia a palavra cidade e
navalha tudo que nossas ânsias contêm de casca,
de polpa e de pele.
qual estilete
este
da sílaba tônica da palavra rotina
que perfura a rubra barriga da tarde
e vazam estrelas e estrelas e mais estrelas
no preto pontilhado do piso  do céu
e cada cidadão em sua orbita
vira de costas para o sol e se anoitece.
mesmo à  meia-noite  pessoas agem
como um sol de meio dia que arde.
besunta os cacos de vidro
com a saliva
quando soletra a palavra descanso.
rasga a letra M do mundo
e espirra  uma  menstruação nuclear, carmesim entornado
na cor ciano que te tinge  todas as  manhãs.


os dias passam puindo
incisão sem sedativo
no organismo sub verso vivo.



Gente é poema e poema é gente


a gente lendo o poema é
bezerro sendo apresentado a chifrada e a testada.
o poema lendo a gente é
potro sendo apresentado ao coice.
a gente lendo o poema é
pintainho sendo apresentado ao esporão e a aurora.
o poema lendo a gente é
brisa sendo apresentada ao ciclone.
a gente lendo o poema é
embrião sendo apresentado ao homem.
o poema lendo a gente é
canivete sendo apresentado a jugular.
a gente lendo o poema é
beiço sendo apresentado ao beijo.
o poema  lendo a gente é
rave dentro de uma cápsula.
a gente  lendo o poema é
usina nuclear  dentro de uma borboleta.
o poema  lendo a gente é
euforia carnavalesca numa migalha de pão.
a gente lendo o poema  é
extravasação vulcânica dentro de um cisco.
o poema lendo a gente  é
alcalóide sendo apresentado aos neurônios.
a gente lendo o poema  é
gorjeio sendo apresentado a goela.
o poema lendo a gente é

abraço sendo apresentado a costela.






Matheus José Mineiro é artesão e poeta autor do livro A Cachoeira do Poema na Fazenda do Seu Astra ,2013.Radicado na Serra dos Orgãos (RJ)



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