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18 de agosto de 2014
A estrutura narrativa de um telefone sem fio

A estrutura narrativa de um telefone sem fio



A narração é algo difícil de se realizar. Ela não se dá apenas pela formação de palavras escritas em primeira ou terceira pessoa. É necessário haver uma técnica, apurada, para que um romance consiga avançar e regredir à medida que o narrador vai nos contando o que está, pode e irá acontecer sem que o fio da meada se perca.

Atualmente, são muitos os romances que não ultrapassam as 200 páginas, talvez porque os autores não consigam mais enlaçar as ações de suas histórias de uma maneira bem estruturada fazendo que o leitor permaneça firme e forte na leitura. Daí, a necessidade de se fazer um texto curto, que beire apenas as cem primeiras páginas. Não que eu possua algo contra, mas as grandes aventuras parecem estar sendo deixadas de lado. Não existirão, talvez, mais as epopeias fantasiosas?

Na realidade, isso não importa. O comentário surge apenas porque também tenho notado que, aos poucos, os livros que chegam até a minha caixa de correio foram diminuindo sua lombada. Mas isso também pode não querer dizer nada, e ser apenas uma observação. Mas um ponto que não pode passar despercebido é como os autores conseguem estruturar, muitas vezes, uma história mentalmente para passá-las para o papel.

No caso de Alma Pontes, personagem principal do livro Telefone sem fio, de Vera Rossi, a memória é que comanda a história, ao mesmo tempo em que escreve sobre o momento em que vive. As ações que são contadas, e o plano de fundo onde tudo acontece, existem num vai e vêm nada mecanicista. A autora sabe muito bem como arquitetar todo o tempo narrativo da história de Alma Pontes, uma mulher que tem sua vida contada desde o início de sua infância.

Fiquei intrigado com a escrita de Vera Rossi, pois ela partiu da infância da personagem até os dias atuais, realizando uma varredura na vida da personagem Alma Pontes, desde os anos 90, talvez até um pouco antes disso, até os dias atuais. E isso é importantíssimo, pois em alguns momentos é possível observar o plano político em que seus personagens viveram. Por um momento vislumbrei estar lendo uma história na qual um romance político, não sei se isso existe, pudesse acontecer, como Llosa, por exemplo, já o fez em A festa do bode.

Apesar de a história não ir no viés que eu imaginava, ela consegue, do início ao fim, manter a narrativa como poucos escritores no Brasil, atualmente, que chegam a se tornar enfadonhos na décima primeira página. No caso de Telefone sem fio, foi este o ponto que mais me chamou a atenção, mais até do que a personalidade de Alma Pontes, que deixa claro as mudanças de personalidade que podemos ter ao longo da vida e a entrega à melancolia que realizamos ante aos problemas. Para mim, Alma é melancólica, vai se tornando assim, totalmente diferente da menina que brincava no pátio do prédio. Mas sua melancolia vem com a perca. E esse sentimento a acompanha durante anos e mergulhamos em sua dor quase da mesma maneira que ela, pois a escrita de Vera Rossi nos aproxima, ao invés de nos deixar como espectadores da personagem, como Henry Fielding faz em Tom Jones.

Afora isso, o que me deixou intrigado foi a maneira pela qual Vera trata a fala dos seus personagens que reflete as idiossincrasias de cada um deles. A forma como Alma fala não é a mesma que sua mãe ou seu marido Carlos. O que contribui, acredito, para que o leitor se sinta mais perto de toda a história e, como já disse, afeiçoe-se a eles. A história de Alma Pontes narra passado e presente, possibilitando que aos poucos compreendamos por qual razão, quando fala em primeira pessoa, pedindo passagem ao leitor, seja possível entender a sua necessidade de escrever. É como se a sua salvação, como a de tantos outros escritores pelo mundo, fosse a escrita. Fica a parecer que ela sempre escreveu durante todos os dias da sua vida, e que o que faz agora, contar sua história, nada mais é do que uma parte de si.

A literatura dessa maneira une Alma a si própria. Ela não busca uma salvação, pois não há. Ela busca não perder as lembranças que teve com o irmão, e das histórias entrelaçadas que possuíram a partir de terceiros. Alma não deseja que toda a história que possuiu se perca como as histórias que contamos quando brincamos de telefone sem fio.


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24 de julho de 2014
Ausência

Ausência




por Vera Rossi

Sabia do tanto que se fechava na palavra dor. “Viver é estar preparado para sentir dor.” Esta era a máxima que um avô poderia ensinar a sua neta. Ele entendia o quanto poderia preparar sua neta com aquela frase. Era seu dever, afinal. Dever cívico, diga-se. Preparar um neto, aquele ser que se aquece nos olhos do avô, nos muitos anos que estes olhos guardam; transmitir a este mínimo corpo o essencial da vida. “E o principal é isto, saber da dor, minha pequena.”

A neta não piscava, mal respirava, atenta à respiração lenta do avô, às verdades sobre as quais se encurvava uma vida excedente. “Minha menina, a gente até pode passar a vida inteira livre dela. Mas pra qualquer hora a dor chega, ah, se chega. E quando falo dela, não me refiro a uma topada do dedo no pé da cômoda, não. Digo de quando arrancam seu dedo fora. Da dor extrema. Sabe como é? Arrancar um dedo fora?” A pequena sacudia a cabeça como se entendesse do extremo. “Eu já. Sei o que é ter um dedo amputado.” Ele arrancou o sapato e mostrou o pé direito deformado pelos joanetes e pela ausência de um dedo. Ela quase pulou da cadeira, mas se ajeitou melhor no assento duro, em uma pose heroica, como que preparada a toda dor.

Por pouco, não lembrou ao velho de quando tinha passado por uma cirurgia no olho esquerdo, sem anestesia. O pai havia insistido para que a filha recebesse por uma agulha a supressão de qualquer sensibilidade física. Como resposta apenas ganhara uma risada alta da criança, que queria a dor. Mas o que é a dor de um terçol arrancado se comparada a de um dedo decepado? Corou, envergonhou-se da lembrança.

“Você não pode ver, minha menina, mas tudo é dor. A gente quer se esconder debaixo de um teto, em um amor gigante, que nem a gente sabe explicar direito o que é, dentro de uma casa limpa, que a gente vive e morre pra manter ela limpa. Disfarçado na bondade, a gente se ilude de que a linha invisível já é outro mundo.” Apontou uma linha fina de poeira aquecida por uma nesga de sol. A criança segurou firme as duas mãos nos pés da cadeira.

“Essa linha invisível que faz a gente acreditar que está protegido. Que a gente é bem diferente daquela ferida pustulenta na perna do pedinte caído na calçada. É tudo a mesma coisa. Isso é que é a vida. A carne da presa estraçalhada pelas leoas. E se você não souber disso agora, um dia vai saber, pequena menina. Então que seja eu, seu avô, que te conte antes, que te prepare. É meu dever, dever de avô.”          

A porta rangeu, a mãe tocou o cabelo curto da filha aproximando-a da linha invisível de poeira. “Lê, o vovô precisa descansar. O que é isso agora, pai? não chora.” “Sua neta precisa saber da verdade.” “Deixa de coisa, pai, vê se descansa. Dá um beijo no vovô, Lê.” A mãe deixou que a filha desse o beijo que ela nunca havia dado, um beijo guardado por tantos e tantos anos. Afastou a filha da dor, ainda que do próprio nascimento se marcasse no corpo da mãe a própria expiação. Deixaram o avô descansar, ainda que do próprio corpo não nascesse cansaço, mas uma falta dolorida e exposta.      



Vera Helena Rossi é escritora e pesquisadora. Mestre em Literatura e Crítica Literária e Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, ministrou no Espaço Revista Cult o curso Jornalismo Literário: a dimensão estética da reportagem. Finalista do Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana e vencedora do concurso de contos avaliado pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão, tem participações na Revista Cult, Revista Língua Portuguesa, Revista Metáfora, Revista Celuzlose, Portal Cronópios, entre outros . É autora dos livros Mind the Gap (contos) e Telefone Sem Fio (romance) ambos pela Editora Patuá. Mantém o blog Palimpsesto:http://verahelena.blogspot.com.  

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