Os golpes poéticos de Talles Azigon
O livro Três
golpes d'água (Substânsia 2014), de
Talles Azigon, pretendem golpear três coisas: 1) O homem externo a
sua poética; 2) o leitor que convive dia a dia com o poeta e 3) os
versos de Azigon pretendem golpear a si próprio. Sendo assim,
conversemos sobre o livro do poeta seguindo
as divisões demarcadas no
livro.
1) O golpe no mundo dos homens
Na primeira parte do livro, como
já disse, o poeta direciona os seus golpes literários àqueles que
não conviveram diretamente com ele. São os homens desconhecidos, e
solitários, que caminham por entre a multidão: o fortalezense. O
poema que abre essa parte, poetiza a rotina de Fortaleza:
como um passe de mágica
a cidade faz dormir
todos os semáforos.
o caos instalado
obriga-nos a ler o óbvio:
os homens não se entendem,
por isso os sinais.
o mundo relembra
que é mundo
(de pedra, ferro, cimento e
gente)
Na verdade o poema acima pode se
aplicar a qualquer cidade. O homem “civilizado” necessita de leis
para se governar e se organizar. Sem isso, o homem vive em um caos
total. Alias, até com as leis vivemos em um caos. Os últimos versos
nos fazem refletir sobre a composição concreta do mundo. O poeta
segue as indicações de Manuel Bandeira, que sabiamente, fazia
poemas a partir de recortes de jornal, ou, de recortes urbanos.
Na epígrafe do livro de Talles
já notamos um dos sinais de influência da poesia de Manuel
Bandeira:
“Esse anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.”
-Manuel Bandeira
Tá certo que colocar uma
epígrafe de um autor não indica que todo
o livro
tenha que, necessariamente, sofrer alguma influência do mesmo. Mas
pelo pouco que conheço o poeta dos Três
golpes d'água, sei
que poderá haver sim um certo diálogo com a poesia de Bandeira.
Pois Talles é leitor, full
time, de Bandeira. A
captação poética, da obra do poeta das Cinzas
das horas, se
apresenta na percepção do urbano, da conscientização da
efemeridade da vida e das referências à memória pessoal
do autor fortalezense.
A epígrafe da obra de Talles,
sinaliza também a necessidade que o poeta tem de eternizar o que
acontece ao seu redor em forma de poesia. No poema Arquitetura
do cansaço, Talles a
maneira de Alberto Caeiro, faz um poema filosófico sobre a ânsia de
sair da cidade. O poeta nessa primeira parte da obra, se sente um
cidadão à parte da cidade. E para Platão não há lugar para o
poeta em sua república, Talles não encontra seu lugar e por isso
despeja o primeiro golpe aos residentes da república/cidade.
2) Golpe no meu mundo
Na segunda parte do livro,
Talles Azigon, dirrciona os seus golpes poéticos para si mesmo.
Nessa parte encontraremos um poeta exposto que se auto-golpeia com a
sua memória. Em um dos poemas, ele nos confessa que há dentro dele
um sertão infinito. Essa infinidade interior dará vazão ao lado
poético. Nessa parte do livro, desvendamos o sertão interior do
poeta.
Sabemos que a introspecção só
é válida quando não é transcrita de maneira pessoal, fazendo do
poema algo particular, ou, mero recorte pessoal do poeta. Talles se
utiliza da introspecção de maneira sutil, pois como todo bom
poeta, ele sabe que uma dosagem a mais de introspecção, faria de
seus poemas meros textos pessoais.
Concluo comentando que esta parte do livro é importante para o todo da obra, pois a poesia deve primeiro golpear o autor para depois acertar os futuros leitores.
3) Golpe no teu mundo
Comecemos nossa conversa sobre a
última parte do livro de Talles, analisando brevemente o poema que
abre o terceiro golpe:
fala
teu falo
é meu
falo
o
meu
também
é teu.
Inicialmente, o poeta declara
que a sua fala é também a fala do leitor, assim como também a fala
do leitor é a fala do poeta. Os golpes dessa sessão, na verdade são
feitos por um eu-lírico que se universaliza a partir da
sensibilidade do leitor. O lirismo, tão presente na obra de
Bandeira, é presença marcante na obra de Talles. O poema abaixo
golpeia qualquer leitor desprovido de armaduras:
Fui embora pra dentro de mim
fiz um furo aqui em cima
e deixei escorrer toda
crendice
que eu ainda tinha de tu.
nada não,
o amor é assim mesmo
quando não amarga na entrada
amarga na saída.
Sem como se defender, o leitor é
golpeado poeticamente nas páginas seguintes desta sessão e de todas
as sessões do livro. Se por acaso você se machucar com os Três
golpes d'água de Talles Azigon, leia novamente a obra, pois as
sucessivas releituras funcionam como antídotos pós-términio de
leitura.

