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18 de março de 2013
Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo: Bildungsroman ou romance de formação

Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo: Bildungsroman ou romance de formação




Quando estamos nos preparando para algum tipo de apresentação, avaliação ou seleção fica quase impossível visualizarmos o que virá posteriormente. Esse texto surgiu diante de uma árdua preparação para uma seleção de mestrado. Durante um ano, no qual passei quase seis meses praticamente na clausura mergulhado em livros, tive que ministrar o tormento que é um processo seletivo, de estar preparado tanto para a vitória como para o fracasso. Sempre é difícil perder. Contudo, caso não fosse aprovado, havia entendido que não poderia pensar que seria um derrotado ou que não havia aprendido nada nesse período de preparação. Pelo contrário, ganhei o que ninguém pode me tirar: o conhecimento. Descobri novos autores e pude conhecer melhor outros já consagrados, mas que nunca tive a oportunidade de estudar de forma mais dedicada.

Conceição Evaristo foi uma autora que pude conhecer durante esse processo. Trazendo um livro simples, mas cheio de conteúdo a ser estudado, a escritora enfatiza uma área que precisa ser discutido com equilíbrio e que causa polêmica em alguns meios acadêmicos: a literatura afro-brasileira, como também a literatura de autoria feminina.

Nota-se que atualmente podemos ver tanto posturas radicais na defesa da “literatura dos excluídos” quanto a arrogância, e por que não ignorância, de professores que viram as costas para discussões que consideram inferiores ou desnecessárias.

Quem estuda literatura não pode se prender aos pontos extremos, mas deve viver a literatura democraticamente. 

Este ensaio não tem o objetivo de defesa de quaisquer área da Literatura, mas sim discutir, sem nenhuma máscara tendenciosa, temas que estão sendo avultados no espaço literário.

Alguns aspectos relevantes

Conceição Evaristo, autora mineira radicada no Rio de Janeiro, narra a história da protagonista feminina e negra que dá nome a sua obra, Ponciá Vicêncio. Já no início, percebe-se, não pela linguagem ou estrutura, mas por representar, digamos, a “literatura dos excluídos”, que é um romance de autoria feminina e negra, o que faz do livro um colaborador para um reexame da nossa literatura e do nosso passado nacional.

Nessa frente, o livro destaca a cultura negra (ou Negritude) e firma a figura da mulher como detentora da escolha, assim, quebrando com a hegemonia masculina. Vê-se que Conceição Evaristo “emprestou” a sua vivência para o romance, ato que ela mesma chamou de “Escrevivência”. Algo semelhante ao que afirma Antonio Candido:

 externo (no caso, o social) importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se, portanto, interno. (CANDIDO, 2010, p.14, grifos do autor).


Na obra de Evaristo, nota-se a presença de uma protagonista negra que realiza uma viagem espaço-temporal na tentativa de encontrar-se consigo mesma, buscando, assim, a sua essencialidade em meio a um mundo circundante fragmentado.

Evaristo, sob a ótica da protagonista, ressalta a cultura negra e os problemas de ser negro em um país preconceituoso e que marginaliza a Negritude. É a partir da literatura afro-brasileira que a autora mineira mostra que a sua escrita é distinta da literatura nacional, pois como foi afirmado acima, o cânone além de excluir a literatura feminina, também exclui a literatura afro-brasileira, estabelecendo uma hegemonia branca. Segundo Eduardo de Assis Duarte, no texto Literatura afro-brasileira: um conceito em construção (2005), a literatura negra se difere das letras nacionais por alguns critérios de configuração. Primeiro, pela sua temática, retratando o negro como tema principal; segundo, pela autoria, ou seja, uma escrita que nasce de um autor afro-brasileiro; terceiro, pelo ponto de vista, pois não basta ser negro, é necessário que o autor se identifique com a visão de mundo desse povo; quarto, pela linguagem que deve mostrar um discurso específico, ou melhor, mostrar o vocabulário, expressões que encontramos na cultura negra; e quinto, pelo público leitor que possa receber essa literatura de formação afrodescendente. Todos esses elementos configuradores não podem ser isolados, pois desta forma não conseguirão ilustrar a literatura afro-brasileira de forma completa.

1.      Bildungsroman

Dinamizando passado e presente a obra de Conceição Evaristo narrará uma personagem em busca de uma autonomia. O romance vai desde a infância de Ponciá até a sua idade adulta, escrito de forma fragmentada, clareando, ao decorrer do enredo, as lacunas deixadas durante o ir e vir de memórias. Com as brechas da narrativa preenchidas, nota-se que este romance narra a trajetória de Ponciá rumo a uma liberdade e a uma busca da sua identidade. Para isso, a personagem terá que desvincular-se da sua terra e da sua família para que possa amadurecer, assim, pode-se chamar a narrativa de Evaristo como romance de formação ou, segundo o termo alemão, Bildungsroman.

 Ao mesmo tempo que configura uma literatura afro-brasileira, o livro também mostra a formação e a busca de amadurecimento de Ponciá. O Bildungsroman é a narração de um sujeito que sai da sua origem em busca do autoconhecimento. Como pode ser percebido, a protagonista

Estava cansada de tudo ali. De trabalhar o barro com a mãe, de ir e vir às terras dos brancos e voltar de mãos vazias. De ver a terra dos negros coberta de plantações, cuidadas pelas mulheres e crianças, pois os homens gastavam a vida trabalhando nas terras dos senhores, e depois a maior parte das colheitas ser entregue aos coronéis. (EVARISTO, 2006, p.33)

No trecho, a personagem já não acha suficiente viver na terra dos Vicêncios, já não se identificava com aquela vida, a qual era a mesma de geração em geração. Então, cheia de esperanças, parte para a cidade em busca de uma vida melhor:

O inspirado coração de Ponciá ditava futuros sucessos para a vida da moça. A crença era o único bem que ela havia trazido para enfrentar uma viagem que durou três dias e três noites. [...] Haveria, sim, de traçar o seu destino. (EVARISTO, 2006, p.36)

 Todavia, Ponciá torna-se empregada doméstica, uma das profissões que estigmatizaram um regime marginalizado no qual o negro sempre é inserido nas grandes cidades.


Nesse contexto, Ponciá consegue comprar um barraco na favela, casa-se e tem sete filhos, mas todos morrem após o nascimento. Tais acontecimentos, principalmente a morte dos filhos, colaboram para afirmar o caráter trágico e cruel da narrativa, o que faz que a protagonista entre em um estado de letargia profunda e volte-se cada vez mais para dentro de si, mergulhando nas suas memórias. Pode-se dizer, com base em Georg Lukács, que em Ponciá há um “descompasso entre interioridade e mundo” (LUKÁCS, 2000, p), pois vê-se que ela cada vez mais se desliga da esfera circundante, fugindo desse mundo desconcertado mediante suas lembranças da infância, que no termo de Octavio Paz (1984), é o “tempo sem datas”, a idade que não sentimos angústias ou a qual o tempo não seja contado.

Quando Ponciá Vicêncio viu o arco-íris no céu, sentiu um calafrio. Recordou o medo que tivera durante toda a sua infância. Diziam que a menina que passasse por debaixo do arco-íris virava menino. [...] Naquele época Poncia Vicêncio gostava de ser menina. Gostava de ser ela própria. Gostava de tudo. Gostava. Gostava da roça, do rio que corria entre as pernas, gostava dos pés de pequi, dos pés de coco-de-catarro, das canas e do milharal. (EVARISTO, 2006, P.13)

O amadurecimento, característica do romance de formação, acontece a partir de muito sofrimento de Ponciá. Depois de uma série de infortúnios, a personagem reencontra a família que tanto sonhou um dia reunir novamente, fechando, assim, o ciclo do Bildungsroman, pois geralmente o protagonista “encontra-se de volta a sua família” (ARRUDA, 2007, p. 23).

Ponciá Vicêncio representa uma heroína problemática que vive um devaneio memorialístico como fuga:

Ponciá Vicêncio não queria mais nada com a vida que lhe era apresentada. Ficava olhando sempre um outro lugar de outras vivências. Pouco se dava se fazia sol ou se chovia. Quem era ela? Não sabia dizer. Ficava feliz e ansiosa pelos momentos de sua auto-ausência. (EVARISTO, 2003, p. 90)

A citação mostra claramente que a protagonista gostava de encontrar-se com suas memórias as quais a deixavam feliz. Este processo de negação do mundo torna o passado o responsável em resgatar uma vida cheia de sentido. Segundo Lukács,

Descomedidamente, a riqueza interna do puramente psicológico é elevada a única essencialidade, e, com uma inexorabilidade igualmente descomedida, revela-se a insignificância de sua existência no todo do mundo; o isolamento da alma, a sua insularidade em a relação a todo apoio e todo vínculo, agrava-se até o descomedido, e ao mesmo tempo o fato de esse estado de alma depender justamente dessa situação do mundo é aclarado com luzes impenitentes. (LUKÁCS, 2000, p. 124)

Conceição Evaristo elabora um desfecho mítico-religioso para narrativa. Ponciá depois de muito tempo reencontra a família e volta para a sua terra, completando o ciclo cíclico da personagem, na qual nota-se a efetivação da herança deixada pelo Vô Vicêncio. Em uma leitura, afirma-se que o autoconhecimento de Ponciá chega ao seu ápice e que o mundo a qual está inserida já não abarca seu modo de viver. No último parágrafo do romance vemos um fim poético, marca da autora mineira:

Lá fora, no céu cor de íris, um enorme angorô multicolorido se diluía lentamente, enquanto Ponciá Vicêncio, elo e herança da memória reencontrada pelos seus, não se perderia jamais, se guardaria nas águas do rio. (EVARISTO, 2003, p. 128)

Com a presença dos três elementos que iniciam o livro, o angorô, o rio e o barro, representado pela estatueta do homem-barro na janela, destacado no parágrafo anterior ao desfecho, Evaristo encerra a trajetória de forma cíclica de Ponciá Vicêncio. O que não deixamos de observar é o caráter de comunhão entre Ponciá e a Natureza que eterniza a personagem: “Lá fora,[...] Ponciá Vicêncio [...] não se perderia jamais, se guardaria nas águas do rio.” O que também fecha o ciclo que foi iniciado no seu nascimento, pois para a mãe

A menina nunca tinha sido dela. Voltava para o rio, para as águas-mãe. A filha nunca lhe coube, nem no tempo em que estava prenhe dela. [...] O aviso de que a menina estava apenas emprestada foi dado ali pelos sete meses. Uma manhã, Maria Vicêncio acordou ouvindo um choro de criança. [...] O choro vinha de dentro dela. [...] Caminhou intuitivamente para o rio e à medida que adentrava nas águas, a dor experimentada pela filha se fazia ouvir de uma maneira mais calma. (EVARISTO, 2003, p. 124-5)

E mais a frente afirma:

Ponciá voltaria ao lugar das águas e lá encontraria a substância, o húmus para o seu viver. (EVARISTO, 2003, p. 125)

Diante das considerações acima, encerramos este texto ressaltando que o livro transita em várias esferas da crítica literária, tanto na literatura afro-brasileira como na literatura feminina, mas que não o encerra só aí. O livro de Conceição Evaristo nos mostra a história pós-abolição do povo negro que luta para a melhoria de vida e para alcançar um espaço de igualdade com o branco; mas, a partir disso, também encontramos uma dimensão humana, pois navega no psicologismo do homem em toda a sua indagação da vida e da existência.


por Rodrigo de Agrela 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARRUDA, Aline Alves. Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo: um bildungsroman feminino e negro. 2007. 106 f. (Mestrado em Teoria da Literatura) Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte – MG.
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. Estudos de teoria e história literária. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2010.
DUARTE, Constância Lima. Feminismo e Literatura no Brasil. Estudos Avançados. USP, Vol. 17, n. 49, São Paulo, Set/Dez, 2003.
DUARTE, Eduardo de Assis. Literatura e Afro-descendência. In: Literatura, Política e Identidades: ensaios. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2005.
______. (Org.). Literatura e Afrodescendência no Brasil: Analogia Crítica. Vol. 02. Belo Horizonte: UFMG, 2011.
EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza, 2003.
LUKÁCS, Georg. A teoria do romance: Um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. São Paulo: Duas cidade, Ed. 34, 2000.
PAZ, Octavio. Os filhos do barro. Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.




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3 de dezembro de 2012
O problema do gênero em Macário, de Álvares de Azevedo

O problema do gênero em Macário, de Álvares de Azevedo


                                                                                                              por Rodrigo Ávila

Quando pensamos de imediato no movimento romântico, temos o costume de direcioná-lo para um caminho que, talvez, minimize a complexidade do movimento. Conhecido como uma estética que desenvolve uma literatura subjetiva, o qual o poeta sabe todos os segredos da natureza e do mundo circundante, o Romantismo foi um movimento que alcançou uma dimensão integral da vida humana, tanto no sentido mais subjetivo quanto no sentido político e cultural.

Manifestando-se de forma distinta em cada nação, por inúmeros motivos, o movimento romântico mostrou-se amplo e universal. No Brasil, teve como principal característica a busca de uma identidade nacional que afirmasse uma nação recém-ingressada em um sistema de independência. Para isso, os escritores desse período buscaram na própria terra elementos que pudessem retratar a “cor local” e a partir disso desvincular-se das amarras da ex-metrópole, Portugal. Nessa atividade empenhada para buscar uma autonomia, destaca-se a publicação da revista Niterói, em 1836, ressaltando a figura de Gonçalves de Magalhães. Temos também, mais adiante, a importante contribuição de José de Alencar, que criou um projeto literário que exalta o índio brasileiro à condição de epos e representante da nossa nação.

Contudo, temos que ressaltar que não houve apenas uma faceta romântica em nosso país. O ultrarromantismo também, nas palavras de Karin Volobuef, marcou “de tal forma a nossa história literária que o leitor comum tende a ver essa manifestação específica do romantismo – como o romantismo por excelência” (VOLOBUEF, 1999, p.13). Dentro desse panorama, avultaremos a figura de Álvares de Azevedo como um representante mais destacado à altura do nosso ultrarromantismo. O autor de Lira dos vinte anos teve uma produção literária vasta e abrangente para um jovem de pouca idade. Percebe-se que Azevedo vai da poesia satírica e da prosa ficcional ao ensaio crítico, não podendo deixar de fora sua produção na forma dramática, como por exemplo, o drama homônimo Macário.

Álvares de Azevedo, que, em muitos momentos, mostra uma postura anti-nacionalista e uma omissão nos debates acerca da autonomia literária brasileira, revela-nos em Macário uma profunda consciência estético-literária acerca da forma dramática. Ainda podemos ver uma postura de debate no segundo episódio deste drama, o que nos permite afirmar que ele tinha a consciência sobre o que acontecia no cenário brasileiro literário. Álvares de Azevedo prefere seguir o caminho de Byron e Musset e se ausentar dos debates, mesmo que deixe laivos de ironia sobre o assunto em sua poética, como podemos perceber na fala de Macário:

Tudo isso lhes veio à mente lendo as páginas de algum viajante que esqueceu-se (sic) talvez de contar que nos mangues e nas águas do Amazonas e do Orenoco há mais mosquitos e sezões do que inspiração. “ (AZEVEDO, 1984, p.103)
       
      Revelando a abrangência e consciência sobre os temas do autor de A noite na taverna, queremos destacar que, assim como mostrou grande atividade literária e uma profunda erudição em seus ensaios críticos, Álvares de Azevedo também ressaltou a importância do problema da forma no Romantismo. Sabe-se que a estética romântica trouxe também uma postura inversa da anterior, o neoclassicismo, mostrando que é possível quebrar com a imutabilidade do gênero. Assim, a poesia romântica poderia se manifestar de forma plena, e o poeta poderia dar evasão à sua imaginação.

Logo no “Puff” vê-se que o autor discute sobre o impasse que realçamos anteriormente. Ele pergunta o “que é disforme?” (AZEVEDO, 1984, p. 18), causando uma problematização positiva acerca das questões de gênero. No texto, o autor confessa que sua ideia é grande e que talvez nunca se realize, portanto,  seu “protótipo seria alguma coisa entre o teatro inglês, o teatro espanhol e o teatro grego” (AZEVEDO, 1984, p. 17). Todavia, afirma que não fez Macário para o teatro e que pouco importa como ele seja classificado. Sua preocupação durante o prefácio é mostrar que o conteúdo não está subordinado à forma, e por isso, se for preciso, é necessário que o escritor rompa as barreiras impostas pelo gênero para que a ideia se efetive.

Tal postura nos lembra quase de imediato o autor cearense José de Alencar, que afirma que Iracema é fruto de um projeto inacabado, Os filhos de tupã. Segundo Alencar, “O verso pela sua dignidade e nobreza não comporta certa flexibilidade de expressão, que entretanto não vai mal à prosa a mais elevada”. A elasticidade da frase permitiria então que se empregassem com mais clareza as imagens indígenas, de moda a não passarem desapercebidas. (ALENCAR, 1951, p.181) Portanto, nota-se que Iracema tem grandes manifestações poéticas dentro de uma prosa, o que leva a crítica a chamá-la de um poema em prosa.

Assim, pode-se emparelhar os dois escritores dentro de uma característica do Romantismo que é a quebra da imutabilidade do gênero, o que permite ser um movimento de (re)criação. Tal característica ganhará contornos maiores no Modernismo que acontecerá no século seguinte.

Voltando para Macário, compreende-se que Azevedo vai um pouco além de Alencar com a quebra do gênero. O drama é dividido por um prefácio, que Andréa Sirihal Werkema (2007) chama de prefácio-personagem, e por dois episódios. Todas essas partes não podem ser desmembradas do texto azevediano, pois de alguma forma elas dialogam entre si. O prefácio anuncia para o leitor que o que ele vai encontrar é um tipo de drama que talvez não suporte ser nomeado dessa forma. Segundo Werkema, “Macário apresenta, na verdade, uma discussão intrinsecamente romântica, a grande discussão sobre a hierarquia dos gêneros, formas e registros artísticos.” (WERKEMA, 2007. P. 82)

Kayser no livro Análise e interpretação da obra literária (1985) concebe o gênero dramático em três elementos essenciais: o evento, o espaço e o personagem. No mesmo livro, o autor faz uma divisão de gêneros dentro do dramático: o drama de ação, o drama de personagem e o drama de espaço.

Procurando uma solução para qual seria o gênero do drama de Álvares de Azevedo, nota-se o quão difícil é encontrar um gênero adequado. Não é um drama de ação, pois para que seja “o evento se torna portador da estrutura, criador da tensão temporal e senhor de todo o mundo dramático, então o dito evento condensa-se em acção” (KAYSER, 1985, p. 411). O teor dramático em Macário é muito fraco e não há uma ação que possa ser considerada como configuradora da estrutura. O diálogo, talvez, seja o mais forte e, portanto, o portador de toda a tensão. Não pode ser considerado drama de personagem, pois é necessário que “A unidade não [resida] na acção, mas na figura”. (KAYSER, 1985, p. 409) Ou “peculiar [...] a ordenação do tempo em que se apresenta o mundo poético, aqui construído a partir do personagem” (KAYSER, 1985, p. 410).

No drama azevediano o tempo é indefinido. Os debates avultados no texto são tão fortes que não há uma noção de continuidade do tempo. Contudo, podemos afirmar que as ações, ou melhor, os diálogos são baseados no agora.

Por último, vem o drama de espaço, que para Kayser é “A abundância de figuras e cenários” (KAYSER, 1985, p. 410). O que também não se nota em Macário, pois os cenários são quase nulos, exceto se pensarmos que a noite perfaz todos os episódios, mas ainda assim, não se vê uma caracterização de uma casa ou de um bar. E quando adentramos o segundo episódio, a caracterização fica completamente inexistente.


No primeiro episódio do drama notamos que ele é todo ancorado no diálogo entre Satã e o protagonista. A noite confere, a esta parte, um tom onírico que não deixa claro se o protagonista vive um sonho ou uma realidade, o que é confirmado como real só após o término do episódio. Os cenários são pouco apreciados na narração, mas mesmo assim percebemos um deslocamento de espaço entre os personagens (a taverna, a casa de Satã e a cidade de São Paulo, que não é nomeada).

Voltando ao prefácio “Puff”, podemos confirmar que o drama azevediano dificilmente seria encenado, pois o caráter onírico é muito forte. Como afirma Werkema:

‘Vago’, ‘incerto’, ‘aspiração romântica’ e ‘sonho’ são termos que continuam definindo o texto pela indefinição, se assim pudermos dizer. Somos obrigados a aceitar a contradição inerentemente romântica: depois de discutir e apresentar as possibilidades de construção de um certo tipo de drama romântico utópico, Álvares de Azevedo nega a Macário qualquer intencionalidade e o coloca no âmbito impreciso do delírio, do impulso controlado” (WERKENA, 2007, p.85).

Com a preparação do primeiro episódio para podermos entrar no segundo, a situação só fica mais complexa. Ao mesmo tempo em que os dois episódios são complementares, pode-se afirmar que também são extremamente contrastantes, o que faz Antonio Candido afirmar que “Macário é um drama fascinante, feito mais para a leitura do que para a apresentação, com duas partes diferentes enquanto estrutura e qualidade, sendo a primeira melhor e uma das mais altas realizações de Álvares de Azevedo” (CANDIDO, 1989, p.10).

Entendendo a afirmação de Candido, vemos que no segundo episódio de Macário a indefinição de espaço e tempo é muito grande. Sabemos que a segunda parte do drama acontece na Itália, mas o cenário não é apresentado e a mudança de uma cena para a outra acontece de forma brusca e apenas baseada em diálogos que de algum modo (des)norteiam o leitor. Neste episódio acontece o debate entre Macário e Penseroso como forma de exposição do íntimo dos personagens e figurando a tão famosa binomia azevediana.

No prefácio da segunda parte da Lira dos vinte anos, Álvares de Azevedo nos apresenta “que a unidade deste livro funda-se numa binomia: - duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces” (AZEVEDO, 1996, p. 50). Podemos ver esta binomia como um recurso que estará presente em toda a obra do autor; nos seus poemas, Azevedo, muitas vezes, realça os dois lados de determinados assuntos. Apesar de escolher sempre um caminho para seguir, ele dá espaço na sua poética para que o antitético se manifeste. Temos como exemplo o poema “Boêmios”; Puff e Nini representam aí a binomia: aquele mostrando-se um devasso e irresponsável, alheio à vida; e este como um  poeta, revelando uma posição de censura ao colega, além de ser avesso aos costumes de Puff.

Em Macário, a binomia também se faz presente. Inicialmente notamos que Macário representa o negativismo exagerado e o humor negro, e Penseroso otimismo e a esperança da existência. O antagonismo não termina aí. Ambos têm concepções literárias bem diferentes. A quarta cena é composta por uma intensa discussão literária. Cada um tem uma posição de projeto literário. Na fala dos dois personagens pode-se encontrar elucidações sobre os debates que agitavam as rodas literárias de uma cidade de São Paulo repleta de estudantes.

Sob a fala de Penseroso vemos a defesa do nacionalismo:
Esperanças! E esse Americano não sente que ele é o filho de uma nação nova, não a sente o maldito cheia de sangue, de mocidade e verdor? Não se lembra que seus arvoredos gigantescos, seus oceanos escumosos, os seus rios, suas cataratas, que tudo lá é grande e sublime?” (AZEVEDO, 1984, p.100)

Em contrapartida, Macário nos apresenta um posicionamento de um romantismo extremamente negativo e universalista:
A vida está na garrafa de conhaque, na fumaça de um charuto de Havana, nos seios voluptuosos da morena. Tirai isso da vida – o que resta? Palavra de honra que é deliciosa a água morno de bordo de vossos navios! [...] Acende esse cigarro, Penseroso, fuma e conversemos.” (AZEVEDO, 1984, p.101)

Vê-se que a partir dessa relação de binomia dos personagens Macário e Penseroso, Álvares de Azevedo se mostra um autor extremamente democrático em relação às questões literárias. Apesar da morte de Penseroso, e assim, simbolicamente a derrocada da vertente nacionalista e a superposição da figura diabólica e, portanto, do negativismo universalista de Macário, nota-se que o texto dá vazão para as duas vertentes, de forma que nos confirma que o autor é consciente dos debates desenvolvidos no seu contexto social e literário, mas que prefere seguir o seu caminho sob a ótica de Byron e Musset. O autor segue nas suas reflexões, deixando abertura para um homem voltado para si e para a sua condição de ser efêmero no mundo circundante.

O diálogo de Macário e Penseroso figura um problema sério do próprio drama azevediano: a impossibilidade de encenação. O diálogo retratado é difícil de ser consolidado numa atuação. O segundo episódio mostra problemas de concatenação temporal. O leitor não consegue visualizar em que período se passa a cena e muito menos o lugar.

Outra questão bem interessante sobre Macário é a introdução de uma passagem escrita no meio do drama. O leitor é convidado a atuar a partir das “Páginas de Penseroso”, uma carta de suicídio deixada pelo poeta imaculado, de forma que percebe-se a completa perda da teatralidade. Antonio Candido considera esse segundo episódio como o “momento de Penseroso” e afirma que este episódio “é inferior sob todos os pontos de vista, a começar pela composição desarticulada em dez cenas sem nexo, duas das quais desprovidas de lugar” (CANDIDO, 1989, p.12).

Um assunto bem polêmico levantado por Antonio Candido é a hipótese de que A noite na taverna seria a continuação de Macário. A partir da fala de Macário “Cala-te. Ouçamos.” (AZEVEDO,1984, p.127) nota-se o elo entre o drama e a narração de Azevedo. N’A noite na taverna o leitor assumiria o lugar de Macário, pois este faz parte de uma “pedagogia satânica” do diabo: “Vais ler uma página da vida; cheia de sangue e de vinho – que importa?” (AZEVEDO, 1984, p. 126). Com a morte de Penseroso, vê-se que a figura do diabo é elevada à condição de tutor de Macário, revelando um laço de aproximação entre ambos, que se inicia no primeiro episódio. Sob a fala de Satã há um tom de afetividade, ou talvez, como afirma Antonio Candido, um homoerotismo: 






Vamos... E como é belo descorado assim! Com seus cabelos castanhos em desordem, seus olhos entreabertos e úmidos, e seus lábios feminis! Se eu não fora Satã, eu te amaria, mancebo...”(AZEVEDO, 1984, p. 86).









Acreditando na continuidade entre os livros, pode-se dizer mesmo que houve uma troca de gênero e de personagens, com a ambiência sombria de Macário permanecendo a mesma; por isso A noite na taverna constitui uma “página da vida” ideal para os ensinamentos do diabo.

A hipótese de que tenha sido apenas uma coincidência a continuidade das obras em Álvares de Azevedo nos soa frágil, pois são vários os indícios que as aproximam, considerando que Macá­­rio mais se parece como uma experimentação de gêneros. Já de início vê-se um prefácio ficcional que remete a um personagem de um poema do mesmo autor (“Boêmios”); ou quando nos deparamos com episódios tão diferentes em sua estrutura e que se complementam. Ainda não podemos deixar de notar, mediante a fala de Macário a projeção da mesma quantidade de personagens e do mesmo ambiente de A noite na taverna: “Eu vejo-os. É uma sala fumacenta. À roda da mesa estão sentados cinco homens ébrios. Os mais revolvem-se no chão. Dormem ali mulheres desgrenhadas, umas lívidas, outras vermelhas...Que noite!” (AZEVEDO, 1984, p. 126) Entregue ao Satã, só resta a Macário ouvir os ensinamentos do diabo, e os contos azevedianos seriam a melhor orientação para esse caminho satânico, no qual encontramos a tríade vinho-fumo-mulher, a necrofilia, o patriciado, a morte e outros.




REFERÊNCIAS
AZEVEDO, Álvares de. Macário. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1984.
CANDIDO, Antonio. A educação pela noite. In: A educação pela noite & outros ensaios. São Paulo: Ática, 1989.
KAYSER, Wolfgang. Análise e interpretação da obra literária. 7 Ed. Coimbra: Editora Armênio Amado, 1985.
WERKENE, Andréa Sirihal. Macário, ou do drama romântico em Álvares de Azevedo. 245 F. Tese (Doutorado). 2007. Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.
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