O artista que ilude
Alguém, não me recordo quem, havia
me dito que As cartas a um jovem poeta era
um livro lindo. Não sei quem e por qual motivo me falou. Essa frase surgiu em
minha mente quando há alguns dias me deparei com o livro numa livraria.
Rainer Maria Rilke. Quem foi esse
cara? Eu não sabia, mas a frase ficava se repetindo em minha mente: lindo livro, escritor maravilhoso, todo
escritor tem que ler essa obra. Pois bem, não hesitei vendo a obra em minha
frente, numa edição agradável. Comprei.
Fico sabendo, na pequena introdução
que antecede as cartas, que elas foram escritas por Rilke em respostas às
cartas enviadas por Franz Kappus. A explicação de como o jovem poeta teria
conseguido o endereço de Rilke vem na introdução do livro. A razão de termos
acesso apenas às cartas do escritor pode ser definida na frase de Franz Kappus:
"Quando fala um dos grandes, que só uma
vez aparecem, os pequenos devem calar-se."
Franz Kappus (p.23)
Talvez isso seja o bastante para
entendermos o valor que possuíram e possuem as cartas de Rilke. Cecília
Meireles, poetisa brasileira, é quem realiza o prefácio para a primeira edição
do livro e sobre as cartas de Rilke, comenta:
“(...) as
respostas de Rilke não oferecem a Kappus uma receita literária, embora digam
coisas essenciais sobre o exercício da literatura. Vão mais longe: tratam da
formação humana, base de toda criação artística. De literatura, propriamente,
pouco falam as cartas. Podem ser resumidos os conselhos do poeta em algumas
linhas: escrever só por absoluta necessidade, evitar temas sentimentais e
formas comuns, escolher as sugestões oferecidas pelo ambiente, a imaginação e a
memória, não dar importância aos críticos,
não ler tratados de estilo. (p.15)
não ler tratados de estilo. (p.15)
Como se vê, a poetisa enumera os
temas essenciais, como ela diz, sobre o exercício da literatura, mas não
menciona, a nosso ver, um tema fundamental para o entendimento da Obra de Maria
Rilke: a solidão, falaremos sobre ela mais a frente.
Sobre a absoluta necessidade de
escrever apenas por escrever, a qual menciona a poetisa, hoje em dia, é
desacreditada por alguns teóricos da literatura, já que para esses o escritor
com sua obra possui sempre um público e um objetivo determinado. Talvez Rilke
estivesse certo quanto ao pedido que fez a Franz sobre a crítica literária:
Deixe-me fazer-lhe aqui um pedido: leia o
menos possível trabalhos de estética e crítica. Ou são opiniões partidárias
petrificadas e tornadas sem sentido em sua rigidez morta, ou hábeis jogos de
palavras inspirados hoje numa opinião, amanhã noutra. As obras de arte são de
uma infinita solidão; nada as pode alcançar tão pouco quanto a crítica. (p.36)
Ser artista não significa calcular e
contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva e enfrenta
tranquila as tempestades da primavera, sem medo de que depois dela não venha
nenhum verão. (p.37)
Rilke acreditava que a crítica
julgava algo que ela mesmo não poderia criar, daí talvez o pedido para que o
jovem não lesse tratados de estética. Preferia que Kappus, ao longo do tempo e
de seus escritos, conseguisse atingir o seu próprio amadurecimento. Esses
comentários de Rilke sobre a crítica nos fizeram lembrar do livro de Giorgio
Agamben, O homem sem conteúdo (um dos
próximos livros a serem expostos aqui no LiteraturaBr). Pois nesse livro
Agamben vai falar sobre o homem que sem possuir a objetividade sobre uma arte,
se põe no “dever” de criticar algo que ele não sabe como se dá na prática.
Outro ponto ao qual o poeta alemão
suscita é sobre os poemas de amor, diz que é melhor que não escreva poemas de
amor (apesar de que suas primeiras obras publicadas foram poemas de amor,
intitulados Vida e canções (1894)) e
que deve se entregar às recordações da infância:
Mesmo que se encontrasse numa prisão,
cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos,
não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse
tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações
submersas desse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua
solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco
diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. (p.27)
Vê-se que mesmo a partir da
recordação da infância, tema que pode facilitar para o alargamento da
sensibilidade de Kappus como poeta, o autor das cartas diz, também que “sua
solidão há de alargar-se”. A solidão, como já foi dito é um dos temas principais
para o entendimento do pensamento do poeta. Rilke, em vários momentos, estabelece relações entre a solidão e outros sentimentos e até mesmo a determinadas
ações que o ser humano tem de tomar.
Sobre a solidão em determinado
momento das cartas expõe:
Que seria, com efeito, uma solidão (faça
essa pergunta a si mesmo) que não tivesse grandeza? Há uma solidão só: é grande
e difícil de se carregar. Quase todos, em certas horas, gostariam de trocá-la
por uma comunhão qualquer, por mais banal e barata que fosse (...). (p.51)
Não tendo nenhuma comunhão com os homens,
procure ficar perto das coisas, que não o abandonarão. Ainda há as noites e os
ventos que passam pelas árvores e percorrem muitos países. No mundo das coisas
e dos bichos tudo está ainda cheio de acontecimentos de que o senhor pode
participar. (p.53)
A solidão existe e ela é de uma
grandeza imensa, que por vezes o homem não consegue suportar. Ela percorre por entre
a natureza e se quisermos dela participar, com ela realizar a comunhão é só nos
entregarmos. Sabe ele, que isso é uma tarefa difícil, por isso expõe o processo
de maneira que envolva o amor, para que possamos compreender mais facilmente:
O fato de uma coisa ser difícil deve ser
um motivo a mais para que seja feita. Amar também é bom: porque o amor é
difícil. O amor de duas criaturas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi
imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas
uma separação. Por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo não
sabem amar; têm que aprendê-lo. (p.58)
O amor, antes de tudo, não é o que se
chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria, com
efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente? O amor é uma
ocasião sublime para o indivíduo amadurecer (...) (p.59)
Os comentários realizados por Rilke
são de uma grandeza e de um aprendizado para nós, escritores ou não, que por
vezes nos perdemos em seus pensamentos, deixamo-nos levar pela névoa que
envolve suas palavras. A beleza das cartas de Rilke me fazem querer ler mais e
mais esse poeta, lê-lo literalmente, pois ele se “entrega” em seus poemas de
uma forma fascinante, de uma forma linda,
como me lembra a voz esquecida em minha
mente. Sua arte é de uma primazia sem igual, talvez, através de suas cartas, já podemos
ter uma pequena, mas certa visão do que poderemos ver e sentir em seus poemas.
Em breve comentaremos sobre os livros de poemas desse grande autor alemão, que
desde Goethe, é tido como um dos maiores poetas alemães. Para finalizar expomos
uma opinião do escritor sobre a arte:
A arte também é apenas uma maneira de
viver. A gente pode preparar-se para ela sem o saber, vivendo de qualquer
forma. Em tudo o que é verdadeiro, está-se mais perto dela do que nas falsas
profissões meio artísticas. Estas, dando a ilusão de uma proximidade da arte,
praticamente negam e atacam a existência de qualquer arte. (p.76)
Livro: Cartas a um jovem poeta - Rainer Maria Rilke.Editora Globo. 2002. tradução: Paulo Rónai. R$ 19,00




