Pianíssimo

por Caio Russo
Roda pião. Na mão do menino o giro soa. Aos céus o olhar
ergue. Quente dia quente. Seus dedos escorregam enquanto escorre o caldo do
cansaço. Salgado corre. No asfalto queima os pés descalços. Chamuscado pé chia.
— Mais um trago moleque. Detrás do balcão tamborila seus dedos em dura madeira.
Nota a nota toca sem saber que toca. Dança com o trago. Serpenteia entre os
corpos. — Que lerdeza moleque. Em glissando a porta do bar desce. Escorrega
para rua. Cai. Caminha no frio asfalto da noite. Fria noite fria. Na casa em
flautato compassado toca a virtuosi panela de pressão. Feijão. Pão que com
ferro sustenta os famintos. Negros dedos negros. Andejam suas teclas pretas na
branca pia. Com os semitons na mão forma sobre papel de pão seu próprio piano
humano. Inquietos salpicam seus dedos o branco sal no bife a crispar. Na preta
chapa preta. Dorme em alvos lençóis o barroco anjo de madeira escura. Seus
dedos vão noite adentro a tocar sem nunca conhecer o piano.
