Sobre ossadas e ironias (ou As boas perguntas que a literatura faz)
por
Dércio Braúna
À
propósito de narrar a estória de um jovem que, no princípio do século XVII,
parte de Luanda para o sul do território em busca da ossada de Diogo Cão,
navegador português do século XV [1440-1486] que estabeleceu as primeiras
relações de Portugal com o reino do Congo, um romance segue por outras trilhas
e, ao seu fecho, indaga: “À propósito de relevâncias, Diogo Cão, onde param as
tuas ossadas?” O romance em questão é A
sul. O sombreiro, do escritor angolano Pepetela. (PEPETELA, 2011, p. 358)
Trata-se
de escrita construída sob a marca da ironia potente e da lucidez leitora
(características já reconhecidas do autor, assente-se aqui). Não é qualquer
romancista que, à propósito de narrar
uma estória, nos leve a perceber
(tendo sempre ao fundo seu riso irônico e desafiador) os alinhavos da escrita
de outra história: a história de
Angola.
Ou,
melhor dizendo: a história de Angola lida a partir dos registros deixados pelo
colonizador português. Mas numa leitura (redigo) regida pelo poderoso gesto
irônico e questionador de tomar registros documentais do passado e os reler
provocativamente, desse modo lançando novas possibilidades interpretativas
sobre esses registros históricos.
Não
é à toa nem inocentemente que se toma tão vultosas e históricas ossadas de um
passado (sobretudo quando imperial/colonial, pertencentes ao panteão de uma
nação que “deu mundos ao mundo”) para tirar-lhes a canônica relevância de que
historicamente se revestiram e lhes propor outras relevâncias, para narrar
outras histórias (menos grandiloquentes, menos maiúsculas). Não é à toa nem
inocentemente que se principia uma narrativa desta ordem (já em sua primeira
linha e com todas as letras) a dizer que um certo senhor, que teve vida no século XVII,
nobre e conquistador, um vulto da história, “é um filho da puta” (PEPETELA,
2011, p. 7).
O dito
homem chama-se Manuel Cerveira Pereira, um administrador colonial
português que exerceu o cargo de Capitão-General na Capitania-Geral
do Reino de Angola (entre 1603 e 1606; e entre 1615 e 1617).
Mas não é
este vulto da história o centro da narrativa empreendida por Pepetela. A sul. O sombreiro narra (por
meio de muitas vozes narrativas) os percalços da busca pela conquista de
Benguela (terra mais a sul de Luanda, com sua baía em forma de sombreiro
mexicano) por Cerveira Pereira, é certo; mas conta mais, bem mais. Conta de um
tempo em que Portugal encontrava-se sob domínio espanhol; também das
conspirações e intrigas entre governantes e ordens religiosas (sobretudo
franciscanos e jesuítas); conta ainda sobre os temíveis guerreiros jagas, tidos por canibais; conta, sobretudo,
a saga do mestiço Carlos Rocha, que em sua busca por um lugar seu segue sempre
a sul, sendo essa sua busca (pelo sul) a costurar todas as estórias que se
contam.
Nesse
romance, como se disse, temos uma multiplicação de vozes e, com ela e por ela,
temos já aí uma exploração das possibilidades de verdade que os registros do
passado permitem. São diversas as vozes narradoras de que faz uso Pepetela: o sacerdote Simão de
Oliveira, o governador-geral Manuel Cerveira Pereira, o mestiço Carlos Rocha,
Margarida Sottomayor (filha do ouvidor André Velho Sottomayor), o narrador
propriamente dito (assim digamos), além do próprio autor, podemos dizer, que
faz questão de se colocar, de modo contundente, no texto: “aproveito assim a
ocasião para meter solenemente minha farpa afiada [...]” (PEPETELA, 2011, p.
15); “aproveitando a deixa, adianto a dizer que [...]” (Ibid., p. 29); “aviso
desinteressado aos leitores: inútil procurar os nomes num mapa [...]” (Ibid.,
p. 41). Segundo o historiador Diogo Ramada Curto em texto sobre A sul. O sombreiro, no qual destaca essa
“multiplicação das vozes”, esse ato escriturístico de Pepetela provoca um descentramento
do discurso colonial “como se a memória do passado colonial não tivesse um
centro” (CURTO, 2013, p. 206).
Algo
de fundamental importância em se tratando de um espaço como Angola, que esteve
longo tempo sob domínio colonial, pois, como sabemos, pelo menos desde as
postulações dos estudiosos da(s) chamada(s) teroria(s) pós-colonial(ais),
“O império
produz textos (relações administrativas, tratados geográficos, estudos
linguísticos e etnográficos, leis, decretos, livros de viagens, ficções) e, por
sua vez, tais textos podem ser considerados como veículos da autoridade
imperial, ou como suportes de inscrição de autoridade.” (VEGA, 2003, p. 15.
Tradução nossa")”
Textos
afiançadores de verdades, em suma se pode dizer. Verdades com as quais se
escreveu a história das partes do mundo que estiveram sob o julgo imperial, o
mais das vezes como mero apêndice dessas histórias imperiais (as ditas “histórias
ultramarinas”).
São
essas histórias e suas verdades canônicas que as literaturas pós-coloniais
africanas, já há tempos (pelo menos desde a década de 1960), vêm pondo em
questão. Independentes do julgo colonial na segunda metade do século XX, as
jovens nações africanas, por meio de seus intelectuais, entre os quais não se
furtaram os literatos, tomaram a si a tarefa (ética, estética) de reler as
escritas (literárias, históricas, etnográficas, missionárias, etc.) que
disseram o que África era. Havia uma urgência em falar por própria voz, uma
luta a ser travada pelo “direito humano à narração” (BHABHA, 2007, p. 25).
As
literaturas africanas fizeram (fazem) parte dessa procura de si. Como enfatizam
seus pesquisadores, em seu processo formativo elas foram-se constituindo como
um modo de contestação de uma ordem (política, social, cultural) estabelecida:
a ordem colonial. Não admira, pois, a tenuidade existente entre arte e
militância em seu desenvolvimento, sendo esta uma das “mais marcantes
características” da literatura produzida em África no século XX, como destaca
Ali A. Mazrui no capítulo dedicado à literatura na História Geral da África (volume VIII), obra de referência nos
estudos sobre o continente, enfatizando ainda a “justa medida dos laços
internos [da literatura] com a história geral da África” (MAZRUI, 2010, p.
664).
Laços
que, nas literaturas africanas mais contemporâneas, se destacam justamente pelo
gesto irônico de desreverenciar as verdades postuladas pelas escritas do
passado. Não por meio de uma simples negação reducionista, mas pela estratégia
de explorar as “brechas” (as ambiguidades, os mal-entendidos, as incompreensões
culturais) que a documentação histórica deixa ler. O desreverenciar das verdades
se dá, nessa perspectiva (metaforicamente falando), pela dissecação de suas
vísceras, pela exumação de suas ossadas operada pelo (irônico) gesto
escriturístico do romancista, pela “introdução de critérios diversos de
relevância”, como propõe María José Vega:
“Se se
pode falar, pois, de uma teoria ou uma crítica poscolonial, não é, a meu ver,
por oposição à teoria literária ‘tradicional’ ou ‘europeia’ ou ‘metropolitana’,
mas pela renovação de interesses, pelo deslocamento do ponto de vista do observador,
ou pela introdução de critérios diversos de relevância.” (VEGA, 2003, p. 14.
Tradução nossa.)”
Quem dá relevância ao quê? Eis a
questão, eis a indagação que sobressai da leitura de A sul. O sombreiro. Nessa obra, há um perguntar-se,
epistemologicamente desafiador, acerca da construção dos fatos históricos,
sobre “quem os elege para integrá-los na história?” (GUNHA, 2002, p. 17.
Tradução nossa). Há um colocar em evidência “a maneira como fabricamos ‘fatos’
históricos a partir de ‘acontecimentos’ brutos do passado” (HUTCHEON, 1991, p.
12-13), desse modo expondo, aos olhos leitores, a constatação,
epistemologicamente instigante, de que “os fatos não são preexistentes, e sim
construídos pelos tipos de perguntas que fazemos aos acontecimentos” (Ibid., p.
162). Uma escrita que é ciente das “conseqüências epistemológicas e ontológicas
do ato de tornar problemático aquilo que antes era aceito pela historiografia –
e pela literatura – como uma certeza.” (Ibid., p. 14).
Outra
estratégia que encontramos nesse romance para a lida com a documentação
histórica é o desreverenciar da pomposidade que nela se lê. Em A sul. O sombreiro Pepetela reitera um
chamar de atenção ao leitor para o nomear das coisas, muitas vezes demasiado
para a realidade que nomeiam:
“a chamada fortaleza era na
verdade um muro de taipa mal amanhado em cima do morro” (PEPETELA, 2011, p.
169);
“Isto, um cercado de espinheiras
no meio de pântanos ao lado da praia, é uma cidade? Pois chamam S. Filipe de
Benguela à povoação imunda.” (Ibid., p. 302)
“tudo nomes demasiados pomposos
[fortaleza, cidade, reino, etc.] para a mirrada realidade existente.” (Ibid.,
p. 302).
Como
se lê, Pepetela deslegitima a grandiosidade que o “documento” dá às coisas do
passado, repondo-as a uma realidade menos grandiloquente; escalpela a
sacralidade que por vezes (muitas vezes) os registros históricos são lidos. Em
sua faina criadora, despe a fina flor da pomposidade da letra lusitana dos
textos para os mostrar por outras miradas. Senão vejamos:
“Manuel Cerveira Pereira resolveu
desembarcar [na Baía da Torre, Baía das Vacas ou de Santo António] e fundar a
cidade, para ser a capital do que ele tinha pomposamente chamado o ‘Reino de
Benguela’. São suas as entusiásticas palavras para o rei, justificando a
escolha do sítio ‘por não achar melhor
porto, terra de mais salutíferos ares, fértil e abundante do mantimento da
terra, como na abundância de muito e diverso peixe que há nesta baía, estando
vizinho de dois rios que correm de excelente água.’” (PEPETELA, 2011, p.
227)
As
palavras em destaque são de carta de Manuel Cerveira Pereira ao rei Filipe II
de Espanha, de 06 de março de 1618, vorada por Pepetela do sexto volume da obra
Monumenta Missionária Africana, cuja
sua leitura logo a seguir ele nos participa, mostrando-nos o escalpelo de seu
ato leitor:
“O espantoso nesta carta e em
muitos outros relatórios de igual proveniência é o fato de o Cerveira sempre
referir o clima como argumento decisivo na escolha [...]. O governador chegou
em maio de 1617, tendo desembarcado no mesmo 17, altura do ano mais fresca e
sem chuva, mas com aqueles restos de humidade que fazem o capim estar ainda
verdinho, dando a ideia, com muito boa vontade, de prados da Europa.
Compreende-se o erro. Mas designar ares salutíferos os respirados no meio de
pântanos já é mais difícil de aceitar. E que os dois rios, Cavaco ou Maribombo
e Corinje, corram com excelente água é a mais deslavada das mentiras, pois só
tem água nos últimos séculos (e os arqueólogos geológicos poderiam apontar para
milénios, para tanto não me arriscando eu) durante três ou quatro dias por ano,
numa enxurrada de água barrenta depressa absorvida pela secura dos leitos.
Quase sempre, para beber é preciso cavar cacimbas e rezar. Terá sido assim
desde os primeiros vestígios, não havendo razão para alterações, pois se
desconhece a existência de falhas geológicas, vulcões, furacões ou outros
fenómenos modificando bruscamente o clima ou roubando a água de rios.” (PEPETELA,
2011, p. 227)
Nas
mais de trezentas páginas do romance, esse ato herético, desreverenciador, é
reiterado. Mais documentação histórica é vorada, mais a imaginação-escalpelo do
autor nos faz ver o quão necessário se faz desreverenciar o passado, desnudar a
sacralidade das linhas (sobretudo linhas de uma escrita conquistadora) que, no
caso de uma terra como Angola, disseram o que ela era “autenticamente”.
O poder de dizer o que o outro é:
eis outro questionamento que nos salta das páginas de A sul. O sombreiro. Para Pepetela, parte dessa problemática deve-se
à “péssima audição dos portugueses para as nossas línguas” (PEPETELA, 2011, p.
41), daí a problemática na nomeação dos lugares e das gentes. Aos jagas, por exemplo, chamaram “yakas ou
imbangala ou benguelas ou... ou...” (Ibid., p. 38).
E
aliada à “péssima audição” lusitana, temos um fator ainda mais considerável: a
incompreensão cultural ante o encontro com “o outro”. Algo que para o
historiador indiano Partha Chatterjee constitui-se num marco na relação entre a
Europa e seus “outros” nesses últimos cinco séculos. E, para Chatterjee, “a
questão ainda está em aberto”. Ela ainda modela e talvez distorça “até mesmo o
entendimento supostamente científico” desses “outros” (caso da sua Índia, mas
não só) “nas disciplinas modernas do conhecimento social”, incluindo-se a
história (CHATTERJEE, 2004, p. 20).
A
esse tocante, em A sul. O sombreiro, Pepetela,
vez mais, é irônico: “sejamos condescendentes com os modos e hábitos dos
europeus, para não parecermos copiar a falta de compreensão e mesmo desprezo
que sempre mostraram pelos nossos costumes.” Diz isso a respeito da
incompreensão dos portugueses em relação ao modo de herdar dos “selvagens”: “O
próprio governador se dizia chocado, quando conversava entre amigos, pela nossa
falta de educação, pois aqui o filho nunca herda do pai mas sim do irmão mais
velho da mãe. E refilava, bando de selvagens, consideram mais próximo o tio que
o pai.” Logo adiante, Pepetela esclarece a razão da lógica “selvagem”: “[...] o
sobrinho é de certeza do mesmo sangue do tio materno, enquanto o filho provém obviamente
da mãe, mas qual a certeza no pai?” E esta interrogação é colocada pouco depois
de termos lido que, no tocante à Europa, “nenhuma nação podia se gabar, o meu
rei é do meu puro sangue. Os reis muitas vezes nem sequer falavam a língua do
país governado.” (PEPETELA, 2011, p. 15) A questão que fica, ironicamente
colocada, é a de saber quem, afinal, seriam os “selvagens”.
Uma
outra discussão, epistemologicante instigante, que Pepetela nos coloca diz
respeito à problematização dos conceitos norteadores das verdades do
saber-poder colonizador. No romance temos um incisivo chamar de atenção para a
falta de partilha de conceitos que foram fundantes do saber (corporificado na
escrita) europeu, isto se dando não apenas em relação ao passado, mas ainda
persistindo em discussões no presente. Um exemplo lapidar desta questão está no
encontro, mediado por uma “língua”, o escravo Nzoji, entre Cerveira Pereira e o
“soba” Ebo-Kalunda, soberano das terras de Sumbe-Ambela (terra do povo sumbe),
local que, nas expectativas de Cerveira Pereira, haveria de encontrar minas de
cobre. A dada altura da conversa (mediada, traduzida) entre os dois, Cerveira
Pereira indaga ao “língua” Nzoji: “– Quer proteção contra os jagas [temidos
guerreiros] e fica vassalo do rei de Portugal, é isso?” Vassalagem, eis o
conceito, tão presente e límpido em escritas coloniais, e no romance
problematizado:
“Nzoji
traduziu a pergunta e dá para desconfiar da interpretação do próprio língua, o
qual, apesar do convívio constante com os portugueses, devia ter algumas
dúvidas sobre o conceito de vassalagem à distância. O mais certo é o ato de
vassalagem não ter sido sequer traduzido por inútil, pois a resposta do soba
foi clara e rápida.
– Ele
quer armas e soldados contra os jagas, vinho, missangas e dá escravos, marfim e
mostra o sítio das minas.” (PEPETELA, 2011, p. 254)
São esses apenas alguns apontamentos que nos
mostram o quão afiado é o gesto leitor-escriturístico de Pepetela em relação à
escrita da história de Angola. O que nos faz voltar a ela mais desafiados pelas
perguntas que sua invenção dispara à história. “À propósito de relevância”,
nada mais relevante que esse gesto irônico, que esse riso à cara da história a
fim de fazê-la ver (fazer-nos a nós vermos) as outras tantas histórias que
ficaram olvidadas pelo peso mofento de uma história única (monumental)
que tantas vezes se escreveu.
REFERÊNCIAS
BHABHA, Homi K. Ética e estética
do globalismo: uma perspectiva pós-colonial. In BHABHA, Homi K. et. al. A urgência da teoria. Trad. Catarina
Mira et. al. Lisboa: Tinta da China/Fund. Calouste Gulbenkian, 2007.
CHATTERJEE, Partha. Quinhentos anos de medo e de
amor. In ___. Colonialismo, modernidade e
política. Trad. Fábio Baqueiro Figueiredo. Salvador: Edufba, 2004, pp.
15-42.
CURTO, Diogo
Ramada. Para que serve a história? Lisboa:
Tinta da China, 2013.
GUHA, Ranahit. Las voces de la historia y outros estudios
subalternos. Trad. Gloria Cano. Barcelona: Crítica, 2002.
HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria,
ficção. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
MAZRUI, Ali A. O
desenvolvimento da literatura moderna. In História
geral da África – Vol. VIII. Brasília: Unesco, 2010, p. 663-696. Disponível
em: <http://www.unesco.org/brasilia>. Acesso em: 28 jan. 2011.
PEPTELA (Artur Carlos Maurício
Pestana dos Santos). A sul. O sombreiro. Lisboa:
Dom Quixote, 2011. [Edição brasileira: São Paulo: Leya, 2012]
VEGA, María José. Imperios de papel: introdución a la crítica
postcolonial. Barcelona: Crítica, 2003.


.jpg)

